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      <title>Contos de Autor em Língua Portuguesa by Sandra Cristina Bettencourt</title>
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      <description>Biblioteca Escolar - Agrupamento de Escolas nº 2 de Beja</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>A Língua Portuguesa no Mundo</title>
         <author>bibliotecaescolar4</author>
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         <description><![CDATA[<div>Celebrando o Dia Mundial da Língua Portuguesa, 5 de maio, as turmas foram desafiadas a recolher textos (contos, crónicas e poemas) de autores dos Países de Língua Oficial Portuguesa.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>Padlet em formato de mapa</title>
         <author>bibliotecaescolar4</author>
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         <description><![CDATA[<div>Padlet - Tutorial em português</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>Tutorial Padlet em formato de Mapa</title>
         <author>bibliotecaescolar4</author>
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         <description><![CDATA[<div>Tutorial Padlet em formato de Mapa</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>Tutorial para unir áudio à imagem</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
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         <description><![CDATA[<div>Tutorial para unir áudio à imagem</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>Padlet a App para telemóvel e tablet: gravar aúdio</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
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         <description><![CDATA[<div>Paldet app para telemóvel e tablet: gravar áudio</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>Ficha Técnica</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
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         <description><![CDATA[<div>Ficha Técnica:</div><div>Biblioteca Escolar<br>9º A e B, Profª Catarina David</div><div>9ºC, Profª Cristina Almeida;<br>9ºD, E e F, Profª Teresa Pereira</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-04 12:47:11 UTC</pubDate>
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         <title>O Dia Em Que Uma Pedra Virou Lua</title>
         <author>aalicekabenda</author>
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         <description><![CDATA[<div>Alice Kabenda, 9ºC</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-28 15:21:11 UTC</pubDate>
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         <title>Biografia de João André</title>
         <author>aalicekabenda</author>
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         <description><![CDATA[<blockquote>Autor de O Dia Em Que Uma Pedra Virou Lua</blockquote>]]></description>
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         <pubDate>2022-02-28 18:35:58 UTC</pubDate>
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         <title>Miguel Torga </title>
         <author>aleonorisidro</author>
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         <description><![CDATA[<div><br>Miguel Torga, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em Trás-os-Montes, numa aldeia chamada S. Martinho de Anta.</div><div>Miguel Torga é pseudónimo do médico Adolfo Correia da Rocha. Este foi sempre médico e escritor, formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra e colaborou em muitas revistas literárias. Escreveu um diário com 16 volumes, recebeu vários prémios e a sua obra encontra-se traduzida em várias línguas.</div><div>Miguel Torga faleceu no dia 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra.<br><br>Leonor Isidro, Matilde Charraz-9ºC</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-03-01 18:09:28 UTC</pubDate>
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         <title>Jesus, Miguel Torga </title>
         <author>aleonorisidro</author>
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         <description><![CDATA[<div>Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:&nbsp;</div><div>&nbsp; - Sei um ninho!&nbsp;</div><div>&nbsp; A Mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido no alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:&nbsp;</div><div>&nbsp; - Sei um ninho!&nbsp;</div><div>&nbsp; O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também.&nbsp;</div><div>&nbsp; A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha.&nbsp;</div><div>&nbsp; A Mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo.&nbsp;</div><div>&nbsp; Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima.&nbsp;</div><div>&nbsp; De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.&nbsp;</div><div>&nbsp; E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija.&nbsp;</div><div>&nbsp; A subida levou tempo. Foi até preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta.&nbsp;</div><div>&nbsp; Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo.&nbsp;</div><div>&nbsp; Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal da Nazaré.&nbsp;</div><div>&nbsp; Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, que de todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho.&nbsp;</div><div>&nbsp; E o menino contava esta maravilha com a sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho.&nbsp;</div><div>&nbsp; Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio da sua felicidade, sabia um ninho.&nbsp;</div><div>&nbsp; A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho.<br><br>Miguel Torga - Os Bichos | PDF - [Em linha], atual. 2022. [Consulta. 28 fev. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://pt.scribd.com/document/466211674/Miguel-Torga-Os-Bichos-pdf&gt;.<br><br>Leonor Isidro, Matilde Charraz-9ºC</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-03-01 18:11:10 UTC</pubDate>
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         <title>&quot;Presépio&quot;</title>
         <author>amatildevinha</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2159076848</link>
         <description><![CDATA[<div><br>Resumo do conto "Presépio", de Carlos Drummond de Andrade<br><br>Dasdores era uma rapariga e muitos deveres e obrigações, o que fazia com que não tivesse tempo para nada. Nada do que fizesse parte da sua vida pessoal, como dar atenção ao namorado. Esta, sentia-se dividida entre ir á Missa do Galo, e montar o presépio, antes da meia noite. Era uma correria contra o tempo.<br>Por um lado, desejava ir à missa, e ter a oportunidade de se cruzar com o namorado, Abelardo, na rua. Por outro lado, tinha que montar o presépio. Mesmo com a oferta de ajuda dos irmãos, Dasdores sentia o legado, deixado por uma tia já morta, de ser ela, e só ela a armá-lo.<br>Ao começar, Dasdores vê e sente Abelardo em cada peça que move. Sente os seus cabelos, as suas mãos macias, decifra os seus olhos, a auréola em torno dos seus cabelos, a sua pele morena e o cigarro que este fumava na outra rua.<br><br>Fonte:<br>Carlos Drummond de Andrade – Wikipédia, a enciclopédia livre - [Em linha], atual. 2022. [Consult. 7 maio. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Drummond_de_Andrade&gt;<br>https://contobrasileiro.com.br/presepio-conto-de-carlos-drummond-de-andrade/<br><br>Matilde Vinha e Glória Soares- 9B<br><br><br><br><br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-04-26 18:34:50 UTC</pubDate>
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         <title>José Saramago </title>
         <author>amargaridacatarino</author>
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         <description><![CDATA[<div>José Saramago nasceu em Azinhaga, distrito de Santarém, Portugal no dia 16 de novembro de 1922 e era filho de camponeses.<br>Estudou na escola de ensino profissional onde concluiu o curso de serralheiro mecânico e durante o mesmo, abriram-se portas para o seu gosto por Literatura através dos livros escolares de Português.<br>Terminado o curso trabalhou 2 anos como serralheiro mecânico.<br>Casou-se em 1944 com Ilda Reis e 3 anos depois nasceu a sua filha, Violante, publicando o seu primeiro livro " Terra do Pecado" e em seguidas outros mais.<br>Ficou desempregado em 1949 e no final dos anos 50 passou a trabalhar numa editora, Estúdios Cor. Em 1966, publicou "Os Poemas Possíveis", que marcou o seu regresso à literatura, durante dois anos trabalhou no Diário de Lisboa, em seguida no Diário de Notícias e entretanto foi demitido. Por devidas circunstâncias, tomou a decisão de dedicar-se totalmente à Literatura. A partir dessa altura começou a publicar vários contos, entre eles, "Levantado do Chão"; "Objeto Quase"; "Que farei com este livro?". A década de 80 foi inteiramente dedicada ao romance: "Memorial do Convento"; "A Jangada de Pedra"; "O Ano da Morte de Ricardo Reis".&nbsp;<br>Em 1986 conheceu a jornalista espanhola Pilar del Río e casou com a mesma em 1988.<br>Apresentou-se ao Prémio Literário Europeu, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel e participou em ações da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos.<br>Em 1988 até 2008 publicou uma série de livros, em 2007 decidiu criar uma fundação com o seu nome, entre os seus objetivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos.<br>José Saramago veio a falecer a 18 de Junho de 2010, Tías, Espanha.<br><br>Margarida Catarino e Madalena Duarte- 9ºC<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-04-29 10:54:59 UTC</pubDate>
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         <title>A maior flor do mundo </title>
         <author>amargaridacatarino</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2164174347</link>
         <description><![CDATA[<div>As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples. Quem me dera saber escrever essas histórias.&nbsp;</div><div><br></div><div>Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei. Seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…&nbsp;</div><div><br></div><div>… havia uma aldeia.&nbsp;</div><div><br></div><div>…e um menino.&nbsp;</div><div><br></div><div>Sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce o rio e depois por ele abaixo. Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o “planeta Marte”.&nbsp;</div><div><br></div><div>Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta: Vou ou não vou? E foi.&nbsp;</div><div><br></div><div>O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava já um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo pelos bosques de altas árvores onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e também um calor vegetal, um cheiro de caule fresco.&nbsp;</div><div><br></div><div>Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada.&nbsp;</div><div><br></div><div>Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor.&nbsp;</div><div><br></div><div>Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!&nbsp;</div><div><br></div><div>Não importa.&nbsp;</div><div><br></div><div>Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá.&nbsp;</div><div><br></div><div>Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão.&nbsp;</div><div><br></div><div>O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, começaram a afligir-se muito. Saiu toda a família e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam.&nbsp;</div><div><br></div><div>Correram tudo, já em lágrimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ninguém se lembrava que estivesse ali.&nbsp;</div><div><br></div><div>Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande pétala perfumada…&nbsp;</div><div><br></div><div>Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre.&nbsp;</div><div><br></div><div>Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos.&nbsp;</div><div><br>SARAMAGO, JOSÉ; OLIVEIRA, INÊS - A maior flor do mundo. Porto, Portugal : Porto Editora, 2012<br>https://www.universodosleitores.com/2012/11/texto-da-semana-maior-flor-do-mundo-de.html&nbsp;<br><br>Margarida Catarino e Madalena Duarte- 9ºC</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-04-29 11:58:19 UTC</pubDate>
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         <title>Fernando Kawendimba - Biografia</title>
         <author>aritabrito</author>
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         <description><![CDATA[<div>Fernando Kawendimba nasceu no Lobito, Angola, em 1988. Mestrando em Psicologia do Bem-Estar e Promoção da Saúde pela UCP, licenciado em Psicologia Clínica &nbsp;<br>pela UCAN, bacharel em Filosofia &nbsp;<br>e Ciências da Educação &nbsp;<br>pelo antigo Centro Dom Bosco &nbsp;<br>de Estudos Superiores. &nbsp;<br>É membro da Ordem dos Psicólogos de Angola e autor do livro “Em minha casa, as psicologias têm outros nomes”<br><br><br>Fonte: KAWENDIMBA, FERNANDO - As Histórias do Avô Panguila [Em linha], atual. 2022. [Consult. 2 maio. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://www.lerecontar.com/ashistoriasdoavopanguila&gt;.<br><br>Traballho de: Matilde Guerreiro;<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Rita de Brito e<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Sofia Silva.<br><br>Turma: 9ºC</div><div><br><br></div><div><br><br></div><div><br><br><br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-01 20:40:04 UTC</pubDate>
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         <title>Só sei que nadar sei - conto de Fernando Kawendimba </title>
         <author>aritabrito</author>
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         <description><![CDATA[<div>Só sei que nadar sei<br><br>Era quase meio-dia de sábado. Os irmãos Manu tinham um compromisso inadiável: ir ao encontro de uma pessoa muito especial para eles.&nbsp;</div><div>- Mesmo se nós pedirmos perdão ao tempo pelo nosso atraso, o dia não vai durar vinte e cinco horas. Não vai sentir pena de nós – apelou Elosa à irmã do meio.&nbsp;</div><div>- Se perdermos a hora, achas que ganhamos mais amor da avó Oluina?&nbsp;</div><div>- Acho que não sei o que eu acho. Mas tenho certeza que podemos perder o inhame, a batata doce, a mandioca e o milho assados à lenha. Achas que não? &nbsp;</div><div>- Losa perguntou, sem esperar resposta. – E a cana-de-açúcar então, mana Elosa!?&nbsp;</div><div>- Estás a ver já, né!? Por causa de atraso, não perco nem estórias da avó Oluina. Vamo-nos deixar já prontas! &nbsp;</div><div>As meninas Elosa e Losa foram lavar as mãos, os dentes, corpos inteiros. Isso teve a duração de uma só canção na voz de Clélia, que no momento tocava no rádio e lhes tocava as almas. No exíguo período, seus cabelos crespos num só estilo penteados, patenteando autoestima em dose dupla. A cabaça de tchisangwa e os pastéis de peixe achavam-se no cestinho para a jornada. Quando iam fechando as janelas, manifestaram espanto:&nbsp;</div><div>- Mana Elosa, a nossa cadelinha está onde? Isso não é nosso azar?&nbsp;</div><div>- Losa, e Sapalo!? Agora que estamos fora de hora não sabermos onde aquele menino se meteu! Saiu com papá e mamã? Outra maka mais!&nbsp;</div><div>Para que as irmãs evitassem uma missão comprida, combinaram um plano a ser cumprido: tu procuras a nossa cadelinha, eu encontro o nosso caçulinha, orientou Elosa. O tempo passa, mas só passa bem se for bem planeado.&nbsp;</div><div>- Manas, não adianta nos procurarem mais – berrou Sapalo, do lado de fora de casa.&nbsp;</div><div>- Vocês estão perdidas no tempo. Nós, nem no tempo, nem no espaço. &nbsp;</div><div>O menino e a cadelinha acordados no horário acordado, brincavam no quintal, enquanto esperavam. As manas não compreendiam por que não os viam desde a alvorada. O menino contou que havia encontrado a cadela balançando o rabo, o olhar feliz, curiosíssima para contemplar borboletas de perto, pelo caminho. As manas, reticentes, questionaram: e tu ias para onde?&nbsp;</div><div>- Fui embora despedir um amigo-peixe, junto com família dele, cardume simpático – justificou-se o pequeno Sapalo. – Vou explicar bem.&nbsp;</div><div>Iniciaram a marcha, ao conto da aventura fantástica que o menino se gabava de protagonizar:&nbsp;</div><div>- Todos os dias, manhã cedo, costumo ir cumprimentar meu amigo peixinho que me gosta bwé – e eu dele, também. Mora no rio, no fundo, mas não muito no fundo. A vossa sorte é que a cadela não sabe testemunhar na nossa língua.&nbsp;</div><div>Para as duas, a narrativa estava fantasiada demais para uma época fora de carnaval. &nbsp;</div><div>Olhares à cadela: na briga de irmãos, a cachorrinha não metia a colher, o focinho, não lhe apanhavam as patas. Postura mesmo indiferente.&nbsp;</div><div>- Tens somente seis anos e aqui ninguém te ensinou nada de nadar. Não mente.&nbsp;</div><div>- Sim, sim, sim. Sei que não me ensinaram. Mas também vão me ensinar como, se em matéria de nadar vocês não sabem nada!? Me dizem só ainda, por favor!&nbsp;</div><div>- Sapa, Losa tem razão: se nem sabes andar bem, aprendeste a nadar quando?&nbsp;</div><div>As irmãs gargalharam até espantar umas das tantas borboletas que a cadelinha encalçava. Desacreditaram no irmão: ficou desanimado ou optou pelo silêncio.&nbsp; &nbsp;</div><div>A ignorância é violenta, inflamável e arrogante: o sábio sabe disso, por isso ignora-a. Era avó Oluina que falava isso que Sapalo acabou de lembrar.&nbsp;</div><div>- Outra maka mais! – exclamou Elosa, de repente. &nbsp;</div><div>- Onde está a cadelinha?&nbsp;</div><div>Perderam-na de vista. Cada um foi em direcção diferente para a busca.&nbsp;</div><div>- Está aqui – era a Losa.&nbsp;</div><div>- Acelerem. Ela está a correr atras das borboletas. &nbsp;</div><div>Os manos Manu correram o máximo que puderam. A cadela corria energética e divertida atrás de uma nuvem de borboletas fascinantes. À partida, não compreenderam o que viram por se recusarem a acreditar: no afã de alcançar borboletas, a cachorra, por excesso de distracção e diversão, caíra no rio. Afogamento? Não dizem que todos os cães sabem nadar?&nbsp;</div><div>Losa desatou a lacrimejar: isso está mesmo a acontecer?&nbsp;</div><div>- Sapa, irmãozinho do coração, salva a nossa cadela, por favor – Elosa implorou com as mãos e os pés juntos. &nbsp;</div><div>- Entre nós, só tu sabes nadar.&nbsp;</div><div>- Eu mal sei nadar, ainda agora já sei nadar, mana Elosa!? Não faz isso então!?&nbsp;</div><div>- Eu sabia que Sapa mentia – disse Losa, entre soluços.&nbsp;</div><div>- Ele não sabe na…&nbsp;</div><div>A irmã do meio não terminou a frase. Sapalo havia mergulhado no rio, nadava de volta, com subtileza e proficiência, trazendo-a mais salva, menos sã. Pareceu ser isso, a princípio. Logo após segundos, os primeiros socorros foram concedidos por Elosa. Pouco tempo depois, a cachorrinha mexia a língua expressando ponto alto do apetite. A fome, contagiosa, assim como a alegria que tomara conta dos quatro, fê-los tomar e comer os pastéis de peixe, tomar e beber a tchisangwa, tomar e apanhar sol, tomar e respirar ar puro.&nbsp;</div><div>- Cansámo-nos de esconder a verdade – foi Losa que tomou a palavra.&nbsp;</div><div>- Sabendo da tua amizade, mandámos pescar, recheámos os pastéis com peixes da família do teu amigo. Acabaste de comer o teu amigo-peixe ou peixe-amigo, sei lá como dizes.&nbsp;</div><div>- Vocês não fizeram isso comigo, manas! – lágrimas formaram-se nos olhos do menino e foram espreitando o exterior, aguardando autorização para ser choro.&nbsp;</div><div>- Concentra-te, Losa. Brincadeira de sabor aedo como o sentimento do menino, não admito. Não estás a perceber que ela só está a brincar contigo, maninho Sapa? Perdão por termos duvidado da tua cordialidade, coragem m prudência e verdade. Somos mais velhas que tu, mas sempre podemos aprender contigo coisas maiores que as nossas idades. Já agora, que te ensinou a nadar como um peixe?&nbsp;</div><div>- Ensinar a nadar? Não sei. Só sei que nadar sei. &nbsp;</div><div>Em paz, cadela ao colo, os manos Manu, abraçados, foram visitar a avó Oluina.&nbsp;<br><br>Fonte:<br>KAWENDIMBA, FERNANDO - Só sei que nadar sei [Em linha], atual. 2022. [Consult. 2 maio. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://static1.squarespace.com/static/5e90ac41f2bc58756e6a2bae/t/5f73249ae9149e32e8dcbe69/1601381578173/So%CC%81SeiQueNadarSeiFernandoKawendimba.pdf&gt;.<br><br>Trabalho de: Matilde Guerreiro;<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Rita de Brito e<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Sofia Silva<br><br>Turma: 9ºC&nbsp;</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-01 21:18:15 UTC</pubDate>
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         <title>Leitura expressiva do conto &quot;Presépio&quot;- Carlos Drummond</title>
         <author>amatildevinha</author>
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         <description><![CDATA[<div>Matilde Vinha e Glória Soares- 9B</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-01 21:54:20 UTC</pubDate>
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         <title>Rio de Janeiro, Brasil</title>
         <author>ahenriquepenacho</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2166030111</link>
         <description><![CDATA[<div>A obra “O Alienista”, narra a história do Dr. Simão Bacamarte (Alienista), um respeitado médico que tinha boa fama em Portugal, Espanha e no Brasil.&nbsp; Ele é casado com a já viúva D. Evarista, quem ele julga ser uma boa mulher para gerar bons filhos, o que acaba não acontecendo.</div><div>Dr. Simão acaba se dedicando então aos estudos da mente e a psiquiatria. Ele se muda para a cidade de Itaguaí, Rio de Janeiro, onde pede autorização do Governo para abrir uma clinica feita para estudar a loucura e doenças da mente.O local é batizado de Casa Verde, e todos aqueles que Dr. Simão julga ser louco ele manda internar. No começo as internações eram feitas com pessoas que possuíam realmente casos de loucura, sendo aclamado pela população. Mas depois ele passa a internar pessoas consideradas sãs, como Costa, um rapaz que havia recebido uma herança com a qual daria para viver até o fim da vida, mas gastou tudo em empréstimos aos outros e acabou na miséria. Nem D. Evarista escapou, foi internada por não conseguir decidir que roupa vestir para uma festa.Metade da população já estava internada e as pessoas começaram a se revoltar. O barbeiro Porfírio decide liderar uma revolta para soltar as pessoas que foram presas injustamente conhecido como a “revolta dos canjicas” (o apelido do barbeiro era Canjica). Esta manifestação de nada adianta e no final os manifestantes também acabaram presos internados.</div><div>Quando mais de 75% da população da cidade estava internada, Dr. Simão viu que&nbsp; havia algo de errado com seu critério e decidiu o rever: se a maioria seguia um desvio de padrão, quem tinha regularidade em suas ações e firmeza de caráter eram os verdadeiros loucos. Então ele decidiu prender a minoria.</div><div>Por fim, ele não encontrou ninguém que possuísse ao menos um desvio de caráter a não ser ele mesmo. Dr. Simão então se internou e ficou sozinho na Casa Verde, falecendo dezessete meses depois.</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-01 21:58:26 UTC</pubDate>
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         <title>Huambo, Angola</title>
         <author>amadalenapetronilo</author>
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         <description><![CDATA[<div>Fonte: <strong>&nbsp;<br></strong>Portal da Literatura. 2022. <em>José Eduardo Agualusa - Portal da Literatura</em> . [online] Disponível em: &lt;https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=455&gt; [Acessado em 3 de maio de 2022].<br><br><br>Realizado por:&nbsp;<br>Madalena Petronilo&nbsp;<br>Madalena Goulão&nbsp;<br>9º B</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-03 20:46:02 UTC</pubDate>
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         <title>&quot;Sábios como camelos&quot; - resumo</title>
         <author>amadalenapetronilo</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2168999634</link>
         <description><![CDATA[<div>Há muitos anos, na Pérsia, vivia um grão-vizir que gostava muito de ler e, sempre que tinha de viajar, levava 400 camelos carregados de livros, os quais estavam treinados para caminhar em ordem alfabética. E quando queria ler mandava parar a cáfila e procurava o livro certo.<br>Certo dia, enquanto se encontrava em viagem, a carava perdeu-se no deserto. Apareceu uma grande tempestade, onde as dunas pareciam estar vivas. A areia era tanta que até entrava dentro do corpo e era necessário tapar os olhos. Quando a tempestade terminou, os camelos tinham desaparecido e o grão-vizir voltou ao seu palácio muito triste.&nbsp;<br>Porém, os camelos não tinham morrido. Com a ajuda de um pastor sobreviverem e, quando a fome chegou, o pastor deu-lhes os livros para comer.<br>Passados vários dias e após chegar ao palácio, o pastor explicou ao grão-vizir o que acontecera, mas o grão-vizir não se comoveu, referindo que por cada livro comido iria passar um dia na prisão. Feitas as contas iria ficar preso 440 anos, muito antes disso iria morrer de velhice.<br>Quando os soldados se preparavam para cumprir a ordem do chefe, um camelo aproximou-se e falou, referindo que o pastou os tinha salvo a vida e que, ao comer os livros, ficaram com a ciência da fala.&nbsp;<br>Assim, o pastor foi libertado e o grão-vizir continuou a ouvir as histórias dos seus livros contadas pelos camelos.<br><br>Fonte: AGUALUSA, EDUARDO - Sábios como camelos [Em linha] [Consult. 7 maio. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://sdi.letras.up.pt/uploads/pdfs/S%C3%A1bios_como_Camelos.pdf&gt;.<br><br>Realizado por:<br>Madalena Petronilo<br>Madalena Goulão<br>9º B<br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-03 21:45:59 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>&quot;Sábios como camelos&quot; - Leitura Expressiva</title>
         <author>amadalenapetronilo</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2170646067</link>
         <description><![CDATA[<div>Conto: AGUALUSA, EDUARDO - Sábios como camelos [Em linha] [Consult. 7 maio. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://sdi.letras.up.pt/uploads/pdfs/S%C3%A1bios_como_Camelos.pdf&gt;.<br>Realizado por:&nbsp;<br>Madalena Goulão<br>Madalena Petronilo<br>9º B</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-05-04 22:14:05 UTC</pubDate>
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      </item>
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         <title>Luanda, Angola</title>
         <author>alaraadvinha</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2212306307</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>Biografia:</strong><br>Ndalu de Almeida, conhecido como Ondjaki, é um poeta e escritor angolano nascido a 5 de julho de 1977, em Luanda. Graças ao seu trabalho ganhou cerca de 6 prémios de literatura.&nbsp;</div><div><br></div><div>Fonte: Ondjaki – Wikipédia, a enciclopédia livre - [Em linha], atual. 2022. [Consult. 7 jun. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ondjaki&gt;.<br><br></div><div><strong>"O Kazukuta", Ondjaki</strong><br><br></div><div>&nbsp; Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.</div><div><br>&nbsp; Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, e bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol pra lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota meio triste, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.</div><div><br>&nbsp; Acho que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós mesmo não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo, não sei, devia perguntar no tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais. Sim, o Kazukuta era um cão triste.</div><div>Um dia era de tarde, e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho longo. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?</div><div>Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases em kimbundu ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta..., lembro bem os teus olhos doces brilharem tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim - o tio Joaquim silencioso - veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.</div><div>E demorou.</div><div>Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água foi, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o Tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para dar:</div><div>&nbsp;- Meninos, a tia Maria morreu.</div><div>Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:</div><div>&nbsp;- Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?</div><div>O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.</div><div>- Sim, podem.</div><div>Parece mesmo vi um sorriso pequenino na boca dele. O tio Joaquim era muito calado e sorria devagarinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco também.</div><div>O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta. Um dia kazukuta estava muito velho e morreu mesmo.</div><div><br><strong>ONDJAKI - Os da minha rua. Alfragide, Portugal : Caminho, 2020<br><br></strong><br><strong>Trabalho realizado por:</strong>&nbsp;<br>Diana Veríssimo&nbsp;<br>Lara Advinha<br>9°C</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-06 14:50:00 UTC</pubDate>
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      </item>
      <item>
         <title>O conto da Ilha Desconhecida</title>
         <author>aleonoragostinho</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2212391112</link>
         <description><![CDATA[<div>Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.</div><div>Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a</div><div>encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos, mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido, pois, entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a</div><div>impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.</div><div>Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha</div><div>esquecido de fazer, sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, vou dar-te a embarcação que te convém, qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, é o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, mas continua a ser uma caravela, sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho ideia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, os barcos têm chave, perguntou o homem, para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.</div><div>A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à</div><div>espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.</div><div>Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de</div><div>repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.</div><div>Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da 🤬 e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher</div><div>voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.</div><div>Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O</div><div>homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.<br><br>José Saramago - Porto Editora - [Em linha], atual. 2021. [Consult. 29 abr. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://www.portoeditora.pt/autor/jose-saramago/2316&gt;.<br><br>Mª Leonor e Mª Inês Agostinho - 9ºC</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-06 16:02:11 UTC</pubDate>
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         <title>José Saramago</title>
         <author>aleonoragostinho</author>
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         <description><![CDATA[<div>José de Sousa Saramago nasceu dia 16 de novembro de 1922 em Azinhaga, Golegã e morreu dia 18 de junho de 2010 em Tías, Lanzarote, Espanha.</div><div>José Saramago foi um escritor português, galardoado com vários prémios sendo dois deles o Prémio Nobel de Literatura e o Prémio Camões, um dos mais importantes prémios literários da língua portuguesa. Também foi considerado o responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.</div><div>José Saramago publicou muitos tipos de obras como Romances, Contos, Poesia, Crónicas, Infantis e Peças Teatrais.<br>Umas das suas obras mais conhecidas são “Ensaio sobre a cegueira” (1995), “O homem duplicado” (2002), “Ensaio sobre a lucidez” (2004), “As intermitências da morte” (2005).<br><br>Mª Leonor e Mª Inês Agostinho - 9ºC<br><br>Fonte: José Saramago – Wikipédia, a enciclopédia livre - [Em linha], atual. 2022. [Consult. 7 jun. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago&gt;.</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-06 16:08:09 UTC</pubDate>
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         <title>Maria Firmina dos Reis</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
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         <description><![CDATA[<div><strong>Biografia de Maria Firmina Dos Reis<br></strong><br></div><div>Maria Firmina Dos Reis, nasceu em São Luís do Maranhão, no Brasil em 11 de Março de 1822 e faleceu em Guimarães, Maranhão a 11 de Novembro de 1917.</div><div>A sua mãe era Leonor Felipa dos Reis e o seu pai aparecia ausente na certidão de nascimento.</div><div>Afro descendente, nascida fora do casamento, ficou órfão aos 5 anos de idade numa altura em que ainda existia escravidão e preconceito social e de raça.</div><div>Foi uma escritora, professora primária e música.</div><div>Ela entrou para a história da Literatura Brasileira por ser a primeira romancista do país, a sua primeira e mais importante obra publicada, foi o romance “Úrsula” em 1859, mais tarde publicou na revista Maranhenses o seu conto “A escrava” em 1887.</div><div>E para sua homenagem o dia 11 de Março passou a ser o dia da mulher maranhense.</div><div>&nbsp;<br>Trabalho de: Ema Barros, Rafaela Dias e Raquel Miranda, 9ºC</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-07 19:40:11 UTC</pubDate>
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         <title>Escrava</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
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         <description><![CDATA[<h1><strong>A escrava</strong></h1><div>&nbsp;<strong>Maria Firmina dos Reis<br></strong><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<br><br></div><div>Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas distintas, e bem colocadas na sociedade e depois de versar a conversação sobre diversos assuntos mais ou menos interessantes, recaiu sobre o elemento servil.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;O assunto era por sem dúvida de alta importância. A conversação era geral; as opiniões, porém, divergiam. Começou a discussão.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp;– Admira-me, disse uma senhora, de sentimentos sinceramente abolicionistas; faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no presente século, no século dezenove! A moral religiosa, e a moral cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira!<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Para que se deu em sacrifício, o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro atento? Ah!<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Então não era verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade... Não verdes que a corrói constantemente!... Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói?<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e sempre será um grande mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio, e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado. Ele não tem futuro; o seu trabalho não é indenizado; ainda dela nos vem o opróbrio, a vergonha; porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres; por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, estampa-se na fronte de todos nós. Embalde procurará um dentro nós convencer ao estrangeiro que em suas veias não gira uma só gota de sangue escravo...<br><br></div><div>E depois, o caráter que nos imprime, e nos envergonha!<br><br></div><div>O escravo é olhado por todos como vítima – e o é.<br><br></div><div>O senhor, que papel representa na opinião social?<br><br></div><div>O senhor é o verdugo – e esta qualificação é hedionda.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Eu vou narrar-vos, se me quiserdes prestar atenção, um fato que ultimamente se me deu. Poderia citar-vos uma infinidade deles; mas este basta, para provar o que acabo de dizer sobre o algoz e a vítima.<br><br></div><div>E ela começou:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Era uma tarde de agosto, bela com um ideal de mulher, poética como um suspiro de virgem, melancólica, e suave como sons longínquos de um alaúde misterioso.<br><br></div><div>Eu cismava embevecida na beleza natural das alterosas palmeiras, que se curvavam gemebundas, ao sopro do vento, que gemia na costa.<br><br></div><div>E o sol, dardejando seus raios multicores, pendia para o ocaso em rápida carreira.<br><br></div><div>Não sei que sensações desconhecidas me agitavam, não sei!... mas sentia-me com disposições para o pranto.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; De repente uns gritos lastimosos, uns soluços angustiados feriram-me os ouvidos, e uma mulher correndo, e em completo desalinho passou por diante de mim, e como uma sombra desapareceu.<br><br></div><div>Segui-a com a vista. Ela espavorida, e trêmula, deu volta em torno de uma grande moita de murta, e colando-se no chão nela se ocultou.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Surpresa com a aparição daquela mulher, que parecida foragida, daquela mulher que um minuto antes quebrara a solidão com seus ais lamentosos, com gemidos magoados, com gritos de suprema angústia, permaneci com a vista alongada e olhar fixo no lugar que a vi ocultar-se.<br><br></div><div>Ela muda, e imóvel, ali quedou-se.<br><br></div><div>Eu então a mim mesma, interroguei: Quem será a desditosa?<br><br></div><div>Ia procurá-la – coitada! Uma palavra de animação, um socorro, algum serviço, lembrei-me, poderia prestar-lhe. Ergui-me.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Mas no momento mesmo em que este pensamento, que acode a todo homem em idênticas circunstâncias, se me despertava, um homem apareceu no extremo oposto do caminho.<br><br></div><div>Era ele de cor parda, de estatura elevada, largas espáduas, cabelos negros, e anelados.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Fisionomia sinistra era a desse homem, que brandia, brutalmente, na mão direita um azorrague repugnante; e da esquerda deixava pender uma delgada corda de linho.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Inferno! Maldição! Bradava ele, com voz rouca. Onde estará ela? E perscrutava com a vista por entre os arvoredos desiguais que desfilavam à margem da estrada.<br><br></div><div>– Tu me pagarás – resmungava ele. E aproximando-se de mim:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Não viu, minha senhora, interrogou com acento, cuja dureza procurava reprimir –, não viu por aqui passar uma negra, que me fugiu das mãos ainda há pouco? Uma negra que se finge douda... Tenho as calças rotas de correr atrás dela por estas brenhas, já não tenho fôlego.<br><br></div><div>Aquele homem de aspeto feroz era o algoz daquela pobre vítima, compreendi com horror.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; De pronto tive um expediente. – Vi-a, tornei-lhe com a naturalidade que o caso exigia; – vi-a, e ela também me viu, corria em direção a este lugar; mas parecendo intimidar-se com a minha presença, tomou direção oposta, volvendo-se repentinamente sobre seus passos. Por fim a vi desaparecer, internando-se na espessura, muito além da senda que ali se abre.<br><br></div><div>E dizendo isto indiquei-lhe com um aceno a senda que ficava a mais de cem passos de distância , aquém do morro em que me achava.<br><br></div><div>Minhas palavras inexatas, o ardil de que me servi, visavam a fazê-lo retroceder: logrei o meu intento.<br><br></div><div>Franziu o sobrolho, e sua fisionomia traiu a cólera que o assaltou. Mordeu os beiços e rugiu:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; – Maldita negra! Esbaforido, consumido, a meter-me por estes caminhos, pelos matos a procura da preguiçosa... Ora! Hei de encontrar-te; mas, deixa estar, eu te juro, será esta derradeira vez que me incomodas. No tronco... no tronco: e de lá foge!<br><br></div><div>Então, perguntei-lhe, aparentando o mais profundo indiferentismo, pela sorte da desgraçada, – foge sempre?<br><br></div><div>– Sempre, minha senhora. Ao menor descuido foge. Quer fazer acreditar que é douda.<br><br></div><div>– Douda! Exclamei involuntariamente, e com acento que traía os meus sentimentos.<br><br></div><div>Mas o homem do azorrague não pareceu reparar nisso, e continuou:<br><br></div><div>– Douda... douda fingida, caro te há de custar.<br><br></div><div>Acreditei-o o senhor daquela mísera; mas empenhada em vê-lo desaparecer daquele lugar, disse-lhe.<br><br></div><div>– A noite se avizinha, e se a deixa ir mais longe, difícil lhe será encontrá-la.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp;– Tem razão, minha senhora; eu parto imediatamente, e cumprimentando-me rudemente, retrocedeu correndo a mesma estrada que lhe tinha maliciosamente indicado.<br><br></div><div>Exalei um suspiro de alívio, ao vê-lo desaparecer na dobra do caminho.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;O sol de todo sumia-se na orla cinzenta do horizonte, o vento paralisado não agitava as franças dos anosos arvoredos, só o mar gemia ao longe da costa, semelhando o arquejar monótono de um agonizante.<br><br></div><div>Ergui ao céu um voto de gratidão; e lembrei-me que era tempo de procurar minha desditosa protegida.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Ergui-me cônscia de que ninguém me observava, e acercava-me já da moita de murta, quando um homem rompendo a espessura, apareceu ofegante, trêmulo e desvairado.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Confesso que semelhante aparição causou-me um terror imenso. Lembrei-me dos criados, que eu tinha convocado a essa hora naquele lugar, e que ainda não chegavam. Tive medo.<br><br></div><div>Parei! Instantemente, e fixei-o. Apesar do terror que me havia inspirado, fixei-o resolutamente.<br><br></div><div>De repente serenou o meu terror; olhei-o, e do medo, passei à consideração, ao interesse.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Era quase uma ofensa ao pudor fixar a vista sobre aquele infeliz, cujo corpo seminu mostrava-se coberto de recentes cicatrizes; entretanto sua fisionomia era franca, e agradável. O rosto negro, e descarnado; suposto seu juvenil aspecto aljofarado de copioso suor, seus membros alquebrados de cansaço, seus olhos rasgados, ora lânguidos pela comoção de angústia que se lhe pintava na fronte, ora deferindo luz errante, e trêmula, agitada, e incerta traduzindo a excitação, e o terror, tinham um quê de altamente interessante.<br><br></div><div>No fundo do coração daquele pobre rapaz, devia haver rasgos de amor, e generosidade.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Cruzamos, ele, e eu as vistas e ambos recuamos espavoridas. Eu, pelo aspecto comovente, e triste daquele infeliz, tão deserdado da sorte; ele, por que seria?<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Isto teve a duração de um segundo apenas: recobrei o ânimo em presença de tanta miséria, e tanta humilhação, e este ânimo procurei de pronto transmitir-lhe.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Longe de lhe ser hostil, o pobre negro compreendeu que eu ia talvez minorar o rigor de sua sorte; parou instantaneamente, cruzou as mãos no peito, e com voz súplice, murmurou algumas palavras que eu não pude entender.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Aquela atitude comovedora, despertou-me compaixão; apesar do medo que nos causa a presença de um calhambola, aproximei-me dele, e com voz, que vem compreendeu ser protetora e amiga, disse-lhe:<br><br></div><div>– Quem és, filho? O que procuras?<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Ah! Minha senhora, exclamou erguendo os olhos aos céu, eu procuro minha mãe, que correu nesta direção, fugindo ao cruel feitor, que a perseguia. Eu também agora sou um fugido: porque há uma hora deixei o serviço para procurar minha pobre mãe, que além de douda está quase a morrer. Não sei se ele a encontrou; e o que será dela. Ah! Minha mãe! É preciso que eu corra, a ver se acho antes que o feitor a encontre. Aquele homem é um tigre, minha senhora, –uma fera.<br><br></div><div>Ouvia-o, sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Amanhã, continuou ele, hei de ser castigado; porque saí do serviço, antes das seis horas, hei de ter trezentos açoites; mas minha mãe morrerá se ele a encontrar. Estava no serviço, coitada! Minha mãe caiu, desfalecida; o feitor lhe impôs que trabalhasse, dando-lhe açoites; ela deitou a correr gritando. Ele correu atrás. Eu corri também, corri até aqui porque foi esta a direção que tomaram. Mas, onde está ela, onde estará ele?<br><br></div><div>– Escuta, lhe tornei então, tua mãe está salva, salvou-a o acaso; e o feitor está agora bem longe daqui.<br><br></div><div>– Ah! Minha senhora, onde, onde está a minha mãe e quem a salvou?<br><br></div><div>– Segue-me, disse eu – tua mãe está ali – e apontei para a moita onde se refugiara.<br><br></div><div>– Minha mãe, sem receio de ser ouvido, ex­clamou o filho: minha mãe!...<br><br></div><div>Com efeito, ali com a fronte reclinada sobre um tronco decepado; e o corpo distendido no chão, dormia um sono agitado a infeliz foragida.<br><br></div><div>– Minha mãe, gritou-lhe ao ouvido curvando os joelhos em terra, tomando-a nos seus braços. Minha mãe... sou Gabriel...<br><br></div><div>A esta exclamação de pungente angústia, a mísera pareceu despertar.<br><br></div><div>Olhou-o fixamente; mas não articulou um som.<br><br></div><div>– Ah! redarguiu Gabriel, ah! Minha senhora! Minha mãe morre!<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Concheguei-me àquele grupo interessante a fim de prestar-lhe algum serviço. Com efeito, era tempo. Ela era presa dum ataque espasmódico. Estava hirta e parecia prestes a exalar o derradeiro suspiro.<br><br></div><div>– Não, ela não morre deste ataque; mas é preciso prestar-lhe pronto socorro, disse-lhe.<br><br></div><div>– Diga, minha senhora, tomou o rapaz na mais pungente ansiedade, que devo fazer?<br><br></div><div>Volte eu embora à fazenda, seja castigado com rigor; mas não quero, não posso ver minha mãe morrer aqui, sem socorro algum.<br><br></div><div>– Sossega, disse-lhe, vendo assomar ao mor­ro, donde observavam tudo que acabo de narrar, os meus criados, que me procuravam; – espera, disse-lhe:<br><br></div><div>– Vou fazer transportar tua mãe, à minha casa, e lhe farei tornar à vida.<br><br></div><div>– Diga, minha senhora, ordene.<br><br></div><div>– Não moro presentemente longe daqui. Sa­bes a distância que vai daqui à praia? Estou nos banhos salgados.<br><br></div><div>– Sei, sim, senhora, é muito perto. Que devo então fazer?<br><br></div><div>– Tu, e estes homens – os criados acabavam de chegar – vão transportá-la imediatamente à minha morada, e lá procurarei reanimá-Ia.<br><br></div><div>– Oh! Minha senhora, que bondade! Foi só o que disse, e, ato contínuo, tomou nos braços a pobre mãe, ainda entregue ao seu dorido paroxis­mo, e disse:<br><br></div><div>– Minha senhora, eu só levaria minha mãe ao fim do mundo.<br><br></div><div>Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.<br><br></div><div>– Sigamos então – tornei eu.<br><br></div><div>Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.<br><br></div><div>Em menos de quinze minutos transpúnha­mos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: – ­recebia em meu lar dois escravos foragidos, e es­cravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles in­felizes.<br><br></div><div>Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ain­da perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Mas, deixar de prestar auxílio àqueles des­graçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sosse­go, ou tranquilidade! Não.<br><br></div><div>Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Fiz deitar a moribunda em uma cama, fiz abrir as portas todas para que a ventilação se fizesse livre e boa, e prestei-lhe os serviços que o caso urgia, e com tanta vantagem, que em pouco recu­perou os sentidos.<br><br></div><div>Olhou em tomo de si, como que espantada do que via, e tomou a fechar os olhos.<br><br></div><div>Minha mãe!... minha mãe, de novo exclamou o filho.<br><br></div><div>Ao som daquela voz chorosa, e tão grata, ela ergueu a cabeça, distendeu os braços, e, com voz débil, murmurou:<br><br></div><div>– Carlos!... Urbano...<br><br></div><div>– Não, minha mãe, sou Gabriel.<br><br></div><div>– Gabriel, tornou ela, com voz estridente. É noite, e eles para onde foram?<br><br></div><div>– De quem fala ela? Interroguei Gabriel, que limpava as lágrimas na coberta da cama de sua mãe.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– É douda, minha senhora; fala de meus ir­mãos Carlos e Urbano, crianças de oito anos, que meu senhor vendeu para o Rio de Janeiro. Desde esse dia ela endoudeceu.<br><br></div><div>– Horror! exclamei com indignação, e dor. Pobre mãe!<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Só lhe resto eu, continuou soluçando – só eu... só eu!... Entretanto a enferma pouco a pouco recobrava as forças, a vida, e a razão. Fenômenos da morte, por assim dizer: é luta imponente embo­ra, da natureza, com o extermínio.<br><br></div><div>– Gabriel? Gabriel - és tu?<br><br></div><div>– É noite. Eu morro... E o serviço? E o feitor?<br><br></div><div>– Estás em segurança, pobre mulher, disse­-lhe, – tu, e teu filho estão sob a minha proteção. Descansa, aqui ninguém lhes tocará com um dedo.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Como não devem ignorar, eu já me havia constituído então membro da sociedade abolicionista da nossa província, e da do Rio de Janeiro. Expedi de pronto um próprio à capital.<br><br></div><div>Então ela fixou-me, e em seus olhos brilhou lucidez, esperança, e gratidão.<br><br></div><div>Sorriu-se e murmurou.<br><br></div><div>– Inda há neste mundo quem se compade­ça de um escravo?<br><br></div><div>– Há muita alma compassiva, retorqui-lhe, que se condói do sofrimento de seu irmão.<br><br></div><div>Naquela hora quase suprema, a infeliz excla­mou com voz distinta:<br><br></div><div>– Não sabe, minha senhora, eu morro, sem ver mais meus filhos! Meu senhor os vendeu... eram tão pequenos... eram gêmeos. Carlos, Urbano...<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Tenho a vista tão fraca... é a morte que che­ga. Não tenho pena de morrer, tenho pena de dei­xar meus filhos... Meus pobres filhos!... Aqueles que me arrancaram destes braços... este que também é escravo!...<br><br></div><div>E os soluços da mãe, confundiram-se por muito tempo, com os soluços do filho.<br><br></div><div>Era uma cena tocante, e lastimosa, que des­pedaçava o coração.<br><br></div><div>Ah! Maldição sobre a opressão! Maldição sobre o escravocrata!<br><br></div><div>Cheguei-lhe aos lábios o cal­mante, que a ia sustendo, e ordenei a Gabriel fosse tomar algum alimento. Era preciso separá-los.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Quem é vossemecê, minha senhora, que tão boa é pra mim, e para meu filho? Nunca encon­trei em vida um branco que se compadecesse de mim; creio que Deus me perdoa os meus peca­dos, e que já começo a ver seus anjos.<br><br></div><div>– E quem é esse senhor tão mau, esse senhor que te mata?<br><br></div><div>– Então, minha senhora, não conhece o se­nhor Tavares, do Cajuí?<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Não, tomei-lhe com convicção: estou aqui apenas há dois dias, tudo me é estranho: não o conheço. É bom que colha algumas informações dele: Gabriel mas dará.<br><br></div><div>– Gabriel! Disse ela – não. Eu mesma. Ainda posso falar. E começou:<br><br></div><div>– Minha mãe era africana, meu pai de raça índia; mas eu de cor fusca. Era livre, minha mãe era escrava.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Eram casados e desse matrimônio, nasci eu. Para minorar os castigos que este homem cruel infligia diariamente à minha pobre mãe, meu pai quase consumia seus dias ajudando-a nas suas desmedi­das tarefas; mas ainda assim, redobrando o trabalho, conseguiu um fundo de reserva em meu beneficio.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Um dia apresentou a meu senhor a quantia realizada, dizendo que era para o meu resgate. Meu senhor recebeu a moeda sorrindo-se – tinha eu cin­co anos – e disse: A primeira vez que for à cidade trago a carta dela. Vai descansado.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Custou a ir à cidade; quando foi demorou-se algumas semanas, e quando chegou entregou a meu pai uma folha de papel escrita, dizendo-lhe:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; – Toma, e guarda, com cuidado, é a carta de liberdade de Joana. Meu pai não sabia ler; de agradecido beijou as mãos daquela fera. Abraçou-­me, chorou de alegria, e guardou a suposta carta de liberdade.<br><br></div><div>Então furtivamente eu comecei a aprender a ler, com um escravo mulato, e a viver com alguma liberdade.<br><br></div><div>Isso durou dois anos. Meu pai morreu de re­pente, e no dia imediato meu senhor disse a minha mãe:<br><br></div><div>– Joana que vá para o serviço, tem já sete anos, e eu não admito escrava vadia.<br><br></div><div>Minha mãe, surpresa, e confundida, cumpriu a ordem sem articular uma palavra.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Nunca a meu pai passou pela ideia, que aque­la suposta carta de liberdade era uma fraude; nun­ca deu a ler a ninguém; mas, minha mãe, à vista do rigor de semelhante ordem, tomou o papel, e deu­-o a ler, àquele que me dava as lições. Ah! Eram umas quatro palavras sem nexo, sem assinatura, sem data! Eu também a li, quando caiu das mãos do mulato. Minha pobre mãe deu um grito, e caiu estrebuchando.<br><br></div><div>Sobreveio-lhe febre ardente, delírios, e três dias depois estava com Deus.<br><br></div><div>Fiquei só no mundo, entregue ao rigor do cativeiro.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Aqui ela interrompeu-se; agitou-lhe os mem­bros um tremor convulso. A morte fazia os seus progressos. De novo cheguei-lhe aos lábios a co­lher do calmante, que lhe aplicava, e pedi-lhe, não revocasse lembranças dolorosas que a podiam matar.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; – Ah! Minha senhora, começou de novo, mais reanimada – apadrinhe Gabriel, meu filho, ou esconda-o no fundo da terra; – olhe se ele for pre­so, morrerá debaixo do açoite, como tantos outros, que meu senhor tem feito expirar debaixo do azorrague! Meu filho acabará assim.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Não, não há de acabar assim, – descansa. Teu filho está sob minha proteção, e qualquer que seja a atitude que possa assumir esse homem, que é teu senhor, Gabriel não voltará mais ao seu poder.<br><br></div><div>Ela recolheu-se por algum tempo, depois tomando-me as mãos, beijou-as com reconhecimento.<br><br></div><div>– Ah! Se pudesse, nesta hora extrema ver meus pobres filhos, Carlos e Urbano!... Nunca mais os verei!<br><br></div><div>Tinham oito anos.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Um homem apeou-se à porta do Engenho, onde juntos trabalhavam meus pobres filhos – era um traficante de carne humana. Ente abjeto, e sem coração! Homem a quem as lágrimas de uma mãe não podem comover, nem comovem os soluços do inocente.<br><br></div><div>Esse homem trocou ligeiras palavras com meu senhor, e saiu.<br><br></div><div>Eu tinha o coração opresso pressentia uma nova desgraça. .<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; A hora permitida ao descanso, concheguei a mim meus pobres filhos, extenuados de cansaço, que logo adormeceram. Ouvi ao longe rumor, como de homens que conversavam. Alonguei os ouvi­dos; as vozes se aproximavam. Em breve reconheci a voz do senhor. Senti palpitar desordenadamente meu coração; lembrei-me do traficante... Corri para meus filhos, que dormiam, apertei-os ao coração. Então senti um zumbido nos ouvidos, fugiu-me a luz dos olhos e creio que perdi os sentidos.<br><br></div><div>Não sei quanto tempo durou este estado de torpor; acordei aos gritos de meus pobres filhos, que me arrastavam pela saia, chamando-me: ma­mãe! Mamãe!<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Ah! minha senhora! abriu os olhos. Que es­petáculo! Tinham metido adentro a porta da minha pobre casinha, e nela penetrado meu senhor, o fei­tor, e o infame traficante.<br><br></div><div>Ele, e o feitor arrastavam sem coração, os filhos que se abraçavam a sua mãe.<br><br></div><div>Gabriel entrava nesse momento. Basta, mi­nha mãe, disse-lhe, vendo em seu rosto debuxados todos os sintomas de uma morte próxima.<br><br></div><div>– Deixa concluir, meu filho, antes que a morte me cerre os lábios para sempre... deixa-me morrer amaldiçoando os meus carrascos.<br><br></div><div>– Por Deus, por Deus, gritei eu, tornando a mim, por Deus, levem-me com meus filhos!<br><br></div><div>– Cala-te! gritou meu feroz senhor. – Cala-te ou te farei calar.<br><br></div><div>– Por Deus, tornei eu de joelhos, e tomando as mãos do cruel traficante: – meus filhos!... meus filhos!<br><br></div><div>Mas ele dando um mais forte empuxão, e ameaçando-os com o chicote, que empunhava, entregou-os a alguém que os devia levar...<br><br></div><div>Aqui a mísera calou-se; eu respeitei o seu silêncio que era doloroso, quando lhe ouvi um arranco profundo, e magoado:<br><br></div><div>Curvei-me sobre ela. Gabriel ajoelhou-se, e juntos exclamamos:<br><br></div><div>– Morta!<br><br></div><div>Com efeito tinha cessado de sofrer. O embate tinha sido forte demais para suas débeis forças.<br><br></div><div>A lua percorria melancólica e solitária os páramos do céu, e cortava com uma fita de prata as vagas do oceano.<br><br></div><div>No mesmo instante, um homem assomou à porta. Era o homem do azorrague que eles intitulavam de feitor; era aquele homem de fisionomia sinistra e terrível, que me interpelara algumas horas antes, acerca da infeliz foragida; e este homem apa­recia agora mais hediondo ainda, seguido de dois negros, que, como ele, pararam à porta.<br><br></div><div>– Que pretende o senhor? Perguntei-lhe. Pode entrar.<br><br></div><div>O pobre Gabriel refugiou-se trêmulo, ao can­to mais escuro da casa.<br><br></div><div>– Anda, Gabriel, disse-lhe com voz segura, continua a tua obra, e voltando-me para o feitor, acrescentei:<br><br></div><div>Eu, e este desolado filho, ocupamo-nos em cerrar os olhos à infeliz, a quem o cativeiro, e o martírio despenharam tão depressa na sepultura.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Comovidos em presença da morte, os dois escravos deixaram pender a fronte no peito; o pró­prio feitor, ao primeiro ímpeto, teve um impulso de homem: mas, recompondo de pronto na rude, e feroz fisionomia, disse-me:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– É hoje a segunda vez que a encontro, mi­nha senhora, entretanto, não sei ainda a quem falo. Peço-lhe que me diga o seu nome, para que eu conheça o patrão, o senhor Tavares. É escandalo­sa, minha senhora, a proteção que dá a estes es­cravos fugidos.<br><br></div><div>Estas palavras inconvenientes mereceram o meu desdém; não lhe retorqui.<br><br></div><div>O meu silêncio lhe deu maior coragem, e, fazendo-se insolente, continuou:<br><br></div><div>– A senhora coadjuvou a mãe em sua fuga; acabou aqui, mais tarde saberemos de quê. Pretenderá também coadjuvar o filho?<br><br></div><div>É já o que havemos de ver!...<br><br></div><div>João, Félix! E com um aceno indicou-lhes o que deviam fazer.<br><br></div><div>Gabriel, que ao meu chamado voltara para junto do cadáver de sua mãe, sentindo que o vinham prender, levantou-se espavorido, sem saber o que fazer.<br><br></div><div>– Detém-te! Lhe gritei eu. Estás sob a minha imediata proteção; e voltando-me para o homem do azorrague, disse-lhe:<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Insolente! Nem mais uma palavra. Vai-te, diz a teu amo, – miserável instrumento de um escravocrata; diz a ele que uma senhora recebeu em sua casa uma mísera escrava, louca porque lhe arrancaram dos braços dois fIlhos menores, e os venderam para o Sul; uma escrava moribunda; mas ainda assim perseguida por seus implacáveis algozes.<br><br></div><div>Vai-te, e entrega-lhe este cartão: aí achará o meu nome.<br><br></div><div>Vai, e que nunca mais nos tornemos a ver.<br><br></div><div>Ele mordeu os beiços para tragar o insulto, e desapareceu.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;No dia seguinte, era já de tarde, estava qua­se a desfilar o saimento da infeliz Joana, quando à porta da minha casinha, vi apear-se um homem. Era o senhor Tavares.<br><br></div><div>Cumprimentou-me com maneiras da alta sociedade, e disse-me:<br><br></div><div>– Desculpe-me, querida senhora, se me apresento em sua casa, tão brusca e desazadamente; entretanto...<br><br></div><div>– Sem cerimônia, senhor, disse-lhe, procurando abreviar aqueles cumprimentos que me incomodavam.<br><br></div><div>Sei o motivo que aqui o trouxe, e podemos, se quiser encetar já o assunto.<br><br></div><div>Custava-me, confesso, estar por longo tem­po em comunicação com aquele homem, que encarava sua vítima, sem consciência, sem horror.<br><br></div><div>– Peço-lhe mil desculpas, se a vim incomodar.<br><br></div><div>– Pelo contrário, retorqui-lhe. O senhor pou­pou-me o trabalho de o ir procurar.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Sei que esta negra está morta, exclamou ele, e o filho acha-se aqui: tudo isto teve a bondade de comunicar-me ontem. Esta negra, continuou, olhando fixamente para o cadáver – esta negra era alguma coisa monomaníaca, de tudo tinha medo, andava sempre foragida, nisto consumiu a existência. Morreu, não lamento esta perda; já para nada prestava. O Antônio, meu feitor, que é um excelen­te e zeloso servidor, é que se cansava em procurá-la. Porém, minha senhora, este negro! – designava o pobre Gabriel, com este negro a coisa muda de figura: minha querida senhora, este negro está fugi­do: espero, mo entregará, pois sou o seu legítimo senhor, e quero corrigi-lo.<br><br></div><div>– Pelo amor de Deus, minha mãe, gritou Gabriel, completamente desorientado – minha mãe, leva-me contigo.<br><br></div><div>– Tranquiliza-te, lhe tornei com calma; não te hei já dito que te achas sob a minha proteção? Não tem confiança em mim?<br><br></div><div>Aqui o senhor Tavares encarou-me estupefato – e depois perguntou-me:<br><br></div><div>– Que significam essas palavras, minha que­rida senhora? Não a compreendo.<br><br></div><div>– Vai compreender-me, retorqui, apresentan­do-lhe um volume de papéis subscritados e com­petentemente selados.<br><br></div><div>Rasgou o subscrito, e leu-os. Nunca em sua vida tinha sofrido tão extraordinária contrariedade.<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;– Sim, minha cara senhora, redarguiu, ter­minando a leitura; o direito de propriedade, conferi­do outrora por lei a nossos avós, hoje nada mais é que uma burla...<br><br></div><div>A lei retrogradou, Hoje protege-se escanda­losamente o escravo, contra seu senhor; hoje qual­quer indivíduo diz a um juiz de órfãos.<br><br></div><div>Em troca desta quantia exijo a liberdade do escravo fulano – haja ou não aprovação do seu senhor.Não mas já gravaste está a dizer para eu gravar por isso eu vou gravar aqui tentar o que é que sai daqui ei vou tentar ler aqui esta É o quê sim manda os olhos pa<br><br></div><div>Não acham isto interessante?<br><br></div><div>– Desculpe-me, senhor Tavares, disse-lhe:<br><br></div><div>Em conclusão, apresento-lhe um cadáver e um homem livre.<br><br></div><div>Gabriel ergue a fronte, Gabriel és livre!<br><br></div><div>O senhor Tavares, cumprimentou, e retroce­deu no seu fogoso alazão, sem dúvida alguma mais furioso que um tigre.<br><br>In: <em>Revista maranhense,</em> n. 3, 1887. Republicado em <em>Úrsula</em>, 7.ed., 2018, p. 193-207&nbsp;<br>Trabalho de: Ema Barros, Rafaela Dias e Raquel Miranda</div><div><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-07 19:42:36 UTC</pubDate>
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         <title>Beira, Moçambique</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
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         <description><![CDATA[<div>Mia Couto (1955) é escritor, poeta e jornalista moçambicano. Laureado com o Prémio Camões em 2013, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras para a cadeira.<br><br></div><div><br>Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. É filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta.<br><br></div><div><br>Com 14 anos, Mia Couto publicou os primeiros poemas no jornal “Notícias da Beira”. Em 1971, deixou a cidade da Beira e foi para a capital Lourenço Marques, hoje Maputo. Ingressou no curso de Medicina, mas, após três anos, abandonou a faculdade.<br><br></div><div><br>A partir de 1974 dedicou-se ao jornalismo. Trabalhou na <em>Tribuna</em>, foi diretor da revista semanal <em>Tempo</em>, entre 1979 e 1981, e trabalhou no jornal <em>Notícias</em>, até 1985. Hoje dedica-se à escrita.<br><br>Mia Couto, <a href="https://www.miacouto.org/">Página Oficial</a><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-07 19:47:24 UTC</pubDate>
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         <title>A Carteira de Crocodilo</title>
         <author>sandrabettencourt</author>
         <link>https://padlet.com/sandramatosbettencourt/fx6cnu12iwtug5bz/wish/2214043260</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>A carteira de crocodilo</strong></div><div>A Senhora Dona Francisca Júlia Sacramento, esposa do governador-geral, excelenciava-se pelos salões, em beneficentes chás e filantrópicas canastras. Exibia a carteirinha que o marido lhe trouxera das outras Áfricas, toda em substância de pele de crocodilo. As amigas se raspavam de inveja, incapazes de disfarce. Até a bílis lhes escorria pelos olhos. Motivadas pela desfaçatez, elas comentavam: o bichonho, assim tão desfolhado, não teria sofrido imensamente? Tal dermificina não seria contra os católicos mandamentos?</div><div>&nbsp;― E com o problema das insolações, o bicho, assim esburacado, apanhando em cheio os ultravioletas...</div><div>&nbsp;― Cale-se, Clementina.</div><div>&nbsp;Mas o governador Sacramento também se havia contemplado a ele mesmo. Adquirira um par de sapatos feitos com pele de cobra. O casal calçava do reino animal, feitos pássaros que têm os pés cobertos de escamas. Certo dia, uma das nobres damas trouxe a catastrágica novidade. O governador-geral contraíra grave e irremediável viuvez. A esposa, coitada, fora comida inteira, incluído corpo, sapatos, colares e outros anexos.</div><div>&nbsp;― Foi comida mas... pelo mando, supõe-se?</div><div>&nbsp;― Cale-se, Clementina.</div><div>&nbsp;Mas qual marido? Tinha sido o crocodilo, o monstruoso carnibal. Que horror, com aqueles dentes capazes de arrepiar tubarões.</div><div>&nbsp;― Um crocodilo no Palácio?</div><div>&nbsp;― Clemente-se, Clementina.</div><div>O monstro de onde surgira? Imagine-se, tinha emergido da carteira, transfigurado, reencarnado, assombrado. Acontecera em instantâneo momento: a malograda ia tirar algo da mala e sentiu que ela se movia, esquiviva. Tentou assegurá-la: tarde e de mais. Foi só tempo de avistar a dentição triangulosa, língua amarela no breu da boca. No resto, os testemunhadores nem presenciaram. O sáurio se eminenciou a olhos imprevistos.</div><div>&nbsp;</div><div>&nbsp;E o governador, sob o peso da desgraça? O homem ia de rota abatida. Lágrimas catarateavam pelo rosto. O dirigente recebeu o desfile das condolências. Vieram íntimos e ilustres. A todos ele cumprimentou, reservado, invisivelmente emocionado. Os visitantes se juntaram no nobre salão, aguardando palavras do dirigente. O governador avançou para o centro e anunciou não o luto mas, espantem-se cristãos, a inadiável condecoração do crocodilo. Em nome da protecção das espécies, explicou. A bem da ecologia faunística, acrescentou.</div><div>&nbsp;No princípio, houve relutâncias, demoras no entendimento. Mas logo os aplausos abafaram as restantes palavras. O que sucedeu, então, foi o inacreditável. O governador Sacramento suspendeu a palavra e espreitou o chão que o sustinha. Pedindo urgentes desculpas ele se sentou no estrado e se apressou a tirar os sapatos. Entre a audiência ainda alguém vaticinou:</div><div>&nbsp;― Vai ver que os sapatos se convertem em cobra...&nbsp;</div><div>― Clementina! Sucedeu exactamente o inverso. O ilustre nem teve tempo de desapertar os atacadores. Perante um espanto ainda mais geral que o título do governador, se viu o honroso indignitário a converter-se em serpente. Começou pela língua, afilada e bífida, em rápidas excursões da boca. Depois, se lhe extinguiram os quase totais membros, o homem, todo ele, um tronco em flor. Caiu desamparado no mármore do pa[1]lácio e ainda se ouviu seu grito:</div><div>&nbsp;― Ajudem-me!</div><div>&nbsp;</div><div>&nbsp;Ninguém, porém, avivou músculo que fosse. Porque, logo e ali, o mutante mutilado, em total mutismo, se começou a enredar pelo suporte do microfone. Enquanto serpenteava pelo ferro ele se desnudava, libertadas as vestes como se foram uma desempregada pele. O governador finalizava elegâncias de cobra. O ofídio se manteve hasteado no microfone, depois largou[1]se. Quando se aguardava que se desmoronasse, afinal, o governador encobrado desatou a caminhar. Porque de humano lhe restavam apenas os pés, esses mesmos que ele cobrira de ornamento serpentífero.&nbsp;</div><div>&nbsp;</div><div>― Não aplauda, Clementina, por amor de Deus<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>Fonte: COUTO, MIA - Contos de Mia Couto — Páginas Pessoais - UTFPR [Em linha], atual. 2022. [Consult. 7 jun. 2022]. Disponível em WWW:&lt;URL:http://paginapessoal.utfpr.edu.br/cantarin/elpl-uab-literatura-africana-em-perspectiva-recepcional/material-extra/Contos_do_nascer_da_terra%20-COMPLETO.pdf/view&gt;.<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>Trabalho de: Miguel Maia, Samuel Nunes e João Sobral<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-06-07 19:58:51 UTC</pubDate>
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