<?xml version="1.0"?>
<rss version="2.0">
   <channel>
      <title>Mural de Crônicas by lingua portuguesa</title>
      <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of</link>
      <description>A ocasião faz o escritor</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2021-06-13 23:43:20 UTC</pubDate>
      <lastBuildDate>2023-01-25 15:57:55 UTC</lastBuildDate>
      <webMaster>hello@padlet.com</webMaster>
      <image>
         <url>https://padlet.net/icons/png/1f603.png</url>
      </image>
      <item>
         <title>Brinquedos incendiados</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603802159</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div>&nbsp;         Uma noite houve um incêndio num bazar. E no fogo total desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um, de tanto mirá-los nos mostruários – uns, pendentes de longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas. Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e verniz! Carneirinhos lanudos, de guizo ao pescoço! Piões zumbidores! – e uns bondes com algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia – filhotes que éramos, então, de M. Jordain, fazendo a nossa poesia concreta antes do tempo.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Às vezes, num aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber de presente alguns bonequinhos de celuloide, modestos cavalinhos de lata, bolas de gude, barquinhos sem possibilidade de navegação... – pois aquelas admiráveis bonecas de seda e filó, aqueles batalhões completos de soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem esperança nem inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os apenas em sonho, como se para isso, apenas, tivessem sido feitos.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da escola para casa, parava longo tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem muita noção do valor – porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos só renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar cravadas nelas, como setas, os nossos olhos.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara. E foi uma espécie de festa fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo rubro, voavam chispas e labaredas pelo bairro todo. As crianças queriam ver o incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas, fugiam para a rua, onde brilhavam bombeiros entre jorros d’água. A elas não interessavam nada peças de pano, cetins, cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam pelos cavalinhos e bonecas, os trens e palhaços, fechados, sufocados em suas grandes caixas. Brinquedos que jamais teriam possuído, sonhos apenas da infância, amor platônico.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um fumoso galpão de cinzas.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém? , pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos distantes!</div><div>&nbsp;</div><div><strong>Cecília Meireles</strong></div><div>&nbsp;</div><div><a href="http://www.veredasdalingua.blogspot.com.br/">www.veredasdalingua.blogspot.com.br</a></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-13 23:50:52 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603802159</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O papa vai ao banheiro?</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603803294</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; No terceiro mês do catecismo, o padre nos deu a chance esperada: depois de doze semanas de aulas e de leituras bíblicas, tão pouco frequentadas quanto pouco entendidas, podíamos perguntar o que quiséssemos.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp;Fui o primeiro a erguer o braço. O padre, encanecido, pediu que eu me levantasse. Com a coragem que hoje, nos eventos de que participo, procuro, mas não acho, arranquei do fundo da alma a dúvida atordoante: “Padre, o Papa vai ao banheiro?”</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp;A morte de João Paulo II, em meio à comoção mundial gerada pelo seu funeral, em 2005, me trouxe de volta essa lembrança distante. Junto com ela, o medo que eu sentia na infância daquele homem, do quadro que minha avó conservava pendurado ao lado da imagem de Jesus.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Eu não sabia a diferença entre Jesus e Deus. Minha avó tentou me explicar que Jesus não era Deus, mas que também podia ser. Que foi humano por 33 anos, mas que depois que morreu virou uma pomba. Nesse dia, descobri que o Papa tinha um papamóvel (o que fazia dele quase um herói de história em quadrinho) e que, se o Papa comia, ele também tinha que ir obrigatoriamente ao banheiro. A minha avó só não conseguiu me esclarecer por que João Paulo II lia os discursos tão devagar, como se não tivesse passado da alfabetização, ele que, segundo ela, era um dos homens mais inteligentes do mundo, sabia todas as línguas faladas por todos os povos. Na verdade, continuei com um medo brutal do Papa. Todos choravam quando se aproximavam dele.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Nunca imaginei, por exemplo, o Papa jovem, até que vi uma foto dele um pouco mais novo do que eu era naquela época. Careca, como sempre. Branco, como sempre. Mas humano, sem a aura de santidade que tanto me assombrava. Décadas depois, quando o vi ali, morto, estendido aos olhos da multidão, compreendi que a humanidade do Papa estava muito além das minhas cogitações infantis.</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Ainda hoje me pego imaginando o Papa no banheiro, as vestes santas despidas do corpo enorme, e rio o riso proibido do catecismo. A última imagem que guardarei do Papa João Paulo II, o único e verdadeiro Papa da minha geração, é a de sua dor, que o igualou a cada ser humano neste planeta. Uma dor como a de Jesus, que era humano mas que também era Deus. E que talvez também fosse ao banheiro, mas só de vez em quando.<br><br></div><div><br>Tiago Germano<br><br></div><div><strong><br>Demônios domésticos. [S. l.]: Le Chien, 2017.<br></strong><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-13 23:52:04 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603803294</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Sentimentos amarelos</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603804713</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;A presença da claridade nas brechas das janelas envelhecidas pelo tempo e o cocoricó dos galos anunciavam que o sol desanoiteceu. A minha casa ainda dormia, não se ouvia nenhum barulho dos moradores nas vias empoeiradas do Povoado Alegria – uma região bastante rústica da nossa “Cidade Verde”. Somente nos quintais das casas, os animais já denunciavam que estavam famintos. O céu totalmente desanuviado previa mais um dia escaldante de setembro, o primeiro mês do B-R-O-B-R-Ó, como é conhecido este tempo por essas bandas nordestinas.&nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Os sinos da igreja local tocavam dando provas que eram seis horas da matina, hora de levantar, me arrumar, quebrar o jejum noturno, caminhar até a parada, pegar o ônibus e ir para a escola. É a vida seguindo o seu percurso habitual. Conseguem imaginar assim? Pois é, como de costume entrei no ônibus, sentei no banco próximo a uma das janelas do lado esquerdo do transporte e fiquei observando aquela paisagem acinzentada e castigada pelos ventos impiedosos da estação. A vegetação arbustiva já não escondia mais seus galhos secos e retorcidos. As flores! Essas já não davam mais sinais de vida.&nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Durante o itinerário, a cena era a mesma de sempre. Até aí, tudo normal! Será mesmo? Já não tenho tanta certeza! Por um instante minha percepção visual foi arrebatada pelo encanto de um enorme ipê salpicado de buquês amarelos erguido em meio aos escombros daquela sequidão. Como minha visão não alcançava o local de fixação daquele ipê, imaginei seu tronco adornado por um tapete de flores amarelas desidratadas pela sucessão das horas.&nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;— Que lindo! Que perfeição! Como faço para tocá-las? – falei tão alto que todos no ônibus olharam para mim.&nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Naquela hora do dia, o vento já soprava uma brisa morna que levantava poeira seca e que ardia nos olhos da gente, mas essas intempéries não impediam que minha visão se amarelasse de beleza e prazer. Prazer de ver, prazer de tocar, prazer de cheirar… Eu pensei em leveza, perfume, cor, alegria. Quase pedi ao motorista para parar o carro enquanto eu tirava uma foto daquela floração exuberante, mas como não podia realizar esse intento, tratei de preservar na memória aquela imagem.&nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; O trajeto continuou normalmente, o mesmo ônibus de todos os dias, o mesmo motorista, os mesmos colegas, a mesma sala, tudo igual, mas a minha opinião sobre aquela cena tão imperceptível por causa da rotina, ganhou um novo significado, não era mais a mesma.&nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Em uma das aulas de Língua Portuguesa fui desafiada a escrever um poema. Retruquei… Retruquei… Retruquei… Enfim, os mais profundos sentimentos tomaram forma em meu coração. Assim, escrevi:&nbsp;</div><div><br>Contemplação</div><div>&nbsp;</div><div>Diante do ônibus que anda&nbsp;</div><div>Parada estou&nbsp;</div><div>Parada a contemplar Ipês&nbsp;</div><div>Árvores regando o amanhecer&nbsp;</div><div>&nbsp;</div><div>O dia chega&nbsp;</div><div>&nbsp;</div><div>Com sol e vento de bem-querer&nbsp;</div><div>Manda à terra&nbsp;</div><div>Seu Ipê-amarelo florescer&nbsp;</div><div>&nbsp;</div><div>Abro a janela&nbsp;</div><div>A cantiga do vento&nbsp;</div><div>Me leva, como de costume&nbsp;</div><div>Ao jardim secreto do coração&nbsp;</div><div>Que é amarelo&nbsp;</div><div>Como um tapete estendido no chão.</div><div>&nbsp;<br><br></div><div>       A minha história não terminou. Só o tempo dirá quando continuarei a escrever sobre minhas concepções, acerca das cenas do cotidiano. Só sei que ainda tenho muita coisa pra contar…<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>Bruna Vitória da Silva Andrade. Professora Edna Maria Alves Teixeira de Oliveira Escola Joca Vieira, Teresina-PI<br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-13 23:53:36 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603804713</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Ser brotinho</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603811835</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div><br>Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.<br><br></div><div>Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.<br><br></div><div>É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e superior. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.<br><br></div><div>Ser brotinho é poder usar óculos enormes como se fosse uma decoração, um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que os coroas levam a sério, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. Aguardar na paciente geladeira o momento exato de ir à forra da falsa amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.<br><br></div><div>É telefonar muito, demais, revirando-se no chão como dançarina no deserto estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.<br><br></div><div>Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.<br><br></div><div>É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.<br><br></div><div>Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.<br><br></div><div>Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.<br><br></div><div><br><br><em>Paulo Mendes Campos<br>In: O amor acaba. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. © Joan A. Mendes Campos.<br></em><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:00:28 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603811835</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Expedição à padaria</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603813726</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div>Na segunda-feira dia 6 de abril, depois de 14 dias de total isolamento, saí de casa para comprar pão. Com o coração acelerado e o passo meio trôpego, percorri os 290 metros que separam minha residência da padaria da esquina. Pensei imediatamente em Charles Darwin singrando os mares a bordo do HMS Beagle, em James Cook mapeando terras desconhecidas, em Amelia Earhart com o vento no rosto enquanto sobrevoava o oceano e em Buzz Aldrin fazendo xixi na Lua. Quase chorei na fila do pão. Por pouco não pedi a quantia errada de bisnagas.<br><br></div><div>A expedição durou no máximo 15 minutos e me senti inspirada para compor uma versão estendida de Os Lusíadas em dodecassílabos parnasianos. Pensei também em fazer uma transmissão ao vivo para emocionar os amigos em suas respectivas quarentenas. Mas acabei desistindo porque achei que podia parecer ostentação. Antes de sair, botei o álcool em gel na bolsa e vesti uma máscara de tecido, mas quase sofri um bloqueio criativo quando fui escolher a roupa. Esqueci como a gente se vestia quando saía de casa. Parece que eu tinha um par de calças jeans. Onde mesmo que eu costumo guardar os sapatos?<br><br></div><div>Em meados do mês passado, entrei para os casos suspeitos da covid-19. Tive febre baixa, dor de garganta, perda de olfato, enjoo e uma dor de cabeça forte. Depois de um exame clínico que descartou infecção bacteriana, a médica me mandou para casa e estipulou o isolamento pelo período de duas semanas. (Ela marcou no meu atestado: “Z29.0”, o que me pareceu coisa de espião, mas era apenas a classificação da Organização Mundial de Saúde para isolamento em casos de doenças transmissíveis.)<br><br></div><div>Respeitei a prescrição médica e não saí nem para pegar as revistas deixadas no capacho. Meu marido fazia as compras semanais no mercado e ia buscar pão de vez em quando. Eu tentava me recuperar na medida do possível. Ao final dos 14 dias, e depois de receber o resultado negativo do exame da covid-19, eu me ofereci para singrar as calçadas rumo à padaria.<br><br></div><div>Foi mais bonito do que eu sonhava. O céu estava azul, havia pássaros nos postes e um fétido chorume emanando dos sacos de lixo empilhados no meio-fio. (O olfato parecia feliz em ter voltado.) Troquei enigmáticas elevações de sobrancelha com transeuntes que passavam do outro lado da rua e que também estavam parcialmente ocultos em suas máscaras. Tentei sorrir com os olhos para os atendentes da padaria, que perguntaram como estava a minha filha e comentaram que o dia estava lindo demais para ficar em casa. Respondi: “Paciência!” e tentei dizer algo engraçado.<br><br></div><div>Descobri que boa parte da comunicação se dá por meio da expressão do rosto e de sorrisos, e que é muito difícil ser irônico atrás de uma máscara. Gesticulei amplamente, como se falasse uma língua estrangeira a dez metros de distância. Esquadrinhei a mesa de bolos caseiros como se estivesse diante de uma caverna de tesouros. Desisti de abraçar todo mundo. Botei as compras na minha sacola de pano, paguei a comanda e voltei para casa sob a nuvem diáfana do maravilhamento. “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!”, posso ter dito ao chegar em casa, parafraseando certo cosmonauta.<br><br></div><div>Em tempos de quarentena, a saudade de circular pela cidade chega a doer. Até descer com o lixo parece uma aventura extraordinária, que só efetuamos uma vez a cada três dias. Sair para ir à padaria, então, é um feito mais cobiçado que escalar os Sete Cumes. Não sei quando minha jornada se repetirá, já que o isolamento doméstico permanece – e deve se intensificar daqui para a frente. Só sei que agora toda breve saída é passível de se tornar uma epopeia em versos a ser narrada para a próxima geração: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ que outro valor mais alto se alevanta”, já dizia o velho Camões.<br><br></div><div>Minha filha, de 1 ano e 9 meses, não sai de casa há mais de 30 dias. Uma das nossas atividades favoritas agora é relembrar, juntas, todos os detalhes dos nossos piqueniques no parque, as tardes de Carnaval, os passeios de ônibus, as voltas no quarteirão e as viagens de metrô. Como se fossem épicas expedições a uma civilização que não deve ser esquecida.<br><br>Vanessa Barbara<br><br></div><div>Fonte: <a href="https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/brechas-urbanas/expedicao-a-padaria">https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/brechas-urbanas/expedicao-a-padaria<br></a><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:02:18 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603813726</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Sobre a crônica</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603815070</link>
         <description><![CDATA[<div><br><br></div><div>Uma leitora se refere aos textos aqui publicados como “reportagens”. Um leitor os chama de “artigos”. Um estudante fala deles como “contos”. Há os que dizem: “seus comentários”. Outros os chamam de “críticas”. Para alguns, é “sua coluna”.<br><br></div><div>Estão errados? Tecnicamente, sim – são crônicas –, mas… Fernando Sabino, vacilando diante do campo aberto, escreveu que “crônica é tudo o que o autor chama de crônica”.<br><br></div><div>A dificuldade é que a crônica não é um formato, como o soneto, e muitos duvidam que seja um gênero literário, como o conto, a poesia lírica ou as meditações à maneira de Pascal¹. Leitores, indiferentes ao nome da rosa, dão à crônica prestígio, permanência e força. Mas vem cá: é literatura ou é jornalismo? Se o objetivo do autor é fazer literatura e ele sabe fazer…<br><br></div><div>Há crônicas que são dissertações, como em Machado de Assis; outras são poemas em prosa, como em Paulo Mendes Campos; outras são pequenos contos, como em Nelson Rodrigues; ou casos, como os de Fernando Sabino; outras são evocações, como em Drummond e Rubem Braga; ou memórias e reflexões, como em tantos. A crônica tem a mobilidade de aparências e de discursos que a poesia tem – e facilidades que a melhor poesia não se permite.<br><br></div><div>Está em toda a imprensa brasileira, de 150 anos para cá. O professor Antonio Candido observa: “Até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se desenvolveu”.<br><br></div><div>Alexandre Eulálio, um sábio, explicou essa origem estrangeira: “É nosso familiar essay², possui tradição de primeira ordem, cultivada desde o amanhecer do periodismo nacional pelos maiores poetas e prosistas da época”. Veio, pois, de um tipo de texto comum na imprensa inglesa do século XIX, afável, pessoal, sem-cerimônia e, no entanto, pertinente.<br><br></div><div>Por que deu certo no Brasil? Mistérios do leitor. Talvez por ser a obra curta e o clima, quente.<br><br></div><div>A crônica é frágil e íntima, uma relação pessoal. Como se fosse escrita para um leitor, como se só com ele o narrador pudesse se expor tanto. Conversam sobre o momento, cúmplices: nós vimos isto, não é, leitor?, vivemos isto, não é?, sentimos isto, não é? O narrador da crônica procura sensibilidades irmãs.<br><br></div><div>Se é tão antiga e íntima, por que muitos leitores não aprenderam a chamá-la pelo nome? É que ela tem muitas máscaras. Recorro a Eça de Queirós, mestre do estilo antigo. Ela “não tem a voz grossa da política, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do crítico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiuçando”.<br><br></div><div>A crônica mudou, tudo muda. Como a própria sociedade que ela observa com olhos atentos. Não é preciso comparar grandezas, botar Rubem Braga diante de Machado de Assis. É mais exato apreciá-la desdobrando-se no tempo, como fez Antonio Candido em “A vida ao rés do chão”: “Creio que a fórmula moderna, na qual entram um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis³ de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma”. Ainda ele: “Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas”.<br><br></div><div>Elementos que não funcionam na crônica: grandiloquência, sectarismo, enrolação, arrogância, prolixidade. Elementos que funcionam: humor, intimidade, lirismo, surpresa, estilo, elegância, solidariedade. Cronista mesmo não “se acha”. As crônicas de Rubem Braga foram vistas pelo sagaz professor Davi Arrigucci como “forma complexa e única de uma relação do Eu com o mundo”. Muito bem. Mas Rubem Braga não se achava o tal. Respondeu assim a um jornalista que lhe havia perguntado o que é crônica:<br><br></div><div>— Se não é aguda, é crônica.<br><br></div><div>Ivan Ângelo. Veja São Paulo, 25/4/2007.<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>¹ Blaise Pascal (1623-1662), matemático, filósofo e teólogo francês, autor de Pensamentos.<br><br></div><div>² “Ensaio familiar.” Ensaio é um gênero inaugurado por Michel de Montaigne (1533-1592); vem da palavra francesa essayer (“tentar”). Um ensaio é um texto onde se encadeiam argumentos, por meio dos quais o autor defende uma ideia.<br><br></div><div>³ Em latim, “a quantidade necessária”.<br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:03:29 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603815070</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Catadores de tralhas e sonhos</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603816128</link>
         <description><![CDATA[<div>São centenas, talvez milhares os catadores de papel nessa megalópole. Puxam ou empurram carroças e catam objetos no lixo ou nas calçadas. É um museu de tralhas variadas: restos de materiais para construção, papel, caixas de papelão, embalagens de inúmeros produtos, e até mesmo objetos decorativos, alguns belos e antigos, desprezados por algum herdeiro.<br>Há carroças exóticas, pintadas com desenhos de figuras pop, seres mitológicos, nuvens, pássaros e vampiros. Em Santana, vi uma carroça que lembrava um jinriquixá, só que maior do que o veículo asiático.<br>Era puxada por um velho e transportava uma avó e seu netinho, sentados em pilhas de papel. Perguntei ao carroceiro quanto ele cobrava pelo transporte de passageiros.<br>“Depende… Pra perto daqui, cinco reais. Pra fora do bairro, cobro 15 ou 12, depende do passageiro e do dia. Não gasto gasolina, nem nada, é só força mesmo, amigo.”<br>E haja força, leitor. Mas esse meio de transporte é raro na metrópole. Quase todas as carroças só carregam quinquilharias, uma e outra exibem aforismos, poemas, ditados. Vi carroças líricas, políticas, filosóficas, cômicas, moralistas, anarquistas. Numa delas se lia:<br>“A verdade é uma desordem… Alguém tem dúvida?”.<br>Noutra, pintada de verde e amarelo: “Aqui só carrego bagunça, mas sou homem de paz”. A que mais me chamou atenção foi uma carroça linda, com uma pintura geométrica que lembra um quadro de Mondrian. Na lateral, estava escrito:<br>“Carrego todo tipo de tralha, e carrego um sonho dentro de mim”.<br>Era uma carroça mineira, pois ostentava uma bandeira de Minas. Conversei um pouco com esse carroceiro de São João del-Rei. Acho que perdeu a desconfiança nas ruas paulistanas, pois não se esquivou de mim, e ainda me mostrou uma luminária de aço, fabricada em Manchester (1946). Esse objeto havia sido abandonado numa caixa de papelão e recolhido pelo caprichoso carroceiro de Minas.<br>Especulei a origem da luminária e me indaguei: quantas páginas esse belo objeto tinha iluminado em noites do pós-guerra?<br>Depois o carroceiro abriu uma caixa e me mostrou livros velhos, em língua alemã.Disse que tinha encontrado tudo numa mesma calçada do Jardim Europa, e agora ia vender os livros para um sebo. Ele me olhou e acrescentou:<br>“Ando solto, não gosto de ser botado preso dentro de curral. A gente encontra cada coisa por aí… Só não encontra o que a gente sonha”.<br>Comprei a luminária desse filósofo ambulante, mas não me interessei pelos livros, que talvez sejam relidos por algum germanófilo de São Paulo.<br>Sei que não é fácil encontrar um sonho nas ruas; mas encontrei carroceiros simpáticos e um assunto para escrever esta crônica<br><br><br>Milton Hatoum<br><br>Caderno 2 do Jornal O Estado de São Paulo, em 27 de março de 2015.<br><br></div><div>&nbsp;</div><div><a href="https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/nossas-publicacoes/revista/paginas-literarias/artigo/1858/catadores-de-tralhas-e-sonhos,1658853">https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/biblioteca/nossas-publicacoes/revista/paginas-literarias/artigo/1858/catadores-de-tralhas-e-sonhos<br></a><br></div><div>&nbsp;<br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:04:25 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603816128</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Conduções</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603819104</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div><br></div><div>Pernas<br><br></div><div>Ando sem vontade de passar perfume e penteando o cabelo de qualquer jeito. Encostei o quarteto de sombras Aurora Boreal que comprei no catálogo e guardei minha boneca porta-brincos no fundo do armário. A bonequinha que tem um espaço na barriga e que batizei de Bertoleza. Sinto que não sou eu mesma sem perfume e sem brincos. Então, não sei quem está guiando meu corpo pela rua.<br><br></div><div>Os fones me garantem alguma intimidade. Quem passa por mim, não sabe o que estou ouvindo.<br><br></div><div>Ele é filho de Zambi<br><br></div><div>Ô, São Benedito, tenha dó<br><br></div><div>Coisa que me aborrece é tropeçar em monturos de lixo. São muitos os que encontro a caminho do ponto. Pela manhã, creio ser ainda mais indigesto. A carcaça de uma poltrona repousa na esquina da Nascer. Apresenta cicatrizes de queimadura. Ontem, quando passei voltando do trabalho, um povo cirandava em volta dela. Em noites frias costumam atear fogo em qualquer traste. Em noites quentes também. Se divertem assistindo ao balé das labaredas. O tempo é quem se encarrega de destruir os restos incendiados que ninguém recolhe. Há muitas carcaças se decompondo. Mobílias do cenário de outros balés. O processo é lento. Chuvas e sóis pra desgastar o material, até que se deteriore e desapareça. Ninguém nota.<br><br></div><div>As ruas daqui são pobretonas. Desvalidas. Tenho a sensação de que, todos os dias, enfeiam um pouco mais. Não bastassem os cabos embaraçados nos postes, um emaranhado de condutores atracados com restos de rabiola, agora, alguns fios ficam pendurados, tocando o chão. Outro dia, ouvi a senhora que vende tapioca na feira comentando com os vizinhos de barraca que os vagabundos arrancam os fios e desencapam pra vender o cobre. Zumbis fazem mesmo correrias desse tipo. Na fissura, vendem até o liquidificador da mãe. Quem recepta, quase sempre, banca o desentendido. Faz de conta que acredita que o liquidificador pertence mesmo a quem está se desfazendo dele a troco de bagatela. Assim como o ferro elétrico, da semana anterior. A frigideira. O motor da máquina de lavar, o relógio de parede. O doente aplica que tá vendendo baratinho, precisando do dinheiro pra pagar condução. Entrevista de emprego. O cidadão solidário se convence de que o motivo é nobre. Nem tinha interesse na peça, mas se dispõe a fazer caridade. Torcendo pra que, da próxima vez, o fissurado descole uma televisão. Quem sabe, até uma geladeira em bom estado. Nem sempre é preciso aplicar. Tem gente que se aproveita da situação sem pudor. Há quem desvie material hospitalar. Quem desencaminhe caminhão de merenda. Há até quem saqueie creches e escolas. E quem recepte objetos oferecidos nessas circunstâncias.<br><br></div><div>— Vagabundo também é o infeliz que compra o cobre, ciente de que é produto de roubo, minha tia!<br><br></div><div>O menino da banca de temperos respondeu assim.<br><br></div><div>A dona da barraca de verduras concordou:<br><br></div><div>— As companhias de fornecimento cobram o prejuízo da reposição dos fios nas tarifas. A gente acaba pagando o pato. Mas, se não tivesse quem comprasse, eles não tinham esse trabalho todo, não. Ladrão também é quem paga pelo material. Quem adquire peça de carro desmontado, sabendo que um coitado ficou ainda com o carnê da grossura de uma bíblia pra quitar. Isso quando não desligam a pessoa. Quando não finalizam o sujeito a troco de um monte de lata. Quase tiraram a vida do meu genro por causa de um carro.<br><br></div><div>Viajei no assunto, enquanto escolhia tomates. Enxerguei uma oficina escura. Os receptadores avaliando os produtos. Um barbudo careca gesticulando, alegando que as seguradoras cobrem os transtornos causados às vítimas. O barbudo falava alto dentro da minha cabeça: “se não podem pagar seguro, que não se metam a ter carro! As coisas precisam funcionar redondinho. Cada um que se vire. Quem não tem competência, nem condição, não se estabelece”. A conversa, regada a aperitivos, entre uma piada preconceituosa e uma expressão fascista corria solta. Acontece sempre assim comigo. Começo a analisar uma coisa e desembesto desvairada, num divagar sem fim. Acho que é isso o que está me deixando tão cansada. Já não tenho mais vinte anos. Nem trinta. Essas divagações me esgotam. Tento passar indiferente por essas pessoas jogadas nos colchões úmidos pelos líquidos da madrugada. Amontoadas nessa morte temporária causada pelo efeito do entorpecente. Desfrutando o sono reconfortante, resultado da garrafa de pinga entornada pra aquecer. Esquecer. Eu não queria reparar que a pele lisa desses pés inchados vai estourar em feridas logo, logo. As feridas que já nasceram estão infectadas. Eu queria me ater às palavras que meus fones reproduzem.<br><br></div><div><em>Deixe-me ir<br></em><br></div><div><em>Preciso andar<br></em><br></div><div>Empreendo passar pela moça que dorme embrulhada na colcha esfarrapada sem imaginá-la de banho tomado, cabelo penteado e dentes escovados, vestida num jeans de promoção. Carregando uma bolsa comprada na baciada, contendo um guarda-chuva, uma garrafa com água congelada, carteira, batom, marmita e um bilhete único. Apenas passar por essa moça que dorme com o corpo exposto, freio de baba maquiando o rosto, dominada pela droga, sem enxergá-la na minha mente folheando um catálogo em seu horário de almoço. A marmita vazia e o cigarro queimando, junto ao copo de café. Solzinho visitando o uniforme. Dez minutos faltando ainda pra tocar o sinal de retorno à sessão. A caneta desenhando seu nome sobre a foto do frasco de perfume que a revendedora topou parcelar em duas vezes. Dia cinco e dia vinte. É tão gostoso comprar por catálogo. Rabiscar as folhas e ficar esperando com ansiedade a chegada dos produtos. Sentir o cheiro, conferir a cor. Na minha fantasia, a moça que dorme no chão, sonhando sabe-se lá com quê, vai ao supermercado na saída do trabalho. Escolhe umas maçãs. Põe um litro de leite no cestinho, duas latinhas. Ovos, uma esponja nova para a pia. Um quilo de filé de frango da promoção para presentear a mãe, que ela pretende visitar no dia seguinte. Um sábado. A moça paga as compras com seu vale-alimentação e sai carregando a sacola. O segurança a cumprimenta com um olhar travesso. Ela sorri, concluindo que o quarteto de sombras Aurora Boreal a torna, de fato, irresistível. Encaixa os fones de ouvido e se requebra involuntariamente.<br><br></div><div><em>Os bóias-frias<br></em><br></div><div><em>Quando tomam umas biritas<br></em><br></div><div><em>Espantando a tristeza<br></em><br></div><div><em>Sonham com bife-a-cavalo, batata-frita<br></em><br></div><div><em>E a sobremesa<br></em><br></div><div><em>É goiabada cascão com muito queijo<br></em><br></div><div><em>Depois café, cigarro e um beijo<br></em><br></div><div><em>De uma mulata chamada<br></em><br></div><div><em>Leonor ou Dagmar<br></em><br></div><div>Lilia Guerra<br><br>Fonte: <a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/cronica/conducoes/">https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/cronica/conducoes/<br></a><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:06:50 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603819104</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Regra para uso dos bondes</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603821490</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div><br></div><div>Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem tido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.<br><br></div><div>ART. I – Dos encatarroados Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: – ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.<br><br></div><div>ART. II – Da posição das pernas As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.<br><br></div><div>ART. III – Da leitura dos jornais Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.<br><br></div><div>ART. IV – Dos quebra-queixos É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: – a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.<br><br></div><div>ART. V – Dos amoladores Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente enxergá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.<br><br></div><div>ART. VI – Dos perdigotos Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.<br><br></div><div>ART. VII – Das conversas Quando duas pessoas, sentadas a distância, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.<br><br></div><div>ART. VIII – Das pessoas com morrinha As pessoas que tiverem morrinha podem participar dos bondes indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-los mesmo da janela.<br><br></div><div>ART. IX – Da passagem às senhoras Quando alguma senhora entrar, o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má-criação.<br><br></div><div>ART. X – Do pagamento Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.<br><br></div><div>Machado de Assis<br>Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 04/07/1883.<br><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:08:36 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603821490</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Alegrias</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603823052</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div>Pouca gente sabe, mas entre todos os tipos de trabalho que já tive, um deles foi o de palhaço, ou clown, como alguns preferem dizer. De nariz vermelho e tudo, eu tocava violão no espetáculo “João Jiló”, do grupo TIA de teatro. Apresentávamos principalmente para crianças das escolas de Canoas. Aquele período da minha vida me rendeu o apelido de Krusty, porque o Marcelo e a Mariana, do TIA, me achavam parecido com o célebre palhaço fumante e beberrão dos Simpsons. E, pensando bem, talvez tenha sido por isso — por acreditar que eu precisava de uma fonte de alegria mais saudável do que o tabaco e o álcool — que eles compartilharam comigo as canções de um cara que eu não conhecia, mas que eles imaginavam que eu iria gostar bastante. Copiei as músicas num pendrive, se não me engano, e prometi escutar assim que estivesse de volta em casa, depois da nossa pequena temporada de apresentações do “João Jiló” em Canoas, durante a qual fiquei no apartamento deles, para economizar passagens de ônibus e de trem. E aconteceu que, finda a temporada, no retorno a Porto Alegre, vinha eu caminhando pela BR até a estação de trem mais próxima, com as canções a serem experimentadas no bolso, quando, de repente, me percebi com grande fome. Na mesma hora, os meus olhos ficaram atentos às fachadas, procurando qualquer tipo de anúncio de comida, e, não demorou muito, achei uma lanchonete, logo adiante. Ao chegar mais perto, verifiquei que estava fechada, mas, para a minha sorte — ou para o meu azar, nunca se sabe —, um cara resolveu sair dali no exato instante em que eu passava. Aí, num impulso, movido pela fome, me fiz de louco e aproveitei a entrada momentaneamente aberta para invadir o lugar, passando espremido por entre o cara e o umbral, rápido que nem flecha. Agora que eu já tinha entrado, era mais fácil me venderem logo alguma coisa do que ficarem me explicando que a lanchonete ainda não estava aberta — foi o que pensei, otimista. Só que o cara plantado lá atrás do balcão me lançou um olhar estranho. Um olhar que não consegui decifrar muito bem, cheio de algum tipo de surpresa. Não a simples surpresa de quem vê alguém adentrar o seu estabelecimento antes da hora; outro tipo de surpresa, mais bicuda, mais ofendida.<br><br></div><div>— Tem pastel, mano? Ele só fez que não com a cabeça<br><br></div><div>— E bolinho de batata, tem?<br><br></div><div>Ele só fez que não com a cabeça.<br><br></div><div>— Enroladinho de salsicha, então?<br><br></div><div>Ele só fez que não com a cabeça. Fui obrigado a rir.<br><br></div><div>— Pô, e o que que tem, então? Pela primeira vez, ele se dignou a falar.<br><br></div><div>— Tem nada pra ti aqui, magrão.<br><br></div><div>Teimoso, na esperança de provar que o sujeito estava enganado, olhei ao redor, procurando qualquer coisa de comer. Um salgadinho desses com gosto de isopor, uma bolacha recheada dessas que dão dor de barriga, umas balas de hortelã dessas que cortam todo o céu da boca, qualquer coisa. Não achei nada. Ele parecia ter razão. Os mostruários do balcão estavam todos vazios. Não existiam prateleiras, nem baleiros, nem freezers para bebidas. Nada.<br><br></div><div>Só o que havia, à minha esquerda, lá junto à parede, era uma mesa enorme, com alguns caras sentados em volta. Imediatamente percebi que eles tinham interrompido algum trabalho para ficar me olhando, e um segundo depois me dei conta de que o trabalho em questão era embalar aquele montão de cocaína que estava em cima da mesa.<br><br></div><div>Agradeci ao balconista com um aceno de cabeça e fui me retirando de fininho. E só então notei que o cara que estava de saída e que tinha aberto a porta, possibilitando a minha passagem forçada, permanecia até agora imóvel à entrada, com os olhos cravados em mim, a mão na cintura por baixo da camisa. Mas me deixou passar e ir embora.<br><br></div><div>Quando a gente passa por uma experiência de quase-presunto como essa, uma voz que passou a vida toda calada resolve gritar forte, lá no fundo, dentro da gente:<br><br></div><div>— <em>Não! Agora não! Ainda não! Por favor, só mais uma chance!<br></em><br></div><div>É uma súplica. Não sei a quem, não sei a o quê, mas é uma súplica. Uma súplica por mais uma chance. E, depois de sair ileso daquela lanchonete, me atrevi a perguntar a mim mesmo: só mais uma chance para quê? Qual era, afinal, esse meu objetivo tão precioso, que me levava a considerar inaceitável o fim? O que, afinal, me fazia tão apegado à existência, por mais dura que fosse?<br><br></div><div>Com surpresa, notei que muitas coisas podiam responder a essa pergunta. E, com mais surpresa ainda, percebi que nem uma dessas coisas era grandiosa. O sorriso da minha mãe no meio da maior adversidade. O vento fresco no meio da tarde mais quente. A conversa leve no meio do trabalho mais pesado. O pão sem nada no meio da maior fome. A marquise oportuna no meio da maior chuva. O carinho no cachorro no meio da maior desesperança.<br><br></div><div>Alegrias. Alegrias simples. Alegriazinhas bestas.<br><br></div><div>Naquele dia, depois da minha experiência de quase-presunto, caminhei pelas ruas com a clara percepção de que a rotina é uma farsa. Porque os dias são todos inéditos, sabia? Não importa se todo dia a gente vai para o mesmo trabalho pelo mesmo caminho depois de dormir na mesma cama e tomar café à mesma mesa. Não importa. Os dias são inéditos. As horas são inéditas. Esses minutos e minutos a se desenrolar vertiginosamente bem debaixo do nosso nariz possuem cada qual o seu próprio segredo, cada qual a sua própria alegria escondida.<br><br></div><div>Como a alegria de chegar em casa são e salvo para escutar as músicas do cara desconhecido. Fui logo espetando o pendrive no computador. E a primeiríssima faixa que escutei, por incrível que possa parecer, começava com um pequeno diálogo:<br><br></div><div>— Cartola, manda aquele teu samba “Alegria”.<br><br></div><div>— É verdade! Me lembrei! Vou cantar esse samba!<br><br></div><div>Um arpejo leve no violão, um acorde avulso de cavaquinho, e daí por diante o tal de Cartola seguiu cantando:<br><br></div><div><em>Alegria!<br></em><br></div><div><em>Era o que faltava em mim!<br></em><br></div><div><em>Uma esperança vaga!<br></em><br></div><div><em>Eu já encontrei!<br></em><br></div><div>Pois é. Foi assim que conheci o Cartola. E, como não sou louco, nem quero ficar, nunca mais parei de escutar as suas canções. Recorro ao Mestre sempre, sempre, sempre, especialmente quando tudo parece tão… impossível.<br><br></div><div>Sei bem que um dia vou entrar numa lanchonete para nunca mais sair. Uma lanchonete sem nada. Só espero poder escutar bastante Cartola até lá.<br><br></div><div>José Falero<br>Vila Sapo. [S.l.]: Venas Abiertas, 2019.<br><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:09:42 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603823052</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Um caso de burro</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603824546</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div><br></div><div>Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a importância; os gostos não são iguais.<br><br></div><div>Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente, que parecia estar próximo do fim.<br><br></div><div>Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que seja que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos. Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez – ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.<br><br></div><div>O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas ideias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.<br><br></div><div>E diria o burro consigo:<br><br></div><div>“Por mais que vasculhe a consciência, não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com ideia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bonde, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.”<br><br></div><div>“Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.”<br><br></div><div>“A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada – ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim…”<br><br></div><div>Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?<br><br></div><div>Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto.<br><br></div><div>Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.<br><br>Machado de Assis</div><div>Disponível em <a href="https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/5252213">https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/5252213 /</a>.<br><br></div><div><br><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:10:51 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603824546</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Cobrança</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603826859</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div><br></div><div>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente.”<br>— Você não pode fazer isso comigo — protestou ela.<br>— Claro que posso — replicou ele. — Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.<br>— Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise…<br>— Já sei — ironizou ele. — Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.<br>— Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta…<br>— Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.<br>Neste momento começou a chuviscar.<br>— Você vai se molhar — advertiu ela. — Vai acabar ficando doente.<br>Ele riu, amargo:<br>— E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.<br>— Posso lhe dar um guarda-chuva…<br>— Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.<br>Ela agora estava irritada:<br>— Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.<br>— Sou seu marido — retrucou ele — e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.<br>Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.<br><br>Moacyr Scliar<br><br></div><div>In: O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2001.© by herdeiros de Moacyr Scliar.<br><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:12:33 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603826859</guid>
      </item>
      <item>
         <title>As locutoras da quarentena</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603829360</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div>Tenho enorme admiração por esses tenores que cantam ópera nas janelas para entreter os vizinhos durante a quarentena. Há ainda aquelas pessoas que tocam instrumentos musicais (“Ode à Alegria”, de Beethoven, é uma opção comum), dão aulas de ginástica, projetam filmes nas fachadas, parabenizam coletivamente os aniversariantes e cantam bingo (aconteceu na Espanha).<br><br></div><div>Meus vizinhos – coitados – não têm tanta sorte. Só o que eles ouvem a tarde toda é minha voz sem graça narrando, da varanda, acontecimentos absolutamente prosaicos para minha filha, Mabel, de quase 2 anos. (É o que dá ser vizinho de escritora.)<br><br></div><div>Outro dia, por exemplo, devem ter acompanhado com desânimo minha arrastada descrição de uma moça de blusa azul descendo a escadaria da rua: “Ela vai descer devagarzinho, olha só, segurando no corrimão… Que cuidadosa! Ela está carregando uma sacola? Ou é uma bolsa? Para onde será que está indo?” Observamos em silêncio o percurso da mulher, que agora caminha pela calçada. “Ela vai trazer bolo para a Mabel”, responde a minha filha depois de pensar um pouco. Acho essa hipótese bastante digna.<br><br></div><div>Desviamos a atenção para um senhor que passeia com os cachorros. “Olha! Acho que é o Francesco!”, eu grito, com excessiva alegria, referindo-me a um golden retriever do nosso prédio. Mabel não dá muita bola e começa a brincar de achatar o nariz no vidro.<br><br></div><div>Peço sinceras desculpas aos vizinhos, mas estamos fazendo o possível para nos entreter nesta quarentena. Conversar é o que há de mais prático em nosso limitado arsenal de distrações, sobretudo quando as respostas podem ser tão engraçadas. Minha expertise na função de cronista de varandas veio bem a calhar. Quando o tempo está bom, passamos um sem-número de horas nesse espaço exíguo observando o (pouco) movimento e nos alimentando de qualquer migalha de agitação registrada nas redondezas. Um ponto alto da nossa tocaia ocorreu duas semanas atrás, quando uma menina disparou a correr pela rua até alcançar uma amiga, que seguia bem à frente.<br><br></div><div>“Corre muito!”, reparou minha filha, com verve de comentarista de olimpíada. Foi eletrizante o reencontro. “Será que elas vão pegar o trenzinho juntas?”, especulei, apontando para a estação de metrô. “O coronavírus está na cola dela”, disse Mabel, do nada. Passamos dias rememorando o episódio. Os vizinhos já devem ter ouvido dezenas de elegias ao ocorrido, todas caudalosas feito parágrafos proustianos sem sombra de ponto-final.<br><br></div><div>O vizinho da frente, aliás, continua acendendo as luzinhas de Natal toda noite. (Já passamos da Páscoa.) Nós fazemos o mesmo, naquilo que eu não sei mais se é uma competição acirrada ou um solidário meneio de cabeça. Outro vizinho acena de vez em quando para nós. Ele fica sentado na varanda por longos períodos e deve observar com curiosidade a nossa dupla sapateando, pulando e fazendo movimentos aleatórios de ioga. Às vezes, Mabel usa a minha barriga como tambor. Ou então ficamos brincando com as sombras, abrindo e fechando as cortinas, catando fios de cabelo no chão, contando quantos carros vermelhos passam na rua. Até os sinos da igreja servem de tópico para as nossas histórias.<br><br></div><div>Por uma dessas tristes ironias, moramos perto de um estacionamento de ambulâncias do Hospital Sancta Maggiore. Um de nossos passatempos mais recorrentes hoje em dia é acompanhar o movimento das ambulâncias subindo e descendo a ladeira do estacionamento. Ficamos imaginando que os veículos são amigos e trabalham o dia todo levando pessoas ao hospital, mas sempre voltam para descansar e compartilhar as novidades. As sirenes são seus gritos agudos, as luzes vermelhas são um recado de que vão voltar.<br><br></div><div>Um dia apareceu no chão da varanda um enorme besouro morto, já meio seco. Cantamos uma música para ele e ficamos conversando baixinho sobre a vida de aventuras que ele teria levado. Em outra ocasião, acompanhamos a saga de uma aranha tentando subir pela parede e caindo repetidas vezes. Juro que não fiz nenhuma analogia de autoajuda. O vento é outro fenômeno que serve de assunto para nossas infinitas confabulações: basta soprar uns balões e deixá-los na varanda para que comecem a dançar para lá e para cá.<br><br></div><div>Quando venta forte, temos assunto. Quando o ar está parado, idem. Comentamos o cheiro de sopa, de bife à milanesa e de pipoca que vem das outras janelas. Compramos ovos imaginários para os vizinhos e saímos distribuindo a todos os interessados. (Para Mabel, não há quem resista a um bom prato de ovos mexidos.)<br><br></div><div>E temos também a Lua, as estrelas e o planeta Vênus; a estação espacial internacional e os satélites Starlink; as nuvens carregadas e os pedaços de céu azul. Poucos. Mas suficientes.<br><br>Vanessa Barbara</div><div>Fonte: <a href="https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/brechas-urbanas/locutoras-quarentena">https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/brechas-urbanas/locutoras-quarentena<br></a><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:14:17 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603829360</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Face a face</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603832758</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div>Telefonar voltou à moda. Depois de uma temporada intensa de e-mails, posts, voice-mails, memes e emojis, a quarentena nos fez redescobrir o prazer de ver os amigos – nem que seja pelo distanciamento social da chamada de vídeo. Quando o rosto conhecido surge na telinha do celular, falando de verdade com você, é como se um novo mundo antigo se descortinasse.<br><br></div><div>Chamadas de vídeo lembram as festas de Natal de nossa infância, na parte em que a madrinha chegava carregando um presente bem vistoso. Só depois de adultos é que fomos descobrir as arapucas ocultas em cada rabanada. Na infância, bastava um pacote embrulhado em papel colorido pra coisa ficar excitante.<br><br></div><div>Em tempos de isolamentos e rostos cobertos por máscaras, tem de haver um jeito de se sentir sócio do clube. A tecnologia tem dado conta do recado, com limites. Grupos de trabalho e debates, como os dos aplicativos Zoom e Team, são ótimos pra resolver problemas e esclarecer dúvidas, mas não suprem nossa carência de humanidade.<br><br></div><div>Como disse um amigo esta semana, os aplicativos são os terrenos onde praticamos pequenos monólogos. Dificilmente alguém interrompe quem está falando. Falta a incompletude do diálogo, que só o telefonema permite.<br><br></div><div>Quantas frases interrompidas, quantos assuntos deixados pela metade, quantos temas que mudam como o vento! Que delícia tudo isso! Tem nada melhor que desligar e bater na testa, esqueci de falar tal coisa. Ligação boa sempre deixa um rabicho de fora, desculpa esfarrapada pra outro telefonema – que, muitas vezes, não será dado.<br><br></div><div>Na chamada de vídeo, ninguém fica esplendoroso. O bom é que ninguém também fica assustador – exceto os casos perdidos, claro. Alguns de nós ficam sem saber pra onde dirigir o olhar e outros se atrapalham com os ruídos corporais que podem atravessar o espaço através do celular.<br><br></div><div>Sempre checamos nossa imagem, na pequena telinha que aparece como encarte. O cabelo está bom? Não, mas é o que temos para o momento. A roupa, a voz, parece até que vamos corrigir alguma coisa. Mas quando a conversa engata, esquecemos desses detalhes bestas – assim como na vida real.<br><br></div><div>Muitas vezes, o melhor vem no fim, quando a conversa termina. Sobra um sorriso meio bobo na cara, aquela euforia de quem passou um dia gostoso na praia. A sensação de ter vivido um momento de prazer é o melhor efeito colateral dessas micro-televisões só nossas.<br><br></div><div>Mario Viana<br>Fonte: <a href="https://vianices.wordpress.com/2020/07/26/face-a-face/">https://vianices.wordpress.com/2020/07/26/face-a-face/<br></a><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:16:35 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603832758</guid>
      </item>
      <item>
         <title>A última crônica</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603840543</link>
         <description><![CDATA[<h1><br></h1><div><br></div><div><br></div><div>A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.<br><br></div><div>Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.<br><br></div><div>Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.<br><br></div><div>A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.<br><br></div><div>São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.<br><br></div><div>Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.<br><br></div><div>Fernando Sabino<br><em>Elenco de cronistas modernos</em>.<br>21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.<br><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-06-14 00:21:45 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603840543</guid>
      </item>
      <item>
         <title>A última crônica</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603841323</link>
         <description><![CDATA[]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?v=iEKhXNlHJ7Q" />
         <pubDate>2021-06-14 00:22:20 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603841323</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Descobrimento do Brasil: eu vi!</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603843801</link>
         <description><![CDATA[]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?v=Qq0aNhV1up0" />
         <pubDate>2021-06-14 00:24:10 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603843801</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O homem nu</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603846622</link>
         <description><![CDATA[]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?v=KQfBI8FqSug" />
         <pubDate>2021-06-14 00:26:02 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1603846622</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Áudio: Cobrança </title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1605201663</link>
         <description><![CDATA[<div>Moacyr Scliar</div>]]></description>
         <enclosure url="https://drive.google.com/file/d/1C9WU4ZmMwQWSXralcfQVAHcKj0QY_cXN/view?usp=sharing" />
         <pubDate>2021-06-14 14:18:29 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1605201663</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Áudio: Um caso de burro</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1605206868</link>
         <description><![CDATA[<div>Machado de Assis</div>]]></description>
         <enclosure url="https://drive.google.com/file/d/15fAoAYEihSwwaWIvZ05g0dzqBq2nvyHi/view?usp=sharing" />
         <pubDate>2021-06-14 14:20:31 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1605206868</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Áudio: Sobre a crônica</title>
         <author>linguaportuguesagepaf</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1605211739</link>
         <description><![CDATA[<div>Ivan Ângelo</div>]]></description>
         <enclosure url="https://drive.google.com/file/d/1ITgF-QB1U7q7bp-gNn7MvWFfI8X5WhYS/view?usp=sharing" />
         <pubDate>2021-06-14 14:22:24 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1605211739</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>helenaracabral</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1638993470</link>
         <description><![CDATA[<div>FACE A FACE<br><br>Telefonar voltou à moda. Depois de uma temporada intensa de e-mails, posts, voice-mails, memes e emojis, a quarentena nos fez redescobrir o prazer de ver os amigos – nem que seja pelo distanciamento social da chamada de vídeo. Quando o rosto conhecido surge na telinha do celular, falando de verdade com você, é como se um novo mundo antigo se descortinasse.<br><br></div><div>Chamadas de vídeo lembram as festas de Natal de nossa infância, na parte em que a madrinha chegava carregando um presente bem vistoso. Só depois de adultos é que fomos descobrir as arapucas ocultas em cada rabanada. Na infância, bastava um pacote embrulhado em papel colorido pra coisa ficar excitante.<br><br></div><div>Em tempos de isolamentos e rostos cobertos por máscaras, tem de haver um jeito de se sentir sócio do clube. A tecnologia tem dado conta do recado, com limites. Grupos de trabalho e debates, como os dos aplicativos Zoom e Team, são ótimos pra resolver problemas e esclarecer dúvidas, mas não suprem nossa carência de humanidade.<br><br></div><div>Como disse um amigo esta semana, os aplicativos são os terrenos onde praticamos pequenos monólogos. Dificilmente alguém interrompe quem está falando. Falta a incompletude do diálogo, que só o telefonema permite.<br><br></div><div>Quantas frases interrompidas, quantos assuntos deixados pela metade, quantos temas que mudam como o vento! Que delícia tudo isso! Tem nada melhor que desligar e bater na testa, esqueci de falar tal coisa. Ligação boa sempre deixa um rabicho de fora, desculpa esfarrapada pra outro telefonema – que, muitas vezes, não será dado.<br><br></div><div>Na chamada de vídeo, ninguém fica esplendoroso. O bom é que ninguém também fica assustador – exceto os casos perdidos, claro. Alguns de nós ficam sem saber pra onde dirigir o olhar e outros se atrapalham com os ruídos corporais que podem atravessar o espaço através do celular.<br><br></div><div>Sempre checamos nossa imagem, na pequena telinha que aparece como encarte. O cabelo está bom? Não, mas é o que temos para o momento. A roupa, a voz, parece até que vamos corrigir alguma coisa. Mas quando a conversa engata, esquecemos desses detalhes bestas – assim como na vida real.<br><br></div><div>Muitas vezes, o melhor vem no fim, quando a conversa termina. Sobra um sorriso meio bobo na cara, aquela euforia de quem passou um dia gostoso na praia. A sensação de ter vivido um momento de prazer é o melhor efeito colateral dessas micro-televisões só nossas.<br><br>Mário Viana.<br><br>Aluna: Helena Rabêlo Cabral.&nbsp;</div>]]></description>
         <pubDate>2021-07-06 15:52:48 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1638993470</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Cobrança.</title>
         <author>gislaynemdsantos</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1639080196</link>
         <description><![CDATA[<div><br>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente".<br>― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela.<br>― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora<br>inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.<br>― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...<br>― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus<br>negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.<br>― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...<br>― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.<br>Neste momento começou a chuviscar.<br>― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente.<br>Ele riu, amargo:<br>― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.<br>― Posso lhe dar um guarda-chuva...<br>― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.<br>Ela agora estava irritada:<br>― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e<br>você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.<br>Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.<br>Moacyr Sclair</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-06 17:17:15 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1639080196</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1641866787</link>
         <description><![CDATA[<div>Escola Tomé francisco da Silva&nbsp;<br>Lagoa da cruz/ quixaba-pe&nbsp;<br>Aluno: José Rafael Andrade Cordeiro&nbsp;<br>Data: 08/07/2021</div>]]></description>
         <enclosure url="https://padlet-uploads.storage.googleapis.com/1188919398/df5d0d8f552eb33f31b781224e30ef39/1625748732828397886668353674159.jpg" />
         <pubDate>2021-07-08 12:53:56 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1641866787</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluna: Nicolle Thauanny da Silva pires </title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1642091246</link>
         <description><![CDATA[<div>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente". ― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela. ― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou. ― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise... ― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo. ― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta... ― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida. Neste momento começou a chuviscar. ― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu, amargo: ― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve. ― Posso lhe dar um guarda-chuva... ― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva. Ela agora estava irritada: ― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação. Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. Moacyr sclair</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-08 15:42:46 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1642091246</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluna: Júlia Diniz Rodrigues 8º ano B</title>
         <author>jasliadirodrigues</author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1642167570</link>
         <description><![CDATA[<div>Crônica: COBRANÇA Moacyr Scliar<br>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente".<br>― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela.<br>― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora<br>inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.<br>― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...<br>― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus<br>negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.<br>― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...<br>― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.<br>Neste momento começou a chuviscar.<br>― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente.<br>Ele riu, amargo:<br>― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.<br>― Posso lhe dar um guarda-chuva...<br>― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.<br>Ela agora estava irritada:<br>― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e<br>você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.<br>Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-08 16:49:06 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1642167570</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluna: Marianne Pires Mendes </title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1642216863</link>
         <description><![CDATA[<div>8 ano B</div><h1>Face a face</h1><div>Publicado em <a href="https://vianices.wordpress.com/2020/07/26/face-a-face/">26 de julho de 2020</a></div><div>Telefonar voltou à moda. Depois de uma temporada intensa de e-mails, posts, voice-mails, memes e emojis, a quarentena nos fez redescobrir o prazer de ver os amigos – nem que seja pelo distanciamento social da chamada de vídeo. Quando o rosto conhecido surge na telinha do celular, falando de verdade com você, é como se um novo mundo antigo se descortinasse.<br><br></div><div>Chamadas de vídeo lembram as festas de Natal de nossa infância, na parte em que a madrinha chegava carregando um presente bem vistoso. Só depois de adultos é que fomos descobrir as arapucas ocultas em cada rabanada. Na infância, bastava um pacote embrulhado em papel colorido pra coisa ficar excitante.<br><br></div><div>Em tempos de isolamentos e rostos cobertos por máscaras, tem de haver um jeito de se sentir sócio do clube. A tecnologia tem dado conta do recado, com limites. Grupos de trabalho e debates, como os dos aplicativos Zoom e Team, são ótimos pra resolver problemas e esclarecer dúvidas, mas não suprem nossa carência de humanidade.<br><br></div><div>Como disse um amigo esta semana, os aplicativos são os terrenos onde praticamos pequenos monólogos. Dificilmente alguém interrompe quem está falando. Falta a incompletude do diálogo, que só o telefonema permite.<br><br></div><div>Quantas frases interrompidas, quantos assuntos deixados pela metade, quantos temas que mudam como o vento! Que delícia tudo isso! Tem nada melhor que desligar e bater na testa, esqueci de falar tal coisa. Ligação boa sempre deixa um rabicho de fora, desculpa esfarrapada pra outro telefonema – que, muitas vezes, não será dado.<br><br></div><div>Na chamada de vídeo, ninguém fica esplendoroso. O bom é que ninguém também fica assustador – exceto os casos perdidos, claro. Alguns de nós ficam sem saber pra onde dirigir o olhar e outros se atrapalham com os ruídos corporais que podem atravessar o espaço através do celular.<br><br></div><div>Sempre checamos nossa imagem, na pequena telinha que aparece como encarte. O cabelo está bom? Não, mas é o que temos para o momento. A roupa, a voz, parece até que vamos corrigir alguma coisa. Mas quando a conversa engata, esquecemos desses detalhes bestas – assim como na vida real.<br><br></div><div>Muitas vezes, o melhor vem no fim, quando a conversa termina. Sobra um sorriso meio bobo na cara, aquela euforia de quem passou um dia gostoso na praia. A sensação de ter vivido um momento de prazer é o melhor efeito colateral dessas micro-televisões só nossas.<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-08 17:38:25 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1642216863</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluna:Laura Gonçalves da silva 8A</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1644194822</link>
         <description><![CDATA[<div>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente". ― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela. ― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou. ― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise... ― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo. ― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta... ― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida. Neste momento começou a chuviscar. ― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu, amargo: ― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve. ― Posso lhe dar um guarda-chuva... ― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva. Ela agora estava irritada: ― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação. Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. Moacyr sclair</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-10 19:07:45 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1644194822</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluno Vitor Gabriel Mendes Casusa 8A</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1649676014</link>
         <description><![CDATA[<div>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente". ― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela. ― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou. ― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise... ― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo. ― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta... ― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida. Neste momento começou a chuviscar. ― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu, amargo: ― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve. ― Posso lhe dar um guarda-chuva... ― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva. Ela agora estava irritada: ― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação. Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. Moacyr sclair</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-14 16:43:35 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1649676014</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1651487291</link>
         <description><![CDATA[<div>Aluna: Sâmia Antas Xavier.&nbsp; &nbsp; &nbsp;Professora: Cristiane.&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Turma: 8° ano "A"&nbsp;<br>Cobrança:&nbsp;<br>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado<br>para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes:<br>"Aqui mora uma devedora inadimplente".<br>― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela.<br>― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é<br>uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe<br>cobrar, você não pagou.<br>― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...<br>― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque<br>lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu?<br>Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.<br>― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...<br>― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você,<br>expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto.<br>Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar<br>aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.<br>Neste momento começou a chuviscar.<br>― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu,<br>amargo:<br>― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.<br>― Posso lhe dar um guarda-chuva...<br>― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guardachuva. Ela agora estava irritada:<br>― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu<br>marido, você mora aqui.<br>― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou<br>cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira,<br>eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu.<br>E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você<br>que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você<br>cumprir sua obrigação.<br>Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso<br>pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa,<br>carregando o seu cartaz.</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-15 18:22:50 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1651487291</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1651490724</link>
         <description><![CDATA[<div>Lidhia Maria&nbsp;<br><br>8 ano A&nbsp;<br>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado<br>para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes:<br>"Aqui mora uma devedora inadimplente".<br>― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela.<br>― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é<br>uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe<br>cobrar, você não pagou.<br>― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...<br>― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque<br>lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu?<br>Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.<br>― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...<br>― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você,<br>expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto.<br>Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar<br>aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.<br>Neste momento começou a chuviscar.<br>― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu,<br>amargo:<br>― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.<br>― Posso lhe dar um guarda-chuva...<br>― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guardachuva. Ela agora estava irritada:<br>― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu<br>marido, você mora aqui.<br>― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou<br>cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira,<br>eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu.<br>E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você<br>que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você<br>cumprir sua obrigação.<br>Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso<br>pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa,<br>carregando o seu cartaz.</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-15 18:27:29 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1651490724</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Julliany Vitória 8º A</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1651642479</link>
         <description><![CDATA[<div>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado<br>para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes:<br>"Aqui mora uma devedora inadimplente".<br>― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela.<br>― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é<br>uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe<br>cobrar, você não pagou.<br>― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...<br>― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque<br>lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu?<br>Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.<br>― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...<br>― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você,<br>expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto.<br>Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar<br>aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.<br>Neste momento começou a chuviscar.<br>― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu,<br>amargo:<br>― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.<br>― Posso lhe dar um guarda-chuva...<br>― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guardachuva. Ela agora estava irritada:<br>― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu<br>marido, você mora aqui.<br>― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou<br>cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira,<br>eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu.<br>E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você<br>que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você<br>cumprir sua obrigação.<br>Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso<br>pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa,<br>carregando o seu cartaz.</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-15 22:42:57 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1651642479</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O conselheiro</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1653382025</link>
         <description><![CDATA[<div>Heleninha possuía um ursinho de <em>estimação desde sua infância. Quando ainda era pequenina -a mãe contava a João- Heleninha pedia conselhos ao seu urso e por mais incrível que possa soar eles se mostravam muito sensatos. Na lua de mel, ela fez questão de levar a pelúcia e João até mesmo teve de dormir na sala no dia seguinte por tirar pouco de sua esposa, e isso foi ideia de Tedi. Tedi ainda contara a sua dona que João voltaria a fazer sucesso no mercado de trabalho. O marido sentiu interesse e achou que seria bom dar oportunidade ao conselheiro de Heleninha, e foi isso que ele fez. Ele pediu para que&nbsp; Heleninha conversasse com o ursinho sobre o assunto e já estava obtendo sucesso de imediato, mas ele não contaria a ninguém a maneira de como reergueu-se.</em><br><br><strong>Aluna: Adrieny Maria Cândido Silva. &nbsp; Turma: 8º ano "A"</strong></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-17 15:32:51 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1653382025</guid>
      </item>
      <item>
         <title> Maria Júlia   8º&quot;A&quot;.   BRINCADEIRA                           Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:– Eu sei de tudo.Depois de um silêncio, o outro disse:– Como é que você soube?– Não interessa. Sei de tudo.– Me faz um favor. Não espalha.– Vou pensar.– Por amor de Deus.– Está bem. Mas olhe lá, hein?Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.– Sei de tudo.– Co- como?– Sei de tudo.– Tudo o quê?– Você sabe.– Mas é impossível. Como é que você descobriu?A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:– Alguém mais sabe?Outras se tornavam agressivas:– Está bem, você sabe. E daí?– Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.– Se você contar para alguém, eu…– Depende de você.– De mim, como?– Se você andar na linha, eu não conto.– Certo.Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.– Eu sei de tudo.– Tudo o quê?– Você sabe.– Não sei. O que é que você sabe?– Não se faz de inocente.– Mas eu realmente não sei.– Vem com essa.– Você não sabe de nada.– Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?– Não existe nada.– Olha que eu vou espalhar…– Pode espalhar que é mentira.– Como é que você sabe o que eu vou espalhar?– Qualquer coisa que você espalhar será mentira.– Está bem. Vou espalhar.Mas dali a pouco veio um telefonema.– Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre nada daquilo.– Aquilo o quê?– Você sabe.Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:– Você contou para alguém?– Ainda não.– Puxa. Obrigado.Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.– Por que eu? – quis saber.– A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.– Por quê?– Pela sua descrição.Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:– Sei de tudo.– Co- como?– Sei de tudo.– Tudo o quê?– Você sabe.Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigara. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que a voz que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que mais se ouvia era a dele, gritando:– Era brincadeira! Era brincadeira!Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.Sabia demais.Luis Fernando Veríssimo</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1653747769</link>
         <description><![CDATA[]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-18 14:49:54 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1653747769</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluna: Ibis Marianny  8° Ano &quot;B&quot;</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1654946779</link>
         <description><![CDATA[<div>UM CASO DE BURRO.<br><br></div><div>Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a importância; os gostos não são iguais.<br><br>&nbsp;Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente que parecia estar próximo do fim.<br><br>&nbsp;Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que é que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos.<br><br>&nbsp;Meia dúzia de curiosos tinham parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para esperta-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez - ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.<br><br>&nbsp;O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mau entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas idéias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.<br><br>&nbsp;E diria o burro consigo:<br>“Por mais que vasculhe a consciência , não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com idéia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bonde, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.”<br><br>&nbsp;“Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direito não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regímen, ronca o pau. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.”<br><br>&nbsp;“A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada - ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia no bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim...”<br><br>Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam, não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?<br><br>&nbsp;Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto.<br><br>&nbsp;Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século.&nbsp;</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-19 17:04:11 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1654946779</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O conselheiro</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1654964969</link>
         <description><![CDATA[<div>essa uma historia de uma menina chamada heleninha que tinha um ursinho de estimação desde quando era criança ela se casou com o joão e quis levar o ursinho de estimação para sua lua de mel o ursinho falava com ela e um dia o ursinho disse para a dona que o sucesso no trabalho do joão ia dar certo, joão ficou interresado e pediu para a heleninha que falasse com o ursinho sobre isso e ele obteve sucesso, mas ele não contaria para ninguem como ele melhorou tanto.<br>aluno: Ian Vinicius coimbra Dos Santos &nbsp; Turma: 8 ano B<br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-19 17:26:33 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1654964969</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Aluna sandielly raquelly Medeiros de carvalho</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1655950485</link>
         <description><![CDATA[<div>Turma 8 ano B<br>Face a face<br>Mario Viana<br><br>Telefonar voltou à moda. Depois de uma temporada intensa de e-mails, posts, voice-mails, memes e emojis, a quarentena nos fez redescobrir o prazer de ver os amigos – nem que seja pelo distanciamento social da chamada de vídeo. Quando o rosto conhecido surge na telinha do celular, falando de verdade com você, é como se um novo mundo antigo se descortinasse.<br><br>Chamadas de vídeo lembram as festas de Natal de nossa infância, na parte em que a madrinha chegava carregando um presente bem vistoso. Só depois de adultos é que fomos descobrir as arapucas ocultas em cada rabanada. Na infância, bastava um pacote embrulhado em papel colorido pra coisa ficar excitante.<br><br>Em tempos de isolamentos e rostos cobertos por máscaras, tem de haver um jeito de se sentir sócio do clube. A tecnologia tem dado conta do recado, com limites. Grupos de trabalho e debates, como os dos aplicativos Zoom e Team, são ótimos pra resolver problemas e esclarecer dúvidas, mas não suprem nossa carência de humanidade.<br><br>Como disse um amigo esta semana, os aplicativos são os terrenos onde praticamos pequenos monólogos. Dificilmente alguém interrompe quem está falando. Falta a incompletude do diálogo, que só o telefonema permite.<br><br>Quantas frases interrompidas, quantos assuntos deixados pela metade, quantos temas que mudam como o vento! Que delícia tudo isso! Tem nada melhor que desligar e bater na testa, esqueci de falar tal coisa. Ligação boa sempre deixa um rabicho de fora, desculpa esfarrapada pra outro telefonema – que, muitas vezes, não será dado.<br><br>Na chamada de vídeo, ninguém fica esplendoroso. O bom é que ninguém também fica assustador – exceto os casos perdidos, claro. Alguns de nós ficam sem saber pra onde dirigir o olhar e outros se atrapalham com os ruídos corporais que podem atravessar o espaço através do celular.<br><br>Sempre checamos nossa imagem, na pequena telinha que aparece como encarte. O cabelo está bom? Não, mas é o que temos para o momento. A roupa, a voz, parece até que vamos corrigir alguma coisa. Mas quando a conversa engata, esquecemos desses detalhes bestas – assim como na vida real.<br><br>Muitas vezes, o melhor vem no fim, quando a conversa termina. Sobra um sorriso meio bobo na cara, aquela euforia de quem passou um dia gostoso na praia. A sensação de ter vivido um momento de prazer é o melhor efeito colateral dessas micro-televisões só nossas.<br><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-20 13:26:34 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1655950485</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Insônia infeliz e feliz- Clarice Lispector</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1656272591</link>
         <description><![CDATA[<div>Lígia Pereira Leandro<br>8° ano "B"<br><br>*Insônia infeliz e feliz - Clarice Lispector*<br>De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.<br><br>Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-20 20:46:45 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1656272591</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Jackson Nelmo Bernardino de  Sousa 8 A</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1656325442</link>
         <description><![CDATA[<div>Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente". ― Você não pode fazer isso comigo ― protestou ela. ― Claro que posso ― replicou ele. ― Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou. ― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise... ― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo. ― Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta... ― Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida. Neste momento começou a chuviscar. ― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar ficando doente. Ele riu, amargo: ― E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve. ― Posso lhe dar um guarda-chuva... ― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva. Ela agora estava irritada: ― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação. Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. Moacyr sclair</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-20 22:42:46 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1656325442</guid>
      </item>
      <item>
         <title>No restaurante</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1657192648</link>
         <description><![CDATA[<div><br>Carlos Drummond de Andrade<br>- Quero lasanha.<br>Aquele anteprojeto de mulher - quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia - entrou<br>decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada.<br>Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.<br>O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a<br>operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.<br>- Meu bem, venha cá.<br>- Quero lasanha.<br>- Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.<br>- Não, já escolhi. Lasanha.<br>Que parada - lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e<br>depois encomendar o prato:<br>- Vou querer lasanha.<br>- Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.<br>- Gosto, mas quero lasanha.<br>- Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?<br>- Quero lasanha, papai. Não quero camarão.<br>- Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?<br>- Você come camarão e eu como lasanha.<br>O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:<br>- Quero uma lasanha.<br><br>O pai corrigiu:<br>- Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.<br>A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido<br>comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham<br>reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:<br>- Moço, tem lasanha?<br>- Perfeitamente, senhorita.<br>O pai, no contra-ataque:<br>- O senhor providenciou a fritada?<br>- Já, sim, doutor.<br>- De camarões bem grandes?<br>- Daqueles legais, doutor.<br>- Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?<br>- Uma lasanha.<br>- Traz um suco de laranja pra ela.<br>Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do<br>restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita.<br>Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a<br>vitória do mais forte.<br>- Estava uma coisa, hem? - comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. - Sábado que vem, a<br>gente repete... Combinado?<br>- Agora a lasanha, não é, papai?<br>- Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?<br>- Eu e você, tá?<br>- Meu amor, eu...<br>- Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.<br>O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O<br>resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na<br>conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.<br><br>-Maria Clara Fernandes-</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2021-07-21 14:40:43 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/linguaportuguesagepaf/t86f2kyvltvgx2of/wish/1657192648</guid>
      </item>
   </channel>
</rss>
