<?xml version="1.0"?>
<rss version="2.0">
   <channel>
      <title>Sequência Didática - Contos de Esperteza 4MPED by Karla</title>
      <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp</link>
      <description>Fernanda Cassola Palma, Isabel Novaes de Medeiros, Karla de Almeida Borges e Mariana de Godoy Moreira</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2020-09-09 20:34:10 UTC</pubDate>
      <lastBuildDate>2025-10-24 19:42:50 UTC</lastBuildDate>
      <webMaster>hello@padlet.com</webMaster>
      <image>
         <url></url>
      </image>
      <item>
         <title>A aposta do Jabuti com o Gambá</title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733060518</link>
         <description><![CDATA[<div>Wilson Marques<br><br></div><div>Triste de quem toma por bobo o Jabuti. Há de se dar mal como aconteceu ao Gambá, que, pensando em tirar vantagem do compadre, chamou-o para uma disputa.<br> - Amigo Jabuti, quer apostar como não consegue ficar mais<br>tempo do que eu sem comer?<br> E o Jabuti, que não era de recursar desafios, foi logo<br>dizendo:<br> - Quero. O que vamos apostar?<br> - Comida.<br> - Muito bom. E como será a aposta? - perguntou o Jabuti, já<br>bastante interessado.<br> - O senhor entra nesse tronco oco e eu fecho a passagem.<br>Todos os dias venho perguntar se o compadre desiste ou contínua. Quando<br>desistir, é a minha vez. Aquele que ficar menos tempo fornecerá ao vencedor<br>alimento bom e fresco durante um ano inteirinho - explicou o Gambá, com um<br>sorrisinho malandro atrás dos pelos.<br> Com isso apertaram as patas e o Jabuti entrou no velho<br>tronco, que foi cuidadosamente fechado por fora. Um lugar, porém, tão minúsculo<br>e abafado que no mesmo instante o cascudo se arrependeu e gritou pedindo para<br>sair. Mas o Gambá, que já ia longe, nada ouviu. Ou fez que não ouviu.<br> - E a agora, o que eu vou fazer nessa toca escura? -<br>perguntou-se o Jabuti enquanto, desesperado, procurava uma saída.<br> Fuça daqui, fuça dali, terminou por descobrir a boca de um<br>túnel muito bem escondido que dava para o lado de fora.</div><div>- Ah! Quer dizer que o compadre Gambá fez uma saída secreta e está querendo é me enganar! – esbravejou o Jabuti ao descobrir a trama. E como era do tipo que não deixava nada barato, tratou de pôr em pratica um plano para dar no espertalhão uma lição para nunca mais esquecer.</div><div>Sem nenhuma pressa, como é da sua natureza, atravessou o túnel e foi para a sua casa, onde comeu do bom e do melhor.</div><div>No dia seguinte voltou para esperar o Gambá, que, sem falta, apareceu.</div><div>- Como tem passado, compadre Jabuti? Desiste ou contínua?</div><div>E o Jabuti:</div><div>- Vou indo bem, compadre, e pretendo continuar.</div><div>Dito isso, o Gambá despediu-se. E o Jabuti, no seu passinho de não chegar, esgueirou-se pelo túnel e outra vez foi embora.</div><div>No outro dia:</div><div>- Como tem passado, compadre Jabuti? Desiste ou contínua?</div><div>E o Jabuti:</div><div>- Vou muito bem, compadre, e pretendo continuar.</div><div>Muitos dias se passaram sem novidades. O Gambá, intrigado com tanta resistência, não deixava de aparecer. Enquanto isso o Jabuti continuava firme. Até que, passados uns dois meses, este resolveu que era hora de deixar a toca. Mas não sem antes fechar a passagem secreta, o que fez com tanto esmero que nem um exército de toupeiras conseguiria abri-la novamente.</div><div>- Pronto, é a sua vez – disse o Jabuti, já do lado de fora.</div><div>E o Gambá, certo da vitória, entrou serelepe.</div><div>No dia seguinte veio o Jabuti e perguntou:</div><div>- Como tem passado, compadre Gambá? Quer que eu abra a passagem ou pretende continuar nossa aposta?</div><div>E o Gambá:</div><div>- Vou indo muito bem, compadre, e pretendo continuar.</div><div>Passado mais um dia veio o Jabuti e fez a mesma pergunta, à qual o Gambá, com voz um pouquinho trêmula, respondeu do mesmo jeito.</div><div>No terceiro dia, porém, o que o Jabuti ouviu foi um lamento desses de fazer até a Onça chorar.</div><div>- Pelo amor de Deus, compadre, me deixe sair que não aguento mais de fome. Aqui não fico nem mais um minuto – esperneou o Gambá, que sem o túnel que havia sido fechado pelo Jabuti, não vira naqueles dias nem um sinal de alimento.</div><div>Muito satisfeito o Jabuti libertou o Gambá. Faminto, o coitado comeu por dez da sua espécie. Em seguida, declarou a vitória do Jabuti e nunca mais tentou passar a perna em ninguém.</div><div><br>(MARQUES, Wilson. A aposta do Jabuti com o Gambá <em>In</em>:<strong> Arte e manhas do Jabuti</strong>. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017. p. 17-19)</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-09 21:00:11 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733060518</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Sapo com medo de água - versão 1</title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733170960</link>
         <description><![CDATA[<div>Luís da Câmara Cascudo<br><br>O sapo é esperto. Uma feita o homem agarrou o sapo e levou-o para seus filhos brincarem. Os meninos judiaram dele muito tempo e, quando se fartaram, resolveram matar o sapo. Como haviam de fazer?</div><div>- Vamos jogar o sapo nos espinhos!</div><div>- Espinhos não furam o meu couro – dizia o sapo.</div><div>- Vamos queimar o sapo!  </div><div>- Eu no fogo estou em casa! </div><div>- Vamos sacudir ele nas pedras!</div><div>- Pedra não mata sapo!</div><div>- Vamos furar de faca!</div><div>- Faca não atravessa!</div><div>- Vamos botar o sapo na lagoa!</div><div>Aí o sapo ficou triste e começou a pedir, com voz de choro:</div><div>- Me bote no fogo! Me bote no fogo! Na água eu me afogo! Na água eu me afogo!</div><div>- Vamos para a lagoa – gritaram os meninos.</div><div>Foram, pegaram o sapo por uma perna e, t´xim bum, rebolaram lá no meio. O sapo mergulhou, veio em cima da água fritando satisfeito:</div><div>- Eu sou bicho d’água! Eu sou bicho d’água!</div><div>Por isso quando vemos alguém recusar o que mais gosta, dizemos:</div><div>- É sapo com medo d´água…<br><br>(CASCUDO, Luís da Câmara. O Sapo com Medo Água In: <strong>Contos tradicionais do Brasil</strong>. São Paulo: Global Editora. 2004. p. 196)</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-09 22:07:01 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733170960</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Sapo com medo d´água - versão 2</title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733174242</link>
         <description><![CDATA[<div>Ricardo Azevedo<br><br>Dois homens, fugidos da prisão, pararam na beira da lagoa para matar a sede e descansar um pouco.</div><div>Um sapo dormia debaixo da samambaia.</div><div>Os bandidos agarraram o sapo.</div><div>- Olha que desengonçado! – disse um deles, apertando o bicho entre os dedos.</div><div>- É feio que dói! – completou o outro, com cara de nojo.</div><div>E os dois resolveram fazer maldade.</div><div>- Vamos jogar no formigueiro?</div><div>Ouvindo isso, o sapo estremeceu. Por dentro. Por fora, abriu um sorriso indiferente.</div><div>- Que nada – respondeu o outro, percebendo que o sapo não estava nem ligando. – Pega a faca. Vamos picar ele todinho.</div><div>O sapo, de olhos fechados, começou a assobiar uma linda melodia.</div><div>Os dois bandidos queriam dar um jeito de fazer o sapo sofrer.</div><div>- Sobe na árvore e atira ele lá do alto.</div><div>- Pega o fósforo e acende uma fogueira. Vamos fazer churrasco de sapo!</div><div>O sapo espreguiçava-se tranquilo entre os dedos do homem.</div><div>Um dos bandidos teve outra ideia.</div><div>- Já sei! Vamos afogar o desgraçado na lagoa!</div><div>Foi quando o sapo deu um pulo desesperado e começou a gritar:</div><div>- Tudo menos isso!</div><div>Os malfeitores, agora sim, tinham chegado onde queriam.</div><div>- Vai pra água, sim senhor!</div><div>- Não sei nadar! – berrava o sapo.</div><div>- Então vai morrer engasgado!</div><div>O bicho esperneava:</div><div>- Socorro!</div><div>- Vai sufocar de tanto engolir água!</div><div>- Não!</div><div>- Vai virar comida de jacaré!</div><div>- Tenho mulher e filhos pra cuidar!</div><div>- Joga bem longe!</div><div>- Me acudam!</div><div>- Lá vai!</div><div>O homem atirou o sapo no fundo da lagoa. O sol estava redondo.</div><div>O sapo – ploft – desapareceu no azul bonito das águas.</div><div>Depois voltou risonho, mostrou a língua e foi embora nadando e cantando e dançando e requebrando n’água, feliz da vida.<br><br>(AZEVEDO, Ricardo. O Sapo com medo d'água <em>In</em>: <strong>Meu Livro de Folclore</strong>. São Paulo: Editora Ática, 1999. p.) </div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-09 22:09:23 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733174242</guid>
      </item>
      <item>
         <title>A velha que pôs a morte para correr</title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733177266</link>
         <description><![CDATA[<div>Albena Ivanovitch-Lair e Mario Urbanet<strong><br><br></strong>Todo dia a velha esfregava a casa de cima a baixo e depois cuidava de seus bichos, preparava a sopa, lavava e cerzia. No tempo que restava, ela cuidava do jardim. Era incansável e gostava de viver desse jeito. Um dia, alguém entrou em sua casa sem bater. Era a Morte, que lhe disse prontamente:</div><div>- Seu tempo se esgotou! Vim buscá-la, siga-me!</div><div>A velha, toda trêmula, balbuciou:</div><div>- Como? Já? Ainda tenho muito a fazer; veja, estou lavando roupa e preciso ordenhar as cabras. Volte mais tarde!</div><div>-  Pensa que só tenho você para levar? Seu tempo terminou você tem que me seguir, a regra é a mesma para todos.</div><div>A velha começou a suplicar.</div><div>- Deixe-me pelo menos terminar meu trabalho! Depois a seguirei!</div><div>- Já lhe disse que seu tempo esgotou você deve vir e pronto!</div><div>-  Não posso deixar minha casa desordenada! São só uns poucos dias e logo serei sua!</div><div>Para não perder mais tempo com conversa inútil, a Morte decidiu:</div><div>- Concedo-lhe três horas, em caráter excepcional!</div><div>- Por que tão pouco? Dê-me um dia! Amanhã na mesma hora poderás me levar!</div><div>-  Você é mais teimosa do que trinta e seis burricos juntos! Bem, concedo-lhe um dia. Mas preste muita atenção, é isso e nem mais um minuto!</div><div>A velha entregou um pedaço de giz à Morte e lhe disse:</div><div>- Obrigada! Para não se esquecer, escreva na minha porta!</div><div>Perdendo a paciência, a Morte escreveu ao sair: “Velha para pegar amanhã”. No dia seguinte, a Morte voltou na hora combinada.  A velha sem nem sequer a olhar para Morte foi dizendo:</div><div>- Você se enganou de dia, minha filha! Leia só o que escreveu na minha porta! E volte amanhã!</div><div>A Morte entendeu no mesmo instante que a velha a tapeara. Humilhada saiu sem dizer uma palavra. Nos dias que se seguiram, passou diante da porta e não parou. Até a primeira chuva. Nessa manhã, a mulher ficou em pânico quando a Morte lhe disse:</div><div>- Acabou a brincadeira, velha! Não há mais nada escrito na sua porta! A chuva apagou tudo! Ande, siga – me!</div><div>- Tudo bem, vou segui-la! Preciso apenas me trocar, não posso ir nesse avental caindo aos pedaços!</div><div>A velha se esquivou prontamente, entrou no celeiro em busca de um esconderijo seguro. Escondeu–se num tonel e logo percebeu que estava toda pegajosa, pois o recipiente continha mel. Saiu para se refugiar numa cesta com penas de pato, sem lembrar que era alérgica a elas... Logo ficou sufocada, saiu de lá, seus pés ficaram presos num saco que havia ali e ela caiu em cima de um monte de carvão. Para se levantar, agarrou – se na primeira coisa a seu alcance: o cabo de uma forquilha.</div><div>Notando a demora, a Morte resolveu ir ver o que a velha recalcitrante andava aprontando. Ao entrar no celeiro, deu de cara com uma criatura horrível. Tinha diante de si um monstro saído diretamente de um sonho de terror. Uma espécie de fúria emplumada, pingando mel, preta como carvão e que a ameaçava sacudindo a forquilha. Ficou tão apavorada que fechou os olhos, gritou: “Mamãe, me salve! Estou com medo!” e fugiu correndo a toda para não mais voltar.</div><div>Refeita de seu próprio pavor, a velha voltou ao trabalho depois de tomar um bom banho.</div><div> </div><div>“Para vencer os influentes convém sermos persistentes.</div><div>    Um pouco de astúcia, até diante da morte, é assim que escapamos a própria sorte”<br><br>(IVANOVITCH-LAIR, Albena; URBANET, Mario. A Velha que pôs a Morte para correr <em>In</em>: <strong>Pequenos Contos para Crescer</strong>. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2009. p. )</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-09 22:11:27 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/733177266</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O padre, o estudante e o caboclo</title>
         <author>isabelnovaes</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/734521843</link>
         <description><![CDATA[<div>Há muitos anos, o acaso uniu, na rabeira de uma tropa de mulas que percorria o interior de Minas Gerais, um padre, um estudante e, a transportar as malas e os livros dos dois, um caboclo observador. No lento trotar das mulas, sob o sol do sertão, padre e estudante debatiam sem chegar a qualquer conclusão. <br>No fim da tarde, estacionaram ao lado de um casebre e pediram licença à mulher que os atendeu para pernoitar ali, oferecendo poucas moedas em troca de água, lugar para pendurar as redes e algum alimento. A pobre mulher concordou, enfiou as moedas rapidamente no bolso da saia e, um minuto depois, trazia aos hóspedes uma jarra de água e o único alimento existente no casebre: um miserável pedaço de queijo, que não dava para alimentar um quarto de homem.<br>Sem saber como dividir o queijo entre os três, o padre, certo de que, com sua oratória, poderia enganar os outros dois, propôs o seguinte: que dormissem e, ao amanhecer, aquele que contasse o sonho mais bonito, certamente inspirado por Deus, ganharia o direito de comer o queijo. Todos concordaram e, cobertos pela poeira da estrada, foram dormir.<br>No meio da noite, contudo, ouvindo o padre e o estudante roncarem, o caboclo levantou da rede, aproximou-se do armarinho em que a mulher guardara o queijo e o engoliu.<br>Quando amanheceu, enquanto tomavam o café ralo que a mulher lhes ofereceu, o padre, que sonhara a noite toda com o queijo, foi o primeiro a relatar seu sonho. Disse que, auxiliado por anjos, subira por uma escada cheia de enfeites dourados até o céu. O estudante, por sua vez, contou que, mal havia dormido, já se encontrou em pleno Paraíso, aguardando pelo padre que, tinha certeza, chegaria em poucos minutos.<br>Era a vez do caboclo falar. Com os olhos presos ao chão, numa voz mansa, ele disse: “Sonhei que via o senhor padre e o moço lá no céu, rodeados dos anjos e dos santos. E que eu tinha ficado aqui, sozinho e morto de fome. Então, subi no telhado e gritei com toda força pra vosmecês: ‘E o queijo?! Não vão comer o queijo pra mó da gente seguir viagem?!’. E vosmecês responderam, felizes da vida: ‘Pode comê o queijo, caboclo! É todo seu! Aqui no céu não precisamos de queijo!’. Fiquei tão feliz, e tudo pareceu tão de verdade, que levantei da rede e comi o queijo...”</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-10 11:58:48 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/734521843</guid>
      </item>
      <item>
         <title>Pedro Malasartes e a sopa de pedra</title>
         <author></author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/740479219</link>
         <description><![CDATA[<div>Luis da Câmara Cascudo <br><br>Pedro Malasartes, um caipira danado de esperto, estava morto de fome e sem dinheiro algum. Precisava arranjar alguma ocupação que lhe desse o dinheiro suficiente para conseguir comprar comida.<br>Cansado de perambular em Porrete Armado, o nome do lugarejo em que se encontrava, decidiu parar e descansar na porta de um pequeno armazém de secos e molhados; desses encontrados no interior e onde é possível comprar de tudo que se pode imaginar. <br>Pegou sua viola e começou a cantar uma moda, na esperança de que alguém lhe desse alguns trocados. Mas além de nada conseguir, os fregueses que bebiam no balcão quase o expulsaram por “incomodar” sua conversa. Eles conversavam sobre uma senhora, Dona Agromelsilda, moradora da região e que era conhecida por sua excessiva avareza. <br>A conversa caminhava assim: <br>--- Gente, vocês não imaginam como é “unha de fome” aquela Dona Agromelsilda, que mora para os lados do estradão da Grota Funda! <br>Disse o dono do armazém. <br>--- Unha de fome é pouco! Aquela velha é capaz de não comer banana só pra não ter que jogar a casca fora. Completou o segundo, um dos fregueses que bebiam na venda. <br>Um terceiro freguês afirmou: <br>--- Aquela velha é tão “pão dura” que nem comida para os coitados dos cachorros ela dá. Os bichinhos estão todos passando fome. Magros, magros de dar dó. Acho até que o estômago deles já encostou nas costelas. <br>--- Está para nascer o homem que conseguira tirar alguma coisa daquela velha. Duvido que alguém consiga esta proeza. <br>--- Nunca vi coisa assim nesses anos que moro aqui. E olha que eu já vi coisas com esses olhos que a terra há de comer. Terminou o dono do armazém. <br>Pedro decidiu que era hora de agir, se quisesse comer e ganhar algum dinheiro. Era hora também, de dar uma lição naquela velha que o tratara mal da outra vez em que passara por Porrete Armado. Dona Agromelsilda era conhecida pelos seus péssimos modos com as pessoas e acima de tudo por ser muquirana até o último fio de cabelo. Pedro disse: <br>--- Eu aposto o que vocês quiserem como pra mim a velha vai dar alguma coisa de bom grado. E mais ainda: Ela mesma é quem vem aqui contar que me encheu de presentes. <br>--- Você está ficando doido Pedro Malasartes? Aquela velha, além de não dar nada para ninguém, também anda armada com uma baita de uma espingarda. Disse o dono do armazém. <br>--- Não se preocupe com isso que é problema meu e eu sei como resolver; disse o Pedro. <br>–Mas, se vocês duvidam do que eu disse, porque não apostam comigo, como ela vai me encher de presentes e vem aqui contar para vocês? <br>O dono do armazém, rindo muito, respondeu: <br>--- Se você conseguir esta proeza, com a velha lhe dando presentes e vindo aqui contar para nós, te dou todo o dinheiro que eu ganhar numa semana de trabalho. <br>Os outros dois fregueses, animados com a aposta “jogaram lenha na fogueira” e provocando Pedro Malasartes disseram: <br>--- Nós dois também apostamos nossos ganhos da semana. Temos certeza de que a velha nem vai querer conversa com você. Muito menos te dar algo. Mas se conseguir ganhar e fazer com que ela venha nos contar, você ganha o dinheiro que nós conseguirmos nesta semana. <br>Uma dúvida, porém, surgiu e o dono do armazém, o mais malandro dos três queria saber: <br>--- Seu Pedro Malasartes, você ganhara nosso dinheiro de uma semana de serviço se conseguir que a velha lhe dê presentes e venha nos contar aqui no armazém, mas se você não conseguir o que nós três ganharemos? Pelo que sabemos você não tem nenhum dinheiro. Vai apostar oque? <br>Pedro muito convicto e com certeza da vitória, respondeu: <br>--- Eu trabalharei de graça para vocês três. Uma semana na fazenda de um, outra semana na fazenda de outro e por fim uma semana em seu armazém. Combinado? <br>--- Combinado. Responderam os três. <br>Pedro tratou de arranjar um panelão fundo, uma sacola, mais algumas coisinhas e partiu para a casa da velha a toda velocidade. Para ganhar uma aposta o malandro não poupava esforços e nem tinha preguiça. <br>Chegando perto da porteira da casa da velha, que morava numa enorme fazenda, Pedro fez um bom fogo, encheu o panelão com a água do riacho, e juntando muitas pedras do chão, jogou-as na água. Depois ficou de olho no movimento da casa de Dona Agromelsilda. <br>Quando a velha abriu a janela do quarto e viu Pedro fazendo aquele fogareiro, na frente de sua fazenda, pensou: <br>--- Mas o que será que aquele doido está fazendo na entrada das minhas terras? Vou lá ver. <br>Chegando ao local em que Pedro estava, perguntou muito irritada: <br>--- Será que dá para o senhor explicar o que está pensando em fazer com todo este fogo na frente da porteira de minha fazenda? <br>Pedro que estava de rabo de olho na velha, nem ligou para a malcriação e respondeu todo educado: <br>--- Boa tarde minha Vó? Tudo bom com a senhora? Estou preparando uma deliciosa sopa de pedras. <br>--- Sopa de pedras? Respondeu à velha. <br>--- Isso mesmo. Uma deliciosa sopa de pedras, receita de minha finada mãe. <br>--- E fica boa? <br>--- Boa? Fica muito boa! <br>A Velha, sovina como era, pensou em tirar proveito. Pois se a sopa ficasse boa mesmo e com a quantidade de pedras que tinha em suas terras, certamente não teria mais despesas com comida, pois comeria diversos pratos de pedra, que ela criaria: Pedra assada, pedra frita, pedra cozida, pedra ralada, pedra refogada, pedra ensopada, escondidinho de pedra, pedra, pedra, pedra... <br>Fingindo-se muito educada a velha pediu: <br>--- Meu filho, quando terminar você dá um pouco para eu experimentar? <br>--- Claro minha Vó. <br>Assim, Pedro tratou de jogar mais lenha na fogueira e deixou as pedras cozinharem. <br>Passada uma hora: <br>--- O meu filho: Essa sopa sai ou não sai? <br>--- Claro que sai minha Vó. Daqui a pouco esta prontinha. É que leva um tempo para cozinhar direitinho as pedras. Mas se a senhora tivesse uns legumes para colocar na sopa ela ficava melhor ainda. Umas cenouras, umas batatas, umas mandioquinhas, umas abobrinhas, umas beterrabas... <br>A velha faminta como estava, nem pensou duas vezes e disse: <br>--- Eu tenho estes legumes todos na horta de casa. Espere um pouco, que eu já volto. <br>E tratou de entrar em casa para colher os legumes pedidos pelo Pedro. <br>Pedro pensou: <br>--- Ela caiu direitinho. <br>Minutos depois lá estava a velha: <br>--- Pronto meu filho. Este tanto dá? <br>--- Dá minha Vó. <br>Pedro, recolheu os legumes que a velha trouxe. Colocou metade de tudo em sua sacola e a outra metade na sopa. Passada mais uma hora, a velha com mais fome, perguntou: <br>--- Mas meu filho, esta sopa sai ou não sai? <br>--- Tá saindo minha Vó. Tá saindo. Mas a sopa ficaria tão boa se tivesse uma linguiça defumada, um paio e uma carninha seca para colocar. <br>A velha ansiosa disse: <br>--- Eu tenho tudo isso em casa. Vou lá buscar. <br>E tratou de buscar tudo que foi pedido. Quando voltou entregou ao Pedro que, novamente, separou dois montes, colocando metade na sopa e outra metade em sua sacola. Mais uma hora e a velha já estava verde de fome, quase desmaiando. Isso sem falar na fazenda que estava na maior bagunça com as vacas sem ordenha, os bezerros sem leite, as galinhas sem os ovos recolhidos. <br>A velha então perguntou: <br>--- Menino! Esta sopa não fica pronta nunca? <br>--- Tá quase minha Vó. Se a senhora tivesse uns temperos ficaria melhor ainda. Um pouco de sal, pimenta do reino, alho, azeite, açafrão, colorau, cheiro verde, cebolinha... <br>Lá foi a velha buscar os temperos pedidos. Quando voltou, tudo se repetiu: Metade foi para a sopa e metade foi para a sacola do Pedro. Depois de mais uma hora, com a velha quase desmaiando: <br>--- Meu filho, se esta sopa não sair agora eu desmaio de fome! <br>--- Tá prontinha minha vó. A senhora tem uns pratos para poder servir? <br>A velha saiu como um raio para dentro da casa e mais rápido ainda voltou com os pratos e colheres. Pedro pegou o prato da velha e encheu de pedras. Quanto ao seu prato, colocou as partes boas da sopa e poucas pedras. Sentou num canto e quando foi comer uma colherada de pedras de seu prato, jogou todas elas fora. A velha que estava tentando mastigar as pedras, quase quebrando os dentes, não acreditou no que viu o Pedro fazer. Então perguntou: --- Meu filho, você não vai comer as pedras não? <br>E Pedro, que já havia planejado isto também, respondeu com a maior cara de pau: <br>--- Comer pedra minha Vó? Tá doida é? Se eu comer estas pedras todas vou acabar quebrando os dentes. <br>Ao dizer isto pegou sua sacola, com as coisas dadas pela velha, e saiu fugindo sem olhar para traz, pois ouvia os berros indignados dela correndo atrás do malandro. <br>Quando chegou ao armazém, os três amigos da aposta não acreditaram na história de Pedro. Só tiveram a confirmação de tudo que o Pedro dissera, quando a velha chegou ao armazém contando que dera para Pedro uma porção de coisas para fazer uma sopa de pedras, mas que era na verdade uma sopa de legumes com os ingredientes que ela colheu de sua horta e pertences de sua casa. <br>Assim que a velha saiu, Pedro cobrou a aposta e tratou de se mandar. <br>Dizem que está andando pelo mundo até hoje, aprontando e dando golpes nos que tentam enganá-lo.</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-11 22:04:59 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/740479219</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O SAPO E O  COELHO</title>
         <author>mariana_godoymoreira</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/743686627</link>
         <description><![CDATA[<div>Luis da Câmara Cascudo<br><br>O Coelho vivia zombando do Sapo. Achava-o preguiçoso e lerdo, incapaz de qualquer agilidade. O sapo ficou zangado:</div><div>- Quer apostar corrida comigo?</div><div>- Com você? - assombrou-se o coelho.</div><div>- Justamente! Vamos correr amanhã, você na estrada e eu pelo mato, até a beira do rio...</div><div>O coelho riu muito e aceitou o desafio. O sapo reuniu todos os seus parentes e distribuiu-os na margem do caminho, com ordem de responder aos gritos do coelho.</div><div>Na manhã seguinte os dois enfileiraram-se e o coelho disparou como um raio, perdendo de vista o sapo que saíra aos pulos. Correu, correu, correu, parou e perguntou:</div><div>- Camarada Sapo?</div><div>Outro sapo respondia dentro do mato:</div><div>- Oi?                          </div><div>O coelho recomeçou a correr. Quando julgou que seu adversário estivesse bem longe, gritou:</div><div>- Camarada Sapo?</div><div>- Oi? - coaxava um sapo.</div><div>Debalde o coelho corria e perguntava, sempre ouvindo o sinal dos sapos escondidos. Chegou à margem do rio exausto mas já encontrou o sapo, sossegado e sereno, esperando-o. O coelho declarou-se vencido.</div><div><br></div><div>(CASCUDO, Luís da Câmara. <strong>Contos tradicionais do Brasil</strong>. São Paulo (SP): Global, 2004; p.186.)</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-14 12:58:48 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/743686627</guid>
      </item>
      <item>
         <title>O CEGO QUE NÃO ERA BOBO</title>
         <author>mariana_godoymoreira</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/743703521</link>
         <description><![CDATA[<div><br>Rosana Pamplona<br><br></div><div>Era uma vez um cego que andava mendigando de porta em porta para sobreviver. Muito prudente, do pouco que ganhava ainda conseguia economizar algumas moedas, que enterrava nos fundos de sua casinha, junto à raiz de um carvalho.</div><div>Um dia, seu vizinho percebeu que ele escondia ali alguma coisa. Sorrateiro, à noite, o espertalhão foi até lá, cavou a terra e roubou as moedas.</div><div>Dali a uns dias, quando o cego voltou ao local para acrescentar uma moeda ao seu tesouro, descobriu o furto. Indignado, quis gritar, mas controlou-se; de nada adiantaria lamentar-se. Em vez disso, voltou para casa e começou a pensar numa maneira de recuperar seu dinheiro. Desconfiou de que o ladrão só poderia ser o vizinho e armou um plano para enganá-lo.</div><div>Na manhã seguinte, procurou-o dizendo assim:</div><div>- Caro vizinho, estou numa grande dúvida e pensei que você poderia aconselhar-me. Acontece que hoje fiquei sabendo que herdei de uma velha tia uma fortuna em moedas de ouro. Eu tenho um esconderijo secreto onde guardo minhas economias, mas não sei se lá é um lugar seguro, a salvo de ladrões. Você não acha que talvez fosse melhor entregar essa fortuna para o vigário da aldeia guardar?</div><div>Os olhos do vizinho piscaram de cobiça. E já pensando em pôr as mãos em todo o tesouro, assegurou ao cego que o melhor seria guardar tudo junto no esconderijo, com certeza um lugar muito seguro, sim!</div><div>O cego agradeceu o conselho e partiu para a aldeia, dizendo que ia buscar a herança. Sem perder tempo, o vigarista recolocou o que furtara no buraco ao pé da árvore; cobriu tudo com terra e foi embora.</div><div>Dali a pouco o cego voltou e, conforme esperava, encontrou no lugar de sempre as suas preciosas moedas.</div><div>À noite, quando o vizinho ladrão retornou, só encontrou ao pé do carvalho um buraco vazio, tão vazio quanto sua pobre cabeça de tolo...<br><br></div><div>(PAMPLONA, Rosana. <strong>Novas  Histórias Antigas</strong>. São Paulo (SP): Brinque-Book,  p.43-45.)</div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-09-14 13:03:16 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/743703521</guid>
      </item>
      <item>
         <title>DE COMO MALAZARTES ENTROU NO CÉU </title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007771905</link>
         <description><![CDATA[<div><br></div><div>Quando Malazartes morreu e chegou no céu, disse a São Pedro que queria entrar. </div><div>O santo porteiro respondeu: </div><div>- Estás louco! Pois ainda tens coragem de querer entrar no céu, depois que tantas fizeste, lá pelo mundo?! </div><div>- Quero, São Pedro, pois o céu é dos arrependidos, e tudo quanto acontece é por vontade de Deus. </div><div>- Mas o teu nome não está no livro dos justos e, portanto, não entras. </div><div>- Mas então eu desejava falar com o Padre Eterno. </div><div>São Pedro zangou-se só com aquela proposta. E disse: </div><div>- Não, para falares a Nosso Senhor, precisavas entrar no céu, e quem entra no céu dele não pode mais sair. </div><div>Malasartes se pôs a lamentar e pediu que o santo ao menos o deixasse espiar o céu, só pela frestinha da porta, para que tivesse uma ideia do que fosse o céu e lamentasse o que havia perdido por causa das más artes. </div><div>São Pedro, já amolado, abriu uma fresta da porta, e Pedro meteu por ela a cabeça. Mas, de repente, gritou: </div><div>- Olha, São Pedro, Nosso Senhor que vem falar comigo. Eu não te dizia? </div><div>São Pedro voltou-se com todo o respeito para dentro do céu a fim de render as suas homenagens ao Padre Eterno, que supunha ali vir. </div><div>E Pedro Malazartes então pulou para dentro do céu. </div><div>O santo viu que tinha sido enganado. Quis pôr o Malazartes para fora, mas ele contrariou: </div><div>- Agora é tarde, São Pedro! Lembre-se que me disse que do céu, uma vez entrando, ninguém pode mais sair. É a eternidade! </div><div>E São Pedro não teve outro remédio senão deixar o Malazartes lá ficar. </div><div><br></div><div>DONATO, Hernâni. Novas Aventuras de Pedro Malasartes. Melhoramento. São Paulo, 2012</div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:45:43 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007771905</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007782538</link>
         <description><![CDATA[<div><strong><br>AI, QUE DOR DE DENTE<br></strong><br></div><div>Cansado de andar, Pedro Malasarte chegou a uma grande cidade. Já haviam se passado dois dias desde que se banqueteara com os cegos e seu estômago dava horas.</div><div>Para piorar ainda mais sua situação, estava com uma dor de dentes que mal podia suportar.</div><div>Mas não tinha dinheiro nem para pagar o dentista - que naquele tempo era o barbeiro - nem para comer. Gastara as últimas moedas no caminho, comprando um burrico para uma pobre velha que também ia para a cidade mas mal podia andar.</div><div>Ia mergulhado em tristes pensamentos quando passou na porta de uma padaria. Acabava de sair uma fornada e o cheiro de pão enchia o ar.</div><div>Pedro Malasarte olhou para dentro e viu toda espécie de pães e bolos.</div><div>Ficou com água na boca.</div><div>O dono da padaria estava na porta, com seu avental branco, e parecia ter o rei na barriga. Em tom de mofa, vendo a cara de Pedro Malasarte, perguntou-lhe:</div><div>- Quantos pães e doces seriam necessários para matar a sua fome, hein?</div><div><br>Nosso herói respondeu sem hesitar:</div><div>- Puxa, aposto que comeria uns cem...</div><div>- Ora, ora! - exclamou o padeiro, que adorava fazer apostas. - Que posso lhe fazer se não conseguir comer mesmo cem pães e doces?</div><div>- Amigo padeiro, já deve ter percebido que não tenho comigo um só tostão. Mas para lhe mostrar que sou mesmo capaz de fazer o que estou dizendo, pode mandar me arrancar um dente de quatro raízes se não comer cem pães e doces!</div><div>Arrancar dente sempre foi coisa de meter medo. Divertido com a aposta, o dono da padaria mandou Pedro Malasarte entrar e serviu-lhe os mais finos produtos do seu estabelecimento. Pãezinhos de queijo e broas, bolos, doces, marias-moles e tudo o mais.</div><div>Nosso herói estava mesmo com uma fome de lobo e conseguiu comer, sem maior esforço, uns quatro pães, duas ou três broas, algumas roscas e quatro ou cinco doces.</div><div>Dando-se por satisfeito, virou-se para o padeiro:</div><div>- É... Não é que não consigo nem olhar mais para pães e doces?</div><div>Prontamente o outro o agarrou pelo braço e levou-o ao barbeiro:</div><div>- Amigo barbeiro, trate de arrancar por minha conta um dente de quatro raízes desse malandro!</div><div>- Este aqui, este aqui - apontou Pedro Malasarte, mais que depressa, rindo por dentro.</div><div>O barbeiro arrancou-lhe o dente dolorido em três tempos. </div><div>Não doeu tanto assim, mas Malasarte fez muitas caretas.</div><div>- Está vendo só no que dá fazer apostas? - disse o padeiro, com ar triunfante. - Devia ter visto logo que</div><div>não poderia comer tanto assim.</div><div>- Pois agora é que vou comer muito mais! - retrucou Pedro Malasarte.</div><div>E foi-se embora assobiando, com a barriga cheia e livre do dente que tanto o incomodava, sem gastar um tostão.</div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:48:18 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007782538</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007787958</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>DE COMO MALASARTES FEZ O URUBU FALAR<br></strong><br></div><div>Quando o pai de Pedro Malasartes entregou a alma a Deus, fez-se a partilha dos bens, uma casinha velha, entre os filhos, e tocou a Pedro uma das bandeiras da porta da casa, com o que ele ficou muito contente. Pôs a porta no ombro e saiu pelo mundo. Em caminho, viu um bando de urubus sobre um burro morto. Atirou a porta sobre eles e caçou um urubu que ficou com a perna quebrada. </div><div>Apanhou-o, pôs a porta às costas e continuou viagem. </div><div>Obra de uma légua ou mais, avistou uma casa de onde saía fumaça, o que queria dizer que se estava preparando o jantar. </div><div>Pedro Malasartes, que sentia fome, bateu à porta e pediu de comer. Veio atendê-lo uma empregada lambisgoia que foi logo dizer à patroa que ali estava um vagabundo, com um urubu e uma porta, a pedir de jantar. </div><div>A mulher mandou que o despachasse – que a sua casa não era coito de malandros. </div><div>O marido estava de viagem e a mulher no seu bem-bom a preparar um banquete para quem ela muito bem o destinava. Neste mundo há coisas! </div><div>Pedro Malasartes, tão mal recebido que foi, resolveu subir para o telhado, valendo-se da porta que trazia e lhe serviria de escada. Subiu e ficou espreitando o que se passava naquela casa, tanto mais que sentia o cheiro dos bons petiscos. </div><div>Espiando pelos vãos das telhas, viu os preparativos e tomou nota das iguarias, e ouviu as conversas e confidências da patroa e da empregada. </div><div>Justamente na hora do jantar chegou o dono da casa, que resolveu voltar de inesperado da viagem que fazia. </div><div>Quando a mulher percebeu que ele se aproximava, mandou esconder os pratos do banquete e veio recebê-lo e abraçá-lo, muito fingida, muito risonha, mas por dentro queimando de raiva. </div><div>Vai daí mandou pôr na mesa a janta que constava de feijão aguado, paçoca de carne-seca e cobu, dizendo: </div><div>– Por que não avisou, marido? Sempre se havia de aprontar mais alguma coisa… Sentaram-se à mesa. </div><div>Pedro Malasartes desceu de seu posto e bateu na porta, trazendo o urubu. </div><div>O dono da casa levantou-se e foi ver quem era. </div><div>O rapaz pediu-lhe um prato de comida e ele chamou-o para a mesa a servir-se do pouco que havia. </div><div>A mulher estava desesperada, desconfiando com a volta de Malasartes. Pedro tomou assento, puxou o urubu para debaixo da mesa, preso pelo pé num pedaço de corda de pita. </div><div>Estavam os dois homens conversando, quando de repente o Malasartes pisou no pé quebrado do bicho e este se pôs a gritar: uh! uh! uh! </div><div>O dono da casa levou um susto e perguntou que diabo teria o bicho. </div><div>Pedro respondeu muito sério: </div><div>– Nada! São coisas. Está falando comigo. </div><div>– Falando! Pois o seu bicho fala?! </div><div>– Sim, senhor, nós nos entendemos. Não vê como o trago sempre comigo? É um bicho mágico, mas muito intrometido. </div><div>– Como assim? <br>– Agora, por exemplo, está dizendo que a patroa teve um aviso oculto da volta do senhor e por isso lhe preparou uma boa surpresa. </div><div>– Uma surpresa! Conte lá isso como é. </div><div>– É deveras! Uma excelente leitoa assada que está ali naquele armário… </div><div>– Pois é possível! Ó mulher, é verdade o que diz o urubu desse moço? </div><div>Ela, com receio de ser apanhada com todo o banquete e certa de que Pedro sabia da marosca, apressou-se em responder: </div><div>– Pois então? Pura verdade. O bicho adivinhou. Queria fazer-te a surpresa no fim do jantar. </div><div>E gritou pela empregada: </div><div>– Maria, traz a leitoa. </div><div>A moça veio logo correndo, mas de má cara, com a leitoa assada na travessa. </div><div>Daí a pouco, Pedro Malasartes pisou outra vez no pé do urubu, que soltou novo grito. – O que é que ele está dizendo? </div><div>– Bicho intrometido! Está candongando outra vez. Cala a boca, bicho! </div><div>– O que é? </div><div>– Outras surpresas. </div><div>– Outras?! </div><div>– Sim, senhor: um peru recheado… </div><div>– É verdade, mulher? </div><div>– Uma surpresa, maridinho do coração. Maria, traz o peru recheado que preparei para o teu amo. </div><div>Veio o peru. E pelo mesmo expediente conseguiu Pedro Malasartes que viessem para a mesa todas as iguarias, doces e bebidas que havia em casa. </div><div>Ao fim do jantar, o dono da casa, encantado com as proezas do urubu, propôs comprá-lo a Pedro Malasartes, que o vendeu muito bem vendido, enquanto a mulher e a empregada bufavam de raiva, crentes também no poder mágico do bicho, que, assim, seria um constante espião de tudo quanto fizessem. </div><div>Fechado o negócio, Pedro Malasartes partiu satisfeito e vingado. </div><div><br></div><div>(GOMES, Lindolfo. Contos populares brasileiros. São Paulo: Melhoramentos, 2014)</div><div><br></div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:49:45 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007787958</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007795950</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>A ÁRVORE QUE DAVA DINHEIRO<br></strong><br></div><div>Vendo-se apertado com a falta de dinheiro e não querendo ter arenga com o dono da pensão, Malasarte saiu, naquela manhã, bem cedo, para ganhar a vida. Arranjou com o vendedor de mel de jataí um bocado de cera; trocou na mercearia de Seu Joaquim a única nota de dinheiro que lhe sobrara, por algumas de moedas de vintém e caiu na estrada. Caminhou por obra de uma légua ou mais, quando avistou uma árvore na beira da estrada. Chegando ao pé da árvore, parou e pôs-se a pregar os vinténs à folhagem com a cera que arranjara. </div><div>Não demorou muito, deu de aparecer na estrada um boiadeiro que vinha tocando uns boizinhos para vender na vila. E como já ia levantando um solão esparramado, a cera ia derretendo e fazendo cair as moedas. Malasarte, fazendo festas, as apanhava. O boiadeiro acercou-se curioso, perguntou-lhe o que fazia, e Malasarte explicou: </div><div>— Esta árvore é deveras encantada, patrão. As suas frutas são moedas legítimas. Estou colhendo todas, porque vou me bandear pra outra terra e tô pensando em levar a árvore, apesar de todo o trabalho que vai me dar. </div><div>— Não me diga isto, sô! </div><div>— É o que eu lhe digo, patrão! </div><div>— Diacho! Se lhe vai dar tanto trabalho... </div><div>E o boiadeiro propôs comprar a árvore encantada. Malasarte, depois de muitas negaças, fechou negócio trocando a árvore pelos boizinhos; em seguida, bateu pé na estrada, vendendo-os na vila por um bom preço. </div><div>O boiadeiro mandou alguns de seus peões retirarem, com todo o cuidado, a árvore encantada e a replantou no pomar do seu sítio. Daqueles anos até hoje, está esperando ela dar moedas de vinténs. </div><div><br></div><div>(SÉRGIO, Ricardo. Recanto das Letras. Disponível em &lt;https://www.recantodasletras.com.br/causos/1049695&gt;)</div><div><br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:51:48 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007795950</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007800676</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>A VELHINHA INTELIGENTE<br></strong><br></div><div>Esta é uma história que se conta até hoje na cidade de Carcassonne, ao sul da França. Há várias versões do mesmo caso, mas todas concordam num ponto: a cidade foi salva graças à esperteza de uma mulher. </div><div>Há muitos e muitos séculos, a próspera cidade de Carcassonne foi cercada por guerreiros inimigos. Embora protegida por muralhas e portões, a população não estava a salvo: como ninguém podia sair, aos poucos a comida foi escasseando. Logo chegou o dia em que ninguém mais tinha o que comer, e os inimigos, do lado de fora, resistiam teimosamente, esperando a rendição da cidade. </div><div>Então, o governador de Carcassonne, refletindo sobre a gravidade da situação, resolveu que era preferível entregar-se a ver seu povo morrer de fome. Entretanto, assim que ele anunciou a todos a sua resolução, uma senhora, madame Carcas, já bem idosa e por isso mesmo muito experiente, adiantou-se e disse que tinha um plano para salvar a cidade. </div><div>Todos riram dela, porém como já se consideravam perdidos, acharam que não faria mal escutá-la. </div><div>- Primeiro, tragam-me uma vaca – pediu ela. </div><div>- Uma vaca?!? – exclamaram. – E como vamos achar uma vaca? </div><div>Mas madame Carcas insistiu e todos se puseram a procurar de casa em casa. Vira daqui, revira de lá, encontraram, por fim, uma vaca muito magra, na casa de um avarento, que a havia escondido por medo de morrer de fome. Ele bem que reclamou, mas o animal foi levado até a velha senhora. </div><div>- Agora – disse ela – juntem tudo o que puderem de alimentos, restos, cascas, o que encontrarem! </div><div>Assim fizeram todos, conseguindo juntar um saco cheio de restos de cereais. </div><div>- Muito bem – aprovou a madame. – Deem tudo isso à vaca! </div><div>- À vaca?!? Isso é um absurdo! Todos nós temos fome! </div><div>- Pois deem tudo à vaca e não vão se arrepender – garantiu a velhinha. </div><div>Não sem relutar, fizeram o que ela dizia. A vaca rapidamente engoliu aquilo que para todos parecia um banquete desperdiçado. </div><div>- Agora, abram com cuidado os portões e deixem a vaca sair – ordenou a senhora. </div><div>- Essa velha é louca! – gritaram alguns. Mas como madame insistisse com tanta segurança, resolveram obedecer-lhe até o fim.</div><div>Do lado de fora, a tropa inimiga percebeu que os portões da cidade se abriram. Intrigados, viram que uma vaca escapava. Mais do que depressa, capturaram o animal e o levaram para seu chefe de armas. </div><div>- Veja, senhor, eles deixaram uma vaca escapar! Graças a esse descuido, hoje teremos um bom jantar! </div><div>O chefe, intrigado, ordenou que matassem a vaca. Mas, quando abriram a barriga do animal e ele a viu forrada de cereais, muito preocupado, concluiu: </div><div>- Soldados! Se os habitantes dessa cidade ainda têm tantas provisões que podem alimentar suas vacas e além disso se dar ao luxo de deixá-las escapar, é sinal de que poderão resistir ainda por muito tempo. É melhor nos retirarmos, pois certamente morreremos de fome antes deles. </div><div>Assim, os inimigos foram embora e a cidade foi salva. </div><div>Dizem que a velhinha, vendo partir os soldados, subiu à torre da igreja e começou a tocar o sino, em sinal de vitória. Ouvindo aquilo, o povo gritou: </div><div>- Viva! Carcas sonne! – que em francês quer dizer “Carcas está tocando o sino”. </div><div>É por isso que a cidade foi chamada de CARCASSONNE. </div><div><br></div><div>(PAMPLONA, Rosana. Novas Histórias Antigas. São Paulo: Brinque-book, 1998; pp.23-26)</div><div><br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:53:02 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007800676</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007804558</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>O ANIVERSÁRIO DE PEDRO MALASARTES<br></strong><br></div><div>Era aniversário de Pedro Malasartes. Ele adorava uma festa, mas estava sem dinheiro para comemorar, com uma festança, o aniversário dele. Resolveu então, visitar o primo que tinha muito dinheiro e, certamente, lhe ofereceria alguma coisa, apesar de ser um pouco pão-duro. Chegando a fazenda do primo, este o recebeu com muito entusiasmado, não pela visita, porém por economizar assim a viagem a casa do aniversariante. Entraram e o primo foi logo oferecendo:</div><div>— Ó, primo Pedro! Tenho aqui uma broa que sinhá assou, fresquinha. É tanta que vai durar a semana inteira.</div><div>— Broa de milho, primo?</div><div>— É sim, quer um pedaço?</div><div>— Não, primo - agradeceu Malasartes - basta um cafezinho.</div><div>— Mas é seu aniversário primo, eu reconheço que sou um pão-duro, mas um pouco de cortesia ao primo não faz mal! Se quiser é só pedir.</div><div>Malasartes novamente agradeceu, porém continuou só com o café. Continuaram proseando e, em meio à prosa, o primo lhe diz:</div><div>— Olha Pedro, ontem mandei matar aquele leitão capado que eu vinha engordando. Temos uma porção de torresmo e toucinho frescos que mandei preparar. Quer um pouco, pois tenho bastante?</div><div>— Não me diga isso! Tem muito mesmo?</div><div>— É o que lhe digo! Tenho bastante, quer?</div><div>— Nada primo, pode deixar, basta um cafezinho.</div><div>— Seja dito..., mas quando quiser é só pedir.</div><div>Continuaram proseando mais e mais, até que o primo fez nova oferta:</div><div>— Pedro, faz tempo que guardo umas garrafas de cachaça. Vamos tomar uns goles para comemorar?</div><div>— E é dá boa?</div><div>— Da melhor.</div><div>— Não primo, para mim basta um cafezinho.</div><div>— Não se faça de rogado que você tá em casa. Quando ficar com vontade é só pedir.</div><div><br>E assim, o primo de Pedro Malasartes, querendo lhe agradar pela passagem do aniversário e ao mesmo tempo percebendo que Malasartes não estava querendo lhe dar despesa, foi oferecendo um pouco de cada coisa que tinha na despensa. Malasartes ouvia e recusava; contentando-se só com o cafezinho. E foram nessa toada até que ouviram uma tímida batida na porta. O primo de Malasartes se levantou, abriu a porta e pegou de espiar; do lado de fora havia uma verdadeira multidão de conhecidos. O primeiro foi logo falando:</div><div>— Olha, desculpa a intrusão, mas ficamos sabendo que Pedro Malasartes estava por aqui e passamos somente para dar lhe dar os parabéns.</div><div>Desconfiado, mas sem ter como recusar, o primo convidou a todos para entrar, mas foi logo avisando:</div><div>— Meus amigos! Gostaria de lhes oferecer alguma coisa, mas... quase nada tenho na despensa...</div><div>Malasartes, deixando de lado o cafezinho e interrompendo o primo, falou:</div><div>— Primo, sabe aquele torresmo, aquele toucinho, aquela broa, a cachaça, o suco de laranja, a rosca, a linguiça, e tudo mais que você me ofereceu? Agora eu até quero um pouquinho, que já me cansei desse cafezinho que tomava pra modo de esperar o pessoal chegar...</div><div>Vosmecê calcule, o primo ficou aturdido, tonteou... parecia inté que estava para dar a alma a Deus; mas, uma vez que o oferecido estava em vigor, acabou bancando toda a festa. Pois foi assim que Pedro Malasartes teve a sua festança.</div><div><br></div><div>(SÉRGIO, Ricardo. Recanto das Letras. Disponível em &lt;<a href="https://recantodasletras.com.br/contos/1669248">https://recantodasletras.com.br/contos/1669248</a>&gt; )</div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:54:02 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007804558</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007809019</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>A ONÇA E O BODE<br></strong><br></div><div>O Bode foi ao mato procurar lugar para fazer uma casa. Achou um sítio bom. Roçou-o e foi-se embora. A Onça que tivera a mesma ideia, chegando ao mato e encontrando o lugar já limpo, ficou radiante. Cortou as madeiras e deixou-as no ponto. O Bode, deparando a madeira já pronta, aproveitou-se, erguendo a casinha. A Onça voltou e tapou-a de taipa. Foi buscar seus móveis e quando regressou encontrou o Bode instalado. Verificando que o trabalho tinha sido de ambos, decidiram morar juntos.</div><div>Viviam desconfiados um do outro. Cada um teria sua semana para caçar. Foi a Onça e trouxe cabrito, enchendo o Bode de pavor. Quando chegou a vez deste, viu uma Onça abatida por uns caçadores e a carregou até a casa, deixando-a no terreiro. A Onça, vendo a companheira morta, ficou espantada:</div><div>— Amigo Bode, como foi que você matou essa Onça?</div><div>— Ora, ora… Matando!…-- Respondeu o Bode cheio de empáfia.  </div><div>Porém, insistindo sempre a Onça em perguntar-lhe como havia matado a companheira, disse o Bode:</div><div>— Eu enfiei este anel de contas no dedo, apontei-lhe o dedo e ela caiu morta.</div><div>A Onça ficou toda arrepiada, olhando o Bode pelo canto do olho.  Depois de algum tempo, disse o Bode:</div><div>— Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…</div><div>A Onça pulou para o meio da sala gritando:</div><div>— Amigo Bode, deixe de brinquedo…</div><div>Tornou o Bode a dizer que lhe apontava o dedo, pulando a Onça para o meio do terreiro.  Repetiu o Bode a ameaça e a onça desembandeirou pelo mato adentro, numa carreira danada, enquanto ouviu a voz do Bode:</div><div>— Amiga Onça, eu lhe aponto o dedo…</div><div>Nunca mais a Onça voltou.  O Bode ficou, então, sozinho na sua casa, vivendo de papo para o ar, bem descansado.</div><div><br><strong> </strong>CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global, 2004; p.205.<br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:55:08 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007809019</guid>
      </item>
      <item>
         <title></title>
         <author>karlaborg</author>
         <link>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007813495</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>O BICHO FOLHARAL<br></strong><br></div><div>Cansada de ser enganada pela raposa e de não poder segurá-la, a onça resolveu atraí-la à sua furna. Fez para esse efeito correr a notícia de que tinha morrido e deitou-se no meio da sua caverna, fingindo-se cadáver. Todos os bichos vieram olhar o seu corpo, contentíssimos. A raposa também veio, mas prudentemente de longe. E por trás de outros animais gritou: </div><div>- Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro da morte. </div><div>A onça, para mostrar que estava morta de verdade, espirrou três vezes. A raposa fugiu, às gargalhadas. </div><div>Furiosa, a onça resolveu apanhá-la ao beber água. Havia seca no sertão e somente uma cacimba ao pé duma serra tinha ainda um pouco de água. Todos os animais selvagens eram obrigados a beber ali. A onça ficou à espera da adversária, junto da cacimba, dia e noite. </div><div>Nunca a raposa curtiu tanta sede. Ao fim de três dias já não aguentava mais. Resolveu ir beber, usando duma astúcia qualquer. Achou um cortiço de abelhas, furou-o e com o mel que dele escorreu untou todo o seu corpo. Depois, espojou-se num monte de folhas secas, que se pregaram aos seus pelos e cobriram-na toda. </div><div>Ao lusco-fusco, foi à cacimba. A onça olhou-a bem e perguntou-lhe: </div><div>- Que bicho és tu que eu não conheço, que eu nunca vi? </div><div>Respondeu cinicamente: </div><div>- Sou o bicho folharal. </div><div>- Podes beber. </div><div>Desceu a rampa do bebedouro, meteu-se na água, sorvendo-a com delícia e a onça lá em cima, desconfiada, vendo-a beber demais, como quem trazia sede de vários dias, murmurava: </div><div>- Quanto bebes, folharal! </div><div>Mas a água amoleceu o mel e as folhas foram caindo às porções. Quando fartara as entranhas ressequidas, a última folha caíra, a onça reconhecera a inimiga esperta e pulara ferozmente sobre ela, mas a raposa conseguira fugir. </div><div><br></div><div>(BARROSO, Gustavo. Ao som da viola. Rio de Janeiro, 1921. In CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)</div><div><br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
         <enclosure url="" />
         <pubDate>2020-12-10 19:56:19 UTC</pubDate>
         <guid>https://padlet.com/karlaborg/m0uo71jrx73pxesp/wish/1007813495</guid>
      </item>
   </channel>
</rss>
