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      <title>Palavras para uma ditadura by Carla Fernandes</title>
      <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia</link>
      <description>Poesia de resistência</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2018-04-25 15:19:42 UTC</pubDate>
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         <title></title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255288135</link>
         <description><![CDATA[<div>Este é o tempo <br>Da selva mais obscura <br><br>Até o ar azul se tornou grades <br>E a luz do sol se tornou impura <br><br>Esta é a noite <br>Densa de chacais <br>Pesada de amargura <br>Este é o tempo em que os homens renunciam <br><br>Sophia de Mello Breyner Andresen, 1970 </div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:29:37 UTC</pubDate>
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         <title></title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255290020</link>
         <description><![CDATA[<div> Neste país de dor e incerteza. <br>Aqui eu escolhi permanecer <br>Onde a visão é dura e mais difícil <br>Aqui me resta apenas fazer frente <br>Ao rosto sujo de ódio e de injustiça <br>A lucidez me serve para ver <br>A cidade cair muro por muro <br>E as faces a morrerem uma a uma <br>E a morte que me corta ela me ensina <br>Que o sinal do homem não é uma coluna. <br>E eu vos peço por este amor cortado <br>Que vos lembreis de mim lá onde o amor <br>Já não pode morrer nem ser quebrado. <br>Que o vosso coração que já não bate <br>O tempo denso de sangue e de saudade <br>Mas vive a perfeição da claridade <br>Se compadeça de mim e de meu pranto <br>Se compadeça de mim e de meu canto. <br><br>Sophia de Mello Breyner Andresen, 1970 </div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:32:51 UTC</pubDate>
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         <title>AS PALAVRAS</title>
         <author>fernandesc3</author>
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         <description><![CDATA[<div><br></div><div>Palavras tantas vezes perseguidas<br>palavras tantas vezes violadas<br>que não sabem cantar ajoelhadas<br>que não se rendem mesmo se feridas.<br>Palavras tantas vezes proibidas<br>e no entanto as únicas espadas<br>que ferem sempre mesmo se quebradas<br>vencedoras ainda que vencidas.<br>Palavras por quem eu já fui cativo<br>na língua de Camões vos querem escravas<br>palavras com que canto e onde estou vivo.<br>Mas se tudo nos levam isto nos resta:<br>estamos de pé dentro de vós palavras.<br>Nem outra glória há maior do que esta.</div><div>            </div><div>Manuel Alegre, <em>O Canto e As Armas, </em>1967</div><div>          </div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:36:09 UTC</pubDate>
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         <title>É PRECISO DIZER-SE O QUE ACONTECE NO MEU PAÍS DE SAL </title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255293570</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div>              <strong>OS SAPATOS</strong>        <br>    <br>Enfio os mocassinos do meu tempo nos pés<br>e piso a senda lenda dos meus antepassados.<br>Hoje, sou eu que passo o cabo das tormentas nos cafés<br>quando vomito a Índia nos lavabos.<br><br>Se Egas Moniz foi herói<br>duma bravata bonita<br>eu sou quem paga o resgate<br>da história que me limita.<br><br>A linda Inês dos meus olhos<br>foi reposta em seu sossego<br>não há hidroenergia<br>que ressuscite o Mondego<br>não há barragem que estanque<br>o sonho que é hoje infante<br>na ponta de um pesadelo.<br><br>Ai flores Ai flores de lapela<br>flores de plástico e de feltro<br>filigrana caravela<br>que estás cada vez mais perto<br>filha de Vasco da Gama<br>dado como pai incerto.<br><br>Partem tão tristes os pés<br>de quem te arrasta consigo<br>tão andados      tão modernos<br>tão vazios de sentido<br>tão queimados deste inferno<br>que têm as solas gastas<br>e o caminho puído.<br><br>Partem tão tristes os pés<br>de quem te arrasta consigo<br>passeiam<br>     andam<br>          desandam<br>                  param<br>                    Perseguem<br>                         persistem<br>                              caminham<br>                                      calculam<br>                                             correm<br>doem      detêm      desistem.<br>Partem tão tristes os tristes<br>tão fora de chegar bem            <br><br>José Carlos Ary dos Santos, “Adereços, Endereços”, 1965</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:39:16 UTC</pubDate>
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         <title></title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255293698</link>
         <description><![CDATA[É PRECISO DIZER-SE O QUE ACONTECE NO MEU PAÍS DE SAL ]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:39:28 UTC</pubDate>
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         <title>OS OLHOS DO POETA</title>
         <author>fernandesc3</author>
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         <description><![CDATA[<div>&nbsp;O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,</div><div>e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que desconhecem.<br>Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,<br>e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,<br>com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.<br>Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos<br>e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias<br>e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da Terra<br>e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas<br>e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos dos pólos, brancos, brancos,<br>e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram<br>e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando como contos de fada à hora da infância<br>e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas<br>e correndo pela costa de mãos jogadas prò mar amaldiçoando a tempestade:<br>‑ todas as cores, todas as formas do mundo se agitam nos olhos do poeta.<br>Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,<br>sai uma estrela voando nas trevas,<br>tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.<br>E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta<br>que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.&nbsp; &nbsp; &nbsp;<br><br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Manuel da Fonseca, “Rosa dos Ventos”,1940</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:42:29 UTC</pubDate>
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      <item>
         <title>NÃO, NÃO QUEREMOS CANTAR</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255299211</link>
         <description><![CDATA[<div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</div><div>(Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos.<br>Recuso-me a ter mais de vinte anos.)&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<br>Não, não queremos cantar <br>as canções azuis <br>dos pássaros moribundos. <br><br>Preferimos andar aos gritos <br>para que os homens nos entendam <br>na escuridão das raízes. <br><br>Aos gritos como os pescadores quando puxam as redes <br>em tardes de fome pitoresca para quadros de exposição. <br>Aos gritos como os fogueiros que se lançam vivos nas fornalhas <br>para que os navios cheguem intactos aos destinos dos outros. <br>Aos gritos como os escravos que arrastaram as pedras no Deserto <br>para o grande monumento à Dor Humana do Egipto. <br>Aos gritos como o idílio dum operário e duma operária <br>a falarem de amor <br>ao pé duma máquina de tempestade <br>a soluçar cidades de fome <br>na cólera dos ruídos... <br><br>Aos gritos, sim, aos gritos.<br><br>E não há melhor orgulho <br>do que o nosso destino <br>de nascer em todas as bocas... <br><br>...Nós, os poetas viris <br>que trazemos nos olhos <br>as lágrimas dos outros.&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<br><br>José Gomes Ferreira, poema <em>VII </em>da<em> </em>série <em>Heroicas </em>(1936-1937-1938)<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:48:41 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>A PORTUGAL</title>
         <author>fernandesc3</author>
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         <description><![CDATA[<div> Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.</div><div>Nem é ditosa, porque o não merece.<br>Nem minha amada, porque é só madrasta.<br>Nem pátria minha, porque eu não mereço<br>a pouca sorte de ter nascido nela.<br><br>Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta<br>quanto esse arroto de passadas glórias.<br>Amigos meus mais caros tenho nela,<br>saudosamente nela, mas amigos são<br>por serem meus amigos, e mais nada.<br><br>Torpe dejecto de romano império;<br>babugem de invasões; salsugem porca<br>de esgoto atlântico; irrisória face<br>de lama, de cobiça, e de vileza,<br>de mesquinhez, de fátua ignorância;<br>terra de escravos, cu pró ar ouvindo<br>ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;<br>terra de funcionários e de prostitutas,<br>devotos todos do milagre, castos<br>nas horas vagas de doença oculta;<br>terra de heróis a peso de ouro e sangue,<br>e santos com balcão de secos e molhados<br>no fundo da virtude; terra triste<br>à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,<br>cheia de afáveis para os estrangeiros<br>que deixam moedas e transportam pulgas,<br>oh pulgas lusitanas, pela Europa;<br>terra de monumentos em que o povo<br>assina a m erda o seu anonimato;<br>terra - museu em que se vive ainda,<br>com porcos pela rua, em casas celtiberas;<br>terra de poetas tão sentimentais<br>que o cheiro de um sovaco os põe em transe;<br>terra de pedras esburgadas, secas<br>como esses sentimentos de oito séculos<br>de roubos e patrões, barões ou condes;<br>ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:<br><br>eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,<br>és mais que cachorra pelo cio,<br>és peste e fome e guerra e dor de coração.<br>Eu te pertenço: mas ser's minha, não.           <br><br>Jorge de Sena<br>“Tempo de Peregrinatio ad Loca Infecta (1959-1969)”, <em>in 40 Anos de Servidão</em>, Lisboa: Edições 70. </div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 15:59:59 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>NO MEU PAÍS HÁ UMA PALAVRA PROIBIDA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255308098</link>
         <description><![CDATA[<div><br>No meu país há uma palavra proibida.<br>Mil vezes a prenderam mil vezes cresceu.<br>E pulsa em nós como o pulsar da própria vida<br>sabe ao sal deste mar tem a cor deste céu<br>no meu país há uma palavra proibida.<br>No meu país há uma palavra que se diz<br>com a mesma ternura da palavra irmã.<br>Palavra quente como o sol do meu país<br>palavra clara como é cada manhã<br>apesar da tristeza lá no meu país.<br>No meu país há uma palavra que se escreve<br>sobre os muros à pressa pela noite dentro.<br>Uma palavra assim nenhuma língua a teve<br>tão ausência-presença tão feita de vento<br>tão impossível de apagá-la onde se escreve.<br>No meu país há uma palavra onde se guarda<br>tudo o que se não teve tudo o que não foi.<br>Por ela a humilhação fabrica uma espingarda<br>e há um tempo de luta no tempo que dói<br>nessa palavra que nos guia que nos guarda.<br>Palavra que murmura nos verdes pinheiros<br>o recado que o mar vem escrever nas areias.<br>Se já em nós morreram velhos marinheiros<br>há uma palavra que semeia em nossas veias<br>um país que murmura nos verdes pinheiros.<br>No meu país em cada homem há uma palavra<br>que rasga as trevas e as prisões: palavra-chave<br>capaz de transformar em asa a mão que lavra.<br>E é inútil prenderem-na que é luz e ave<br>no meu país em cada homem essa palavra.<br>Palavra feita de montanhas praias vento.<br>De verde pinho e mar azul. De sol. De sal.<br>Não vale a pena proibirem o pensamento.<br>Há uma palavra clandestina em Portugal<br>que se escreve com todas as harpas do vento.</div><div><strong>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</strong></div><div>Manuel Alegre, <em>O Canto e As Armas, </em>1967.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 16:03:43 UTC</pubDate>
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      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255310432</link>
         <description><![CDATA[<div>Perguntei ao vento, onde foi encontrar<br>Mago sopro encanto, nau da vela em cruz<br>Fui nas ondas do mar do mundo inteiro<br>Terras da perdição, parco império mil almas<br>Por pau de canela e mazagão<br><br></div><div>Pata de negreiro, tira e foge à morte<br>Que a sorte é de quem aterra amou<br>E no peito guardou<br>Cheiro da mata eterna<br>Laranja luanda, sempre em flor<br><br></div><div>Pata de negreiro, tira e foge à morte<br>Que a sorte é de quem a terra amou<br>E no peito guardou<br>Cheiro da mata eterna<br>Laranja luanda, sempre em flor<br><br></div><div>Perguntei ao vento, onde foi encontrar<br>Mago sopro encanto, nau da vela em cruz<br>Fui nas ondas do mar do mundo inteiro<br>Terras da perdição, parco império mil almas<br>Por pau de canela e mazagão<br><br></div><div>Pata de negreiro, tira e foge à morte<br>Que a sorte é de quem a terra amou<br>E no peito guardou<br>Cheiro da mata eterna<br>Laranja luanda, sempre em flor<br><br></div><div>Queda do Império - Vitorino</div>]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?v=wvYG8m-PllI" />
         <pubDate>2018-04-25 16:08:05 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255316687</link>
         <description><![CDATA[<div>A Formiga&nbsp;<br><br>A formiga no carreiro<br>vinha em sentido contrário<br>Caiu ao Tejo<br>ao pé de um septuagenário<br><br>Lerpou trepou às tábuas (bis)<br>que flutuavam nas águas (bis)<br>e do cimo de uma delas<br>virou-se para o formigueiro<br>mudem de rumo (bis)<br>já lá vem outro carreiro<br><br></div><div>A formiga no carreiro<br>vinha em sentido diferente<br>caiu à rua<br>no meio de toda a gente<br><br></div><div>buliu abriu as gâmbeas<br>para trepar às varandas<br>e do cimo de uma delas<br><br></div><div>A formiga no carreiro<br>andava à roda da vida<br>caiu em cima<br>de uma espinhela caída<br><br></div><div>furou furou à brava<br>numa cova que ali estava<br>e do cimo de uma delas<br><br>Zeca Afonso</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 16:16:36 UTC</pubDate>
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      <item>
         <title>CANTAR DE EMIGRAÇÃO</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/255323365</link>
         <description><![CDATA[<div>Este parte, aquele parte<br>e todos, todos se vão.<br>Galiza, ficas sem homens<br>que possam cortar teu pão<br><br>Tens em troca orfãos e orfãs<br>e campos de solidão<br>e mães que não têm filhos<br>filhos que não têm pais.<br><br>Corações que tens e sofrem<br>longas horas mortais<br>viúvas de vivos-mortos<br>que ninguém consolará<br><br>&nbsp;Rosalía de Castro (poetisa galega) na voz de Adriano Correia de Oliveira</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 16:29:02 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>CÂNTICO DO PAÍS EMERSO</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513041104</link>
         <description><![CDATA[<div>Os previdentes e os presidentes tomam de ponta<br>Os inocentes que têm pressa de voar<br>Os revoltados fazem de conta fazem de conta...<br>Os revoltantes fazem as contas de somar.<br><br>Embebo-me na solidão como uma esponja<br>Por becos que me conduzem a hospitais.<br>O medo é um tenente que faz a ronda<br>E a ronda abre sepulcros fecha portais;<br><br>Os edifícios são malefícios da conjura<br>Municipal de um desalento e de uma Porta.<br>Salvo a ranhura para sair o funeral<br>Não há inquilinos nos edifícios vistos por fora<br><br>Que é dos meninos com cataventos na aérea<br>Arquitetura de gargalhadas em cornucópia?<br>Almas bovinas acomodadas à matéria<br>Pastam na erva entre as ruínas da memória,<br><br>Homens por dentro abandalhados em unhas sujas<br>Que desleixaram seu coração num bengaleiro;<br>Mulheres corujas seriam gregas não fossem as negras<br>Nódoas deixadas na sua carne pelo dinheiro;<br><br>Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa<br>Passam por mim como alamedas de ciprestes<br>E a flor de cinza da juventude é uma aresta<br>Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres<br><br>E essa ansidedade de mim mesma me virgula<br>Paula de pátria entressonhada. É um crisol.<br>E, o fruto agreste da linfa ardente que em mim circula<br>Sabe-me a sol. Sabe-me a pássaro. Pássaro ao sol.<br><br>Entre mim e a cidade se ateia a perspectiva<br>De uma angústia florida em narinas frementes.<br>Apalpo-me estou viva e o tacto subjectiva-me<br>a galope num sonho com espuma nos dentes.<br><br>E invoco-vos, irmãos, Capitães-Mores do Instinto!<br>Que me acenais do mar com um lenço cor da aurora<br>E com a tinta azulada desse aceno me pinto.<br>O cais é a urgência. O embarque é agora.<br><br></div><div>Natália Correia, 1961<em><br></em><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 14:50:30 UTC</pubDate>
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         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513051308</link>
         <description><![CDATA[<div>Dão-nos um lírio e um canivete<br>E uma alma para ir à escola<br>Mais um letreiro que promete<br>Raízes, hastes e corola<br><br></div><div>Dão-nos um mapa imaginário<br>Que tem a forma de uma cidade<br>Mais um relógio e um calendário<br>Onde não vem a nossa idade<br><br></div><div>Dão-nos a honra de manequim<br>Para dar corda à nossa ausência<br>Dão-nos um prémio de ser assim<br>Sem pecado e sem inocência<br><br></div><div>Dão-nos um barco e um chapéu<br>Para tirarmos o retrato<br>Dão-nos bilhetes para o céu<br>Levado à cena num teatro<br><br></div><div>Penteiam-nos os crâneos ermos<br>Com as cabeleiras dos avós<br>Para jamais nos parecermos<br>Connosco quando estamos sós<br><br></div><div>Dão-nos um bolo que é a história<br>Da nossa historia sem enredo<br>E não nos soa na memória<br>Outra palavra para o medo<br><br></div><div>Temos fantasmas tão educados<br>Que adormecemos no seu ombro<br>Sonos vazios despovoados<br>De personagens do assombro<br><br></div><div>Dão-nos a capa do evangelho<br>E um pacote de tabaco<br>Dão-nos um pente e um espelho<br>Pra pentearmos um macaco<br><br></div><div>Dão-nos um cravo preso à cabeça<br>E uma cabeça presa à cintura<br>Para que o corpo não pareça<br>A forma da alma que o procura<br><br></div><div>Dão-nos um esquife feito de ferro<br>Com embutidos de diamante<br>Para organizar já o enterro<br>Do nosso corpo mais adiante<br><br></div><div>Dão-nos um nome e um jornal<br>Um avião e um violino<br>Mas não nos dão o animal<br>Que espeta os cornos no destino<br><br></div><div>Dão-nos marujos de papelão<br>Com carimbo no passaporte<br>Por isso a nossa dimensão<br>Não é a vida, nem é a morte<br><br>Poema de Natália Correia.</div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 14:54:35 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513074190</link>
         <description><![CDATA[<div>Juntei-me um dia à flor da mocidade</div><div>partindo para Angola no Niassa</div><div>a defender eu já não sei se a raça</div><div>se as roças de café da cristandade</div><div> </div><div>a minha geração tinha a idade</div><div>das grandes ilusões sempre fatais</div><div>que não chegam aos anos principais</div><div>por defeito da própria ingenuidade</div><div> </div><div>a guerra era uma coisa mais a Norte</div><div>de onde ela voltaria havendo sorte</div><div>à mesma e ancestral tranquilidade</div><div> </div><div>azar de uns quantos se pagaram porte</div><div>esses a que atirou a dura morte</div><div>diz-se que estão na terra da verdade</div><div> </div><div>Fernando Assis Pacheco</div><div>28-IV-94</div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 15:04:00 UTC</pubDate>
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         <title>Genérico</title>
         <author>fernandesc3</author>
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         <description><![CDATA[<div><br>E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos<br>das lágrimas quebrando<br>um a um na boca triste mas<br>por dentro, para que digamos<br>mais tarde, sem invenção escusada:<br>o pai não chorou.<br><br>Eu soube das tuas fúrias<br>mordendo-se em silêncio,<br>ou de como te pões<br>às vezes tão de cinza.<br>O barco, o barco. Ficaremos<br>ainda estes minutos quantos.<br>Do que quiseres. E como quiseres.<br>Fala. Mas nada de telegramas<br>para depois da barra<br>- posso não os abrir,<br>juro que posso.<br>Se eu fosse um amigo, se estivesses<br>em frente dum copo.<br>Custava menos. Assim<br>deslizas a unha<br>pelo tecido da farda, inútil<br>dedo terno com os olhos longe.<br>O pai, que não chorou, tremia<br>de modo imperceptível.<br><br>Lembro-me da bebedeira<br>em Alpedrinha, na estalagem,<br>com o Luís Melo<br>subitamente velho.<br>«Tramados, pá, tramados.»<br>O carro falha, são as velas<br>os platinados sujos<br>«a puta que os pariu» (Luís).<br><br>Um último aceno só vinho<br>para estas adolescentes<br>ao balcão do bar e depois e depois?<br><br>Mas o pai não chora.<br>Segura-me pelo braço, não chora.<br>Eis o filho<br>dos anos meus incorruptíveis.<br>Nasceria de uma pedra.<br>Longe do mundo é que ele nasceu.<br>E não mo tireis nunca<br>ó cegos capitães!<br><br>Meia hora antes o pai<br>filmou o Tejo, as tropas.<br>Era um barco, um barco onde ele ia.<br>Era um barco cheio.<br><br>Fernando Assis Pacheco, in 'Câu Kiên: Um Resumo'</div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 15:07:50 UTC</pubDate>
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         <title>Lamento</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513092772</link>
         <description><![CDATA[<div><br>Pátria sem rumo, minha voz parada<br>Diante do futuro!<br>Em que rosa-dos-ventos há um caminho<br>Português?<br>Um brumoso caminho<br>De inédita aventura,<br>Que o poeta, adivinho,<br>Veja com nitidez<br>Da gávea da loucura?<br><br>Ah, Camões, que não sou, afortunado!<br>Também desiludido,<br>Mas ainda lembrado da epopeia...<br>Ah, meu povo traído,<br>Mansa colmeia<br>A que ninguém colhe o mel!...<br>Ah, meu pobre corcel<br>Impaciente,<br>Alado<br>E condenado<br>A choutar nesta praia do Ocidente...<br><br><br>Miguel Torga, in Diário XII, 136. <br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 15:11:43 UTC</pubDate>
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      <item>
         <title>A PORTUGAL</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513100809</link>
         <description><![CDATA[<div><br>Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.<br>Nem é ditosa, porque o não merece.<br>Nem minha amada, porque é só madrasta.<br>Nem pátria minha, porque eu não mereço<br>A pouca sorte de nascido nela.<br><br>Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta<br>quanto esse arroto de passadas glórias.<br>Amigos meus mais caros tenho nela,<br>saudosamente nela, mas amigos são<br>por serem meus amigos, e mais nada.<br><br>Torpe dejecto de romano império;<br>babugem de invasões; salsugem porca<br>de esgoto atlântico; irrisória face<br>de lama, de cobiça, e de vileza,<br>de mesquinhez, de fatua ignorância;<br>terra de escravos, cu pró ar ouvindo<br>ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;<br>terra de funcionários e de prostitutas,<br>devotos todos do milagre, castos<br>nas horas vagas de doença oculta;<br>terra de heróis a peso de ouro e sangue,<br>e santos com balcão de secos e molhados<br>no fundo da virtude; terra triste<br>à luz do sol calada, arrebicada, pulha,<br>cheia de afáveis para os estrangeiros<br>que deixam moedas e transportam pulgas,<br>oh pulgas lusitanas, pela Europa;<br>terra de monumentos em que o povo<br>assina a merda o seu anonimato;<br>terra-museu em que se vive ainda,<br>com porcos pela rua, em casas celtiberas;<br>terra de poetas tão sentimentais<br>que o cheiro de um sovaco os põe em transe;<br>terra de pedras esburgadas, secas<br>como esses sentimentos de oito séculos<br>de roubos e patrões, barões ou condes;<br>ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:<br>eu te pertenço.<br>És cabra, és badalhoca,<br>és mais que cachorra pelo cio,<br>és peste e fome e guerra e dor de coração.<br>Eu te pertenço mas seres minha, não.<br><br>Jorge de Sena, in "40 anos de servidão".<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 15:14:51 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513109517</link>
         <description><![CDATA[<div>O Patrão e Nós<br><br>Vejam aquele homem de cartola<br>De lacinho e casacão<br>A mala cheia de dinheiro<br>Que ele transporta na mão<br>Vive em Cascais ou Estoril<br>E mora numa mansão<br>Goza as férias de verão<br>Quando quer e lhe apetece<br>Tem um banco e muitas fábricas<br>Tem nome de patrão<br><br>Mas agarra que é ladrão<br>Não faz falta e é cabrão!<br><br>E olhem agora cá p'ra nós<br>Boné roto e macacão<br>O saco da ferramenta<br>E de lancheira na mão<br>Vivemos no Casal Ventoso<br>Moramos num barracão<br>O ano inteiro a trabalhar<br>Sem verões nem primaveras<br>Temos filhos muitos filhos<br>Sem escola nem sacola<br><br>Mas isto vai acabar<br>À porrada no patrão!<br><br>Fausto Bordalo Dias</div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-17 15:18:32 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513118514</link>
         <description><![CDATA[<div>É possível amar sem que venham proibir.<br>É possível correr sem que seja a fugir.<br>Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.<br><br>É possível andar sem olhar para o chão.<br>É possível viver sem que seja de rastos.<br>Os teus olhos nasceram para olhar os astros.<br>Se te apetece dizer não, grita comigo: não!<br><br>É possível viver de outro modo.<br>É possível transformar em arma a tua mão.<br>É possível viver o amor. É possível o pão.<br>É possível viver de pé.<br><br>Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.<br>É possível viver sem fingir que se vive.<br>É possível ser homem.<br>É possível ser livre, livre, livre.&nbsp;<br><br>Poema de Manuel Alegre</div>]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?time_continue=20&amp;v=K6jsEC7KGJ4&amp;feature=emb_logo" />
         <pubDate>2020-04-17 15:22:16 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/513128225</link>
         <description><![CDATA[]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?time_continue=9&amp;v=srrWBrYrYbI&amp;feature=emb_logo" />
         <pubDate>2020-04-17 15:26:08 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>Acusam-me de Mágoa e Desalento</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/523283059</link>
         <description><![CDATA[<div>Acusam-me de mágoa e desalento,<br>como se toda a pena dos meus versos<br>não fosse carne vossa, homens dispersos,<br>e a minha dor a tua, pensamento.<br><br>Hei-de cantar-vos a beleza um dia,<br>quando a luz que não nego abrir o escuro<br>da noite que nos cerca como um muro,<br>e chegares a teus reinos, alegria.<br><br>Entretanto, deixai que me não cale:<br>até que o muro fenda, a treva estale,<br>seja a tristeza o vinho da vingança.<br><br>A minha voz de morte é a voz da luta:<br>se quem confia a própria dor perscruta,<br>maior glória tem em ter esperança.<br><br><em>Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'</em></div>]]></description>
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         <pubDate>2020-04-22 15:05:22 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/1459734026</link>
         <description><![CDATA[<div>Pedra Filosofal<br><br>Eles não sabem que o sonho<br>é uma constante da vida<br>tão concreta e definida<br>como outra coisa qualquer,<br>como esta pedra cinzenta<br>em que me sento e descanso,<br>como este ribeiro manso<br>em serenos sobressaltos,<br>como estes pinheiros altos<br>que em verde e oiro se agitam,<br>como estas aves que gritam<br>em bebedeiras de azul.<br><br>Eles não sabem que o sonho<br>é vinho, é espuma, é fermento,<br>bichinho álacre e sedento,<br>de focinho pontiagudo,<br>que fossa através de tudo<br>num perpétuo movimento.<br><br>Eles não sabem que o sonho<br>é tela, é cor, é pincel,<br>base, fuste, capitel,<br>arco em ogiva, vitral,<br>pináculo de catedral,<br>contraponto, sinfonia,<br>máscara grega, magia,<br>que é retorta de alquimista,<br>mapa do mundo distante,<br>rosa-dos-ventos, Infante,<br>caravela quinhentista,<br>que é Cabo da Boa Esperança,<br>ouro, canela, marfim,<br>florete de espadachim,<br>bastidor, passo de dança,<br>Colombina e Arlequim,<br>passarola voadora,<br>pára-raios, locomotiva,<br>barco de proa festiva,<br>alto-forno, geradora,<br>cisão do átomo, radar,<br>ultra-som, televisão,<br>desembarque em foguetão<br>na superfície lunar.<br><br>Eles não sabem, nem sonham,<br>que o sonho comanda a vida.<br>Que sempre que um homem sonha<br>o mundo pula e avança<br>como bola colorida<br>entre as mãos de uma criança.<br><br>António Gedeão</div>]]></description>
         <enclosure url="https://www.youtube.com/watch?v=kGvY4tqcgUQ" />
         <pubDate>2021-04-26 14:26:36 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/1459755717</link>
         <description><![CDATA[<div>No céu cinzento sob o astro mudo<br>Batendo as asas pela noite calada<br>Vêm em bandos com pés veludo<br>Chupar o sangue fresco da manada<br><br></div><div>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada<br>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada<br><br></div><div>Se alguém se engana com seu ar sisudo<br>E lhes franqueia as portas à chegada</div><div>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada<br><br>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada</div><div>À toda a parte chegam os vampiros<br>Poisam nos prédios poisam nas calçadas<br><br>Trazem no ventre despojos antigos<br>Mas nada os prende às vidas acabadas</div><div>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada<br><br>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada</div><div>No chão do medo tombam os vencidos<br>Ouvem-se os gritos na noite abafada<br><br>Jazem nos fossos vítimas dum credo<br>E não se esgota o sangue da manada</div><div>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada<br><br>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada</div><div>São os mordomos do universo todo<br>Senhores à força mandadores sem lei<br><br>Enchem as tulhas bebem vinho novo<br>Dançam a ronda no pinhal do rei</div><div>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada<br><br>Eles comem tudo, eles comem tudo<br>Eles comem tudo e não deixam nada.<br><br>Zeca Afonso</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-04-26 14:30:21 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/1459814754</link>
         <description><![CDATA[<blockquote>Na terra dos sonhos Andava eu sem ter onde cair vivo<br>Fui procurar abrigo nas frases estudadas do senhor Doutor<br>Ai de mim não era nada daquilo que eu queria<br>Ninguém se compreendia e eu vi que a coisa ia de mal a pior<br><br>Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal<br>Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual<br>Na terra dos sonhos não há pó nas entre linhas, ninguém se pode enganar<br>E abre bem os olhos,escuta bem o coração se é que queres ir para lá morar<br><br>Andava eu sozinho a tremer de frio<br>Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher<br>Ai! Mas esqueci-me de dar-lhe também um pouco de atenção<br>E a minha solidão voltou, não me largou a mão um minuto sequer<br><br>Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal<br>Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual<br>Na terra dos sonhos não há pó nas entre linhas, ninguém se pode enganar<br>E abre bem os olhos,escuta bem o coração se é que queres ir para lá morar<br><br>Se queres ver o mundo inteiro á tua altura<br>Tens de olhar p'ra fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar<br>E se ás duas por três vires que perdeste o balanço<br>Não penses em descanço, está ao teu alcançe tens de o encontrar<br><br>Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal<br>Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual<br>Na terra dos sonhos não há pó nas entre linhas, ninguém se pode enganar<br>E abre bem os olhos,escuta bem o coração se é que queres ir para lá morar</blockquote><div><br>Jorge Palma</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-04-26 14:40:40 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>A MÚSICA TAMBÉM É POESIA</title>
         <author>fernandesc3</author>
         <link>https://padlet.com/fernandesc3/poesiaresistencia/wish/1459926072</link>
         <description><![CDATA[<div>Liberdade<br><br>Viemos com o peso do passado e da semente&nbsp;<br>Esperar tantos anos torna tudo mais urgente&nbsp;<br>e a sede de uma espera só se estanca na torrente&nbsp;<br>e a sede de uma espera só se estanca na torrente&nbsp;<br><br>Vivemos tantos anos a falar pela calada&nbsp;<br>Só se pode querer tudo quando não se teve nada&nbsp;<br>Só quer a vida cheia quem teve a vida parada&nbsp;<br>Só quer a vida cheia quem teve a vida parada&nbsp;<br>Só há liberdade a sério quando houver&nbsp;<br><br>A paz, o pão&nbsp;<br>habitação&nbsp;<br>saúde, educação&nbsp;<br>Só há liberdade a sério quando houver&nbsp;<br>Liberdade de mudar e decidir&nbsp;<br><br>quando pertencer ao povo o que o povo produzir&nbsp;<br>quando pertencer ao povo o que o povo produzir<br><br>Sérgio Godinho</div>]]></description>
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         <pubDate>2021-04-26 15:00:30 UTC</pubDate>
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      </item>
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