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"Flores, Portugal","""Se das Flores olharmos para o mar imensurável, para esse veleiro branco que, na soledade do oceano, se aproxima, lentamente, da linha do horizonte, como se passasse dum mundo para outro mundo, parecenos que o Mundo só começa ali, porque o Mundo, para a ansiedade humana, só começa na linha do horizonte, sempre para além da linha do horizonte, sem atingir, jamais, o seu fim – jamais, jamais…"" (Castro, PMVC, vol. II)


","","Flores, Portugal (39.4474713, -31.193945)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:09:00 UTC,2020-05-19 12:30:31 UTC
"Graciosa, Portugal","""A Graciosa, como todas as suas irmãs do arquipélago, vive, espiritualmente, do continente. Lisboa exerce sobre os açorianos a mesma fascinação que Paris exerce sobre Lisboa. A chegada dum navio dá um momento de alvoroço ao insular. A partida lança as almas na melancolia. Há sempre, nos pequenos portos dos Açores, olhos nostálgicos a seguirem o barco que se afasta. É o drama de todas as ilhas, das colónias, de toda a terra separada, por mar, da terra desejada. Nós sofremos isto durante muitos anos. Nós conhecemos a angústia que é estarmos isolados pelo oceano e do olhar volvido para a distância infinita, quando tudo que se encontra longe nos parece belo, só porque se encontra longe. Nós sabemos o que é o navio que chega à solidão e parte sem nos levar, o navio em que queríamos ir e não vamos, o navio que nos deixa, nos abandona, nesta viagem e naquela, sempre, sempre… ""(Castro, PMVC, vol. II)


","","Graciosa, Portugal (39.0524827, -28.0068979)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:13:44 UTC,2020-05-19 12:30:40 UTC
"Terceira, Portugal","""Recorda-se a Terceira sobretudo pela sua personalidade, uma personalidade forte, que não se sabe se vem do homem, se da terra, se do conjunto; uma personalidade que se faz sentir mal desembarcamos, que se faz sentir até que partimos e mesmo depois de partirmos, quando se evoca a ilha como um vulto cinzento, com uma nuvem branca em cima, perdido na linha do horizonte”. (Castro, PMVC, vol. II)


","","Terceira, Portugal (38.7216415, -27.2205771)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:19:12 UTC,2020-05-19 12:24:57 UTC
Açores,"""Quase todo o povo açoriano, tendo perdido, embora, alguns dos seus tradicionais costumes, mantém hoje, como há seculos, as velhas tradições espirituais, que dominam fortemente, a sua mentalidade. Sente-se isso no ar que se respira e na expressão da vida coletiva e individual, mal se arriba ao arquipélago; sente-se quando, em ameno convívio, o habitante, com o seu doce português, levemente cantado, discreteia sobre a existência humana."" (Castro, PMVC, vol. II)


","","Portugal (38.03645774164089, -27.36121162312967)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:27:20 UTC,2020-05-19 12:30:55 UTC
"Barcelona, Espanha","""O barco afasta-se cada vez mais. A Praça Colombo, porta marítima das Ramblas barcelonesas, mal deixa distinguir, ao longe, o seu esguio monumento ao descobridor da América.  O que se vê daqui, com nitidez, são as cordas de luz do Park Maricel – da Luna Park de Barcelona – trabalhando na pendente dum morro. Mais acima, lobriga-se o vulto sombrio e trágico do castelo de Montjuich, cujas paredes escorrem sangue de inúmeros fuzilamentos. Neste momento de tristeza humana, parece que as luminárias do Park Maricel se prolongam até à sinistra masmorra, para desenhar na noite, a grandes letras, o nome de Ferrer e de muitos outros. (Castro, 1986:123, PMVC, vol. I) São quase nove horas da noite – a hora da partida. Atravessamos o Borne, cheio de passeantes – e recolhemos ao navio. No molhe há grupos que se despedem dos que embarcam e bandos de raparigas que vêm apenas assistir, por distracção, a esta cena quotidiana."" (Castro, PMVC, vol. I) 
","","Barcelona, Espanha (41.38506389999999, 2.1734035)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:28:41 UTC,2020-05-19 12:30:14 UTC
"Montecristo, Itália","""[…] A fantasia seduz mais do que a realidade, a Literatura atrai mais do que a História. E os Franceses sabem isso como poucos povos. Assim, sobre uma das portas que dão para o piso inferior do pátio, lê-se: “Cela de Edmundo Dantés”. E sobrepujando outra porta, aberta para lá da escada: “Cela do abade Faria”. Agora, no castelo de If, onde, outrora, se chorava e sofria algumas bocas sorriem, porque o guia do presídio declama:  


- Eis aqui, meus senhores e senhoras, o calabouço onde viveu aquele que havia de tornar-se o famoso Conde de Monte Cristo! Entrai!"" (Castro, PMVC, vol. II) 
","","Montecristo, Itália (42.3357079, 10.310501)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:31:17 UTC,2020-05-19 18:34:41 UTC
"Rhodes, Grécia","""Há anos, Arnold Hoellriegel, grande escritor de língua alemã, que o nazismo forçou ao silêncio, conhecendo o meu interesse por todos os povos insulares, escrevia-me: “Visitei, hoje, Rodes, que é a ilha mais estranha do Mundo. Fiquei tão impressionado, que hei-de voltar, um dia, para estudá-la.”"" (Castro, PMVC, vol. I)


","","Rhodes, Grécia (36.43496309999999, 28.2174829)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:37:36 UTC,2020-05-19 12:38:49 UTC
Mónaco,"""[…] em La Condamine se encontra o templo dedicado à padroeira de Mónaco: Santa Devota, virgem da Córsega, que, por seu cristianismo, foi, no ano de 304, torturada até à morte. Aos seus algozes, diz a lenda, um padre e um pescador teriam roubado o cadáver; sobre uma barca o colocaram e quis o destino que o mar depusesse os restos mortais da Devota junto ao rochedo de Hércules. Desde essa época a santa corsa é adorada em Mónaco e todos os anos festejada, que outra não goza no principado de maior devoção."" (CASTRO, PMVC, vol. II)


","","Mónaco (43.73841760000001, 7.424615799999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:39:22 UTC,2020-05-19 12:42:46 UTC
"Catedral de São Nicolau, Rue Colonel Bellando de Castro, Monaco-Ville, Mônaco","""Em frente da catedral, quem não exibia casaca ou uniforme devia provar a sua identidade. O carabineiro francês que examinou o nosso passaporte mudou rapidamente de expressão, tornou-se amabilíssimo e, sem que o desejássemos, fez-nos acompanhar por um seu colega até dentro do templo. Só mais tarde soubemos que o chefe do governo monegasco se chamava também Castro e que o carabineiro nos tomara, provavelmente, por seu parente. [...]"" (Castro, PMVC, vol. II)


","","Catedral de São Nicolau, Rue Colonel Bellando de Castro, Monaco-Ville, Mônaco (43.7302901, 7.422677999999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:44:26 UTC,2020-05-19 12:45:23 UTC
Andorra,"""[…] O proprietário do hotel olha-me de alto a baixo, como considerar a minha resistência física. Avalia também o peso da bagagem. Em seguida, diz pausadamente: - Não lhe é muito fácil chegar a Andorra, não…Tem de ir a cavalo até Soldeu, que é a primeira povoação andorrana, a vinte e cinco quilómetros daqui. […] 
- Quantas horas são precisas para ir daqui a Soldeu? – pergunto ao guia. 
- Cinco - responde secamente. Forro-me de resignação. […] Talvez o meu próprio silêncio tenha estimulado, enfim, o guia taciturno. Tempo depois, ele murmura:
 - Estamos na fronteira de Andorra… Olho para todos os lados e só encontro alpestres solidões. […]"" (Castro, PMVC, vol. I)
","","Andorra (42.506285, 1.521801)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:50:11 UTC,2020-05-19 12:50:15 UTC
Andorra,"“ Tudo em Andorra é original e, ao mesmo tempo, comovedoramente humano”. (Castro 1986: 33, PMVC, vol. I). 
","","Andorra (42.506285, 1.521801)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:50:35 UTC,2020-05-19 12:52:18 UTC
"Ilha da Madeira, Portugal","""[…] O nível de vida do povo, sobretudo do camponês, é impressionantemente baixo. Como na Córsega, a existência humana nas aldeias da Madeira caracteriza-se por uma forçada sobriedade na alimentação. O meu próprio amigo Raul Brandão, personalidade genial, tão compreensiva e tão devotada ao estudo e à absolvição do humano, não compreendeu bem os habitantes da Madeira. “Esta ilha é um cenário e pouco mais – cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo o que não cheira a inglês. Letreiros em inglês, tabuletas em inglês e tudo preparado e maquinado para inglês ver e abrir a bolsa.” No drama dos nativos, o grande escritor viu, sobretudo, o vício da aguardente, quando o álcool, é, aqui como noutras partes, quase sempre consequência da miséria e da ignorância em que o povo vive. De começo, Raul Brandão sentiu-se empolgado com a beleza da Madeira, cuja paisagem o deslumbrou; mas, alguns dias decorridos, antepôs-lhe, num sentido regionalista, a beleza da sua lareira, da sua casa, em Guimarães."" (Castro,  PMVC, vol. II)


","","Ilha da Madeira, Portugal (32.76070740000001, -16.9594723)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:52:55 UTC,2020-05-19 12:55:57 UTC
"Avenida Arriaga, Funchal, Portugal","""Multidão cosmopolita cruza, durante algumas horas, a Avenida Arriaga e desaparece depois; no dia seguinte arribam outras figuras, sempre figuras novas, que o meio pequeno destaca, dando-lhes o domínio das ruas."" (Castro, 1986: 181, PMVC, vol. II)


","","Avenida Arriaga, Funchal, Portugal (32.6475112, -16.9110485)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:56:53 UTC,2020-05-19 12:57:28 UTC
"Iha da Madeira, Portugal","""[…] as mulheres e até crianças gastam os olhos, durante horas sem conta, a bordar os linhos, para ganhar ao fim do dia alguns míseros tostões.  Os homens, de cabeça enfiada num barrete camacheiro, no tronco uma camisa e um colete desabotoado, as calças arregaçadas, os pés nus ou metidos numas velhas «botas chãs», amanham a terra de sol-nado a solposto. […] Anos sobre anos, estes humildes camponeses – os «vilões», como ainda lhes chamam na Madeira – passam resignados e adaptados ao seu destino. Parece que aceitam tudo quanto pautou a sua vida durante séculos. Um deles, ouvindo-nos discordar das viagens em rede, pelo contraste que apresentam entre o comodismo do individuo deitado e os que os transportam, comentou, referindo-se aos últimos: - Se todos pensassem assim, como iam viver esses pobrezinhos de Cristo? [...]
As próprias choupanas oferecem curiosa traça, pois o colmo que as cobre quase roça o chão com as suas extremidades e forma, em cima, um ângulo muito agudo. Na frente, abre-se pequena porta com um janelo de quatro vidros e, de um lado e outro, exibem-se, em velhas panelas, latas e caixotes, variadas flores, que emprestam à humílima habitação uma admirável graça popular. […] Vive-se sobre a terra, em soturno desconforto. ""(Castro,  PMVC, vol. II)


","","Madeira, Portugal (32.75713161720618, -17.026390480201442)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 12:59:31 UTC,2020-05-19 17:12:59 UTC
"Córsega, França","""É terra amena para o turista, para aqueles que se contentam com o aspeto superficial do mundo; mas quem quiser conhecer o drama humano, a verdadeira Córsega, a Córsega de costumes lendários, que são, ainda hoje, uma realidade, deve ir, como nós fomos, mais para dentro. (Castro, PMVC, vol. I)


","","Córsega, França (42.03960420000001, 9.012892599999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:13:25 UTC,2020-05-19 13:15:47 UTC
"Córsega, França","""Aqui, a morte constitui, sob várias expressões, um verdadeiro culto, que existe, ainda hoje, como existia entre os povos antigos, há milhares de anos. E este culto caracteriza o panorama da Córsega e torna inesquecível a sua paisagem.""(Castro, PMVC, vol. I) 
","","Córsega, França (42.03960420000001, 9.012892599999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:17:26 UTC,2020-05-19 13:18:44 UTC
"Córsega, França","""Diz-se que o corso, atreito à indolência e à vida interior, existe mais para as suas simpatias e rancores do que para o trabalho, para a luta com a terra. E, de facto, nas nossas primeiras peregrinações pela ilha, tivemos, também, essa impressão. Rara era a aldeia onde não encontrávamos a maioria dos indígenas sentada, tranquilamente, à porta de suas casas, homens e mulheres palavreando uns com os outros ou ensimesmados, na atitude de quem vê passar, indiferentemente, o cortejo dos anos. O corso pende, geralmente, para a meditação e diser-se-ia que homens novos e velhos esperavam, cismáticos, perante os túmulos construídos nas encostas, a chegada de alguma coisa enigmática que havia de surgir um dia, longinquamente. Mas, quando nos fixámos em S. Pierre de Venco, lugarejo do centro da ilha, e passámos a conviver, intimamente, com os seus habitantes, essa primeira impressão deu lugar ao conhecimento de novas razões e de outras causas. 
[...]
A própria hospitalidade corsa, tão tradicional e tão verdadeira, representa, como tivemos ensejo de observar uma forte deslocação psicológica que o nativo sente em presença do forasteiro. O corso, nesses momentos, não é apenas ele; o contacto com um individuo estranho ao seu mundo quotidiano perturba-o, desperta-lhe ideias adormecidas e impele-o, sobre um fundo de timidez que não lhe é habitual, às mais sensibilizantes gentilezas. "" (Castro,PMVC, vol. II) 
","","Córsega, França (42.03960420000001, 9.012892599999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:19:43 UTC,2020-05-19 13:21:39 UTC
Baixo Egito,"""No plaino imenso, de epiderme verde, graças aos cereais que nele crescem ao sol primaveril, erguem-se, de quando em quando, as palmeiras célebres e humildes grupos de casitas, feitas de barro negro, de simples lama ressequida. São como cubos, em cuja parte superior, negregosa açoteia, se expõem ao sol a palha do trigo e os excrementos das vacas, que, após a secagem, servem de combustível. Alguns destes tristes casinhotos, embora abriguem famílias numerosas, não conseguiriam dar guarida a um só camelo, sem que o seu dorso rompesse o tecto. Pelo estilo, pobreza e vida que nelas se faz, estas casuchas do felá do Baixo Egipto devem ser iguais às que existiam há três, há quatro, há cinco milanos, no tempo do esplendor faraónico, já para cima, para Mênfis e Tebas."" (Castro, PMVC, vol. I) 
","","Egito (30.528207143662236, 31.832947890625015)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:27:42 UTC,2020-05-19 13:28:43 UTC
"Cairo, Egito","""A cidade nova, no estilo arquitectónico que a França usa nos seus protectorados de África, apresenta esplêndidos boulevards, longas artérias arborizadas, praças com monumentos recentes e pomposos edifícios, onde se instalou um comércio magnificente, como o das maiores capitais da Europa Moderna, asfaltadas, fúlgida de anúncios luminosos, com os seus grande hotéis, teatros e cinemas, nela estua uma vida febril, ouve-se falar todas as línguas, vê-se gente de todos os cantos do mundo. Cidade mais cosmopolita, mais variadas no panorama humano, não haverá igual no Planeta. [...]
Ao lado, porém, do Cairo moderno, estende-se outra cidade, o Cairo antigo – e esse bem característico nas suas construções, na sua expressão, na sua velhice de muitos séculos. É outro mundo, são outras as almas. As ruas estreitam-se, os prédios cobrem-se de negrume e surge o pitoresco do Oriente, nos bazares, nas quitandas, nos movimentos da multidão, em todas as manifestações da existência que possui um ritmo diferente do da nossa (….) encontramo-nos num verdadeiro dédalo de vielas, todas decrépitas, falando dos desmoronamentos que os séculos têm feito na sua marcha. Os velhos bairros são como destroços de um terramoto. Dir-se-ia, por isso, que estas vetustas e arruinadas casas só seriam úteis para moradia de lagartos e outros répteis. Contudo, centenas de milhares de homens vivem entre as pedras requeimadas pelo tempo e que o sol egípcio, mal entra a primavera, esbraseara de novo. "" (Castro, PMVC, vol. II) 
","","Cairo, Egito (30.0444196, 31.2357116)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:29:16 UTC,2020-05-19 13:31:56 UTC
Egito,"""[…] o nativo aprendeu que só o dinheiro lhe pode dar condição de ser humano. E, para o obter, os mais ladinos perderam todo o pudor e a tudo recorreram. Em vez de rebelarem, degradam-se. Conhecem os vícios dos europeus e procuram lisonjeá-los; prestam-se às mais sórdidas missões de estrangeiros sem escrúpulos; humilham.se, choram ou berram, segundo a circunstância, conquanto do acto lhes venha dinheiro. Nunca palmilhámos mundo onde a paisagem humana, alguns camponeses e operários à parte, nos tenha dado maior melancolia. Esta infeliz humanidade, vítima, ao cabo, de males de que ela não é responsável, parece estar ainda moralmente bastante longe, se a confrontarmos com outras, da sua necessária redenção."" (Castro, 1986:66, PMVC, vol. II) 
","","Al Minya Desert, Menia Governorate, Egito (27.813864764746548, 28.697869803124995)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:32:57 UTC,2020-05-19 13:33:23 UTC
"Mossul, Iraque","""No século XX da nossa era, os beduínos não se encontram mais civilizados do que os guerreiros e os escravos da Babilónia ou do Egipto, há 4 mil anos. Hoje, como outrora, a mulher é objecto que se compra com alguns dromedários ou dez dinares, que representam, exactamente, dez libras inglesas. Todos estes olhos femininos, que nos espreitam de dentro das tendas, foram adquiridos por esse preço. […] Depois de casada, a mulher queda igual a uma escrava, pobre animal de trabalho, passivo que nem um camelo."" (Castro, VM, vol. I). 
","","Mossul, Iraque (36.34892779999999, 43.157736)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:35:54 UTC,2020-05-19 13:36:44 UTC
"Alexandria, Egito","""Desembarcamos. Em vez da cidade remota, devassa e faustosa, que a literatura nos legou, deparamos com uma Alexandria sorridente de mocidade, alegre, com as suas amplas avenidas, com as fachadas dos seus prédios modernos, com suas villas garridas, seus parque e jardins. Não fora o árabe que povoa as ruas e os signos do seu alfabeto, que se vêem nos estabelecimentos comerciais, dir-se-ia estarmos não no burgo fundado, há dois mil e trezentos anos, por Alexandre, o Grande, mas em cidade europeia, construída recentemente.
[…] Ingleses e egípcios dirigentes, modernizando o porto, pensaram, talvez, eliminar essa atmosfera que dera fama às noites de Alexandria. Não o conseguiram. Porque se tratava de um porto e já com ambiente oriental, o seu antigo carácter, em vez de desaparecer, deslocou-se, foi mais para o interior da cidade e lá atenuado embora, continuou a persistir. Contudo, o Egipto de outrora, o Egipto tradicional, não se encontra hoje, senão fragmentariamente […]. O verdadeiro Egipto, o de ontem, o de hoje, o de sempre, só se revela integralmente quando subimos ou ladeamos o Nilo fabuloso, até o Cairo, até mais arriba ainda."" (Castro, PMVC,vol. II) 
","","Alexandria, Egito (31.2000924, 29.9187387)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:38:34 UTC,2020-05-19 13:40:08 UTC
"Grande Esfinge de Gizé, Egito","""Perto está a Esfinge. Agora não há ninguém em seu redor: nem árabes, nem turistas, ninguém. Só nós, ela e as pirâmides; só nós, ela e esta sensação de mistério que vem connosco e aqui se agrava, de modo profundo. […] Depois de nos lembrar inquietantes interrogações, a boca, emudecida há mais de quatro mil anos, muda continua ante o Édipo infeliz que junto dela se detém um momento e logo passa, dando lugar a outros, vida efémera substituída, no dobrar incessante das gerações, por outras vidas igualmente efémeras, enquanto esta figura remota sobrevive sempre, resistindo, impassível, à marcha dos milénios."" (Castro, PMVC, vol. II)


","","Grande Esfinge de Gizé, Al Giza Desert, Egito (29.9752687, 31.1375674)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:41:39 UTC,2020-05-19 13:42:35 UTC
Estados Unidos,"""De uma maneira geral, os Americanos tratam as mulheres com extrema consideração. […] Aqui, por via de regra, a pistola não faz parte das consequências do adultério. […] Mas, em geral, o divórcio, por muito fácil, evita a infidelidade física. Quando há filhos, as condições domésticas alteram-se, naturalmente. É preciso mais espaço no lar e a mulher já não poderá trabalhar fora de casa. Mas logo que os filhos crescem, eles gozarão as mesmas liberdades que foram concedidas à sua mãe. O Americano é, pela sua formação psicológica, contra toda a tirania, inclusive a paternal."" (Castro, VM, vol. I) 
","","Estados Unidos (37.09024, -95.712891)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:43:56 UTC,2020-05-19 13:44:49 UTC
"Pearl Harbor, Havai, EUA","“A princípio mal distinguimos as formas desta célebre base naval americana. O aço dos numerosos barcos de guerra nela fundeados refulge ao sol, como um espelho e ofusca-nos. […] Estamos perante aquilo que os Americanos chamam “ o punho da América no Pacífico” — o punho armado que os Japoneses odiavam e odeiam.
[…] um imensurável cemitério naval” (Castro, VM, vol. III) 
","","Pearl Harbor, Havaí, EUA (21.3511958, -157.9801523)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:46:28 UTC,2020-05-19 13:48:43 UTC
"Honolulu, EUA","“ Aqui se encontram os que ganham o pão com o suor do seu rosto, os pobres, aqueles cuja vida Honolulu, com suas luxuosas casas-jardins, parece querer ocultar.” (Castro, 1986:213, VM, vol. III) 
","","Honolulu, HI, EUA (21.3069444, -157.8583333)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:49:11 UTC,2020-05-19 13:49:32 UTC
"São Francisco, CA, EUA","“ […] as famosas árvores de madeira vermelha da Califórnia. […] Estamos perante as mais altas e, provavelmente, as mais velhas árvores que existem sobre o planeta. Na nossa frente levantam-se, imponentemente, gigantescos troncos, […].” (Castro, VM, vol. III). 
","","São Francisco, CA, EUA (37.7749295, -122.4194155)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:50:08 UTC,2020-05-19 13:50:39 UTC
"Grand Canyon, Arizona, EUA","“ Tudo se apresenta tão inverosímil, tão majestoso, tão extraordinário, que tal como perante certos monumentos religiosos do Oriente, é necessário algum tempo para nos convencermos de que não somos vítimas de uma miragem.” (Castro, VM, vol. III). 
","","Grand Canyon, Arizona, EUA (36.11276399999999, -113.9960696)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:52:30 UTC,2020-05-19 13:52:49 UTC
Costa Califórnia,"""Ficamos surpreendidos: o mar está cheio de torres iguais. Os Americanos descobriram que o veio do líquido precioso se distendia por debaixo do oceano – e não hesitaram. Foram-se ao mar, perfuraram o seu fundo e de lá, das entranhas do Pacífico, começaram, também, a extrair petróleo!"" (Castro, VM, vol. III) 



","","(37.048759237001136, -124.8880318375) (37.048759237001136, -124.8880318375)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:54:07 UTC,2020-05-19 14:01:53 UTC
"Texas, EUA","“ A outra América, a do progresso, a do conforto, não chegou ainda aqui. Vários destes povoados têm nomes espanhóis e parece conservarem o aspecto que possuíam nos já remotos tempos […] 
As instalações de muitos destes camponeses são bastante elementares, repetindo-se, aqui, o mesmo drama que se vê noutras latitudes, o mesmo violento contraste entre o nível de vida dos grandes senhores da terra e o dos que a terra amanham.” (Castro, VM, vol. III). 
","","Texas, EUA (31.9685988, -99.9018131)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 13:58:17 UTC,2020-05-19 14:02:59 UTC
"Chicago, Illinois, EUA","“Estamos numa das principais fortalezas do capitalismo, não só da América, mas mundo inteiro. […] Chicago cheira a notas de banco, lembrando-nos, a todo o momento, a existência do dólar.
[…] todos crêem que não existe outra nação com tantas possibilidades materiais como esta para oferecer aos seres humanos um melhor destino” ” (Castro,VM, vol. III). 
","","Chicago, Illinois, EUA (41.8781136, -87.6297982)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:03:21 UTC,2020-05-19 14:05:00 UTC
Estados Unidos,"""Uma das principais características do povo americano é não saber olhar para as coisas passivamente. Ele pensa sempre que tudo quanto vê pode ser melhor do que é, mais perfeito, mais completo, mais útil, mais prático. Ele é, pela sua própria natureza, pela sua própria vitalidade, um intervencionista. O acto de contemplar é, para ele, um acto de intervenção. Pela sua psicologia, o Americano não aceita o imutável.” (Castro, VM, vol. III) 
","","Estados Unidos (37.09024, -95.712891)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:06:42 UTC,2020-05-19 14:07:19 UTC
"Nova York, NY, EUA","“Vemos loucos sapateados levantarem os pós das frinchas dos palcos. As orquestras de jazz alucinam a noite. Raparigas de ébano entoam melancólicas canções […].” (Castro, VM, vol. III). 
","","Nova York, NY, EUA (40.7127753, -74.0059728)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:07:59 UTC,2020-05-19 14:09:27 UTC
Turquia,"""Como todas as necrópoles muçulmanas, estas foram votadas a um completo absoluto abandono. Mas só o estrangeiro repara nisso, só o estrangeiro se lembra, aqui, melancolicamente, da Morte. A população habituou-se a viver entre tumbas. Nos cemitérios maiores, pastam ovelhas e cabras e os transeuntes apanham e comem os frutos das árvores que crescem entre as sepulturas. Nessa mesma terra onde apodrecem os cadáveres se cultivam alfaces, alcachofras e tomates, que se vendem, depois, em grandes cestos, nas esquinas próximas. Na Turquia nunca se sabe se o legume que comemos, foi ou não adubado por despojos humanos. A matéria transforma-se e os mortos alimentam vivos."" (Castro, VM, vol. I) 
","","Turquia (38.963745, 35.243322)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:10:51 UTC,2020-05-19 14:14:41 UTC
"Ur, Iraque","""Que estranha sensação a de contemplar e apertar entre os nossos dedos febris este pedaço de barro – do barro que está ligado, como nenhuma outra matéria ao destino humano, na lenda, na história, na vida e na morte, na morte e na vida, nas suas múltiplas sugestões de distância infinita no tempo e de coisas simultaneamente frágil e eterna!"" (Castro, VM, vol. I)


","","Ur, Iraque (30.9608333, 46.1061111)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:15:26 UTC,2020-05-19 14:15:59 UTC
Iraque,"""O xeque fala sempre. Ele tem uma ilustração geral, pouco profunda a o que se sente, mas que chega para aflorar temas sem conta. Como quase todos os árabes habituados ao mando, adquire, frequentemente, um vago ar de mistério. Parece que nunca diz tudo quanto pensa e que está sempre a pensar numa coisa diferente daquela que diz. Parece que a sua fisionomia pode modificar-se com rapidez, tomando estes lábios grossos, de sorriso amável, e estes olhos indolentes uma súbita e terrível expressão colérica."" (Castro, VM, vol. I) 
","","Iraque (33.223191, 43.679291)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:20:06 UTC,2020-05-19 14:20:44 UTC
"Bagdade, Iraque","""O nosso mais recente amigo iraquiano, discreto propagandista de nova doutrina sobre a transmigração das almas, nascida nesse canteiro de religiões que tem sido a Pérsia, diz-nos: — Quando, há pouco, estive em Istambul, sentia uma enorme saudade de tudo isto. Eu olhava, muitas vezes, o Bósforo e o Mármara, mas nenhum deles conseguia distrair-me da minha ânsia de voltar para aqui. As palavras caem no silêncio. Deambulamos, os dois, à alpardinha, à beira do Tigre, em Bagdade. Olhamos as sórdidas águas do rio, as margens sujas, o velho casaredo da cidade a diluir-se na noite próxima, enquanto as palavras ouvidas continuam a ecoar no nosso cérebro. Durante um momento, chega aparecer-nos absurdo que haja alguém que ame viver aqui. Mas não, mas não; para quem nasceu na Mesopotâmia, a terra brava, árida, calcinada, pode ser tão amável como, para nós, as verdes terras do Ocidente."" (Castro, VM, vol. I) 
","","Bagdade, Iraque (33.315241, 44.36606709999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:38:16 UTC,2020-05-19 14:39:21 UTC
Vietname,"“Terminou a influência da Índia e começou a da China. Os túmulos parecem miniaturas de velhos castelos – castelos dum metro de altura com muralhazitas rentes à terra, de onde os mortos espiam os vivos que em seu redor trabalham”. (Castro, VM. vol. II). 
","","Vietname (14.058324, 108.277199)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:42:03 UTC,2020-05-19 14:42:45 UTC
Vietnam," “Os mortos ocupam enorme espaço. Estão em toda a parte, tão obsessionantemente que nos olhos de quem passa fica, para sempre, esta ininterrupta imagem de campos de arroz e de tumbas […].” (Castro, VM, vol. I) 
","","Vietnam (14.058324, 108.277199)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:44:33 UTC,2020-05-19 18:40:42 UTC
Vietnam,"[…] Os homens caminham, nas montanhas, os dias e noites indicados e, quando surge a Lua cheia ou o Sol está a pino, pernas e olhos buscam o ser a imolar. Às vezes, é um irmão de raça, habitante de outra aldeia, mas isso não importa; há que cumprir os trágicos desígnios. ""As flechas voam para as costas do viandante desprevenido. E quando ele, traiçoeiramente atacado, já não pode defender-se, os Móis cercam-no e centenas de vezes o transpassam com suas lanças, para que o sangue corra sobre a terra, apagando a sede dos génios malignos. Não lhe amputam a cabeça, como os Daiaques. O sangue basta. E no sangue molham as mãos e com o sangue lavam as caras. […] Entretanto, a tribo que acaba de perder um dos seus reúne, por sua vez, os chefes e os magos. Houve uma morte violenta e, portanto, também ali é necessária uma reparação de sangue. E organiza-se a vingança. Dir-se-á que a alma dos Corsos se instalou na alma dos Móis, “o sangue chama o sangue” – é a divisa dos dois povos."" (Castro, VM, vol. I)


","","Vietnam (14.058324, 108.277199)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:48:19 UTC,2020-05-19 14:48:41 UTC
Vietnam,"""Para vermos, de perto, dois desses túmulos, metemos, uma tarde, a ínvios caminhos e fomos desembocar num campo de arroz, que antecedia a colina mortuária. […] A palha que cobria o túmulo descia, mui penteada, desde os dois chifres de madeira que ornamentavam a cumeeira, até os nossos pés. Não se via entrada alguma – e era preciso uma entrada. “Perdoa-me, irmão, mas se não tivesses medo dos mortos, se tivesses por eles o mesmo infinito amor que eu tenho e te encontrasses no transe em que me encontro agora, certamente farias a mesma coisa que eu vou fazer… Não sei quem tu foste e até há pouco não sabia sequer que tinhas existido; de hoje em diante, porém, nunca mais te esquecerei e o momento que vou passar ao teu lado ficará como um momento único na minha vida…” Enquanto enviamos a mensagem sem palavras, forçamos as extremidades da palha e metemo-nos no túmulo. Uma grande emoção nos domina. Ouvimos a chuva cair, furiosamente, lá fora, e vemos, cá dentro, a terra batida e, sobre a terra os humildes objectos e utensílios que o morto mais usou. Estão dois tachos de cobre, uma foice roçadoira, uma espécie de bengala e um longo cachimbo cheio de bolor. Tão pouco o Mói possui em vida que, levando para a morte tudo quanto possui, não leva quase nada. Tudo isso é simples, comovedoramente simples. […] Se nos vêem sair daqui, os supersticiosos móis tomar-nos-ão, sem dúvida alguma, por um autêntico e terrível violador de sepulcros…Metemos a cabeça entre a palha e esquadrinhamos, cautelosamente, os molhados derredores. Ninguém. Afortunadamente, ninguém.""(Castro, VM, vol. I) 
","","Vietnam (14.058324, 108.277199)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:49:12 UTC,2020-05-19 14:49:46 UTC
"Kai Yuen, Hong Kong","""Assomamos à janela e vemos um espectáculo que nunca mais esqueceremos por muitos anos que vivamos. Sobre a própria plataforma da pequena estação, homens e mulheres vão colocando, em silêncio, pedaços de cadáveres. Há já quatro corpos amputados, estendidos uns ao lado dos outros. […] Descemos da automotora e vemos, então, do outro lado, um grupo de pobres casas de madeira, completamente destruída. A bomba era para a estação, mas o aviador errou o alvo. O caso passou-se não há meia hora ainda. Um e outro olha para o céu, temendo que o avião regresse. […] Alguns destes homens fixam-nos, de quando em quando, como se nos perguntassem quem somos e que fazemos aqui. O aspecto dos nossos olhos deve tranquilizá-los. Eles não podem dizer-nos uma só palavra que nós compreendamos, nem nós uma só palavra a eles. E contudo, compreendemo-nos perfeitamente. A dor é o maior elemento de comunhão universal."" (Castro, VM, vol. I) 
","","Kai Yuen Street, Tsat Tsz Mui, Hong Kong (22.2901857, 114.2033456)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:50:47 UTC,2020-05-19 14:51:58 UTC
"Dublin, Irlanda","""A voz de De Valera é calma, lenta e sombria. Estamos a falar há duas horas. Lá fora chove. Através dos vidros das janelas chega até nós a melancolia que o tempo dá a Dublin. O chefe republicano levanta-se e começa a andar connosco dum lado para o outro do salão. Edmundo de Valera é um homem alto, muito seco e com uns óculos sobre o nariz. Agora, caminhando ao nosso lado, parece mais esguio ainda. Este temível inimigo da Inglaterra é, de todos os irlandeses que temos visto, aquele que, fisicamente, mais se parece com um inglês. […] A certa altura, o caudilho irlandês diz-nos: - Simpatizo com o seu país, porque ele amou sempre a independência e, sendo pequeno, lutou contra os grandes. Nisso Portugal parece-se com a Irlanda… ""(Castro, VM, vol. I)


","","Dublin, Irlanda (53.3498053, -6.2603097)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:52:18 UTC,2020-05-19 14:53:36 UTC
Myanmar,"""Os rubber-tappers, pele escura, um colar no pescoço, tronco nu e calções desde o umbigo até o nascimento das pernas, regressam da sua faina. Miss Berta serve-nos de intérprete e eles explicam-nos, humildemente, o que já sabemos e, às nossas perguntas, evocam a sua miserável existência com a resignação que lhes carreia um milenário fatalismo. Ignoram a nossa vida, vêm-nos em turista, e falam sempre com o ar tímido de quem se encontra convencido de que ao senhor branco não interessa o que eles dizem. Nós estamos comovidíssimos. A memória ressuscita o passado, a odisseia do fim da infância, a marca de alma que ficou para toda a vida, e, depois não sabemos porque estranha associação de sentimentos, parece que o bosque cheira a eternidade, a essa murta que há no cemitério de aldeia onde repoisa o ser amado; parece que no sol que traspassa as árvores há a luz de muitos instantes já idos e de outros que hão-de vir um dia, no perene fluir da vida, da vida onde tudo é, simultaneamente, valiosos e inútil. ""(Castro, VM, vol. II) 
","","Myanmar (21.916221, 95.955974)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:55:01 UTC,2020-05-19 14:56:24 UTC
Singapura,"“Porta do Extremo Oriente” chamam a esta cidade e, efectivamente, estreita porta, a ligar dois oceanos, ela é. O seu porto, em tempo de boa paz, enche-se, diariamente, de dezenas e dezenas de navios que chegam ou partem para a Índia, Arábia e Europa; para o Sião, Indochina, China, Japão e Rússia; para a Malásia e Australásia, para todos os arquipélagos da Oceânia. Há grandes Transpacíficos e transatlânticos, que se dirigem à América e ao Canada, à Itália, à França e à Inglaterra; que contornam a costa de África ou metem ao Panamá e botam até o Brasil e à Argentina; e há-nos pequenos, que enfiam pelos rios de Samatra e do Bornéu e lá andam, no coração das florestas, semanas inteiras. Como do centro de uma roda partem raios em todas as direcções, da ilha de Singapura parte barcos para todos os pontos do mundo."" (Castro, VM, vol. II) 
","","Singapura (1.352083, 103.819836)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:56:40 UTC,2020-05-19 14:57:48 UTC
"Xangai, China","""Porto franco, cidade livre, vieram gentes de todas as partes, ansiosas de dinheiro. Britânicos, gauleses, americanos, judeus, russos foragidos à revolução comunista […] Xangai tornou-se cidade tão cosmopolita como o Cairo e, na febre do outro mais cínica ainda do que o Cairo."" (Castro, VM, vol. III) 
","","Xangai, China (31.230416, 121.473701)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 14:58:22 UTC,2020-05-19 14:58:48 UTC
Bornéu,"""No dia combinado, meia manhã, o director do Museu vem buscar-nos. Traz um automóvel e nos automóveis dois malaios com espingardasmetralhadoras. Lá em baixo, na estrada, está um segundo carro à nossa espera, ocupado por camas de campanhas, tendas de lona, mais volume – e outros malaios armados…"" (Castro, VM, vol. II) 
","","Sarawak Museum, Jalan Tun Abang Haji Openg, Taman Budaya, Kuching, Sarawak, Malásia (1.5548423, 110.3434785)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:06:26 UTC,2020-05-19 15:08:57 UTC
"Bornéu, Malásia","""De quando em quando, lobrigamos, entre árvores e arbustos, umas ligeiras construções de bambu, espécie de armadilhas para animais selvagens. Junto delas, encontram-se, espetados, três pedaços de madeira: os laterais com as pontas afiadas e o do meio com uma cabeça humana elementarmente esculpida. É um ídolo, que deve atrair a felicidade e a caça. Os daiaques são pagãos e colocam nas soledades florestais assombrosos manipansos."" (Castro, VM, vol. II) 
","","Malásia (2.6202651565004595, 114.28036890578663)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:12:06 UTC,2020-05-19 15:12:44 UTC
"Sabah, Malásia","""O interior da casa daiaque, constituído por um único recinto, é, quase sempre, obscuro. A luz entra apenas pela porta e, excepcionalmente, pela suspensão de uma pequena parte do tecto de palha. Ao centro está a cozinha – um pouco de terra e duas ou três pedras. Ao fundo, o pilão e a peneira do arroz – pois de arroz cozido vivem, sobretudo, os daiaques e os outros indígenas do Bornéu, que cultivam a gramínea desde épocas remotíssimas. Vemos, depois, nos cantos, antigos vasos de origem chinesa, o feixe de bambus, que serve para conduzir água, e, nas paredes, vistosos sabres, de cabo esculpido e tufo de cabelo pendente…"" (Castro, VM, vol. II)


","","Sabah, Malásia (5.978839799999999, 116.0753199)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:14:09 UTC,2020-05-19 15:15:00 UTC
Açores,"""Após o mundo dos monumentos, o mundo da paisagem. Após as terras de pretéritas civilizações, a terra sempre jovem, eternamente edénica nos seus verdes frescos, nos seus grandes bosques, onde há silêncios sinfónicos e marulham humildes fontes. A pedra que floriu, uma vez, em obra de arte, dá o seu lugar à árvore, que floresce todas as Primaveras e se renova num perpétuo ritual de Beleza. E porque à Árvore devemos a inefável convivência das horas de soledade, desejamos que as ilhas onde as árvores se associaram para criar alguns dos mais deslumbrantes panoramas do mundo fechem estas páginas da nossa inquietude errante."" (Castro, PMVC, vol. II) 
","","Oceano Atlântico (37.78079712391569, -27.760521988029467)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:18:02 UTC,2020-05-19 15:19:11 UTC
"Benares, Índia","“ […] a cidade santa do hinduísmo, que em parte alguma tem rival tão característica e tão aterrorizadora.  
[...]O Ganges é o seu patrono e ela é, simultaneamente, a maravilha do Ganges, pois ao atravessá-la, o rio célebre adquire poder de divindade.
[…] a nossa maior ventura seria distanciarnos de Benares, para muito longe, para muito longe, e, se fosse possível, esquecer..."" (Castro, VM, vol. II) 


","","Benares, Uttar Pradesh, Índia (25.3176452, 82.9739144)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:22:40 UTC,2020-05-19 15:34:48 UTC
"Mulagandha Kuti Vihara, Sarnath, Varanasi, Uttar Pradesh, Índia","""Todas têm, nas pupilas, algo que não é deste mundo e, no rosto, a marca das existências longo tempo enclausuradas. O ambiente é lúgubre e a sala imunda, apesar do sândalo em incineração. Os cânticos prosseguem. As velhas, com os dentes corroídos e nos olhos uma claridade mortuária, são as mais trágicas. Parece que estamos lendo Dostoievski ou Raul Brandão. Parece que tudo se evade da realidade para os domínios do absurdo e do momento. Queremos continuar a ver, mas já não podemos ver mais. As caraças das velhas colaram-se aos nossos olhos; dir-se-á que as suas dramáticas expressões estão dentro de nós, que as suas longas e engelhadas mãos fazem no nosso cérebro gestos inexoráveis. Durante alguns momentos não sabemos mesmo se nos encontramos na posse da boa sanidade mental. ""(Castro, VM, vol. II) 
","","Mulagandha Kuti Vihara, Sarnath, Varanasi, Uttar Pradesh, Índia (25.3807966, 83.0270129)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:33:05 UTC,2020-05-19 15:34:26 UTC
"Ganges River, Índia","""Nos degraus húmidos, cheios de escarros sangrentos e de flores pisadas, deitam-se inúmeros peregrinos, a boca para baixo, os braços estendidos para a frente, em homenagem ao Ganges divino. […] A água arrasta colares de flores, arrojadas à líquida divindade, mas, apesar disso, o rio cheia horrivelmente mal. […] Todo o animal que morre aqui é entregue ao rio. […] A poucos metros dos cadáveres e dos canos de esgoto da cidade, os crentes bebem, à luz sangrenta do crepúsculo, a água sagrada. Alguns fazem demoradas abluções, outros molham os dedos no rio e metem-nos, em seguida, na boca, como se fossem escova de dentes. Por fim, as mãos em concha, os olhos em êxtase, sorvem o líquido asqueroso. E, mais além, em inesperado contraste, uns garotos jogam o water-polo. […] Não só o que vemos, mas o que pressentimos, causa-nos um malestar invencível. […] Não sabemos onde colocar os sapatos, porque o esterco dos bichos desfaz-se na água sagrada que alguns dos crentes trazem do Ganges e outros tiram do próprio poço do templo, despejandoa, ritualmente, no lajedo. Sobre essa camada líquida, de quatro e cinco centímetros de altura os adoradores de Xiva metem, com extrema devoção, os pés nus, numa cerimónia interminável."" (Castro,  VM, vol. II) 
","","Ganges River Milik Bahmotar K, Bihar, Índia (25.3156736, 87.6380713)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:37:46 UTC,2020-05-19 15:38:52 UTC
"Ganges River, Índia","""Sentimos uma infinita piedade por estes homens que se agitam na margem do Ganges e, ao mesmo tempo, um infinito nojo pelo rio de sórdidas águas, nojo por nós próprios, sobretudo pelos nossos pobres olhos, que viram isto. Eis uma das mais violentas e terríveis emoções de toda a nossa existência. Parece-nos que não somos verdadeiramente nós que a estamos sofrendo, mas outro ser, de vagas semelhanças connosco, um ser brotado de um pesadelo. Não podemos mais. Poetas e escritores que, provavelmente, nunca vieram aqui, criaram ao Ganges uma fama romântica. Nós conhecemos os principais rios do mundo e podemos afirmar que o «Ganges Sagrado», o «Ganges dos Deuses» e de outros líricos títulos com que o adornam, é o mais repugnante e macabro de todos os rios célebres."" (Castro, VM,vol.II) 
","","Ganges River Milik Bahmotar K, Bihar, Índia (25.3156736, 87.6380713)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:39:33 UTC,2020-05-19 15:40:10 UTC
"Nova Delhi, Deli, Índia","“[…] a principal artéria de Nova Deli, a maior avenida da Índia e a primeira das longas […] se abriu ao mundo. O passado e o presente, a Europa e a Ásia, fundem-se aqui nas mais pitorescas e inesperadas manifestações.” (Castro, VM, vol. II)


","","Nova Delhi, Deli, Índia (28.6139391, 77.2090212)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:40:26 UTC,2020-05-19 15:42:19 UTC
"Goa, Índia","""Entre esta população de quinhentos e cinco mil indivíduos, os Portugueses, porque são poucos, destacam-se facilmente. Acontece em Goa a mesma coisa que acontece na Índia inglesa e na francesa: diferentes dos nativos na pele, nos costumes, em muitas mais expressões, os funcionários ultramarinos parecem sempre turistas quando atravessam as ruas dos povoados ou percorrem as veredas do interior. Quatro séculos de presença europeia não conseguiram fundir, nem em hábitos, nem em mentalidade, os indígenas com os alienígenas, em parte alguma da enorme península. Admitiu-se, um dia, que os convertidos ao cristianismo seriam grande e decisivo foco de contágio, mas o fenómeno não se deu. Os Hindus, mais talvez do que outro qualquer povo, resistem instintivamente, involuntariamente, à penetração do espírito e dos costumes alheios. E, por seu lado, o estrangeiro não consegue adaptar-se à mentalidade e aos costumes indostânicos. A influência que o Ocidente exerceu na Índia é insignificante em relação à exercida noutras terras asiáticas, incluindo a China e o Japão."" (Castro, VM, vol. II) 
","","Goa, Índia (15.2993265, 74.12399599999999)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:42:46 UTC,2020-05-19 15:43:10 UTC
Japão,"""Para se visitar o desconfiado Japão, mesmo em tempo de paz, os estrangeiros têm de sofrer tantos incómodos e vexames que, por vezes, se chega a pensar que o país está, de novo, fechado para o mundo.” (Castro, VM, vol. III 
","","Japão (36.204824, 138.252924)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:43:53 UTC,2020-05-19 15:44:24 UTC
"Kōbe, Hyōgo, Japão","""Cobe é um consórcio do Ocidente com o Oriente. […] a cidade divide-se em duas partes, uma de carácter europeu e de carácter japonês a outra. A influência da Europa campeia no estilo dos edifícios e das ruas do bairro comercial, À beira do porto estendido, onde se encontram os bancos, as companhias de navegação, as firmas que importam e exportam. 
 […] Os homens, na sua maioria, vestem e calçam à europeia. Só um ou outro popular, metido num quimono, transita com rumorosos socos – irmãos grosseiros daquelas coloridas tamanquinhas que as mulheres empregam. (Castro, VM, vol. III) 
","","Kōbe, Hyōgo, Japão (34.6900806, 135.1956311)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:44:49 UTC,2020-05-19 15:45:45 UTC
"Tóquio, Japão","“Não damos um passo em Tóquio sem toparmos violentos contrastes: aqui e ali o Oriente luta com o Ocidente e, em certos trechos, o tipo arquitectónico euro-americano vence a arquitectura sino-japonesa.
[...] Se o poder de imitação é uma qualidade, os Nipões possuem-na de forma suprema. Eles imitam tudo. […] As carruagens deste comboio que nos leva de Quioto a Tóquio, […] são, todavia, muito boas. Os passageiros podem sentar-se à europeia ou sentar-se á japonesa. [...] Na cabina de dormir encontramos, ao nosso dispor, um quimono lavadinho e uns graciosos chinelos de palha de arroz. 
[…] De quando em quando, encontramos, também, um botequim ou uma cafeteria, nome que dir-se-á haver o Japão importado do México, juntamente com a arquitectura asteca do Imperial Hotel… Mas não. Foram os Estados Unidos os primeiros a importar essa designação; e porque os Norte-Americanos o fizeram, os Japoneses imitaram-nos mais uma vez. (Castro, VM, vol. III) 


","","Tóquio, Japão (35.6761919, 139.6503106)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:45:54 UTC,2020-05-19 15:47:58 UTC
Japão,"""[…] Pan, de pão; Koppu de copo; compeito, de confeito; karuta,de carta: bôru,  d bolo; karumera, de caramelo — e muitas mais. Aquele próprio sabonete que está no lavatório não o teria encontrado Fernão Mendes Pinto quando por aqui transitou. Os Japonese desconheceram o sabão até 1612; e só o conheceram graças aos Lusitanos que, naquele ano, lho trouxeram. Por isso, ainda hoje lhe chamam shabon."" (Castro, VM, vol. III) 
","","Japão (36.204824, 138.252924)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:49:08 UTC,2020-05-19 15:49:48 UTC
China,"""[…] não existe em toda a Ásia gente mais afável e de tão grata convivência. […] O povo chinês, extraordinariamente inteligente, mostra-se, na sua generalidade, portador de elevadas qualidades humanas. Ele sabe, como poucos ser vizinho e viver em colectividade. […] O Chinês dificilmente se exalta. Calmo, tolerante, resignado, os seus bairros desconhecem a desordem. Influenciável, ele pode ir até as maiores aberrações, mas vai também, frequentemente, às mais nobres atitude."" (Castro, VM, vol. III) 
","","China (35.86166000000001, 104.195397)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:50:14 UTC,2020-05-19 15:51:40 UTC
Macau,"""O estilo das casas, a sua brancura, a bucólica suavidade do conjunto, tudo, tudo lembrava certos trechos das províncias de Portugal, com a Senhora do Monte a servir de padroeira. Dir-se-á que os Portugueses conseguiram modificar a própria paisagem asiática, as próprias árvores, dando-lhes expressão de terra minhota. […] Quem reside em Portugal dificilmente imaginará o pitoresco desta união gráfica luso-chinesa. […] A meio da Rua da Praia Grande começa a Avenida Almeida Ribeiro, a principal da terra. Ela corta de um lado a outro a estreita península. Vai do mar do porto exterior ao mar do porto interior, do extremo da cidade portuguesa ao extremo da cidade chinesa. E, no seu comprimento, esta avenida mostra duas velhas civilizações diferente, que jamais se fundiram, apesar de longo convívio. […] Este Largo do Leal Senado é como uma fronteira. Para além dele, a Avenida Almeida Ribeiro perde a sua feição europeia e torna-se rua chinesa.
[...] A única coisa feia é, justamente, a gruta onde o épico teria escrito parte de Os Lusíadas. "" (Castro, VM, vol. III) 


","","Macau (22.198745, 113.543873)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:51:59 UTC,2020-05-19 15:54:56 UTC
"Cantão, China","""Da Ilha de Chamin tínhamos visto uma parte de Cantão destruída pelas bombas dos aviões japoneses e pelos incêndios. […] Cantão, uma das maiores cidades do mundo, é, hoje, na sua maior parte, um monte de escombros. […] Todo um imenso bairro, um bairro de quilómetros de ruas, está completamente destruído.""(Castro, VM, vol. III) 
","","Cantão, China (23.12911, 113.264385)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:55:41 UTC,2020-05-19 15:56:17 UTC
"Alepo, Síria","“ […] o bairro novo, em estilo colonial francês que os dominadores construíram. São três ou quatro ruas de edifícios claros, alegres e higiénicos, que contrastam, violentamente, com todos os demais. 
[...] Saindo-se do Museu de Alepo, logo se entra na Rue de France —a principal artéria da cidade, onde estão os hotéis, os cafés e as casas de comércio no género das da Europa. É um ambiente colonial francês, os homens com chapéu de cortiça e as mulheres de Marselha com os dedos dos pés envernizados brilhando nos sapatos abertos à frente."" (Castro, VM, vol. I)


","","Alepo, Síria (36.2021047, 37.1342603)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:56:58 UTC,2020-05-19 15:58:40 UTC
"Kirkuk, Iraque","""Visitamos os poços e as refinações. Milhares de pobres árabes e curdos trabalham aqui, sujos e mal pagos, no país em que a mão-de-obra não tem valor algum. Visitamos, também, a parte inicial do pipe-line. É a maior epopeia do esforço humano, na sua luta pelo petróleo. […] A França queria, para os seus vinte e três por cento de petróleo, um tubo especial, que fosse ter à Síria, sob o seu domínio, enquanto os Ingleses, pela mesma razão de soberania na terra que o cano atravessasse, batiam-se por um porto da Palestina. Assim, o pipe-line, bifurcado a certa altura do seu trajecto, passaria a ter mil e oitocentos e quarenta e cinco quilómetros de extensão. Apesar disso, decidiu-se realizar a obra."" (Castro, VM,vol. I).
","","Kirkuk, Iraque (35.4666329, 44.3798895)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 15:59:54 UTC,2020-05-19 16:00:20 UTC
"Mesopotâmia, Iraque","""Foi nesta terra dramática, torturada, que se gerou a nossa própria civilização. Aqui, o Homem criou alguns dos primeiros deuses, aqui ele exteriorizou algumas das suas primeiras inquietações ante o mistério da vida que o cercava, aqui ele deixou, com o seu espírito, alguns dos primeiros trabalhos de arte de que nos orgulhamos. […] Olhando-a, assim, bravia, assim inóspita, quem não conhecer a sua história e, sobretudo, as descobertas arqueológicas feitas nos últimos anos, dificilmente acreditará que ela tenho podido servir outrora, tão agreste como é hoje, a ninho de civilizações e a lar de tantos e tão variados povos. A Mesopotâmia demonstra bem que o drama da existência humana é tanto maior quanto mais nos aproximamos da sua origem."" (Castro, VM, vol. I)
","","Mesopotâmia, Iraque (34.5337527, 43.483738)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 16:00:43 UTC,2020-05-19 16:01:02 UTC
Golfo Pérsico,"“Estamos, finalmente, no golfo Pérsico, o das lendas sem conta e o dos episódios navais, por onde os Portugueses andaram em épicas pelejas.
[...] Barém queda cerca do litoral arábico, e já Camões a ela se referia nos Lusíadas, no tempo em que somente a conheciam pelas pérolas das suas ostras.” (Castro, VM, vol. I)


","","Golfo Pérsico (também conhecido como Golfo Árabe) (26.7505337, 51.6834275)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 16:02:50 UTC,2020-05-19 16:03:20 UTC
Nablus,"""Naplusa e as demais povoações da Palestina, grandes ou pequenas, parecem chamuscadas, parecem saídas de uma enorme labareda. O barro e o tijolo das suas paredes dão-nos a sensação de sofrerem de sede, uma sede de há muitos séculos. Algumas destas casas encontram-se semidesmoronadas, seja nos ângulos, seja em cima, na beiceira das açoteias. Isso não indica, porém, que estejam sem habitantes: dentro delas formigam, promiscuamente, famílias de numerosa prole."" (Castro, PMVC, vol. II)


","","Nablus (32.2226678, 35.2621461)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 16:04:13 UTC,2020-05-19 16:04:47 UTC
Palestina,"“Na Palestina, o principal não é o que está; o principal é o que cada um traz dentro de si próprio.” (Castro, PMVC, vol. II). 
","","Palestina (31.952162, 35.233154)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 16:04:55 UTC,2020-05-19 16:05:15 UTC
Palestina,"“Os lugares célebres não se topam, todavia, com facilidade, na maranha de remotas e tortuosas ruelas. Temos de procurá-los pacientemente ou de chamar em nosso auxílio quem sirva de bússola no dédalo imenso, nesta vetusta cidade de complicado trânsito.
 […] as gentes, cá fora, falam , gesticulam muito, altercam entre si, num rumor infindável; dentro, porém dos pequenos estabelecimentos há sempre figuras de árabes, esboçadas na obscuridade, que se mantêm em completa quietude, pensativas, abstractas, os olhos com a neblina da distância, o corpo presente e o espírito ausente. A alma muçulmana, feita destes contrastes bruscos, dá ao pitoresco das ruas de Jerusalém alguma coisa que está por cima do pitoresco, do ruído e da ânsia de quitar proveito do estrangeiro; algo de melancólica espiritualidade, de leve sombra que se estende, indolentemente, sobre o sol que dorme nas vetustas pedras. (Castro, PMVC, vol. II)


","","Palestina (31.952162, 35.233154)",Sylvie Marques (sylvie51),2020-05-19 16:10:49 UTC,2020-05-19 16:11:17 UTC
