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      <title>O Mestre dos games by Contini</title>
      <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi</link>
      <description>Trabalho de português e redação- Beatriz n2, Felipe n8, Giovanna Contini n11, Guilherme n13, Julia Antunes n17.</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2021-09-20 17:15:08 UTC</pubDate>
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         <title>Personagens</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <pubDate>2021-11-15 15:23:34 UTC</pubDate>
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         <title>Claúdio Renato</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <pubDate>2021-11-15 15:26:19 UTC</pubDate>
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         <title>Luci (mãe), Leandro (pai)</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <pubDate>2021-11-15 15:27:42 UTC</pubDate>
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         <title>Vito (avô)</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <pubDate>2021-11-15 15:28:16 UTC</pubDate>
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         <title>André (tio)</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <pubDate>2021-11-15 15:28:30 UTC</pubDate>
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         <title>Delegado Asdrúbal.</title>
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         <pubDate>2021-11-15 15:28:57 UTC</pubDate>
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         <title>O mestre dos Games</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <pubDate>2021-11-15 15:30:30 UTC</pubDate>
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         <title>1. Ninjas</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <description><![CDATA[<div>O VIDEOGAME de última geração, com controle sem fio, foi instalado no quartinho dos fundos, na televisão mais velha da chácara.&nbsp;<br>Cláudio Renato gostava de se sentar no chão para jogar. Depois, quando se levantava e olhava pela janela, a primeira coisa que via eram os dois tocos pintados de branco que serviam como traves. A chácara era grande, havia as árvores frutíferas que o avô plantara, além de outras tantas que, desde que o mundo é mundo, sempre estiveram por lá.&nbsp;<br>O quintal era meio inclinado, mas uma parte dele — do lado esquerdo de quem olhasse da janela — era plano, a grama baixinha, perfeita para Cláudio Renato dar seus chutes na&nbsp;<br>bola oficial de couro que trouxera de casa. Porém, precisava dar os chutes bem calibrados, fortes e certeiros, senão a bola&nbsp;<br>podia bater no viveiro dos pássaros, ou na casinha do Chupisco, ou subir muito e cair do outro lado, na chácara vizinha. Precisava dar o chute de um jeito que a bola passasse entre&nbsp;<br>os tocos brancos marcando o gol. Mas, para Cláudio Renato, não bastava marcar o gol, era preciso fazer que a bola passasse entre os tocos com força suficiente para bater no muro e voltar até ele, para poder, assim, dar outro chute sem precisar buscá-la. Quando isso acontecia, quando marcava o gol e a bola voltava redondinha, bem no jeito para outro chute, só então é que ele dava um soco no ar comemorando. Mais para o fundo do quintal, já bem próxima de um riacho que delimitava a chácara, ficava a árvore que ele achava a mais bonita de todas: a quaresmeira. Sempre no verão, quando ia passar as férias de fim de ano com o avô, a árvore resolvia dar seu show de delicadeza e graça, exibindo-se com cachos e mais cachos de flores roxas, brancas e azuis, que iam caindo sobre as placas de cimento, tingindo o chão, como se quisessem cobrir&nbsp;<br>Do que Cláudio Renato mais se recorda nem é tanto do jogo&nbsp;<br>em si, mas sim de seu avô entrando no quartinho dos fundos.&nbsp;<br>O avô, com a voz abafada pelos sons metálicos do videogame,&nbsp;<br>pedindo para ele parar; já estava jogando há bastante tempo, que&nbsp;<br>estava se viciando, se iria passar as férias inteiras preso ali naquele quarto. Pedindo para ele, pelo menos, tirar os olhos da tela e&nbsp;<br>prestar atenção no que estava dizendo. E quando Cláudio Renato realmente conseguia ouvir aquela voz que parecia vir das profundezas, dos labirintos escuros, dos abismos sem beiras e obstáculos sem fim, então compreendia que era o avô chamando, propondo: “Que tal ir ao pesqueiro amanhã?”. O garoto levantava os olhos, via de relance o quintal, a bola de couro encostada no muro e, ao fundo, a quaresmeira. A monotonia repetitiva das flores caídas no chão… Tudo o que mais queria na vida (seu desejo secreto do momento) era que o avô saísse do quarto e o deixasse em paz para terminar o jogo. “Só mais esse, vô.” irar para o lado, decidir a direção, apertar rápido as teclas do controle, porque os maus elementos já estavam à espreita, prontos para atirar, sem dó.<br>Era preciso localizá-los. Antever de onde poderiam surgir, porque apareciam dos mais inesperados vãos, curvas, brechas de muro, trincas do chão, fendas secretas. Cláudio Renato em estado de alerta máximo. Vigilante até o último fio de cabelo.<br>Jamais poderia ser surpreendido; jamais, para não perder a vida, sua última chance.<br>Do que se lembra — e depois teve de contar à polícia — é que estava escuro quando saiu com o avô. O dia não tinha amanhecido totalmente. Tampouco ele, ainda cheio de sono.&nbsp;<br>Tinha ido dormir tarde aquela noite e quase teve de ser arrancado da cama pelo avô. Era de madrugada. O avô queria chegar cedo ao pesqueiro e assim “pegar os peixes que acordavam com fome”, brincou. Cláudio Renato sentia-se como se fosse seu game portátil carregando.&nbsp;<br>A tela estática à espera de que se apertasse a tecla start para parar de bocejar, acabando de vez com a preguiça. Resolvera levar o game ao pesqueiro, meio escondido do avô, que, é óbvio, não iria concordar com a ideia. Ainda bem que o trouxera, pensou, pois&nbsp;<br>o que teria para fazer enquanto esperava o peixe morder a isca?<br>De repente aconteceu, enquanto o avô descia do carro&nbsp;<br>para fechar o portão da chácara.<br>Foi naquele exato momento que Cláudio Renato viu o pri-<br>meiro deles, como se saísse do nada, da escuridão, de um desvão&nbsp;<br>inexistente. Logo apareceu outro, em seguida mais outro. Encapu-<br>zados. Três ninjas! Gritando, mais xingando o avô do que falando.&nbsp;<br>O que queriam? Cláudio Renato ali, assistindo a tudo de dentro&nbsp;<br>do carro sem saber o que fazer. Ao mesmo tempo, desesperado,&nbsp;<br>porque sentia que precisava fazer algo, rapidamente!<br>O ninja maior, com a arma na mão, deu ordens para que derrubassem o avô, que desabou no chão, gemendo de dor.&nbsp;<br>Começaram a chutá-lo enquanto o amarravam com um fio grosso, dando voltas e mais voltas em suas mãos, e Cláudio&nbsp;<br>Renato no carro, olhando. Precisava fazer alguma coisa. O quê,&nbsp;<br>meu Deus? Tinha de ser já. Desespero mudo. Aflição medonha.&nbsp;<br>Fazer o quê? Gritar por socorro? Socorro, socorro! Mãe? Mãe,&nbsp;<br>socorro! Vô? Vovôoo…<br>Cláudio Renato compreendeu — assim como quem&nbsp;<br>entra num beco sem saída — que fez justamente o que ja-<br>mais deveria ter feito: chamar a atenção. Porque agora os três&nbsp;<br>ninjas, juntos, olhavam para dentro do carro. Lembraram-se&nbsp;<br>dele! Viraram-se para ele! Vinham em sua direção!<br>O jogo em suas mãos começou a tremer, a tremer tanto&nbsp;<br>que as teclas faziam barulho. Mas ele precisava agir rápido, sem&nbsp;<br>se precipitar, sem cometer nem um erro sequer, apertando as&nbsp;<br>teclas certas o mais rápido que pudesse: para frente, para trás,&nbsp;<br>juntas, quase ao mesmo tempo.<br>Para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo!<br>Assim, quando Cláudio Renato deu por si, já estava fora do carro.<br>E se conseguisse contornar o carro? E se conseguisse se&nbsp;<br>esconder embaixo dele?, pensou.<br>Agachado, por debaixo do carro, por um instante, era ele&nbsp;<br>quem vigiava os ninjas. Cuidado. Os maus elementos espreitam… Foi quando viu o avô, meio que gemendo, falando baixinho para que só ele escutasse:<br>— Fuja, fuja, fuja!<br>Mas não queria fugir. Não queria deixar o avô ali, sozinho. Não podia. Não podia deixá-lo com eles.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:31:53 UTC</pubDate>
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         <title>2. Intuição de mãe</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891613144</link>
         <description><![CDATA[<div>Ele e o avô foram dados como desaparecidos.<br>Até então, pouco se sabia sobre eles. Única certeza que havia: em nenhum<br>momento estiveram nos locais onde supostamente poderiam ter estado, e para os<br>quais a mãe de Cláudio Renato telefonara insistentemente.<br>'"Será que sofreram algum acidente?", ela se perguntava. "Será, meu Deus,<br>que foram vítimas de ladrões, de sequestradores, de bandidos?"<br>Esse palpite infeliz ela sentia como intuição de mãe, ainda mais depois de<br>tantos telefonemas que fizera para a chácara do pai ("atendam ao telefone, por<br>favor, por favor, atendam!"). Para o pesqueiro (pois se lembrava vagamente da<br>última conversa telefônica que tivera com o filho e ele mencionara algo sobre o<br>pesqueiro). Também, os cinco ou seis telefonemas para a chácara vizinha, a de<br>seu Olavo (por sorte, o pai informara o número para o caso de alguma<br>emergência). E o vizinho a responder, uma vez mais, que não havia ninguém na<br>chácara. Que, desde cedo, não vira ninguém por lá.<br>— Como calma, André? Como posso ficar calma numa situação dessas? —<br>lastimava-se a mãe de Cláudio Renato, já angustiada, num telefonema<br>internacional para o irmão.<br>— Existem tantos pesqueiros na região, Luci. Vai ver, o pai escolheu<br>justamente um a que nunca havia ido antes.<br>— Mas, André, escute, já liguei para todos os pesqueiros que aparecem na<br>lista!<br>— Luci, calma. Você conhece o pai. Ele pode ter ido a um pesqueiro que<br>não tem telefone. O certo é esperar. Quer fazer uma aposta? Logo, logo eles vão<br>aparecer de barriga cheia, dizendo que foram jantar, naquele tal Rancho do Zico,<br>os enormes peixes que pescaram. Ainda por cima, vão contar mentiras de<br>pescador. Quer apostar?<br>Se o pai de Cláudio Renato não estava preocupado com o filho (apesar dos<br>apelos de Luci, nem ao menos concordou em deixar o escritório para juntos<br>rumarem imediatamente para a chácara), por que então o tio que morava longe,<br>nos Estados Unidos, iria se preocupar?<br>Mas nada neste mundo é capaz de apaziguar o coração aflito de mãe<br>quando ignora o paradeiro de um filho, se tem o pressentimento de que alguma<br>coisa ruim aconteceu.<br>Assim que terminou o telefonema para André, Luci, por um instante,<br>tentou se controlar. Interrompeu no meio a discagem para a chácara vizinha à do<br>pai, recolocou o fone no gancho, sentou-se na cadeira da cozinha e respirou<br>fundo. Foi até a pia e preparou um copo d'água com açúcar. Depois, subiu até o<br>quarto do filho. Pôs a escada diante do armário que ia até o teto e começou a<br>procurar ali, na parte de cima, o álbum, o álbum com a foto. A foto do filho na<br>chácara, sentado sob a sombra de uma árvore florida, abraçado com o avô.<br>Luci lembrava-se especialmente dessa foto. Ela a tirara no aniversário de<br>setenta anos do pai. Era de admirar como ele se recuperara bem da morte da<br>esposa, apesar de terem vivido juntos quase meio século. Luci e André, por<br>alguma razão, achavam que seria muito difícil para o pai manter o humor, o jeito<br>brincalhão e meio irresponsável de levar a vida, porque, para isso, servia-se do<br>apoio da companheira de tantos anos. Mas bastaram poucos meses para se<br>adaptar à nova vida de viúvo. E lá estava ele, posando para a foto com o seu<br>sorriso largo e generoso, que nem mesmo o bigode farto e agora todo branco,<br>que usava desde os tempos de rapaz, conseguia esconder. Para se recuperar por<br>inteiro, ele se apegara muito ao neto, sobre isso não havia dúvida.<br>Luci precisava encontrar a foto. Uma saudade inexplicável e quem sabe<br>precipitada, de antes da hora, começava a invadir seu coração, apesar de ter<br>visto o filho no último fim de semana e falado por telefone com ele há menos de<br>dois dias. Precisava rever o brilho de seus olhos, olhos de quem mira o horizonte.<br>Rever suas bochechas rosadas, a cara cheia, o cabelo negro e sempre<br>despenteado, que, por mais que brigassem, ele não penteava; era uma luta em<br>vão. Como era em vão insistir para que fizesse exercícios físicos, para que<br>jogasse mais futebol, em vez de só jogar videogame no quarto.<br>Luci sentia também saudades do pai. A mão dele sobre o ombro de Cláudio<br>Renato, ambos bem juntinhos para a pose, os dois que se julgavam, acima de<br>tudo, companheiros de aventuras. Mais do que companheiros, amigos de<br>verdade, confidentes. Impossível esquecer o sorriso do avô ao receber o neto na<br>chácara. E juntos, sem perder um só minuto, percorrerem o quintal: o avô<br>apontando para a árvore que haviam plantado e mostrando o tanto que crescera.<br>O arbusto onde uma sabiá construíra o ninho no emaranhado dos galhos secos.<br>No viveiro, outro ninho, com três ovinhos salpicados de manchas. O avô<br>explicando: eram de tico-tico, os ovinhos da sabiá eram diferentes; logo ele<br>poderia compará-los. De súbito, um bando de canarinhos voando do chão, quase<br>a envolvê-los, e indo pousar na quaresmeira.<br>Assim, os anos foram passando. Cláudio Renato crescendo e se<br>desinteressando naturalmente pela chácara. Chegou o tempo em que já não<br>admirava tanto as flores, nem mesmo os pássaros, e não se importava quando<br>descobria um formigueiro que parecia pedir, como antigamente, para ser desmantelado sem dó com a ponta de uma vara. Se antes ele queria ir todos os<br>fins de semana para a chácara, agora passava meses sem ir lá. Restavam as<br>férias; porém, ir para ficar, só mesmo nas férias de verão, ainda assim meio a<br>contragosto. Tanto que, dessa última vez, impôs uma condição: só iria se pudesse<br>levar o videogame que ganhara no Natal.<br>O avô concordou, é claro. Para ter o neto ao seu lado, faria tudo que<br>pudesse, até mesmo pedir ao técnico em eletrônica que consertasse a TV do<br>quartinho dos fundos para o neto instalar ali o aparelho. Tentou inclusive aprender<br>a jogar aquele jogo. Mas não conseguia ter a agilidade necessária, e muito<br>menos os reflexos exigidos para disputar uma partida digna. Além de que se<br>sentia meio enjoado com a rápida sucessão de imagens, o som repetitivo e<br>estridente, e acabava achando aquilo uma tremenda perda de tempo. Tudo bem<br>que o neto jogasse, digamos, por algumas horas; mas passar o dia todo de umas<br>férias plenas de sol jogando videogame no quarto era demais. Por isso, insistiu<br>para que fosse com ele ao pesqueiro.<br><br>No outro dia, a cena a se repetir: o videogame no quarto, os pais na sala<br>diante da TV, e tiro para todos os lados da casa.<br>Nos fins de semana, não era diferente: não havia argumento<br>suficientemente forte capaz de convencer o filho a trocar o videogame nem<br>mesmo pelo futebol, de que antes ele gostava tanto.<br>Quando chegaram as férias de fim de ano, os pais praticamente o<br>obrigaram a passar uns dias com o avô. Foi quando Cláudio Renato impôs a<br>condição de levar o videogame.<br>— Seu avô não vai gostar de ver esse jogo instalado na televisão dele. Se eu<br>fosse você, levava o videogame portátil.<br>— Não jogo com ele faz tempo, pai.<br><br>— Cabe no bolso. Não precisa amolar seu avô para instalar o outro na...<br>— Não tenho mais as pilhas.<br>— Eu compro pilhas novas.<br>— Então, eu levo os dois!<br>O pai, por fim, teve de concordar, mas desde que o filho também levasse a<br>bola de futebol.<br>Agora, enquanto procurava a foto do filho com o avô, folheando um e<br>outro álbum, como Luci desejou que Cláudio Renato estivesse no quarto, ao lado<br>dela, jogando videogame. Simplesmente jogando videogame.<br>Chegou mesmo a imaginá-lo ali. Que vivacidade! Como era belo quando<br>estava totalmente concentrado. Que disposição para se dar por inteiro ao jogo.<br>Que destreza! O filho levava jeito para tudo. Tudo que fazia, fazia bem-feito. De<br>quem herdara essa capacidade de concentração? Que imagem bonita a do filho;<br>o jeito próprio de movimentar as mãos, os dedos, de levantar os olhos para a tela,<br>vez ou outra mordendo um dos lábios, sorrindo, vibrando e até... gritando um<br>palavrão!<br>Como gostaria que tudo voltasse ao normal, voltasse ao que era antes. Foi<br>quando Luci sentiu uma ponta de arrependimento por implicar tanto com o filho<br>por causa de um simples videogame.<br>Anoitecera. O pai de Cláudio Renato deveria estar chegando do escritório.<br>Mas Luci não sentia a mínima vontade de ligar a TV para assistirem juntos à<br>novela.<br>Precisava encontrar a foto. Não era só por capricho ou por saudade que<br>precisava encontrá-la, mas, principalmente, porque havia tomado uma decisão:<br>assim que o marido chegasse, iriam levar a foto à polícia.<br><br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:34:51 UTC</pubDate>
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         <title>3. Chão frio de terra batida</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891615542</link>
         <description><![CDATA[<div>A maior preocupação de seu Vito, apesar do estado lastimável em que se<br>encontrava (o capuz enfiado no rosto, jogado no chão, num barraco escuro de<br>terra batida), não era tanto com ele, nem mesmo com as dores que sentia por<br>todo o corpo. Nem se importava com isso, e sim com o neto.<br>Uma cena se reprisava milhões de vezes em sua cabeça, sem que<br>conseguisse parar de pensar nela: o momento exato em que Cláudio Renato<br>conseguiu se desvencilhar dos bandidos e acabou fugindo, correndo em disparada<br>para dentro da mata.<br>Minutos depois, quando dois dos bandidos voltaram da perseguição, ambos<br>arfando de cansaço, ouviu um deles dizer: "O que era pra ser feito foi feito.<br>Vamos logo embora daqui!". Uma dúvida cruel foi tomando conta de seu Vito a<br>ponto de abarcar tudo: será que o tiro que ouvira, assim que os bandidos gritaram<br>para Renato parar... Será? Não! Não podia ser, preferia acreditar que não. Seu<br>neto era o garoto mais esperto do mundo.<br>Uma doce lembrança veio então em seu socorro, aliviando um pouco a<br>sensação de frio que sentia nas costas, como se milhões de agulhas a estivessem<br>perfurando: a primeira vez em que Cláudio Renato subiu numa bicicleta. Como<br>esquecer?<br>O presente chegou embalado numa grande caixa de papelão. Cláudio<br>Renato acompanhou de perto o avô na montagem da bicicleta, peça por peça, e<br>quando só faltava fixar as hastes com as rodinhas sobressalentes, uma de cada<br>lado da roda de trás, o neto não deixou. Disse que não, não era preciso, não<br>queria aquelas rodinhas de jeito nenhum. Teimou dizendo que não precisava<br>delas para se equilibrar. "Você é corajoso, hein, Renato!" E bastou um<br>empurrãozinho do avô para que saísse pedalando.<br>Porém, logo em seguida, a alegria de todos foi se transformando em<br>pânico iminente ao verem Cláudio Renato virar para a direita e, assim, pegar o<br>descidão. Luci fez o sinal da cruz, apavorada. O pai gritou e saiu correndo atrás,<br>mas o filho já estava longe, descendo a rua embalado. E, quando todos<br>esperavam pelo pior — que rapidamente se aproximava, tomando a forma<br>branca, alta e dura do muro do condomínio —, Cláudio Renato simplesmente<br>soube frear a bicicleta, fazer a curva com uma perfeição de ciclista profissional<br>e subir a rampa de volta. Estampava tal sorriso de felicidade no rosto que, como<br>uma foto, ficou para sempre gravado na memória de seu Vito.<br>A mesma habilidade o neto já demonstrara nos chutes a gol, pondo até um<br>efeito especial na bola. Mas habilidade mesmo demonstrou quando o pai instalou<br>pela primeira vez um computador na casa. Cláudio Renato lidava com tamanha<br>facilidade com a máquina que todos concordaram que se desenhava ali uma<br>futura profissão. E na escola, então? Por mais que a mãe exigisse que estudasse,<br>o pouco tempo que passava com as apostilas era suficiente para transformá-lo<br>em um dos melhores alunos da classe.&nbsp;<br>Naquela manhã fria, quando os bandidos voltaram da perseguição, logo<br>após a fuga espetacular de Cláudio Renato, seu Vito optou por ficar bem quieto<br>onde estava. Imaginava que, assim, talvez pudesse ser esquecido ali, largado no<br>chão feito um pacote. Fingiu-se de desmaiado, de morto, de pedra. Porém, foi<br>impossível não se abalar quando ouviu um deles dizer que o que era pra ser feito<br>havia sido feito.<br><br>Seu Vito, naquele instante, prendeu a respiração. Se pudesse, ele se<br>transformaria em pedra e até pediu a Deus por isso. Havia a esperança absurda,<br>improvável, de que os bandidos fossem embora, que levassem o carro e fim. Era<br>um velho imprestável, eles o amarraram, haviam batido nele, já estavam com o<br>carro. O que poderiam querer mais? Evitava pensar em ser levado não sabia<br>para onde nem para quê. Não! Não iria a lugar nenhum. Ah, não iria mesmo,<br>sem antes saber do neto. Com a ajuda de Deus, os dois iriam terminar o dia no<br>pesqueiro, seu Vito chegou a pensar. Como se tudo aquilo pelo que estavam<br>passando se resumisse a um horrendo pesadelo do qual despertariam juntos.<br>Foi então que a voz que se fazia ouvir mais forte do que todas ordenou o<br>que jamais gostaria de ter ouvido:<br>— Pega o velho, enfia o capuz nele e joga no carro.<br>Seu Vito se fingiu mais ainda de morto.<br>— Velho desgraçado, levanta, levanta logo daí!<br>Sentiu mais um chute nas costas. Continuaram a chutá-lo, e já não sentia<br>mais as costas, nem as pernas, nada. Tentou se levantar. Mas como? Não<br>conseguia.<br>— Por favor, por favor, não façam isso. Tenham piedade. Pelo sangue de<br>Nosso Senhor Jesus Cristo! — implorou seu Vito.<br>Um dos bandidos o pegou pelos braços, o outro pelas pernas, e o jogaram<br>no porta-malas. Quando bateram a porta, usaram tamanha força e o barulho foi<br>tanto que o deslocamento do ar deixou seu Vito surdo e desacordado por um bom<br>tempo.<br>Talvez tenha desmaiado, quem sabe de dor. Porque, quando voltou a si,<br>demorou para compreender a causa de tantos solavancos que o moíam por<br>dentro. Quando foi percebendo aquela escuridão e identificando o som rouco do<br>motor, pensou que só lhe restava manter a calma e rezar. Rezar, rezar e rezar.<br>Mas como manter a calma na situação em que estava?<br>Aqueles homens eram o pior que poderia existir da espécie humana,<br>pensou. Não, não eram seres humanos. Eram animais, mas animais sem alma,<br>sem coração. Que espécie medonha era aquela? Para que tanta maldade? Por<br>que todo esse mal, meu Deus, por quê?<br>Seu Vito sentiu medo, muito medo<br>monstruosos, que na certa deram um tiro no menino pelas costas! Ao pensar<br>nisso, o choro irrompeu sem que ele conseguisse se controlar. Chorou como uma<br>criancinha chora. Chorou como havia muitos anos não chorava<br>Um choro sentido, de medo e desespero, de angústia, raiva e ódio. Chorou<br>de saudade e desesperança. Chorou como se o que haviam feito com o neto<br>tivesse sido por culpa sua.<br>Um movimento brusco do carro e seu corpo parou de sacolejar. Era como<br>se o corpo já não lhe pertencesse. Quanto tempo durara aquela viagem dos<br>infernos? Vinte minutos, uma hora, um dia? Mais? Assim que abrissem o porta-<br>malas, não deixaria que os bandidos percebessem que estava chorando.<br>* * *<br>Pelo frescor e cheiros acres que aspirou como alimento sagrado, apesar de<br>não enxergar nada, era fácil concluir que estavam num local ermo, de muitas<br>árvores. Mas não conseguia ouvir nada além do vento fustigando galhos. Nenhum<br>pássaro companheiro cujo canto pudesse identificar.<br>Foi jogado no chão. Talvez numa cabana no meio do mato ou numa<br>construção inacabada, pensou. Sentia as suas costas na parede de tábua, sentia o<br>chão frio de terra batida. Umidade e trevas. Sem que ainda desamarrassem suas<br>mãos ou ao menos lhe tirassem o capuz, ouviu a voz mais forte gritar, dirigindo-<br>se a ele:<br>— Velho desgraçado. Vê se não vai morrer aí!<br>Depois, ouviu o som de uma porta se fechando. Corrente de ferro,<br>cadeado, escuridão. Seu Vito adormeceu no canto duro e frio onde o jogaram.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:35:42 UTC</pubDate>
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         <title>4. O mundo numa tela</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <description><![CDATA[<div>Por onde anda Cláudio Renato?<br>Talvez esteja em pânico, chorando, amedrontado. Seguindo sem rumo por<br>uma trilha deserta, indo cada vez mais para dentro da mata.<br>Quem sabe, depois de ter passado por uma carcaça de carro queimado,<br>jogada no mato, esteja parado diante de uma encruzilhada... Norte, Sul, Leste,<br>Oeste.<br>Aflito, talvez conclua que tanto um lado como outro o levará cada vez mais<br>longe do avô.<br>Ou, ainda, já percebeu que realmente não mais o seguiam e o tiro não o<br>atingira, porque continuava vivo: sim, vivo! Mais vivo do que nunca: apalpou<br>novamente o corpo; tudo estava em seu lugar. E, diminuindo a velocidade, quase<br>andando, respirando aos trancos, tamanho o esforço, sentindo cãibra nas pernas,<br>o pé descalço em carne viva, intuiu, assim como os gatos, os cachorros e os<br>pombos-correios intuem, o caminho de volta. O caminho que o levaria para a<br>chácara. Repentinamente, lembrou-se do avô em perigo. Correu de volta porque<br>não podia perder nenhum segundo. Fez um esforço ainda maior para vencer o<br>cansaço. Tanto correu que chegou a tempo de espreitar de longe os bandidos,<br>exatamente quando colocavam o avô no porta-malas do carro. E, sem que se<br>deixasse ver, esgueirando-se por entre as árvores do bosque, pôs-se a segui-los<br>como um detetive. Precisava descobrir para onde estariam levando o avô. O que<br>iriam fazer com ele. Precisava de todo jeito seguir aquele carro para salvar o<br>avô.<br>É possível também que Cláudio Renato ainda tenha nas mãos o game<br>portátil. Sendo assim, é como se visse a si próprio numa tela. Como se o mundo<br>inteiro coubesse nessa tela. Como se estivesse num filme contracenando consigo<br>mesmo e com todas as coisas que existem ao redor, projetadas nessa tela, tal<br>como são na vida real; os mesmos tamanhos, cores e sons. Ele ali, vendo sua<br>própria imagem interagir com o mundo. Aos poucos, começando a perceber que<br>o que está fazendo nada mais é do que jogar um jogo. Um jogo no qual está<br>inserido, em carne e osso. Que começou no portão em frente à chácara,<br>prosseguiu com a fuga e, naquele momento, está em stand-by.<br>A fase anterior do jogo, a da fuga e correria, Cláudio Renato vencera. Sim,<br>vencera muito bem! Fizera mais de mil pontos.<br>Jogando como jogara, concluiu, o tiro jamais o atingiria. Jamais aqueles<br>ninjas iriam alcançá-lo.<br>Mas, agora, está para começar uma nova fase.<br>Cláudio Renato se vê, então, caminhando a passos rápidos numa trilha no<br>meio da floresta, depois de ter passado por um carro queimado. Para, de repente.<br>À sua frente, uma encruzilhada. Está atento, o olhar percorre tudo ao redor, capta<br>todos os pontos da tela, porque não pode deixar escapar nada. A qualquer<br>momento — de uma curva no caminho, do alto da copa de uma árvore, de<br>dentro de um arbusto, de um buraco no chão, de um beco, do nada — poderá<br>surgir algo que o surpreenda. E ele não pode ser surpreendido, de maneira<br>nenhuma! Não pode perder a vida; precisa passar até a última fase para salvar o<br>avô.<br>Há muito, Cláudio Renato perdera o carro de vista. Porém, assim como<br>conseguiu vencer a primeira fase, também irá vencer a segunda — ele próprio<br>se encoraja — e encontrará novamente o carro e o avô. Pensando assim, sente-<br>se mais confiante. Só é preciso jogar o jogo como se deve, sem cometer erros.<br>É quando Cláudio Renato, parado diante da encruzilhada, decide por<br>apertar várias teclas ao mesmo tempo. A sua agilidade em apertá-las é tamanha<br>que faz que comece a se ver dando passos rápidos em direção à encruzilhada.<br>Norte, Sul, Leste, Oeste. Sua intuição diz para seguir à esquerda. Talvez o carro<br>tenha ido por esse lado. Seus passos começam a ganhar ritmo, a ganhar<br>velocidade, a marcar pontos.&nbsp;<br>Então, subitamente, Cláudio Renato depara com uma nova paisagem.<br>Irreconhecível! Na tela, em torno dele, outro cenário, que contém todas as cores<br>do arco-íris. Algo como nunca havia visto antes, nem mesmo no cinema. Como<br>se passasse para uma nova dimensão no espaço. Um mundo estranho, secreto,<br>diferente...</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:36:14 UTC</pubDate>
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         <title>5. A foto</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <description><![CDATA[<div>E os pais de Cláudio Renato, como estão?<br>Se a TV estivesse ligada, estaria passando a novela das oito.<br>O pai chega do trabalho. Para o carro em frente ao portão de casa, o motor<br>continua funcionando.<br>Mal começa a abrir o portão, Luci corre até ele e exige, implora, ordena<br>que volte para o carro e siga imediatamente para a chácara.<br>O dia todo ela teve um mau pressentimento, explica. Passara o dia ao<br>telefone. Estava achando muito esquisito aquele silêncio, aquela falta de notícia, e<br>não iria sossegar até que visse o filho e seu pai.<br>Leandro, então, manobra lentamente o carro. Atende, meio a contragosto,<br>a insistência de Luci. Tenta ainda persuadi-la a mudar de ideia. Diz ter sérias<br>dúvidas sobre se percorrer mais de cem quilômetros àquela hora da noite — ele<br>cansado, sem ao menos ter jantado — é o certo a fazer. Se, antes de seguirem<br>para a chácara, não seria mais sensato localizar alguém por lá, algum telefone,<br>de um vizinho, por exemplo. Alguém, enfim, que pudesse dar alguma<br>informação.<br>— Eu já liguei, Leandro. Fiz mais de cinco ligações para seu Olavo, que<br>mora na chácara vizinha à de papai. E desde cedo ele vem dizendo que a casa<br>está fechada e não tem ninguém.<br>Leandro, pela primeira vez então, sente um arrepio percorrer seu corpo.<br>Está começando a aceitar a ideia de ter de dirigir até a chácara, àquela hora.<br>Está começando a se preocupar com o filho.<br>Durante o dia, quando Luci telefonara para o escritório, ele não vira<br>nenhum motivo para preocupação. Afinal, o sogro podia ter decidido passar o dia<br>fora. Como era um velho que se dizia dono do próprio nariz — vivia se<br>vangloriando da sua liberdade, repetindo que se orgulhava de não ter rabo preso<br>com ninguém por qual motivo então alguém assim haveria de avisar a família<br>toda vez que pretendesse dar uma escapadela? Seu Vito não era homem de dar<br>satisfação do que fazia ou deixava de fazer.<br>Agora, porém, talvez porque Leandro sentisse um pouco da aflição que<br>Luci sentia (sentada no banco ao lado, esfregando ansiosa as mãos, o olhar triste<br>e fixo para a frente, em direção à escuridão do asfalto), ele percebe que já está<br>pensando no que vinha evitando pensar desde o primeiro telefonema de Luci para o escritório: havia sim motivos para preocupação.<br>As notícias, ultimamente, só tratavam de violência. Crime, assalto,<br>sequestro, assassinato, um atrás do outro. Um colega de trabalho que morava<br>num desses prédios ditos de segurança máxima, com vigias, portões eletrônicos,<br>cercas eletrificadas, sistemas de alarme etc., apesar de tudo isso teve o<br>apartamento assaltado. Três apartamentos do andar foram assaltados naquela<br>noite. Disseram que o bandido, como se fosse um homem-aranha, entrara nos<br>apartamentos pela varanda, escalando mais de oito andares do prédio!<br>Tudo bem, a vida estava dura, muito dura, cada vez mais gente passando<br>necessidade, refletiu Leandro. Mas vida dura não deveria ser desculpa para atos<br>de violência. Emprego quase não havia. Leandro sentia o coração apertar toda<br>vez que uma enorme fila de desempregados se formava na portaria da fábrica<br>onde trabalhava. Todos ali espremidos desde a madrugada. Homens, mulheres,<br>jovens, idosos e até crianças, em disputa das poucas vagas oferecidas para<br>ganhar uma migalha de salário. E, a cada dia, mais gente precisando de trabalho.<br>A cada vez que se anunciavam vagas, a fila era maior.<br>Logo depois que Cláudio Renato nasceu, ele e Luci juntaram o que tinham<br>e o que não tinham e conseguiram comprar a casa em que moravam. Era então<br>um bairro tranquilo e arborizado, com boas perspectivas de valorização. Para<br>chegar em casa, ele passava por campos de futebol ao lado de uma avenida.<br>Jogara bola nesses campos, aos domingos, num time formado pelo pessoal da<br>vizinhança. Cláudio Renato era pequeno e gostava de acompanhar o pai nessas<br>ocasiões. Seus primeiros chutes numa bola foram dados num desses campos de<br>várzea. Hoje, eles já não existem. No lugar dos campos, uma favela. Milhares de<br>pessoas morando em pequenos quadrados feitos de tijolos vermelhos, cobertos<br>com laje, como uma caixa. Barracos de madeira, tapumes, compensados. Lonas<br>de plástico preto. Chapas de zinco e papelão. Muitos dormindo no chão, embaixo<br>do viaduto. O bairro já não era tranquilo. Um homem havia sido esfaqueado na<br>esquina, a poucos metros da casa. Diziam que ali, onde jogara bola e Cláudio<br>Renato correra com outras crianças, era agora uma boca de fumo.<br>Leandro não se lembra de ter tido nem uma vez sequer medo de assalto,<br>quando garoto. Era livre para correr pelos terrenos baldios, andar de bicicleta e<br>jogar bola nos campinhos, até a noite. Os tempos eram outros, é claro. Mas<br>hoje... Que mundo era aquele que ele e os outros pais estavam deixando para os<br>filhos?<br>Nos fins de tarde — quando sua volta do trabalho coincidia com o horário<br>da saída das escolas —, ao passar pela avenida ao lado da favela, as crianças,<br>alegres, espertas, corriam desordenadas, como se esquecessem da própria<br>condição ou não se importassem. Leandro as olhava com um misto de compaixão e culpa. Ainda mais sabendo que muitas ali dividiam o barraco,<br>amontoadas no chão para dormir, com vários membros da família. Algumas<br>iriam comer só no dia seguinte, só a merenda escolar. A maioria nem tomaria<br>banho, muito menos receberia um beijo de boa-noite dos pais. Leandro se<br>perguntava se a condição precária de vida dessas crianças, a maioria com os pais<br>sem emprego, sem instrução, sem conseguir nem sequer um meio de sustentar a<br>família, se isso não era um outro tipo de violência, uma violência velada, que<br>tinha lá os seus responsáveis.<br>Leandro pensou na humilhação que sentia um pai que não tinha trabalho.&nbsp;<br>O carro deixou o asfalto e seguia agora pela estrada de terra que dava<br>acesso à chácara. Até ali, uma viagem tensa, silenciosa e solitária. Cada qual<br>com seus questionamentos. A mãe, aflita. O pai, já sem conseguir acalmar a<br>esposa, pois ele mesmo não acreditava que tudo estava bem. É claro que, com<br>toda essa onda de violência, Leandro e Luci pensavam no pior. Inclusive, ele<br>começou a temer pela sorte de ambos ao dirigir por aquela estrada deserta,<br>àquela hora da noite, num breu total. De ambos os lados da estrada, mato. Se<br>furasse um pneu, ou se encontrassem um tronco impedindo a passagem, o que<br>fazer? Como seu sogro tinha a coragem de morar num lugar daqueles?&nbsp;<br>Esforçando-se por manter a calma e não inquietar Luci, que não notara o<br>clarão (como um olho gigantesco, a luz avançava por trás, diminuindo a distância<br>entre os carros), Leandro tenta se convencer de que está se deixando levar pelo<br>lado emocional, passando a olhar para tudo e para todos com olhos de perigo, de<br>medo.<br>“Também não é para tanto; no mundo não há só maldade", pensa ele.<br>E com esse repentino impulso racional, Leandro conclui consigo: deve ser<br>o farol de uma moto; alguém apressado voltando para casa, nada além disso.<br>Tenta conversar com Luci para quebrar o silêncio e aliviar a tensão. Diz,<br>num tom provocativo e ao mesmo tempo de desânimo, que, se não encontrarem<br>ninguém na chácara, então terão perdido a viagem. Luci responde:<br>— Eu já decidi, Leandro. Se eles não estiverem lá, vamos direto à polícia.<br>— Fazer o que na polícia, Luci? Dizer que um velho e um menino estão<br>desaparecidos? De que adianta? — Leandro olha pelo retrovisor e acelera mais<br>ainda.<br>É quando um clarão invade o interior do carro, assustando Luci. Ela olha<br>detidamente para trás, vigilante ao movimento, surpresa por ter alguém naquela<br>estrada, àquela hora, vindo logo atrás deles. Forçando a passagem!<br>— Isso mesmo. Vamos à polícia dizer que eles estão desaparecidos — diz<br>Luci.<br>Os olhos de Leandro não desgrudam um só instante do retrovisor. As mãos<br>firmes no volante, quase a espremê-lo.<br>— Como a polícia vai sair por aí procurando por um velho e um menino,<br>que nem sabem quem são? — diz Leandro, mas Luci já não parece ouvir.<br>Um carro velho e empoeirado, caindo aos pedaços, com um só dos faróis<br>aceso, passa por eles numa parte mais larga da estrada.<br>No pouco tempo em que está à frente, ao alcance dos faróis do carro de<br>Leandro, dá para ver dentro do veículo o rosto de três crianças sorridentes,<br>acenando, mandando beijos do banco de trás.<br>Leandro e Luci respiram aliviados. Quanto mais o carro se distancia, mais<br>recobram a calma. Leandro chega até a retribuir o beijo, de um jeito tímido,<br>para as crianças, quando o carro entra num atalho, à esquerda.<br>Então, Luci acende a luz do teto, que despeja uma cor fraca, amarelada,<br>sobre eles. E, mostrando a Leandro a foto que encontrara no armário, diz:<br>— Olhe, Leandro! É assim que a polícia vai saber quem procurar.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:37:28 UTC</pubDate>
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         <title>6 - Pés descalços</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891646473</link>
         <description><![CDATA[<div>O DIÁRIO DE PONTE ALTA &gt; FOLHA POLICIAL, DIA 12Avô e neto desaparecidos Especial para O Diário Desde o último dia 8, estão desaparecidos Vito Henrique Cavalcante, viúvo,75 anos, residente no loteamento Fazenda da Ilha, em Ponte Alta, e Cláudio Renato Cavalcante Marques, 13 anos, residente na Capital, neto de V.H.C. Segundo os pais do garoto — que registraram queixa no 1º Distrito Policial de Ponte Alta —, o filho passava as férias de verão com o avô. A mãe começou a desconfiar de que algo poderia ter ocorrido a ambos quando suas ligações telefônicas para a chácara deixaram de ser atendidas. Dr. Asdrúbal, delegado titular do lº DP, responsável pelas buscas, informou à reportagem que a chácara onde reside V.H.C. está fechada e não aparenta nenhum sinal de vandalismo, o que descarta a hipótese de roubo residencial. O veículo de propriedade de V.H.C., uma caminhonete branca, com placa de Ponte Alta, não foi encontrado no local.AS INVESTIGAÇÕES Suspeita-se que avô e neto possam ter sido vítimas de acidente rodoviário. Está sendo averiguada a possibilidade de que o veículo tenha se desgovernado nas muitas estradas vicinais que margeiam os morros da região. Porém, até o fechamento desta edição, nenhum pronto-socorro ou posto de saúde próximo de Ponte Alta registrou qualquer ocorrência que possa esclarecer o caso. O delegado Asdrúbal não descarta também a hipótese de sequestro. Sendo assim, para não prejudicar as investigações, as diligências da polícia serão feitas em caráter sigiloso e a imprensa, conforme solicitação das autoridades, estará momentaneamente impedida de noticiar o andamento das operações. FALTA DE RECURSOS. Esse é mais um infeliz acontecimento que demonstra o total descaso dos políticos do município em oferecer segurança e melhoria de qualidade de vida para nossa população. Além de ruas e estradas malconservadas, a maioria sem asfalto e sem iluminação pública, continuamos com uma polícia ineficiente. São poucas as viaturas e há um número reduzido de homens para combater a criminalidade, que vem crescendo de modo assustador em Ponte Alta. A necessidade da instalação de novas delegacias, como no bairro do Paiol Velho, sempre serviu de palanque político para candidatos a cargos públicos, como aconteceu na última eleição. Porém, o que se constata é que são apenas promessas que, passadas as eleições, empossados os políticos, jamais são cumpridas. Um verdadeiro desrespeito para com o eleitor de Ponte Alta. A claridade da manhã bateu em cheio no rosto de seu Vito. Já sem o capuz, ele abriu os olhos e, em seguida, teve de fechá-los rapidamente, piscando muito, sem que ao menos pudesse protegê-los do sol comas mãos. Não sabia se havia dormido horas ou dias. Muito menos onde estava. Ao acordar, ou um segundo antes, pensou que estava tendo um pesadelo. No sonho aparecia deitado no chão de uma casa abandonada. Suas mãos estavam amarradas para trás e se esforçava desesperadamente para soltá-las e proteger os olhos da claridade que ardia como fogo. Ainda piscando muito, sem saber se era mesmo um sonho, seu Vito percebeu, à sua frente, apontado para ele, o cano grosso de um revólver. E quando constatou, de fato, que aquilo não era pesadelo, muito menos imaginação, mal teve tempo de lamentar a própria sorte, pois imediatamente lhe veio à lembrança, pela milésima vez, um nome: Renato. O homem encapuzado ordenou de modo ríspido que se levantasse. Com o cano do revólver indicou a porta. Quando se levantou, seu Vito percebeu — aliás, sentiu no corpo — a extensão da surra que tomara. Caminhou até a porta compassos lentos, as pernas doíam muito e isso dificultava firmar os pés no chão. Quando o homem encapuzado o empurrou para fora, seu Vito quase perdeu o equilíbrio. Foi forçado a dar alguns passos em direção ao mato que crescia tão desordenadamente como se fosse invadir o esconderijo a qualquer momento. O homem gritou:— Vai, velho. Faz aí as suas necessidades! Ao longo de mais de setenta anos, seu Vito nunca tinha passado por um momento tão constrangedor na vida.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:46:44 UTC</pubDate>
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         <title>7- o acaso</title>
         <author>milkkic3</author>
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         <description><![CDATA[<div>Renato se viu, então, diante de uma clareira. Depois que decidiu seguir pelo lado leste da encruzilhada, depois do que pareceu ter sido um arco-íris sobre a sua cabeça, chegou à clareira De repente, a porta se abriu. Em seguida, Renato viu surgir um cão, um enorme cão rajado. Tinha a cabeça tão grande, tão grande, que parecia duas. O cão atravessou a soleira da porta e parou, atento. Levantou as orelhas, que em seguida se aprumaram em linha, e começou a farejar o ar em sua direção. Enquanto o cão se aproximava perigosamente, Renato continuou quieto, em seu canto. Paralisado. Por alguns segundos, prendeu a respiração para não fazer nenhum barulho. Fase&nbsp; 3/7Pontos&nbsp; 3.816Ora! Bastava então apertar uma das teclas, qualquer que fosse, para a direita ou para a esquerda, e provocar uma mudança no ambiente, no cenário, em tudo. Apertar uma das teclas e, com certeza, reverter o rumo dos acontecimentos.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:51:49 UTC</pubDate>
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         <title>8- Roupas na Mochila</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891664559</link>
         <description><![CDATA[<div>O dr. Asdrúbal, delegado do 1Q DP, ligou tarde da noite para a casa de Lucie falava com ela por telefone:— Não, não. Por favor, por favor, dona Luci, escute. Não quero que asenhora alimente esperanças antes da hora. Essa é apenas uma suposição. Porenquanto, veja bem: por enquanto — o delegado fez questão de repetir o porenquanto —, não podemos comprovar nada, absolutamente nada, dona Luci. Aúnica coisa que temos de concreto é o bilhete, e só o bilhete. A senhora poderiavir amanhã, pela manhã? Posso esperá-la aqui na delegacia... Não, não, é melhorna chácara de seu pai. A senhora poderia vir?Luci terminou o telefonema dizendo ao delegado que já estava a caminhoda chácara do pai e, definitivamente, não iria considerar os argumentos delealertando que a pressa era desnecessária.Desde o dia em que prestaram queixa na delegacia, tanto ela comoLeandro não fizeram mais nada na vida senão esperar e esperar. E também rezarpara Santa Filomena, a padroeira da família, além de chorar e chorar. Umaespera arrepiante, endoidecida, desumana. Um lamento triste. Uma rezahipnótica e desesperada, como se o mundo houvesse parado, como se tudo maisperdesse o sentido.Então, tarde da noite, o delegado ligou comunicando sobre o bilhete e asconsequentes pistas despertadas.Tudo que Luci e Leandro conseguiram ver naquela noite, primeiro nachácara, depois na delegacia — quando puderam ler o bilhete que estava sendoanalisado pela perícia —, só fez aumentar as expectativas e aflições.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 15:53:35 UTC</pubDate>
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         <title>9- Cimento fresco</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891684527</link>
         <description><![CDATA[<div>Acordaram seu Vito de supetão.<br>Ele demorou alguns segundos para perceber que as duas pessoas que o<br>vigiavam o tempo todo no barraco estavam agachadas, muito próximas dele.<br>Embora usassem<br>uma espécie de meia para cobrir o rosto, a proximidade permitiu que ele<br>observasse os olhos, as bocas... Foi então que seu Vito descobriu algo que o fez<br>mudar sua conduta naquela prisão: não eram exatamente dois homens como ele<br>imaginava, e sim... uma moça e... um velho!<br>Ela não teria mais do que dezesseis, dezessete anos; era jovem, muito<br>jovem (o que era confirmado pela voz estridente que ouvia). Ele, velho, os olhos<br>de um velho, o olhar cansado de um velho... Talvez tivesse a sua idade. Mas onde<br>estaria o terceiro, o mais bruto deles?<br>Seu Vito, evitando movimentos bruscos, foi percorrendo com os olhos todo<br>o barraco. O mais bruto, sim! Porque, vendo os dois tão próximos, não podia<br>acreditar que teriam sido capazes de fazer o que fizeram, de espancá-lo como<br>espancaram. Não acreditava serem capazes nem sequer de matar uma mosca,<br>não fosse para obedecer às ordens de um chefe.<br>O chefe, com dois furos no gorro em torno dos olhos, começou a<br>desamarrar suas mãos enquanto mais gritava do que falava:<br>— Velho, chega mais! Você vai meter as mãos aí, e vai fazer isso agora.<br>Assim, as duas abertas. — Mostrou como seu Vito teria de fazer.<br>Era uma caixa pequena, de madeira, como aquelas de frutas, das feiras.<br>Cheia de cimento fresco até a borda.<br>As mãos espalmadas de seu Vito ficaram impressas no cimento.<br>— Agora assina o nome aí, rápido! Assina e põe a data.<br>Seu Vito assinou o nome arranhando o cimento com a ponta de um prego.<br>Sulcos finos com seu nome e, acima, a impressão rombuda dos dedos.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:01:20 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>10- O Mestre dos Jogos</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891686845</link>
         <description><![CDATA[<div>Aproximou-se agachado da pequena janela. E só então parou para respirar.<br>Precisava descansar, recuperar o fôlego. Subitamente, a sensação de que<br>chegar àquela casa, estar onde estava agora, era uma espécie de prêmio por ter<br>passado pelo que passara com aquela onda enorme, oceânica. E pensar assim o<br>animou. Mas não podia perder tempo. Então, com todo o cuidado, Renato foi<br>lentamente levantando a cabeça e se pôs a espiar o que acontecia lá dentro.&nbsp;<br><br>Renato duvidou do que estava vendo. Ainda agachado, decidiu contornar a<br>casa. "É óbvio", pensou, "o cão deve estar onde geralmente ficam os cães, ou<br>seja, no quintal". "A ave, num viveiro ou numa gaiola", imaginou.<br><br>Fase&nbsp; 4/7<br>Pontos 4.080<br>Bônus Emissário Voador = 2</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:02:14 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title> 11 - Cemitério de destroços </title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891688714</link>
         <description><![CDATA[<div>A hipótese de acidente rodoviário foi descartada<br>&nbsp;<br>A caminhonete foi localizada em uma revenda de automóveis, com o chassi e documentos adulterados e pronta para ser vendida Essa revenda estava na mira dos policiais há algum tempo<br><br>Luci e Leandro acompanhavam o trabalho do guincho para descer o veículo no pátio da delegacia<br>Só de olharem a caminhonete já sentiriam revigoradas as esperanças<br><br>Atravessaram a rua em direção à padaria da esquina. Decidiram tomar um café, enquanto esperavam a vez de serem atendidos pelo delegado&nbsp;<br>No balcão, não tinha muitas opções, como na cidade, de café da manhã então pediram pão na chapa&nbsp;<br><br>Luci e Leandro não se sentiam propriamente à vontade naquela padaria.<br>Supunham que precisavam ficar atentos, prevenidos, porque aquele, encostado<br>no balcão, tomando cerveja a essa hora, tinha cara de bandido - ou, pelo menos, o que&nbsp; Luci e Leandro achavam&nbsp; que era a cara de um bandido<br>O pão quentinho com a manteiga derretida, acompanhado do copo de café com leite, acabou por fazer bem a ambos. Leandro, que antes tinha pressa de sair da padaria, chegou até perguntar a Luci se repetiriam o pedido<br><br>Quando voltaram para a delegacia, o dr Asdrúbal estava terminando a reunião que fazia a portas fechadas com a equipe de investigadores. Luci e Leandro já os conheciam de vista, desde a pedra jogada na varanda da chácara.<br>Ao saírem da sala do delegado e cruzarem com o casal no corredor,<br>pareciam excessivamente apressados. Luci tentou em vão falar com os<br>investigadores. Eles se mostraram sem tempo para conversas, e cada qual soube se esquivar com a desculpa de que qualquer informação só poderia ser dada pelo<br>delegado. Quando Luci pensou que a vida de seu filho e de seu pai dependiam da<br>perícia desses homens, sentiu um aperto no coração<br><br>O dr. Asdrúbal fez sinal para que entrassem em sua sala.<br>A mesa estava abarrotada de pastas com capa de papelão duro e<br>desbotado, certamente contendo processos em andamento. O delegado empilhou<br>as pastas num canto, abrindo espaço no centro da mesa. Chamou um assistente e<br>lhe pediu que trouxesse a placa.<br>Estavam lá, no cimento, as marcas das mãos!<br>Abaixo, a data e a assinatura do pai. Sim, não havia dúvida, era a assinatura<br>do pai, reconheceu Luci&nbsp;<br><br>— A assinatura confere, certo? Acreditar que foi seu pai é acreditar que ele<br>está vivo — disse o delegado.<br>— Mas, delegado, por favor... — Leandro levantou-se para olhar mais de<br>perto a placa. — Que garantias temos de que tudo isso não é uma farsa?<br>— Cinquenta por cento! — respondeu o delegado. — Cinquenta por cento!<br>— repetiu. Em seguida, aparentando impaciência, disse: — Esse número está<br>bom para vocês ou preferem outro? É exatamente a metade da chance de ter<br>sido ele, por estar vivo, ou de não ter sido, por estar morto.<br>— Meu Deus, dr. Asdrúbal?! — Luci se desesperou, já começando a<br>soluçar.<br>— Então, acreditem em mim. Confiem em mim, poxa! Ele está vivo, e<br>ponto-final.<br>Dito isso, o delegado respirou fundo e, parecendo mais calmo, começou a<br>falar pausadamente:<br>— Tudo leva a crer que essas são as mãos de seu pai; a assinatura é dele e<br>ele também escreveu a data. A placa foi deixada junto com o bilhete, ao lado da<br>imagem de Santo Expedito, no altar pequeno da igreja, provavelmente depois da<br>missa das seis. O padre a encontrou e a trouxe até nós. Agora, sem perder mais tempo com perguntas, vamos tratar do assunto resgate, que é mais importante.<br><br>Mas... Nem se Leandro vendesse a casa, a chácara de seu Vito, a<br>caminhonete e mais o carro dele, ainda assim não teria o dinheiro para pagar<br>nem sequer uma parte do resgate.&nbsp;<br>A família teria de fazer publicar na Seção de Classificados de O Diário de<br>Ponte Alta, no dia 19, uma oração de pedido de graça a Santo Expedito, padroeiro<br>dos negócios, identificada com a letra V</div><div><br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:02:57 UTC</pubDate>
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         <title>13- Bife com fritas</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891693536</link>
         <description><![CDATA[<div>O tempo passando rápido, rápido demais. E quanto mais o tempo passava - ele sentia -, mais o avô corria perigo. Precisava agir depressa!&nbsp;<br>Sentado, embaixo do parapeito da janela, Renato pensou que tinha que resolver três urgentes problema<br><br>A primeira urgência, o maior problema de todos: salvar o avô<br><br>Segundo grave problema: precisava comer, simplesmente comer para não morrer de fome, para recuperar as forças<br><br>O terceiro problema — que já nem sabia mais se era problema ou solução<br>— era decidir se deveria usar o game para resolver os dois problemas anteriores.<br><br>Pronto. Ficou contente. Nem tanto pela conclusão a que chegara, mas por<br>ter conseguido concluir um raciocínio, já que sua cabeça parecia querer voar e<br>voar<br><br>Até agora, bem ou mal — esforçou-se para continuar concentrado —, nem<br>tudo parecia tão ruim assim, concluiu. Não estava ruim porque não havia usado o<br>controle desde a encruzilhada?&nbsp;<br><br>Uma coisa era certa: em algumas<br>situações, ele até poderia decidir se usaria ou não o controle<br><br>Percorreu com os olhos toda a extensão da casa e voltou a fixar o olhar na<br>mesa. Ela estava diferente do que era! Nela, agora, uma toalha branca e um<br>prato virado de cabeça para baixo. De um lado do prato, o garfo. Do outro, a faca. Na frente, um copo cheio do que parecia ser laranjada.<br><br>Renato fechou os olhos. A dor voltou mais forte ainda. Virou-se e deixou<br>seu corpo deslizar outra vez pela parede, até cair sentado sob o parapeito da<br>janela. Voltara a sentir a dor. Uma dor tão intensa na boca do estômago que o fez<br>largar o game no chão e, com as mãos, massagear a barriga.<br>Um aroma muito especial começou a chegar até ele. Inebriante, tentador,<br>irresistível. Como se a comida tivesse ficado pronta e fosse posta à mesa. Será<br>que estava delirando?, perguntou a si mesmo.<br>Renato levantou-se rápido e olhou direto para a mesa. Era o que imaginara:<br>a tigela de arroz ao lado da de feijão. Na bandeja prateada, tomate e alface.<br>Mais no canto, o que era aquilo? Bifes! Bifes acebolados! Renato quase gritou de<br>felicidade.&nbsp;<br><br>Quando Renato deu por si, já havia pulado a janela, sentado à mesa,<br>desvirado o prato e enchido até o máximo de arroz, feijão, dois grandes bifes, e<br>faltava ainda arranjar um cantinho onde colocar as fritas.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:04:40 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>15- Alarme</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891699833</link>
         <description><![CDATA[<div>Ao acordar, Renato se sentia outro. Disposto, transbordante de energia.<br><br>De olhos bem abertos, o desânimo começou a tomar conta de Renato.<br>Ainda deitado, pensou que era como se sua vida tivesse virado do avesso. Uma<br>total inversão na ordem das coisas. Porque agora ao acordar, concluiu, era como<br>se começasse o pesadelo.<br>Não, realmente, não dava para entender o que estava acontecendo com<br>ele, nem com ele nem com o mundo. Por que ele e o avô teriam sido escolhidos?<br>Não, não havia nada pior do que se sentir perdido, sozinho e com medo. E ter de<br>fazer alguma coisa, mas sem saber como agir para encontrar o avô.<br><br>Renato olha para o teto.<br>No alto, no canto superior direito, confere o timer: 53, 52, 51, 50. É quando<br>o alarme dispara: uau, uau, uau, uau!<br>O som estridente dispara, agonizante, mostrando que seu tempo está<br>chegando ao fim: 42, 41, 40, 39. Precisa correr, sair dali o mais rápido possível!<br><br>É o teto que desce? É um beco sem saída? Um túnel? Sim, a luz no fim do<br>túnel! Mas, quanto mais corre em direção à luz, mais parece que ela se distancia.<br>Não, não é um túnel o lugar onde ele está. Mas um corredor que vai se<br>estreitando, em que ele mal cabe dentro. Uma caixa! Sim, uma caixa comprida<br>de concreto em que o teto desce. Desce sobre ele! O teto desce rapidamente<br>sobre sua cabeça, ao som repetitivo do alarme — uau, uau, uau —, registrando os<br>segundos que ainda faltam para... esmagá-lo?! 21, 20, 19, 18...<br>Renato respira. Pensa. Rápido: é preciso decidir o que fazer!<br>Quando sente o teto quase roçar seus cabelos, ele se joga no chão. Agacha,<br>engatinha, se arrasta, se esforça como cobra enlouquecida, se estica todo como<br>raiz de árvore, as pontas dos dedos quase a tocarem a luz, quando um peso<br>insuportável nas costas começa a espremê-lo devagar, moê-lo devagar. Estanca,<br>sufoca. E tudo escurece. Até, por fim, se sentir esvair como líquido.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:07:00 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>16- O bilhete </title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891701747</link>
         <description><![CDATA[<div>O chefe jogou com raiva o jornal sobre a mesa. Olhando para a mocinha,<br>disse:<br>— Merda! Ainda mais essa. Agora vamos ter de inventar uma história<br>sobre aquele moleque desgraçado.<br>Encarou seu Vito, que prontamente desviou os olhos em direção ao chão.<br>O chefe gritou:<br>— Ô velho. Você aí, está me ouvindo? Você vai escrever num bilhete que o<br>moleque está bem<br><br>A polícia, seguramente, acompanhava o caso, pensou seu Vito. Mas, se<br>pediam notícias do neto, era porque ninguém sabia onde estava, nem mesmo a<br>polícia. Então, perguntou a si mesmo: o que significava aquilo? Preocupou-se... O<br>pior? O disparo que ouvira? Não, não podia ser...<br><br>Seu Vito fez como se estivesse pensando no que escrever, tentando ganhar<br>tempo, refletindo<br>Foi quando seu Vito jogou uma cartada decisiva.<br>Sabia o risco que estava correndo. Assim mesmo foi em frente; enchendo-<br>se de coragem, num misto de vingança, ódio, ameaça e desespero, tudo ao<br>mesmo tempo.<br>O que mais pesou em sua decisão, apesar do erro fatal que podia estar<br>cometendo, foi pensar que, se o neto estivesse morto, ele também poderia<br>morrer, pouco se importava. O que mais restava da vida?<br>Seu Vito pôs, então, a caneta no chão.<br>Bem devagar, quase como num gesto teatral, pegou o papel com as duas<br>mãos e com as pontas dos dedos começou a rasgá-lo, a picá-lo, a repicá-lo em<br>pedacinhos, enquanto encarava o homem encapuzado e dizia com firmeza,<br>olhando diretamente para os seus olhos:<br>— Pode me matar. Não me importo. Pode atirar... Não vou escrever nada.<br>Só quero saber do meu neto!</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:07:40 UTC</pubDate>
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         <title>17- Aqui, Agora</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891711694</link>
         <description><![CDATA[<div>Aqui agora&nbsp;<br>Embora Renato sentisse muito medo ele também nao tinha forças nem uma para se levantar de sua cama pois estava arrasado porque&nbsp; o jogo chegará ao fim . Oque lhe a ajudou foi ele lembrar de seu passado , quando ele ajudava a sua mãe&nbsp; . Da aí ele percebeu que aquele era um sinal do jogo (que aquele era um jogo ) para ele perceber mesmo , foi um sinal de um pássaro que pousou no game e saiu voando para fora , até pousar em uma árvore e cantar “Aqui agora , aqui agora “ Renato correu atrás dele ,só que ele não sabia se ele era o pássaro mesmo ou se não se passava de um sonho.&nbsp;<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:11:09 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>18-Mosca Azul</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891715954</link>
         <description><![CDATA[<div>&nbsp;— Já posso informar o<br>secretário de que as investigações sobre o sequestro estão numa etapa conclusiva.<br><br>Desde que a polícia localizara o barraco e passara a vigiá-lo noite e dia,<br>nenhum dos investigadores havia percebido qualquer movimentação que<br>evidenciasse a presença de Cláudio Renato ali, encarcerado junto com o avô. Era<br>exatamente esse o motivo que estava retardando a Operação Resgate (já toda<br>desenhada a lápis nos mínimos detalhes sobre a mesa do dr. Asdrúbal, para ser<br>submetida ao secretário). Por prudência, o delegado decidira "estourar" o<br>cativeiro só depois que tivesse pistas concretas do paradeiro do garoto.<br><br>— Onde se enfiou esse garoto? — repetiu a pergunta o dr. Asdrúbal.<br>Pergunta sem resposta que vinha martelando sua cabeça<br><br>Desde que um dos investigadores escondido na chácara de seu Vito flagrou,<br>no ato, a pedra ser lançada na varanda (comprovando a máxima, como afirmou<br>no dia o dr. Asdrúbal, de que "o criminoso sempre volta ao local do crime"),<br>imediatamente a polícia se pôs no encalço dos bandidos. Seguiu pistas<br>cuidadosamente e localizou, dias depois, o barraco que servia de esconderijo<br>(comprovando também a hipótese do delegado de que se tratava de uma<br>quadrilha de principiantes).<br>— Eu já teria "estourado" o cativeiro e os bandidos já estariam presos —<br>afirmou o dr. Asdrúbal — se esse garoto estivesse lá, junto do avô.<br>Essa era a grande questão que atormentava os policiais, Cláudio Renato não<br>estava no barraco e também não estava em nenhum outro lugar. Pelo menos,<br>num raio de centenas de quilômetros.<br><br>— Sente-se aí! — gritou o delegado. Depois de uma pausa, prosseguiu: —<br>Como se não bastasse o sumiço do garoto — lentamente foi levantando a cabeça,<br>seguindo o voo da mosca e, mudando o tom de voz, gritou: —, nem o tal joguinho<br>encontramos! Nem o...<br>— Videogame, delegado — completou o investigador moreno.<br>Um videogame portátil, único objeto do qual os pais de Cláudio Renato<br>notificaram a falta, após as averiguações na chácara de seu Vito.<br>Continuou o delegado:<br>— Se nem esse... Como é mesmo?<br>— Videogame — repetiu o investigador loiro.<br>— Se nem esse treco encontramos, nem isso tivemos a capacidade de<br>encontrar, o que dizer de encontrar o garoto?<br>— Por favor, delegado, por favor. Um pé do tênis encontramos! —<br>apressou-se em lembrar o investigador loiro, ciente da pobreza das provas.<br><br>— Dr. Asdrúbal? É Luci, mãe do Cláudio Renato. Nada ainda, dr. Asdrúbal?<br>— Ô, dona Luci. Eu disse que telefonaria se tivesse alguma notícia. A<br>senhora já ligou hoje de manhã, não foi? Não retornei a ligação porque não<br>surgiu nada de novo.<br>— Mas, delegado, está passando da hora de fazerem contato, de darem<br>notícia sobre meu filho, não está?&nbsp;<br>Foi nesse momento que o dr. Asdrúbal sentiu vontade de dizer a eles que os<br>bandidos já estavam sob a mira da polícia havia tempo. E que se não fosse,<br>justamente, a questão do desaparecimento do garoto, tudo já estaria resolvido.<br>Quase poderia afirmar, com grande margem de segurança, que conseguiria<br>facilmente desarmar aquele bando de incompetentes e libertar o avô, são e salvo.<br>Para isso, não precisava de dinheiro nenhum. Mas — refletiu o delegado — que<br>inferno iria criar na cabeça daqueles pais se dissesse que a única pista que tinham<br>do garoto era um mísero pé de tênis?<br>Interrompeu então seus pensamentos:<br>— Calma, calma, seu Leandro.<br><br>Se aqueles fossem sons de gritos e palavrões, constituiriam, no caso,<br>indícios perigosos, uma atitude típica de principiantes, gerada por raiva, medo,<br>drogas, indicando desequilíbrio, descontrole. O dr. Asdrúbal, enxugando o rosto e<br>o pescoço, apressou-se ainda mais e, já sentindo uma sede de camelo, ponderou<br>consigo mesmo que uma coisa era certa: ele, o delegado responsável pelo caso,<br>jamais iria permitir que o pior acontecesse, com ou sem o garoto.<br>Quando chegou, enfim, ao posto de observação, o dr. Asdrúbal mal<br>respirava. Rapidamente pegou um dos binóculos, tentando avaliar melhor a<br>situação no esconderijo. Em seguida, consultando mapas e anotações e tomando<br>grandes goles d'água diretamente da garrafa plástica, ordenou aos policiais que<br>empunhassem as armas, porque, rastejando e com muito cuidado, deveriam se<br>aproximar o máximo que pudessem e cercar o barraco por todos os lados.<br><br>A Operação Resgate estava começando.<br>Em breve, imaginou o dr. Asdrúbal (até para encorajar a si mesmo), o cativeiro seria "estourado", os bandidos presos, a vítima posta em liberdade, tudo<br>sem disparar um tiro!<br><br>Rapidamente, os policiais posicionaram-se a poucos metros do esconderijo,<br>seguindo as instruções do delegado. Permaneciam agachados, protegidos pela<br>vegetação rasteira e pelos troncos das árvores. Estavam tão próximos do barraco<br>que podiam ouvir o som abafado das vozes.<br>O dr. Asdrúbal ordenou, por sinais, que o atirador protegesse a retaguarda e<br>ao mesmo tempo procurasse o melhor ângulo para ter como mira o vitrô. O<br>passo seguinte: ele e os outros policiais cercariam o esconderijo, mantendo uma<br>distância cautelosa, mas que permitisse uma rápida invasão. Sinalizou, erguendo<br>o dedo, que ele próprio cuidaria da porta, a única porta, enquanto os outros três<br>cobririam cada lado do barraco.<br>Rastejando como cobras, evitando o mínimo ruído possível, cada um foi<br>buscando a melhor posição. Em pouco tempo o barraco estava cercado, todos a<br>postos e preparados para avançar, só aguardando a ordem do delegado.<br><br>Este, por sua vez, esforçava-se ao máximo para ouvir as vozes que vinham<br>do esconderijo, como numa discussão distante. Embora não desse para entender<br>o que diziam, ou discutiam, ele tentava identificar as pessoas para calcular a localização exata de cada uma, a distância entre elas, supondo qual estaria em<br>pé, qual estaria sentada. Principalmente, queria se assegurar de não estar ouvindo<br>nenhuma voz de criança.<br>Então, fez-se um silêncio absoluto. Tudo estava quieto. O sol castigava a<br>colina. Toda a equipe era só ouvidos.<br>Um som estranho, estridente, vindo talvez do alto das árvores, despertou a<br>atenção do delegado. Parecia chegar cada vez mais perto. Seria um pássaro?<br>Tentou localizar olhando para cima. O canto repetitivo de um pássaro, agudo<br>como uma voz, nos galhos ainda mais altos? De repente, o baque surdo vindo do barraco.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:12:45 UTC</pubDate>
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         <title>19- Instante derradeiro</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891723568</link>
         <description><![CDATA[<div>-É o que você quer ? Vou atira e te matar seu filho do cão . Seu Vito estava muito assustado então so ficava quieto , mas o homen nn parava de te ameaçar :<br>-assine logo ! Se não irei te matar . Quando ele falou isso várias coisas passaram na mente de Vito , a Luce , à igreja decorada com flores , o clarão das fotos , a cauda do vestido branco, e o dia em que viu através de um berçário um bebê sendo entregue ao um tipo de ritual .<br>&nbsp;Mas ele continuava ameaçando e nn parava , ele engatilhou a arma e Vito fechou os olhos e não&nbsp; fez mais nada só ficou em paz e fechou seus olhos.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:15:45 UTC</pubDate>
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         <title>20 - Um segundo apenas </title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891726516</link>
         <description><![CDATA[<div>A culpa avisa sido dele pois ele era a única autoridade que poderia ter uma arma e ele era o único responsável pela onge . O dr tentou passar um pano para ele mas nn deu certo e agora ele deverar arcar com as consequências.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:16:51 UTC</pubDate>
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         <title>21-TUDO E POSSÍVEL</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891731043</link>
         <description><![CDATA[<div>O delegado consolando dona Luci q estava preocupada com oq seu filho estava dizendo . Conversou com o delegado e ele falou q era pós causa dos traumas que o menino tinha passado&nbsp; e que não era para ela se preocupar mas oque ele queria saber mesmo e como estava o Sr Vito . Então ele vai perguntou como ele estava e ela respondeu q ele estava bem que iria voltar a andar daqui uns dias , por conta da recuperação do tiro . O delegado falou q o verdadeiro herói foi o seu filho por ter entrado na frente de Vito .</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:18:28 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>22-ALMOÇO DE DOMINGO </title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891739472</link>
         <description><![CDATA[<div>Seu Vito no almoço de família estava tentando convencer eles de todo qualquer jeito a deixar ele voltar&nbsp; a morar na chácara , mas Luci não gostou da ideia então eles discutirão sobre isso , ela pensava que ele ainda não estava bom o suficiente mentalmente ( por causa dos traumas ) e fisicamente por causa do tiro do joelho . Essa discrição demorou a beça pois ele contava coisas q para ela era super sem nexo . Mas depois de muita existência de seu Vito eles deixaram , só que com a condição que eles (a família dele)nunca&nbsp; mais tocara os pés na casa dele , e agora a decisão seria toda do Sr Vito falou seu filho.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:21:37 UTC</pubDate>
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         <title>23-OPERAÇÃO RESGATE</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891752323</link>
         <description><![CDATA[<div>O DIÁRIO DE PONTA ALTA – FOLHA POLICIAL, DIA 22<br>Exclusivo!&nbsp;<br>Delegado conta tudo sobre o sequestro<br>A equipe de investigadores comandada pelo Dr. e Delegado Asdrúbal, libertou do cativeiro Vito Henrique Cavalcante, de 75 anos, e seu neto Cláudio Renato Cavalcante Marques, 13 anos.<br>Após uma denúncia de desaparecimento feita pelos pais de Cláudio, a polícia encontrou o cativeiro, um barraco de madeira, onde ainda estavam os três sequestradores.<br>Na versão do garoto, ele conta que estava à procura do avô e teve a ajuda de seu game portátil, no momento do disparo o garoto entrou na frente o avô, salvando a vida dele.<br>Já na versão das autoridades o garoto estava perdido na mata e sem querer encontrou o cativeiro, e quando ouviu o disparo invadiu o barraco.&nbsp;<br>Apesar da gravidade da situação, todos saíram com vida, porém o delegado admite que a operação teve falhas de conduta, pelo atraso na ordem para os policiais estourarem o cativeiro e não ter notado a entrada o garoto.<br>Porém ele acredita que se o garoto não tivesse entrado o desfecho poderia ter sido pior.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:26:20 UTC</pubDate>
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         <title>24- PRÓTONS E ELÉTRONS</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891767370</link>
         <description><![CDATA[<div>De volta as aulas Cláudio Renato falava com o avô por telefone nas noites de sexta feira. Em uma dessas conversas com seu avô disse que estava com saudades e perguntou se ele ainda jogava seu game.<br>&nbsp; &nbsp; Cláudio respondeu que não, que estava fazendo pesquisas no computador a respeito de átomos, após Tio André, através de e-mail ter lhe falado sobre a teoria da física Quântica, e também sobre gaviões. Ele era o único que acreditava na versão do garoto além de seu avô.&nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; Após esta ligação Cláudio Renato resolveu ligar novamente seu game, que estava guardado desde então.&nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; Nesta noite ele demorou para pegar no sono, olhando a cama ao lado vazia onde seu avô ficou durante a recuperação do ferimento no joelho. Acabou tendo um pesadelo.&nbsp; &nbsp;</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:32:16 UTC</pubDate>
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         <title>25- SONHOS E PESADELOS</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891772141</link>
         <description><![CDATA[<div>Cláudio Renato reviveu todo o ocorrido em seu pesadelo. Ele tinha esse sonho sempre. Era sempre igual relembrando tudo que passou, misturando as imagens do pássaro, do cão, do bebê chorando, das teclas do game, dos tiros, do salto que deu em direção do avô, da perna baleada, da dor de seu avô, dos policiais entrando, tudo ao mesmo tempo.<br>&nbsp; &nbsp; Ele estava cansado desses pesadelos, quando o avô ainda estava ao lado dele sempre o consolava, mas agora ele estava só.<br>&nbsp; &nbsp; Sentiu a necessidade de ir visita-lo na chácara, de ver se estava bem, contar sobre suas pesquisas, mesmo contra a vontade dos pais.<br>Decidiu então deixar um bilhete aos pais onde pedia desculpas por desobedecer, mas que precisava fazer isso, ir a chácara visitar o avô.</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:34:02 UTC</pubDate>
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         <title>26-POR ONDE IR</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891776168</link>
         <description><![CDATA[<div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Seus pais demoraram para encontrar o bilhete, e por isso estavam desesperados procurando Cláudio. Já tinham mobilizado todos, até o Dr. Asdrúbal.<br>&nbsp; &nbsp; Então avisaram a todos onde ele tinha ido e começaram uma busca por ele, rodaram por várias ruas, sem saber onde procurar. Ficaram muito preocupados de como ele iria chegar na chácara. Decidiram então por fim irem para lá também.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:35:32 UTC</pubDate>
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         <title>27-GAME OVER</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891780724</link>
         <description><![CDATA[<div>Chegando a chácara ele bateu o sino do portão, trazia com ele as folhas da pesquisa sobre gaviões. Neste momento seu avô ficou aliviado e já avisou Leandro que ficou agradecido.<br>&nbsp; &nbsp; Enquanto esperava no portão Cláudio ficou criando histórias para explicar como havia chegado lá, se teria sido de carona em um caminhão, se teria sido de ônibus...<br>&nbsp; &nbsp; Mas sabia que quem era o responsável, o jogo teria acabado. Viu na tela do game o mostrador piscando: as fases zeradas no número 7.<br>&nbsp; &nbsp; Ficou feliz de ver seu avô chegando e abraçado a ele foram para a casa.<br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:37:03 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>28-FLORES DA QUARESMEIRA</title>
         <author>milkkic3</author>
         <link>https://padlet.com/milkkic3/ohoja6yaspg8kzdi/wish/1891784719</link>
         <description><![CDATA[<div>Muito tempo depois, quando Cláudio já se preparava para prestar o vestibular para a faculdade de Física, sempre que podia ia visitar o avô.<br>Nestas visitas ele o ajudava com os pássaros, regava os troncos das árvores, rastelava as folhas, cuidava das plantas e cortava a grama.<br>À noite após o jantar que seu avô preparava eles assistiam um filme. Era nesta hora que Cláudio observava seu game portátil, que ficava logo acima da TV, em uma posição de destaque na estante.<br>Quando as visitas entravam na sala perguntavam ao avô se ele, apesar de velho, gostava de jogar aquele jogo. Seu Vito sempre respondia que era um presente que ganhara do neto, o melhor presente da sua vida<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2021-11-15 16:38:24 UTC</pubDate>
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