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      <title>Costurando Histórias e Reconectando Afetos by </title>
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      <language>en-us</language>
      <pubDate>2022-11-25 21:36:04 UTC</pubDate>
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         <title>Carta para Maria Marcolina</title>
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         <description><![CDATA[<div>Olá Bisa Maria Marcolina Mota,<br><br>Sou filha de sua neta Maria do Socorro, filha de Eulina, nascida do seu ventre e que aos 3 anos te perdeu para uma morte prematura.</div><div>Me questiono se foi uma morte natural ou provocada, pensando que minha avó nasceu em 1908 e que você morreu em 1911. Sendo você uma mulher negra neste período em pleno recôncavo baiano, tenho certeza que as violências e sofrimentos vividos foram muitos e só de pensar neles me dói o peito e me faz chorar.</div><div>Não carregamos Mota em nosso sobrenome e as suas histórias nos foram roubadas, sendo esquecidas ao longo dos anos, pouco me contaram sobre você e agora o que sei é um misto de vagas lembranças, sentimentos e emoções.</div><div>Atualmente caminho recolhendo fragmentos de você e reconstruindo/reconectando a sua história em mim e em nós, mulheres de sua linhagem, como forma de resgatar uma memória de afeto, força e resistência.</div><div>Te amo pelo que foi e pelo que é para mim e para nós.</div><div><br>Juliana Barbosa</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 00:12:48 UTC</pubDate>
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         <title>Carta para Minha Mãe</title>
         <author></author>
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         <description><![CDATA[<blockquote>Meu amado espelho,</blockquote><div><br>Sinto meus “pé cansado” como se eu estivesse andando há 55 anos, olho para trás e vejo pegadas que penso “ser” minhas. Mas quando o meu reflexo olho no espelho, vejo apenas o seu rosto. Percebo então que esse caminho percorrido é na verdade o seu e graças a sua andança, eu cheguei.<br>Identifico nos seus traços o seu passado, sua mãe índia e seu pai preto, sua infância baiana pobre, sua fome, suas surras. Contudo também, as suas brincadeiras de criança nas praias de Ilhéus. Sua coragem para enfrentar quem te batia e suas rebeldias em nome da liberdade. Lembra daquela vez que você fugiu de casa e foi trabalhar, aos 16 anos? Mentiu para Dona Cabocla, sua mãe, e foi para Salvador encontrar o amor da sua vida.<br>Você, uma senhora de batalha, sustentada pela força de Oyá conforme o esperado, lutou a vida toda, mainha. Em Salvador, casou-se com seu primo, sua paixão, e daí nasceu seu primeiro filho. Pena que seu marido não te valorizou e acabou perdendo uma mulher e tanto. Foi você mais uma vez para a batalha, com um filho para alimentar e sem ninguém por você.<br>De muita labuta foi vivendo, e veio o segundo amor. Casou-se de novo. Porém, mais uma vez um homem que não soube reconhecer o ouro que era te ter. Nasceu sua segunda filha, a quem você deu o nome da Deusa ísis: dos seus filhos, a que mais se parece contigo, em todos os aspectos.&nbsp;<br>As coisas não iam bem em casa e você decidiu que se mudaria para o Rio de Janeiro. Deixou seus filhos com seus respectivos pais, e prometeu voltar para buscá-los assim que se estabelecesse. Chegando à Cidade Maravilhosa, foi empregada doméstica nas casas das madames da Zona Sul carioca. Seu segundo marido pediu para reatar o relacionamento e você não o queria mais, por isso ele desapareceu no mundo com a sua filha. E você sentiu mágoa disso a vida toda, nunca deixou de procurar por ela.<br>O porteiro do prédio onde você trabalhava, também era retirante, paraibano, "galego". Você se apaixonou pela terceira vez e dele você engravidou. Ele assumiu a criança e com você se casou. Guerra após guerra você foi vivendo, e neste momento não seria diferente. Você enfrentou a família dele, que não gostava da sua cor, que não gostava dos seus orixás. Entretanto, oxente com&nbsp; sempre, você fez o que quis, e mais ainda àquele homem você se amarrou.&nbsp;<br>Sua filha nasceu mais clara que você, mas com suas feições e seu cabelo. Todos aqueles que carregam o seu sangue têm um rosto muito parecido com o seu. Seu terceiro marido foi com quem você parou, e até hoje com ele vive. Apesar dos altos e baixos, das violências domésticas, dos seus namoros. Ainda bem que hoje ele é um homem manso, calmo, amadurecido, e você não ficou com cicatrizes aparentes. Juntamente com meu pai, você adotou meu terceiro irmão, seu sobrinho. Nosso caçula.&nbsp;<br>Mãe, você é dona de um conhecimento que não se aprende na escola nem na Universidade. A sabedoria prática da vida você dominou. Até minha irmã sumida, você reencontrou. Você trabalhou, guardou dinheiro e, com o meu pai, conseguiu alcançar um conforto material que nunca havia tido na vida. Por isso eu espero ter dentro de mim a força ancestral que você construiu, esse legado interior. Mesmo que hoje você tenha negado a religião ancestral e tenha aceitado a Cristo, nossos antepassados nunca nos negarão. E por você carregá-los antes de mim, eu também os carrego. Mamãe, sou muito grata por tudo que você me ensinou.<br><br>Daquela que&nbsp; carrega as suas asas.<br>Carol<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 00:29:01 UTC</pubDate>
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         <title>Carta para Margarida </title>
         <author></author>
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         <description><![CDATA[<div>Oi, vozinha. Há muitos anos não te vejo costurando, teando ou refazendo linhas já perdidas. Linhas que não eram só dos tecidos, muitas vezes eram os corpos que a senhora costurava, ou as relações afetivas dos membros da família. Também, com dez filhos, seus companheiras (os) e uma penca de netas (os).</div><div>Era através da costura que aquecia e da comida que supria e também aquecia, que demostrava seu amor e presença e que presença!&nbsp;</div><div>Mas queria era ressaltar outro aspecto da sua história, aquele que talvez ninguém jamais tocou. Ele que salta as minhas emoções, o seu desejo por amor e liberdade (a sua maneira). As escolhas que fez, sobre “saída” da sua família para se casar com um simples metalúrgico índio/preto que entregava marmitas para seu padrasto.&nbsp;<br>Nem imagino o quanto deve ter sido difícil. Mais ainda alguém que era um ser, sujeito desejante, livre e viva. Mas que precisava fazer uma escolha não compreendida e aceita pelos demais.</div><div>No dia que te escrevo, fazem 30 anos de partida.&nbsp;</div><div>Apesar do pouco tempo que eu tinha de vida e do muito tempo de sua partida, há forte em mim a sua presença. Demonstrando a força da conexão que temos. Obrigada por tanto! Te amo imensamente.&nbsp;</div><div><br></div><div><strong>Mariana Souza</strong></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 01:17:37 UTC</pubDate>
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         <title>Carta para Dona Vitalina</title>
         <author></author>
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         <description><![CDATA[<div>Oi mãe!</div><div><br>Foi difícil começar a escrever, acho que protelar tanto diz muito do quanto atravessa meu corpo as nossas vivências. Em todas as tentativas as lágrimas que rolavam no meu rosto contavam do significado de escrever, de dizer, de não estar mais calada, de não me silenciar, mas usar das ferramentas que hoje eu tenho para romper com o ciclo de silêncio das mulheres da nossa família. Outro dia estava falando com minha terapeuta do peso que todas nós carregamos sozinhas para não sobrecarregar umas às outras. Poderíamos chorar juntas, nos acolher, ter a palavra como ferramenta de libertação, mas sendo gentil com nossa história, sei que é um longo caminho minha mãe.</div><div>A poucos dias a senhora completou setenta anos e não tem um só dia, eu me lembro de te ver descansar. <em>Tive que fazer uma pausa aqui!</em> Descansar me remeteu a morte... é difícil pensar em te perder. Hoje vejo a finitude como um direito nosso, direito de descansar deste mundo tão injusto, mas ainda assim doí, doí demais. Nós nunca falamos deste assunto, mais um que vai para nossa <em>listona</em> de tabus. Eu respeito nosso movimento mãe.</div><div>E falando da escrita desta carta, primeiro me peguei pensando em ancestralidade, naquelas que vieram antes de mim e consegui lembrar até a senhora minha mãe, sinto muito por não saber quem foram minhas avós e agora me apego às minhas irmãs, primas para significar a minha história. Pensei que poderia escrever-te de vários lugares, hoje escolhi escrever do futuro. Quero te contar que eu estou viva e tenho um filho lindo que se chama Levi. Quero que saiba que eu sei que não foi justo todas as vezes que a senhora se deixou de lado por mim, pelos meus irmãos. Pensava em “<em>se deixou</em>” até eu ser mãe e vivenciar a falta, a solidão, o ser tudo e não ser nada ao mesmo tempo, o esquecimento, e falando disso me lembro do dia que pari o Levi, no dia seguinte era meu aniversário e ninguém lembrou de mim, eu entendi ali, o lugar preparado pra mim, em segundo plano.</div><div>Mãe, não sei se consigo escrever muito mais, mas venho a ti com muita reverência e gratidão. Obrigada minha rainha, obrigada por brigar por minha vida, por insistir quando era preciso desistir. Eu te amo tanto e que bom que eu sou sua e a senhora é minha, a senhora é minha base e eu te honro.<br><br></div><div><strong><br>Renata Santiago<br></strong><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 01:38:17 UTC</pubDate>
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         <title>Carta Para Maria </title>
         <author>carolinesantlima</author>
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         <description><![CDATA[<div><br>&nbsp;À minha amada Tetraavó Maria,<br>&nbsp; &nbsp; Maria, minha querida Tetravó, senti vontade de te escrever esta carta e te contar o quanto a tua história mexeu e ainda mexe comigo, lembro de ouvi-la desde pequena, de muito pequena por sinal, mas só parei para escutá-la quando eu já estava adulta. Meu avô Maia – Ah! Acredito que não tenha conhecido em vida o teu bisneto, quero te contar que o Maia é um dos teus bisnetos, juntamente com Nilton e Marangone. E te conto também, que o teu bisneto deu continuidade a nossa tradição do Catumbi até o último dia de sua vida, ele era o Capitão.<br>&nbsp; &nbsp; Então, continuando, o vô Maia com a ajuda da vó Zenaide – que também escutava muito falarem da tua história lá no Itapocu/SC – me contaram que cada vez que tu se descobrias grávida tu realizavas o mesmo ritual – subia no forro e pulavas da janela, pulavas com o intento de abortar.<br>&nbsp; &nbsp; Quando questionei, ingenuamente, o quê te motivava a realizar este ato, lembro do vô dizer que tu eras uma mulher decidida e ninguém te segurava, quando viam já tinhas realizado o ato de se jogar da janela. Voltei a questionar e ele, após um forte respiro, contou que tu não querias colocar filhos no mundo para sofrerem igual a ti. E a vó complementou: ela engravidava após ter que dormir com os “senhores de engenho”!<br>&nbsp; &nbsp; Maria, nessa hora fui eu que precisei de ar, sim precisei de ar para conseguir nomear o que até então não tinha sido nomeado: tu foste violentada, sim, tu foste! Maria, tu foste estuprada! Teu corpo escravizado foi mais uma vez invadido, foi violentado!<br>&nbsp; &nbsp; E ali me conectei com a tua dor, com a dor de uma mulher negra escravizada, de uma mulher negra, escravizada, invisibilizada, humilhada e reduzida a objeto sexual de um bruto e asqueroso chamado de senhor de escravo. Tetra Maria, nesse momento sinto um embrulho e muita, muita revolta! Maria, minha Tetra Maria, sinto vontade de te colocar no meu colo, te abraçar, te acariciar e beijar o teu rosto, Maria te sinto aqui no meu colo e aqui te acolho sem tempo, pode deitar a tua cabeça e vamos chorar juntas, sem tempo, sem tempo ...<br>&nbsp; &nbsp; Naquele momento também me conectei com a tua coragem, com a tua força, Tetra! Saiba que não estou romantizando, não! Não mesmo! Aqui, assim como bell hooks, sei que ser forte diante da opressão não é o mesmo que superá-la. Então … me conectei com a tua única forma de escolha, após seres vítima e teres teu corpo invadido pelo bruto e asqueroso branco violentador de negras escravizadas. Essa foi tua forma de tomar posse do teu corpo, de decidir por não querer ter filhos, não que não quisesse ser mãe, nós duas sabemos que tu foste mãe de todos aqueles que não nasceram de ti, que enquanto estavam sob a tua guarda tu decidiste que eles não seriam escravizados, não sofreriam a dor de pessoas escravizadas, não seriam propriedade de branco metido a senhor! Não!<br>&nbsp; &nbsp; Quero que saibas que eu, tua tetraneta, tenho muuuuuito orgulho de ti. Sei que não era da tua vontade ter tido o meu tataravô Antonio, não era da tua vontade entregar teu filho a um mundo que o via, e continua o vendo, como objeto. Elza – salve Elza Soares! – canta que a carne mais barata do mercado é a carne negra. E tu, Tetra, eras uma mulher decidida a não deixares descendentes para serem explorados ... o vô Maia contou que tiveram que te segurar, te amarrar, para impedirem a realização de mais um aborto … Aff! Imagino o quanto tu sentiste raiva daqueles que te impediram de subir naquele forro! Ali, na cena em que te pararam te impediram não só a queda, mas também a manifestação ética e política. Sim, tu foste roubada no teu direito de não gestar, de não parir, de interromper a gravidez com a devida segurança, talvez até, desconfio, que tu tenhas sido impedida de decidir pela morte em vez de uma vida silenciada por inúmeras crueldades.<br>&nbsp; &nbsp; Impedida e tomada de fúria tiveste que ceder e gestar Antonio! Dessa forma, imagino o quanto foi difícil parir Antonio! E talvez teu maior desafio tenha sido separar Antonio do atroz, do desumano homem branco, para poder iniciar o processo de vinculação com o bebê que estava ali no teu colo te chamando para adotá-lo como filho, te convidando a tentar experimentar o amor, a envolver-se pelo e com amor.<br>&nbsp; &nbsp; Por isso, eu imagino que não tenha sido um caminho fácil passar da maternidade estranha à maternagem de Antonio, não deve ter sido fácil adotá-lo como filho, não deve ter sido fácil transformar uma parte da raiva em possibilidade de amar. Tetra, aqui friso que é uma parte, por que sei que ainda há raiva aí dentro, que ainda há rancor e que sem esses recursos seria impossível conviver, proteger e tentar amar Antonio. Hei! Quero que saibas: eu sinto raiva, rancor e uma infinidade de sentimentos quando lembro da história narrada pelos meus avós. Sinto, não tem como anular.<br>&nbsp; &nbsp; E mais uma vez trago bell hooks, uma recente ancestral negra, para apaziguar o sentimento da senhora em relação a dificuldade de experienciar o amor materno. bell, em seu texto Vivendo de Amor, nos lembra que, não é simples para as pessoas negras entenderem o que é amar, pois vivemos numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, que não nos dá muito amor. Ela diz que precisamos reconhecer que a opressão e a exploração vivenciadas durante o contexto escravocrata distorcem e impedem a nossa capacidade de amar. Afirma que fomos um povo “ferido até o coração”, feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor e consequentemente amar. E mais, frisa que a escravidão condicionou os negros a conter e reprimir muitos de seus sentimentos por terem sido submetidos a situações de extrema violência e, também, pelo fato de não poderem prever por quanto tempo conviveriam juntos, ou seja, pelo risco constante e compulsório de se separem de seus familiares e comunidades.<br>&nbsp; &nbsp; Tetra, está sendo um prazer escrever-te e antes de finalizar, eu quero te contar que tem uma parte da história que me enche de orgulho, pensa numa mulher honrada, sou eu, a tua tetraneta, orgulhosa com a herança que tu deixaste para a nossa família, sim! para quem não queria deixar herdeiros, a senhora nos presenteou com a maior e a mais linda herança já registrada na face da terra: o fato de que tu fizeste de Antonio, Antonio Maria, sim! Que honra saber que Antonio não carrega sobrenome de Branco, não, Antonio é Maria – a marca de Antonio é ser filho de Maria. O nosso sobrenome materno carrega a Resistência de Maria.<br>&nbsp; &nbsp; Tetra, neste momento percebo que não carrego Maria em meu sobrenome, então, aqui, diante da tua presença ancestral, fortemente sentida por mim, quero te pedir, também, para me sobrenomear Maria.<br>&nbsp; &nbsp; E com essa reparação histórica em meu nome, quero dizer-te que também me reconheço Maria – sou Deusa Giseli Mafra Maria!<br>Sou Deusa, Sou Giseli, Sou Mafra, Sou Maria!<br>Sou Deusa Maria! Sou Deusa Maria livre para amar sem os limites antes impostos pelo sistema escravocrata.<br>Sou Deusa, Sou livre, Sou Maria! Sou resistência!<br>&nbsp; &nbsp; Vou me despedir te dando um presente, um poema de Conceição Evaristo, ele ecoa a tua voz e de todas àquelas que vieram antes de mim, as que vivem hoje – agora comigo e as que ainda estão por vir. Ele se chama:<br>Vozes-Mulheres<br>A voz de minha bisavó<br>ecoou criança<br>nos porões do navio.<br>Ecoou lamentos<br>de uma infância perdida.<br>A voz de minha avó<br>ecoou obediência<br>aos brancos-donos de tudo.<br>A voz de minha mãe<br>ecoou baixinho revolta<br>no fundo das cozinhas alheias<br>debaixo das trouxas<br>roupagens sujas dos brancos<br>pelo caminho empoeirado<br>rumo à favela<br>A minha voz ainda<br>ecoa versos perplexos<br>com rimas de sangue<br>e fome.<br>A voz de minha filha<br>recolhe todas as nossas vozes<br>recolhe em si<br>as vozes mudas caladas<br>engasgadas nas gargantas.<br>A voz de minha filha<br>recolhe em si<br>a fala e o ato.<br>O ontem – o hoje – o agora.<br>Na voz de minha filha<br>se fará ouvir a ressonância<br>O eco da vida-liberdade.<br><br>&nbsp; &nbsp; Gratidão! Querida Tetra Maria, gratidão por ter vindo antes abrindo nossos e novos caminhos!<br>&nbsp; &nbsp; Gratidão por ter nos ensinado tanto! Te amo, Te amo, Te amo!<br>&nbsp; &nbsp; Com muito amor, sua honrada tetraneta, Deusa Giseli Mafra Maria.<br>Curitiba, 18 de novembro de 2022.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 01:53:54 UTC</pubDate>
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         <title>Carta para minhas avós </title>
         <author>carolinesantlima</author>
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         <description><![CDATA[<blockquote>Carta para Joana e&nbsp; Zulmira</blockquote><div><br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; <br>Salvador/Ba, 14 de dezembro de 2022<br>Carta para minhas avós<br><br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Amadas avós, Joana Gramosa dos Santos&nbsp; e Zulmira Martins da Silva, mesmo sem ter a oportunidade de desfrutar da presença física de vocês na minha trajetória de vida e na vida, experimento de maneira constante um misto de ausência e de presença por saber da existência de vocês.&nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp;Vó Joana que pouco conheci, pois a senhora partiu dois anos após o meu nascimento, mas pelo que dizem a senhora me deu colo e dizia que eu me parecia contigo, imaginar isso me faz sorrir e simplesmente agradecer o tempo que nos foi possível conviver. Sempre que posso, pergunto a painho um pouco mais sobre a senhora. Pelo que já sei a senhora teve 5 filhos e lutou muito para garantir o mínimo para sobreviverem, trabalhou duro, sendo explorada na roça de donos de fazendas na região onde nasceu e morou por mais tempo, mal tinham o que comer. Ouvir dizer que teve dois ou três “companheiros” e pelo que sei com nenhum deles se casou. O primeiro te fez&nbsp; “comer do pão que o diabo amassou” com três dos seus filhos, mas a senhora foi corajosa o suficiente para com ele não ficar. Dois, três companheiros?! Se hoje isso ainda é mal visto pela nossa sociedade patriarcal e misógina, imagine na sua época… eu sinto muito por tudo que passou, dói só de imaginar. Com tudo isso, mulher de fé, católica fiel das missas aos domingos e nos dias santos. Mulher de muitas falas, causos e bons bordões. Acolho e aprendo com tudo que fico sabendo da senhora, sei que deu sempre o seu melhor, isso para mim é motivo de orgulho, meu pai é fruto do teu ventre e eu o amo.&nbsp; &nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp;Vó Zú (eu acho que te chamaria assim, espero que te agrade), sinto tanto não ter te conhecido nem por um instante, mínimo que fosse. Partiu tão cedo aos 47 anos,&nbsp; praticamente 5 anos depois que pariu pela 14ª vez. Uau, aproveito para dizer que já estou no finzinho dos 43 e nunca parir um outro ser como eu (humano), mas ando parindo outras coisas… bom,&nbsp; isso será assunto para outra carta. (rs) Porém quero que saiba que quando fiz 40 anos a sua presença ficou mais marcante ainda em mim e permanece assim a cada ano em que a minha idade se aproxima da sua idade final neste plano existencial. Pelo que sei a senhora foi uma mulher de poucas palavras, de silêncios… sabe Deus o que neles havia! Mulher caseira, trabalhou por muitos anos com meu avô Albertino que era alfaiate (felizmente o conheci e sinto saudades).&nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp;Vó Zú, minha mãe Dete (como a senhora a chamava ) pelo jeito foi o seu braço direito e ouso dizer que esquerdo também, nos cuidados com os irmãos menores e da casa principalmente nos últimos anos da sua vida terrena. Ela ainda hoje lembra com detalhes do dia em que a senhora&nbsp; passou mal e conta que poucos dias depois veio a óbito. Percebo o quanto que foi dolorido e forte para ela esses momentos e como ainda marca, mexe com ela. Sentiu nela a sua morte prematura e através dela passei a sentir também. Através de mainha eu te vejo, te sinto, te reconheço e busco te acolher no que foi possível a senhora sentir, experimentar, oferecer, viver… o que me faz também encontrar forças para seguir exercitando bem viver. Minha mãe é fruto do teu ventre e eu a amo.&nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Vó Joana e vó Zú, como eu gostaria de experimentar do colo, do dengo, do toque, do olhar, do cheiro, tempero de vocês. Fico imaginando como seria os nossos encontros,&nbsp; conversas… causos, prosas, versos, choros e risos compartilhados.&nbsp; Também me pergunto: o que mais aprenderia como vocês e de cada uma de vocês? E o que eu ofereceria a vocês? Porque pelo que sei vocês doaram as suas vidas pelos seus… cuidando, cuidando e cuidando, mas quem cuidava de vocês? Quais seriam os seus sonhos pessoais, desejos mais profundos? Iria gostar de ouvir e quem sabe ajudá-las a realizar.&nbsp;<br>&nbsp; &nbsp; Assim sigo olhando para os meus pais e busco neles seus traços… saber mais sobre vocês é uma maneira de mantê-las vivas em mim. Vieram antes, de vocês faço parte, o sangue que corre em mim corria em suas veias. Escrever o que acabo de escrever,&nbsp; faz pulsar mais forte o meu coração, meus olhos lacrimejam e me sinto envolvida por vocês.&nbsp;<br>Estimadas avós, gratidão por tudo que foi possível! Até um dia!&nbsp;<br><br>Iône Silva dos Santos/ Iône Maria<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 09:36:44 UTC</pubDate>
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         <title>Carta pra Djamila Ribeiro, autora do livro &quot;Cartas para minha Avó&quot;</title>
         <author></author>
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         <description><![CDATA[<div>Oi Djamila,<br><br>Sinto que depois de mergulhar nas tuas memórias já temos uma espécie de relação tão profunda e íntima.<br>Em primeiro lugar gostaria de te agradecer por isso, por oferecer a nós, leitoras, a oportunidade de nos aproximar da tua história, das tuas memórias, de algumas das tuas conquistas, dores e afetos.&nbsp;<br>Você escolheu contar sua história para a sua avó. Como você mesma disse, como uma maneira de retomar os laços com ela, contando para ela o que você se tornou e a importância dela na sua vida. Que potente poder celebrar esses lugares de cuidado, que normalmente são invisibilizados, especialmente, como você diz, quando trata-se de mulheres pretas que foram tão brutalizadas em suas vivências que acabam educando dessa forma. No entanto, você não se priva de falar da importância de entender a origem de certas violências para poder fazer rupturas.&nbsp;<br><br>Eu aprendi que quando a gente escolhe pra quem a gente quer contar a nossa história, é esse olhar que nos ajuda também a definir como a gente escolhe contar a própria história. É o olhar do outro que nos atravessa e aqui, posso falar no plural, o olhar das nossas avós ajudam a conduzir nossa narrativa. Suas cartas me remeteram à minha própria avó, a bisa Dulce.&nbsp;<br>Até hoje ainda não conheci outra figura como ela. Mais velha, depois que ela se foi, passei a acreditar que aquela aura de doçura que eu enxergava nela era fruto do meu olhar infantil, ou do amor que ela nutria por nós. Recentemente, no entanto, fui a um encontro de descendentes dos meus tataravós no interior e fui interpelada por suas histórias de bondade, atenção e cuidado, que me fizeram ter certeza que seu olhar atravessou outras histórias além da minha.&nbsp;<br>O seu livro me deu vontade de escrever para minha própria vó, para falar de nossas memórias juntas, do que veio antes e o que veio depois. Do que ainda está por vir. Perguntas, respostas, cura. Dizer que eu morria de desgosto quando ela mandava doce de banana pro meu pai e doce de leite pro meu tio. O meu preferido era o de leite, que nunca chegava em casa. Mas eunca me queixei.<br>Eu e minha irmã vibrávamos quando ela vinha do interior passar o mês em casa. E eu pelo menos ficava estarrecida que ela não ficasse com a gente pra sempre. Ou ainda que dividisse um pedaço da sua estadia na capital na casa da minha tia-avó. Minha mãe uma vez tentou me explicar, "tia Hely é filha de bisa, por isso ela se sente mais confortável lá do que aqui na nossa casa, na casa do seu pai que é neto". Mas não tinha jeito daquilo fazer sentido pra mim.<br>Sempre pedia pra ouvir as histórias do colégio de freiras. Foi a pessoa da minha maior convivência com os hábitos mais católicos que pude presenciar. Assistia a ela com o terço na mão, tentando decifrar aquela crença. Será que ela lembrava da vez que de tanto olhar ela rezando, perguntei se ela rezava muito porque estava velhinha, já tava perto de morrer e queria ficar amiga de Deus? Não me lembro a resposta, acho que riu singela. Nunca me repreendeu, tampouco se intrometia em defesa das bisnetas. Discretamente, me entregava uma moedinha de dez centavos para eu correr em dona Zezinha e trazer um caramelo pra ela. E, claro, uma paçoca pra mim.&nbsp;<br>Nunca me contou muitas histórias que não fossem dela, me falou dos natimortos e que só conseguiu criar duas filhas, Hely e Heleny. Falava alguma coisa de seu pai e da fazenda, muito pouco do falecido marido, meu biso Horácio e nada que eu me lembre da minha vó. Eu queria poder tentar decifrar o olhar da minha bisa que atravessou minha avó, essa que não conheci em vida.&nbsp;<br>Conheci através do meu pai, as histórias de proteção, cuidado, exigência e brutalidade. Seu esforço para educar dois meninos pobres, com marido ausente e família do interior. Antes do Alzheimer, quando minha tia-avó Hely me encontrava, arregalava os olhos e dizia:<br>como você tá parecida com sua vó Lena. Ela era tão linda, farta - fazendo gestos de tamanho -&nbsp; braba!! - e arregalava ainda mais os olhos, enfatizando a última característica.<br>Aparentemente carreguei muitas marcas dessa rigidez e cabe a mim romper esse ciclo. Conheci minha avó na perpetuação de uma educação violenta.<br>Djamila, quando você, através do resgate das suas memórias, ressignifica a sua narrativa, quando você humaniza a sua avó e a sua mãe, permitindo que elas saiam dos lugares que lhe estão postos, você possibilita que também nós possamos perdoar e humanizar nossas mães, nossas avós e bisavós, para que então a gente consiga se autoriza a ser quem a gente é. Suas cartas me mostraram que é possível honrar nossa ancestralidade ao mesmo tempo que não pactuamos mais com o que está posto para nós. Te agradeço, de todo coração.<br>													Isadora Oliveira</div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 11:24:31 UTC</pubDate>
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         <title>Carta para Dona Domingas</title>
         <author>carolinesantlima</author>
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         <description><![CDATA[<div><br></div><div>&nbsp; &nbsp; Das memórias que bem me lembro, há uma colcha retalhada de afetos. Dias desses escrevi na minha pele uma letra em sua homenagem, vó. Deixei guardado em meu caderno a página em que escreveu seu nome todo por extenso. A senhora havia se sentado ao meu lado na cama enquanto eu estudava. Puxou uma prosa dizendo que quando era criança gostava muito de estudar e era uma aluna muito aplicada, mas só teve oportunidade de estudar até a quarta série. Nos anos 40, uma mulher preta ribeirinha tinha seus acessos limitados. Aí então, a senhora pegou meu caderno, uma caneta e falou que sabia escrever seu nome inteiro e com uma letra bonita.<br><br></div><div><br>&nbsp; &nbsp; Escreveu Domingas Santana Borges com uma feição que trazia o riso. Acima de nossas cabeças estava o mosqueteiro pendurado, uma brecha na telha que fazia entrar um raio forte de sol e o cheiro de amor espalhado por cada parede que nos cercava.<br><br></div><div><br>&nbsp; &nbsp; Antes que a senhora saísse do quarto e aquele momento mágico se encerrasse eu quis dizer:<br><br></div><div><br>– Vó, a senhora é a mulher mais inteligente que eu conheço. Tem sabedoria ancestral, algo que não se encontra nas páginas amarelas dos livros. Obrigada por tanto. O teu saber me fez chegar até aqui.<br><br></div><div><br></div><div><strong><br>Tuanny Araujo<br></strong><br></div><div><br></div><div><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-11-26 12:03:42 UTC</pubDate>
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