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      <title>Meu mural formidável by Larissa Lorrayne</title>
      <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4</link>
      <description>Feito com uma sensatez robusta</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2018-04-24 19:35:50 UTC</pubDate>
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         <title>Resumo do capitulo 1</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/255010966</link>
         <description><![CDATA[<div>Tudo começa com um ponto final, a decisão de termina um namoro de dois anos com Gustavo, o namorado dos sonhos de toda garota. As amigas acharam que Isabela tinha enlouquecido, porque, afinal de contas eles formavam um casal perfeito! Mas por trás das aparências existia uma menina infeliz, disposta a assumir as consequências pela decisão de ficar sozinha. Estava na hora de resgatar o amor-próprio, a autoconfiança e entra em contato com seu próprio desejos. Parece fácil, mais atrapalhada do jeito que é, Isabela precisa primeiro lidar com o assedio de um primo, com as tentações da balada e, principalmente, entender que o príncipe encantado é artigo em falta no mercado.<br>Retratando suas experiências com seu namorado não muito harmonioso com o Gustavo, afinal não se pode viver de aparências para sempre e as vezes o casal perfeito não e tao perfeito e feliz como pensamos.<br>A decisão do termino do namoro é umas das decisões de desapego que Isabela tem que fazer, afinal já chega de empurrar com a barriga aquilo que não lhe faz bem. A partir daí a Isabela namoradeira, tem que aprender a conviver consigo mesmo, a se amar e se encontra nessa confusão. Com a sua não Best Mariana, que fura os seus olhos, a sua amiga paixão de adolescência aquele primo gostosão que só quer lhe usar, o seu crush favorito de Tiago que se mostra um fofo, mas é. Ainda bem que ela tem seus amigos de verdade ao seu lado, para lhe ajudar nessa confusão. Pedro aquele seu amigo louco, que lhe conhece melhor que se mesmo, um canalha com as outras, mas aquele amigo muito fofo com você. E a Amanda sua amiga mega inteligente, a voz da razão na sua vida.<br>Contando suas experiencias de uma forma engraçada e&nbsp;única, Isabela conta suas experiencias e decepções, mostrando que devemos nos aceitar como somos e que só podemos amar alguém, quando aprendemos a amar a nós mesmo primeiro. Que as decepções sempre vão necessárias para nosso aprendizado, que todos que passam na nossa vida sempre acrescenta coisas boas na nossa vida, mesmo que nos tenta não sofre.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-24 19:36:17 UTC</pubDate>
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         <title>Resumo da aula dia</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/255367038</link>
         <description><![CDATA[<div>24/04/2018<br>Aprendemos sobre gestão do tempo e fizemos uma dinâmica que nos mostrou que primeiro devemos ver a qualidade e depois a velocidade, organizamos a lista da '' secretaria'' e aprendemos qual a utilidade da matriz de Esenhower, as utilidades dos aplicativos Gmail, e o postite.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 17:51:03 UTC</pubDate>
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         <title>informações que eu me identifiquei sobre minha personalidade </title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/255391759</link>
         <description><![CDATA[<div><strong>Introvertido 58%<br>Observador 46%<br>Sentimento 46%&nbsp;<br>Explorador 39%<br>Explorador 46%</strong></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 18:38:54 UTC</pubDate>
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         <title>Aula 24/04, gestão do tempo e ferramentas do google.</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/255395370</link>
         <description><![CDATA[<div>Chegamos na sala, o tema foi gestão do tempo, ferramentas google, matriz de eisenhower e logo depois ele fez uma dinâmica sobre o assunto descemos para o laboratório III onde tivemos a aula.<br><br>&nbsp;Nessa aula aprendemos a importância da gestão do tempo, as varias utilidades das ferramentas google devemos aliar velocidade com qualidade devemos saber a ordem de importância das suas tarefas, aprendemos que podemos utilizar a matriz eisenhower para nos ajudar nisso. <br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 18:46:17 UTC</pubDate>
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         <title>Meus Sonhos </title>
         <author>lalorraine79</author>
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         <description><![CDATA[<div>•tenho sonho de ir pra Disney<br>•tenho sonho de ter uma penteadeira<br>•tenho sonho de conhece o Washington<br>•tenho sonho de conhece o hospital de Grey's Anatomy &nbsp;<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-04-25 19:18:43 UTC</pubDate>
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         <title>Redação </title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/260565700</link>
         <description><![CDATA[<div>Unilever<br>A unilever começou em 21 de setembro no Reino Unido. Numa época em que sabão era um produto genérico, vendido por peso, William Hesketh Lever.a Atua em todo o mundo da China ao Brasil . Os principais produtos são <strong>Omo</strong>, <strong>Seda</strong>, Dove, Hellmann's, Maizena, Knorr, Kibon, AXE, Lux e <strong>Rexona</strong> . A missão da Unilever é levar vitalidade para o dia-a-dia.<br>Os valores são Impacto positivo, compromisso contínuo , trabalhaando com os outros , etc.</div><div>A Unilever Brasil ganhou o prêmio de melhor campanha de mobile marketing do Mobile Merit Awards.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-14 17:19:04 UTC</pubDate>
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         <title></title>
         <author>lalorraine79</author>
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         <description><![CDATA[]]></description>
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         <pubDate>2018-05-23 17:38:15 UTC</pubDate>
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         <title></title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/263135510</link>
         <description><![CDATA[]]></description>
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         <pubDate>2018-05-23 18:35:10 UTC</pubDate>
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         <title>2°Capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/264821056</link>
         <description><![CDATA[<div>Acho engraçado que toda vez que falo sobre desapego em uma roda de amigos todos me olham assustados. Espantados. Diria até que aterrorizados. É como se eu dissesse em voz alta que matei alguém e preciso de um lugar para esconder o corpo. Melhor ainda é quando as pessoas tentam me dar uma restrita e perguntam: "ué, mas você não namorou a vida inteira?". Sinceramente, quando escuto uma pergunta dessas, tenho vontade de me levantar da mesa e ir embora. É como se sentisse que essa pessoas não têm intelecto suficiente para conversa comigo. Mas tudo bem... Respire, conte até dez. E aí explique. Ou pelo menos tente.<br>O desapego é muito mais do que leiloar seu amor ( ou outra coisa) por aí. O desapego é saber se desprender de tudo aquilo que te retém, faz mal e sufoca. O desapego é sempre um desafio para mim, aliás, acredito que pra todos. A propósito conselhos sempre parecem mais fáceis quando dados a outra pessoa. Digo isso por experiência própria. Eu, que sempre tenho um conselho na ponta da língua, me vejo em apuros quando preciso aplica-los na minha vida. Acontece.<br>A coragem para ser sozinho é importante para todos nós. E eu, como boa sagitariana (nós, sagitariana, sofremos do mal de sempre- querer- estar- rodeadas- de- pessoas), morro de medo de ficar sozinha. É assustador demais. E porquê? Porque temos, tanto medo de ficar a sós em nossas próprias companhias? A psicologia explica: tudo o que você espera que outro faça por você quando está em um relacionamento é exatamente o que você não faz por se mesmo. É como se você jogasse a sua felicidade no colo do outro e dissesse: "toma, agora você é o responsável por ela. Me faça feliz. E é aí que está todo o problema. Você deve primeiro aprender a ter êxito satisfazendo as suas necessidades para depois se relacionar com alguém. Só e feliz a dois quem já é feliz sozinho.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-31 15:41:40 UTC</pubDate>
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         <title>3° capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/264827363</link>
         <description><![CDATA[<div>E, chega de enrolação. Hora de encarar a vida com a cabeça erguida e aceitar que agora eu estou... Sozinha. Solteira. Desquitada. Mal- amada. Qual o problema de ficar sozinha, não é mesmo? Não ligo. Não ligo mesmo. Isso não me encomoda nem um pouco. Sou uma menina - quase- mulher madura, qual é? Tenho 22 anos, finalmente. Vinte e dois anos. Já posso dizer por aí que banco as minhas atitudes e todas as suas consequências (porque elas sempre vêm, ah, vêm). Fazer 22 anos não me mudou em nada, na verdade, foi um saco. Porque todo ano você pensa que assim que der 0h do dia do seu aniversário tudo vai mudar. De repente, você vai se tornar aquela mulher madura e sedutora que vermos nos filmes, vai impor respeito e olhar para todo mundo firme e convicto, a aura de mulher moderna se iluminará, todos os garotos vai notar que agora você é decidida, já saber o que quer... Mas não; 0h01 e você ainda é a mesma garota chorona de quando tinha quinze anos. Ainda é a mesma garota indecisa de horas atrás. Sobre as inseguranças nem se fala. Você ainda é a mesma. Entao, sempre que vejo diante de uma situação ou diante de um provável "romance", acabo dizendo que ele é o "amor da minha vida". Porque vai dizer atraí, né?<br>Como aquela vez em que cismei que estava apaixonada pelo meu melhor amigo de<br>infância, o Fernando. Pois é, minha vida sempre foi um clichê, do começo ao fim. Não que<br>ela tenha chegado ao fim, bem, você entendeu. É que meu melhor amigo de repente<br>esticou, começou a malhar e—foco—teve os primeiros pelos de barba crescendo por todo<br>o rosto. E o que isso tem a ver com minha paixão repentina? Não é óbvio? O cara já era meu<br>melhor amigo, já tinha me visto de pijama de flanela, acordando de cara amassada, e ainda<br>assim não tinha fugido pra bem longe. Sem contar que eu bem reparava que todas as vezes<br>que saíamos juntos ele me lançava olhares nervosos e tímidos. Como se esperasse<br>encontrar olhares apreensivos em troca. Era ó-b-v-i-o que ele era o amor da minha vida. Eu<br>sabia,sabia. Esse lance de se apaixonar pelo melhor amigo não era coisa de filme, estava<br>acontecendo comigo. Ai, que lindo! Não era lindo? Na próxima festa de quinze anos, ele me<br>tiraria para dançar ao som de “Iris”, do Goo Goo Dolls, dançaríamos coladinhos e, antes do<br>fim da música, ele me beijaria.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-31 16:06:35 UTC</pubDate>
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         <title>4°Capitulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/264839005</link>
         <description><![CDATA[<div>Eu preciso não precisa de nada. É isso, só isso. Eu passei toda a minha adolescência procurando no outro aquilo que eu deveria te em mim mesmo. Um porto seguro. Qual é? Eu deveria ser o meu próprio porto seguro! Esse lance de se sentir segura com outra pessoa é balela, aliás, você até pode se sentir segura com outra pessoa, o que não quer dizer<br>que ela tenha a obrigação de ser o seu porto seguro.<br>A questão toda é que não podemos acusar o outro de não nos oferecer aquilo que já<br>deveríamos ter. A outra pessoa não tem obrigação alguma de suprir aquilo que falta em<br>você, isso é problema seu. Antes de nos relacionarmos com alguém devemos ter tudo<br>aquilo de que precisamos na bagagem, que, a propósito, deve ser duplamente checada. Se eu<br>fosse contar os itens essenciais que devemos ter conosco eu diria que são cinco:<br>Amor-próprio.<br>Autoconfiança.<br>Honestidade.<br>Realização pessoal.<br>Felicidade.<br>E o que em nós eles conseguem mudar quando nos relacionamos com alguém? Bem,<br>tudo.<br><mark>AMOR-PRÓPRIO</mark><br>Não adianta negar, nós estamos sempre idealizando “a pessoa perfeita” em nossos<br>pensamentos. Eu, por exemplo, sempre procurei um homem que me protegesse de todo o<br>mal que houvesse no mundo, aquele que seria o meu “herói”, o meu escudo. Aquele que me<br>faria sentir segura em um abraço. Procurei por todos os cantos, insisti que esse cara existia.<br>Ah, existia. Ele tinha de existir. Foi preciso muito mais do que várias histórias de amor<br>arruinadas para que eu percebesse que ele existia, sim. Ele estava estampado no reflexo do<br>meu espelho todos os dias.<br><mark>AUTOCONFIANÇA</mark><br>Como confiar no outro quando não confiamos em nós mesmos? Como acreditar no outro<br>quando não acreditamos nas nossas próprias palavras? Como dizer ao outro tudo aquilo<br>que sentimos sem medo de parecer um completo tolo? Autoconfiança. A autoconfiança é a<br>chave para colocar o amor-próprio em prática.<br>Vamos ao exemplo. Aposto que você já se relacionou com uma pessoa extremamente<br>ciumenta, daquelas que não podem te ver olhando para o lado que já começam a<br>desconfiar. Olhando para onde? Para quem? Vai ao supermercado? Por quê? O caixa é<br>bonito? Saiu com as amigas para quê? Para flertar com os homens do bar? Ciúmes é insegurança, é falta de autoconfiança.<br><mark>HONESTIDADE</mark><br>Você é honesto consigo mesmo? É? Tem certeza? Posso ver os pontos de interrogação se<br>formando em sua cabeça neste exato minuto. Quase ninguém consegue ser 100% honesto<br>consigo mesmo. Portanto, fique tranquilo, que o barco está cheio e com excesso de <br>passageiros. Estamos sempre tentando tapar o sol com a peneira, embora a gente saiba que<br>ele vai queimar da mesma forma.<br>Eu, por exemplo, passei a vida inteira fingindo ser alguém que nunca fui. Era meu<br>mecanismo de defesa, eu gostava de parecer insensível a qualquer sentimento. Isso me<br>fazia bem, até certo ponto. O problema de fingir ser o que não conseguimos ser é que, no<br>fim do dia, ainda resta o espelho para encarar. E o espelho não nos deixa mentir. Podemos<br>forçar sorrisos, personalidades, felicidade, sentimentos... o coração, porém, grita por<br>honestidade. O coração gosta de sinceridade, de ser aquilo para o qual foi predestinado.<br><mark>REALIZAÇÃO PESSOAL<br></mark>Ok. Antes que me entendam mal, eu não acho que uma pessoa precise ser rica, bem-<br>sucedida e ter quatro carros na garagem para ser feliz em um relacionamento. Não é isso.<br>Realização pessoal nada tem a ver com condição financeira. Ou até tem. Depende de quem<br>está em jogo. Falando por mim, o que me faria sentir completamente realizada?<br>Ver os meus amigos felizes. Dar orgulho aos meus pais. Lembrar às pessoas ao meu<br>redor quanto as estimo, o tempo todo. Escrever muitos livros. Descobrir todos os dias uma<br>música nova. Me mudar para a Irlanda e morar em uma casinha aconchegante de frente<br>para uma linda paisagem. Me casar com alguém que eu ame. Ter filhos que serão os<br>motivos do meu sorriso. Envelhecer ao lado daquele com quem eu me casar. Cuidar das<br>pessoas que eu amo até o fim dos meus dias. Ganhar dinheiro suficiente para que eu possa<br>ajudar os animais de rua. E só.<br><mark>FELICIDADE<br></mark>Ser feliz é o resultado de tudo isso que eu disse. Com o amor-próprio, se adquire a<br>autoconfiança. A autoconfiança leva à necessidade de honestidade para consigo mesmo.<br>Assim, lutar pela realização pessoal se tornará um objetivo de vida. Pronto. Agora é só<br>estampar um sorriso no rosto e agradecer todos os dias em que acorda a chance de poder<br>mudar sua vida para melhor.<br>Agora dá para entender a importância desses cinco itens na bagagem antes de nos<br>relacionarmos com alguém? Se você não tem nenhum deles dentro de você, vai acabar<br>cobrando que o outro supra aquilo que te falta. E começar um relacionamento recheado de<br>expectativas só pode acabar de uma forma: com decepções.<br>• • •<br>E em meio a todos esses pensamentos, tive de voltar à realidade, onde tudo que existia era<br>uma festa que tocava músicas das quais eu não gostava, uma gente que olhava pra mim<br>como se eu fosse uma qualquer, atitudes que nada condiziam com o que eu considerava o<br>mínimo de respeito e... hã? O que era aquilo ali no meio da pista? A Marina estava beijando<br>o... MEU EX-NAMORADO?????<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-31 16:51:59 UTC</pubDate>
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         <title>5°capítulo </title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/264855578</link>
         <description><![CDATA[<div>Não, não podia ser. Pisquei meus olhos repetidas vezes, como se o ato de fechar e abrir<br>as pálpebras fosse fazer com que a cena que se formava à minha frente sumisse. Fecha,<br>abre, fecha, abre, fecha. Abre. É. Não adiantava. Aquilo era simplesmente surreal.<br>Eu reconheceria aquele topetinho a quilômetros de distância. Era ele mesmo, não tinha<br>erro. Gustavo Ferreira, o pegador da cidade, estava de volta. O Gustavo, antes de me<br>namorar, era um babaca, daqueles que se acham melhores que todo mundo só porque<br>nasceram em berço de ouro. Alto, olhos castanhos, nariz aquilino, era o desejo de todas as<br>meninas. E é claro que sabia se aproveitar bem disso. Eu o conheci quando ele abusava de<br>suas técnicas baratas pra me conquistar. E algumas atitudes eram tão toscas que eu tentava<br>dar um jeito de mostrar a ele que o caminho pra me balançar não era exatamente a<br>trajetória retilínea que ele pensava que fosse. Claro que o Gustavo não se importava.<br>Às vezes eu tinha certeza de que seria apenas mais uma pra coleção, sabe, mais uma<br>entre as muitas apaixonadas por ele. Porém, não teve jeito, eu acabei caindo no papo de que<br>eu era a única e blá-blá-blá. Me apaixonei. No tempo em que ficamos juntos ele até tentou<br>melhorar, ficar mais sossegado, não ser tão controlador, tão egocêntrico, mas agora, não<br>sei por que, eu tinha certeza de que ele regrediria. E, bem, eu tinha razão.<br>Eles continuavam se beijando no meio da pista, numa espécie de cena pitoresca. Se<br>minha vida fosse realmente um filme, essa seria a cena crucial. Uma cena em que eu,<br>provavelmente, avançaria imponente em direção aos dois traidores e diria tudo aquilo que<br>viesse à minha mente. Era isso.<br>Oi? O que estava acontecendo com os meus pés? Eles não se moviam. Meus sapatos<br>pareciam ter adquirido toneladas e toneladas de chumbo de um minuto para outro. Eu não<br>conseguia sair do lugar, então só fiquei ali observando o Gustavo puxar a Marina pelos<br>cabelos (sedosos, por sinal, aff), enquanto ela sorria e sussurrava algo no ouvido dele. Não<br>precisava ser uma leitora profissional de lábios para saber o que ela dizia:<br>— Eu sempre fui a fim de você.<br>Ou talvez fosse só a minha imaginação pregando peças. Eu devia ter pirado de vez.<br>Juntei as forças que me restavam e dei um jeito de ir embora logo dali, sob os olhares piedosos das pessoas ao redor. Inacreditável, simplesmente inacreditável. Eu devo ter uma<br>tatuagem na minha testa que diz:<br>Otária. Aproveite-se da amizade desta pobre garota enquanto pode e, quando ela não lhe<br>for mais útil, jogue fora. E, ah, dica: ela pode te perdoar depois. É bobinha, coitada.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-31 17:50:56 UTC</pubDate>
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         <title>6°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/264857807</link>
         <description><![CDATA[<div>Sabe aqueles dias em que você fica se revirando na cama porque sabe que, se acordar,<br>vai ter que enfrentar o mundo? Então. Hoje eu estava assim. E, olha, não é só por ser uma<br>covarde. Porque eu sou. É que hoje eu realmente estava precisando de umas férias de todo<br>esse drama que me cerca. Fim de namoro, melhor amigo em intercâmbio (eu já contei que<br>o Pedro tá na Austrália, né?), punhalada nas costas pela pseudoamiga-de-balada, ex-<br>namorado me mandando mensagem… Opa, ESPERA AÍ. Isso era uma mensagem do Gustavo<br>no meu celular?<br>Isabela, precisamos conversar. Sei q provavelmente vc não quer me ver nem pintado de<br>ouro, como vc sempre diz, mas preciso te ver. Espero que entenda. Passo hoje na sua<br>casa 4h.<br>Às quatro? Que horas eram? Deus, eu estava por tanto tempo na cama que até esqueci<br>que tinha uma vida social apitando no celular, ou, pelo menos, o que me restou de vida<br>social. 15h49. Ótimo. Agora, além de encontrar meu ex-namorado, o que por si só já é uma<br>decadência, eu ia encontrar o meu ex-namorado com o meu cabelo sujo, o rosto amassado e<br>sem nem um corretivozinho pra tirar as olheiras. Que se dane também. O Gustavo não<br>merecia minhas maquiagens caras que suei tanto pra comprar. Aliás, o Gustavo não<br>merecia nem que eu colocasse uma roupa pra recebê-lo. É isso. Resolvi receber o meu ex-<br>namorado de pijama, cabelo pra cima e cara de ontem. Talvez assim ele se tocasse de que<br>não era bem-vindo. Seria engraçado se não fosse trágico.<br>— Er... oi. Me atrasei um pouco, né?<br>Olho o relógio: 16h05. Quem se importa? Vendo minha cara de indiferença, continua:<br>— Posso entrar?<br>— Fazer o quê... — digo, enquanto me afasto da porta para que ele entre.<br>Eu não sabia se deveria reparar, mas o Gustavo havia ganhado uns quilinhos desde a<br>última vez em que estivemos juntos. Obrigada, Deus, por mais essa graça. Nada melhor do<br>que ver o ex-namorado engordando.<br>— Então, desembucha. O que você quer?<br>— Você não muda nunca, né? Sempre mal-humoradinha...<br>Será que ele estava achando que nós éramos alguma espécie de amigos? Isso era um<br>sorriso no rosto dele? Olha, não sabia que caras de pau conseguiam sorrir.<br>— Gustavo, corta essa, ok? Vai direto ao ponto.<br>— Tudo bem, tudo bem. Não estamos de bem com o mundo hoje, hein? — responde,<br>analisando o meu estado.<br>Pijamas velhos, ok. Rasgados, ok. Cabelo desgrenhado, ok. Rosto amassado, ok. Só me<br>faltava arrotar.<br>— Que nada, eu estou superbem hoje. Do contrário nem concordaria em te receber.<br>— Hum, é. Eu vim aqui para explicar aquele lance que rolou ontem lá na festa.<br>Espera aí, era isso então? Ele havia gasto gasolina, tempo, saliva, tudo isso para explicar<br>o que tinha acontecido? Eu sabia muito bem o que tinha acontecido, ora, tenho dois olhos.<br>Não sou cega.<br>— Explicar o quê?<br>Resolvi me fazer de boba. Vai que funciona e ele acaba desistindo dessa besteira que é se<br>explicar pra ex?<br>— Sobre a Marina. Não adianta fingir que não viu, eu sei que você viu. Me falaram até<br>que te viram chorando e...<br>— Espera, espera. Me viram chorando? E você supôs que fosse por causa de você? Há-há.<br>Faça-me rir, Gustavo. Sabia que o mundo não gira ao seu redor? Não? Pois fique sabendo.<br>— Isabela, você não precisa fingir pra mim. Pode falar a verdade.<br>Por que os homens tinham essa mania de achar que eram importantes e únicos na vida<br>de todas as garotas com as quais já tinham tido um caso? Queria ter essa autoestima, viu?<br>— Olha, você ficou com a Marina, tudo bem. Achei ridículo? Achei. Achei<br>desnecessário? Também achei. Achei que você estava fazendo isso só pra me atingir? Tive<br>certeza. Mas chorar por isso é algo que eu jamais faria, aliás, chorar por você, Gustavo?<br>Pensa bem...<br>Pela expressão no rosto dele, pude perceber que em momento algum a ideia de que ele<br>não merecesse o meu choro havia passado por sua cabeça, e agora ele já se arrependia de ter<br>ido ali na minha casa fazer papel de otário. Eu estava começando a gostar disso.<br>— Eu achei... eu achei que... você... arrependeu e... — ele gagueja.<br>— Se enganou. Eu não me arrependi. Inclusive, vai fundo. A Marina é uma garota e<br>tanto.<br>— Não precisa debochar.<br>Incrível como o Gustavo não sabia que quando eu ficava muito quieta é porque estava<br>triste. Nem que se eu tinha vontade de ir embora de algum lugar é porque estava com<br>vontade de chorar. Nem que eu tinha tremores durante a noite por causa dos meus<br>pesadelos. Nem mesmo que eu tinha uma cicatriz na mão direita, fato que ele percebeu<br>apenas depois de um ano de namoro, e só porque contei. O Gustavo simplesmente não se<br>importava. Descobrir que a pessoa que está contigo não se importa com você a ponto de<br>nem conhecer as suas reações e sentimentos é frustrante. Eu demorei a me dar conta,<br>verdade.<br>Mas nunca é tarde demais para tirar da sua vida pessoas que só fazem figuração. Pessoas<br>que nunca participam das cenas principais, nunca participam dos seus melhores sorrisos,<br>das lágrimas mais sinceras, dos gritos que libertam. Tenha a seu lado somente aqueles que<br>tornarão o seu filme inesquecível e único. Não insista em dar oportunidade àqueles que já<br>tiveram inúmeras chances e as desperdiçaram todas as vezes. Chances não devem ser<br>jogadas no lixo como se fossem descartáveis. Para os capazes, apenas uma chance basta.<br>E é por isso que o Gustavo não tinha qualquer chance comigo. Não mais.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-31 17:58:38 UTC</pubDate>
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         <title>7°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
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         <description><![CDATA[<div>Ok, preciso confessar. Eu estava dando o maior mole para o meu primo. E daí? Quem<br>nunca sentiu uma forte atração pelo primo gostoso que atire a primeira pedra. E digo mais,<br>o meu primo é de quarto grau. Quarto grau. Há-há. De acordo com o Direito Civil, nós nem<br>somos parentes, e o direito é o que rege as regras da sociedade, né? Sou uma boa cidadã.<br>Ótima. Exemplar.<br>Enquanto releio nosso histórico de conversas no Facebook, me pergunto se não fui<br>atirada demais. O que ele ia pensar de mim? Ah, que se dane. Nós somos primos. Pri-mos.<br>Ele não tem que pensar nada de mim. Parente a gente tem que aturar independentemente<br>do jeito que a pessoa é, mesmo que a parenta seja uma garota de 22 anos meio desesperada<br>por um novo flerte.<br><mark>Conversa iniciada</mark><br>(20h12) Igor Tullon: E aí, prima ;)<br>(20h17) Isabela Freitas: Ei, primo! Desculpa a demora, não estava aqui no computador...<br>(20h17) Igor Tullon: tudo bem... como vc tá?<br>(20h17) Isabela Freitas: eu tô ótima... :) e vc?<br>(20h18) Igor Tullon: tô bem tb... encontrei sua mãe esses dias na rua! ela me disse que vc<br>terminou com aquele seu namoradinho, o gustavo. é verdade? terminou mesmo?<br>(20h19) Isabela Freitas: ah, terminei... não dava mais...<br>(20h20) Igor Tullon: hum, sei como é. terminei o meu namoro de cinco anos ontem.<br>acredita???<br>(20h20) Isabela Freitas: vc terminou com a roberta? que isso! mas vcs pensavam em se<br>casar :o<br>Prima linda, prima LINDA. Isso devia significar algo. Tipo, hum... que ele me achava<br>linda? Que ele me achava linda a ponto de querer me beijar loucamente? Que ele me achava<br>linda a ponto de querer desapegar de relacionamentos sérios a meu lado? Eu estava<br>começando a gostar dessa ideia. E, olha, isso não costumava ser uma boa coisa.<br>Sexta-feira. Ufa! Passar a semana inteira fazendo dieta e me esquivando de todo e qualquer<br>doce já estava acabando comigo. Minha mãe chegou até a perguntar que promessa nova era<br>essa que eu havia feito. Ah! Promessa. Só se eu estiver prometendo uma sexta-feira<br>daquelas. Isso sim, querida mamãe. Pois hoje eu vou sair com o meu primo-de-quarto-grau-<br>muito-gato-para-ser-apenas-um-primo. Fato esse com o qual a senhora não podia nem<br>sonhar, claro.<br>Enquanto tomava meu banho, ri comigo mesma, lembrando-me de quando era mais<br>nova e colocava o nome de todos os meus Kens de Igor Tullon. O Igor era minha paixão<br>platônica desde que comecei a me entender por gente, foi paixão à primeira vista. O<br>problema era um só. Cinco anos mais velho. Alto, forte, moreno, com um sorriso<br>marcante. Simpático, estudioso, um garoto-família. Namorador, verdade, o que não era<br>exatamente um defeito, já que torná-lo meu namorado era o último dos meus planos.<br>Impossível, realmente impossível. Em que planeta um garoto como o meu primo olharia<br>para uma garota como eu? E cinco anos mais nova? Nunca. Nunquinha. Então eu<br>simplesmente me contentava em colocar o nome do meu Ken de Igor, e namorá-lo ali, por<br>algumas horas, em meio a Barbies e histórias inventadas.<br>Resolvi aceitar o convite, que mal tinha nisso? Eu estava me guardando muito desde o<br>desastre da noite de sertanejo universitário. Precisava extravasar. Chega de ficar parada,<br>moscando. Talvez não fosse tão errado sair com uma pessoa em um dia e com outra no dia<br>seguinte. Afinal, eu estava solteira. S-o-l-t-e-i-r-a. E, se não me engano, estava lá nos<br>mandamentos dos solteiros: “Ficar com uma pessoa não é sinônimo de compromisso”.<br>Uma lei universal que o Evandro, o Gustavo e a Marina fizeram questão de jogar na minha<br>cara e, bem, estava na hora de eu praticar um pouco também, não é mesmo? Porém, com<br>um pouquinho mais de decência...<br>Ok, vamos focar no dia de hoje. O Tiago é só amanhã.<br>Decidi vestir um vestidinho vermelho-me-beije-agora com um decote nas costas.<br>Decote nas costas é sexy, certo? E qual o problema de usar a calcinha de bolinhas que<br>minha avó me deu no último Natal, se nós não iríamos chegar até esse ponto? Iríamos? Ai,<br>Deus. Espero que não cheguemos até esse ponto, porque certamente o Igor não acharia<br>nada legal a minha calcinha de bolinhas. E aí, adeus ficada despretensiosa com o primo<br>mais gato do universo.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-05-31 18:08:03 UTC</pubDate>
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         <title>8°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/265089071</link>
         <description><![CDATA[<div>Averdade é que eu estava cansada de ter sempre que atender às expectativas de todos<br>à minha volta. Sabe, acho que nasci com uma doença que se chama preciso-fazer-todo-<br>mundo-feliz-mas-em-troca-disso-serei-infeliz. É que tornar as pessoas felizes me faz um<br>pouco feliz. Pelo menos por um tempo determinado. E eu cansei. Cansei mesmo. E olha que<br>eu nunca me canso de nada.<br>Sabe que é uma merda ver alguém chorar? Não sei lidar com isso. Sempre dou uns<br>tapinhas e digo que vai ficar tudo bem. Vai mesmo? Ficar tudo bem? Nem sempre fica tudo<br>bem. Como se vira as costas para a pessoa que nos proporcionou bons momentos e se diz a<br>ela que não a queremos mais? Nunca mais?<br>Tá. Confesso. Eu não sei terminar. Nunca soube. Esse meu primeiro namoro eu tentei<br>terminar de várias formas. Mensagem bonitinha (bonitinha?), ligação no meio da noite,<br>olhando olho no olho (ele achou que eu estava brincando), escrevendo uma cartinha (ele<br>achou que era pegadinha e eu não tive coragem de desmentir), pombo-correio (ok, eu não<br>mandei um pombo-correio, mas, se tivesse um, com certeza mandaria), carro de<br>mensagem (imagina que legal?!?!). Por mais que eu tentasse, nada dava certo. Ele sempre<br>dava um jeito de sair pela porta dos fundos, e eu, bem, era fraca demais para impedir que<br>isso acontecesse.<br>Foi aí que criei uma nova forma de acabar namoro: fazer a outra pessoa me odiar. Com<br>todas as forças. Isso me livrava do fardo de ter a iniciativa, porque a pessoa ficaria com<br>tanto ódio que, uma hora ou outra, acabaria terminando em meu lugar. E assim eu fiz.<br>Comecei não atendendo o telefone, não respondendo às mensagens, sendo grossa, até<br>chegar a ponto de...<br>— Isa, o que é que tá acontecendo, hein? Tu tá estranha...<br>— Tô nada. Tô normalzinha.<br>— Tá sim. Tá distante, fria, não me responde direito...<br>— Eu sou assim.<br>— Nunca foi assim. Por que tá assim agora?<br>— Porque eu sou assim agora, ué.<br>— Mas eu não gosto da Isabela assim. Cadê minha bebexinha lindinha que maix amul?<br>Ok. Ele falava com voz de neném. Maldito o dia em que permiti que esse ser falasse<br>assim. Nos dias finais de nosso relacionamento eu tinha vontade de golfar toda vez que ele<br>começava com essa voz.<br>— Hum, err... Olha, eu gosto de outro. É isso.<br>— Oi? Quê?<br>— E-u, eu, euzinha, gos-to de ou-tro. Não entendeu o quê?<br>—Como assim, Isabela? E a gente? E o nosso namoro? Como você pode fazer isso com a<br>gente? Como? Isabela? Isabela?!<br>— Então é isso.<br>E lá se foi o meu primeiro namoro (de sucesso, hein?). Ele, é claro, ainda tentou me<br>procurar algumas vezes para conversar sobre o “outro”, que sequer existia. Só que fiz<br>questão de ressaltar que estava muito feliz e que não queria tentar mais uma vez. Covarde,<br>eu sei. Me dói na alma ter que magoar alguém. Eu nunca sei o que dizer, como dizer, nem<br>quando dizer. Afinal, nunca é a hora certa para dizer adeus.<br>E, pelo que li e ouvi por aí, isso<br>quer dizer que não era amor. Ufa! Ainda bem. Imagine só o amor ser assim? Alguém que fala com voz de neném e te chama de bebexinha? Mas a história da menina que queria<br>atender às expectativas não termina por aí.<br>No oitavo ano tive minha primeira nota vermelha. Me lembro até hoje da cara de<br>decepção dele. Tsc tsc. Matemática? Uma coisa tão simples como matemática? Sim, pai.<br>Matemática. Eu já disse que odeio números? Pois então, eu odeio números com todas as<br>minhas forças. Acho que números não dizem nada e só servem para agrupar coisas que não<br>têm nome. Um grupo de quarenta pessoas é o quê? Quarenta pessoas. O que esse número<br>nos diz sobre essas pessoas? Nada. O número “quarenta” não nos diz nada, já a palavra<br>“pessoas” nos faz supor que elas têm histórias, amores mal-resolvidos, sonhos, mágoas,<br>problemas. Entende por que não consigo gostar de números? Eles não me dizem nada.<br>No nono ano tive mais duas notas vermelhas: em Química e Física. Mais números.<br>Mais decepções. Era engraçado ver que a leitora do ano (esse era o nome que minha antiga<br>escola dava aos alunos que mais alugavam livros na biblioteca) era também “a nota<br>vermelha do ano”. Como assim? Ela não passa o dia na biblioteca? Sim, eu passava o dia na<br>biblioteca. Só que lendo livros que contavam histórias sobre dragões, bruxos, princesas,<br>sapos que viravam príncipes, chapéus que falavam, carros que voavam e muitas outras<br>coisas incríveis. O normal não me atraía nem um pouco. E isso não era certo aos olhos do<br>meu pai.<br>Aos dezesseis anos fiz meu primeiro “vestibular”. É que aqui em Juiz de Fora tem um<br>programa de vestibular parcelado, sabe? Nessa idade eu não tinha ideia alguma do que eu<br>queria ser, aliás, até tinha. Eu queria ser arqueóloga. Ou escritora. Ou tradutora. Ou<br>psicóloga. Ou uma das princesas sobre as quais lia em meus livros.<br>— Psicóloga? Ah! Essa é boa. Psicólogo não ganha dinheiro, minha filha. Você precisa<br>fazer uma faculdade que vá te dar uma vida boa... Medicina, quem sabe?<br>— Não, mãe. Eu odeio sangue!<br>— Então engenharia, que tal? Mulheres engenheiras vão dominar o mundo.<br>— E se eu quiser ser escritora, mãe? Eu faço o quê?<br>— Escritora, Isabela? Você sabe as probabilidades de isso acontecer? Não? Pois eu te<br>digo: nenhuma. Não é fácil assim como você acha que é.<br>— Poxa, mãe... E se eu for aquela pessoa que trabalha com os estrangeiros? Faz<br>traduções? Legal, né?<br>— O quê? Diplomata?<br>— O que é diplomata?<br>— Você nem sabe o que é diplomata e quer ser uma. Isabela, faça algo que está a seu alcance. Direito, que tal?<br>— Direito? Hum...<br>— Você gosta de ler, escrever,se expressa bem... Acho que vai se dar muito bem...<br>— É. Pode ser...<br>E assim se foram os sonhos de mais uma garotinha neste mundo. Anos atrás, quando<br>completei o terceiro ano do ensino médio, me inscrevi na Faculdade de Direito, e aqui<br>estou eu. Fazendo um curso que em nada me encanta, mas é preciso corresponder aos<br>desejos dos meus pais. Ter um diploma para que eles mostrem aos amigos e digam:<br>“Isabela? Ah, Isabela vai ser advogada. Grande advogada!”. E mais uma vez eu estava<br>deixando a minha felicidade de lado.<br>Em uma festa em que o Will foi, e eu não pude ir (estava visitando meus avós na cidade<br>deles), ela deu um jeito de agarrar o garoto. Isso mesmo. Lascou um beijão nele no meio de<br>todo mundo. A notícia estava na boca de todos do colégio na segunda-feira. Quando fiquei<br>sabendo, um tremor percorreu meu corpo. Por que o Will? Por quê? Por que o meu<br>Will? Acho que deve ter sido por minha cara de enterro, ou por eu ter parado de escrever no<br>meio de uma frase e ter ficado olhando o nada; o fato é que o Will fez sinal para que eu o<br>acompanhasse para fora da sala. Eu fui.<br>— E aí?<br>— Oi, tá tudo bem entre a gente?<br>— Tá sim. Por que não estaria?<br>— Sei lá. Deixei um bilhetinho em cima da sua mesa e você jogou no lixo sem ler.<br>Queria dizer que já acabei de ler aqueles livros da série que você me indicou, A mediadora.<br>Adorei, muito bons mesmo.<br>— Ah, legal.<br>— Isabela? Tá acontecendo alguma coisa? Ah, já sei...<br>Olhei pela janela e observei uma criança que brincava de amarelinha na calçada. Como<br>eu queria voltar a ser criança e não ter DR às oito horas de uma manhã de segunda-feira.<br>— Você ficou sabendo da Vitória...<br>— Pra falar a verdade, fiquei sim.<br>— Achei que você ficaria feliz.<br>— Feliz? Por que diabos eu ficaria...<br>Foi quando uma Vitória sorridente entrou no meio da conversa.<br>—Feliz? Isa? Eu contei pra ele! Contei que você apoiava a nossa união. Eu, sua melhor<br>amiga; ele,seu melhor... amigo — ela falou, enfatizando a palavra “amigo”.<br>— Ah, é sério isso, Will? — perguntei, me virando para ele.<br>— É, então... Eu disse que, que gostava muito de você, Isabela...<br>— Como amigo, né? — interrompeu Vitória.<br>— É, gostava, gostava, sabe? E ela disse que você não ia se importar,<br>porque apoiava, e queria que eu ficasse com ela... Sendo assim, eu, eu...<br>— Me deu um beijo inesquecível. Foi isso, Isa. Você não fica feliz por nós?<br>— Fico, fico muito feliz mesmo. Parabéns ao casal.<br>Eu poderia ter dito que tudo isso não passava de uma mentira da Vitória para fazer com<br>que ele ficasse com ela. Poderia, sim. Só que eu preferi deixar pra lá. Se foi assim, é porque<br>era pra ser, né? Não.<br>Olha, de uma vez por todas, a verdade é que não existe isso de “era pra ser”. Nada é pra<br>ser, sempre haverá outros caminhos, alternativas, outro fim pra mesma história. O poder<br>de moldar o destino está nas nossas mãos, mas, por nos sentirmos impotentes diante<br>de tamanha grandiosidade, escolhemos não mudar nada. A Vitória, por exemplo, mexeu<br>uns pauzinhos e mudou o destino dela. Já eu, me conformei e deixei que meu destino<br>escolhesse por si próprio o seu rumo. E, bem, o destino às vezes não sabe o que é melhor pra<br>gente. E mais uma vez eu coloquei a felicidade do outro à frente da minha, ainda que<br>manter uma falsa amiga não me trouxesse nem um pinguinho de satisfação pessoal. Eu<br>simplesmente preferi abrir mão de alguém de quem gostava, desisti de lutar por ele. É bem<br>mais fácil,sabe?<br>Abrir mão. Deixar ir. Desapegar. Isso liberta de alguma forma. Por mais que nos<br>aprisione em lembranças do que poderia ter sido.<br>E foi assim por boa parte da minha vida. Até o meu último namoro, o tal do início deste<br>livro. As pessoas me perguntam, às vezes: “Nossa, mas como você aguentou dois anos uma<br>pessoa que nada tinha a ver com você?”. E eu tenho vontade de responder:<br>Porque simplesmente eu estava cansada de dar errado. De deixar para lá. De dizer<br>adeus. De admitir para mim mesma que estava errada sobre alguém. E tentei, e insisti, e<br>chorei. Tentei moldá-lo da forma que achei ser perfeita para mim. E com isso aprendi que<br>não podemos moldar ninguém. Aprendi que não adianta querer muito dar certo, que o<br>certo, certo mesmo, só acontece nas horas erradas. Aprendi que não adianta pedir aos céus<br>por um amor de verdade, porque amores de verdade não caem do céu, assim como estrelas<br>cadentes não passam quando queremos. É preciso se ferrar, é preciso bater com a cara na<br>porta, é preciso se decepcionar, é preciso desistir. Desistir não é fracassar. É admitir em voz<br>alta que você insistiu por tempo demais. E eu insisti por tempo demais. Era hora de deixar<br>ir...<br>Mas, em vez disso,só levanto meus ombros e digo um nada sincero “não sei”.<br>O Gustavo queria ter uma namorada ao lado para apresentar aos amigos, à família, e<br>para poder colocar fotos com legendas românticas no Facebook. Ele não fazia esforço<br>algum para que eu me sentisse especial, porque, na real, eu não era especial para ele. Ele queria apenas uma companhia que afastasse a solidão que era conviver consigo mesmo. Eu<br>entendo, entendo de verdade. Viver por tempo demais em sua própria companhia às vezes<br>cansa, e a gente acaba depositando essa vontade de “ser dois” no outro. Ainda que esse<br>outro não seja nada mais que isto: uma companhia.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-06-01 18:24:19 UTC</pubDate>
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         <title>9°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/265226072</link>
         <description><![CDATA[<div>Me viro para o lado. Que voz era essa vindo perturbar o meu tão abençoado sono?<br>— Isabela, hora de acordar, menina! Já são sete horas. Você vai se atrasar para a<br>primeira aula.<br>Nossa, como minha cama é gostosinha. Quentinha. Aconchegante. Sinto meu gatinho,<br>Fred, irradiando calor nos meus pés. Delícia. Eu poderia ficar aqui para sempre.<br>A porta se abre bruscamente e alguém, pisando forte, entra no quarto.<br>— ISABELA!—diz minha mãe, enfurecida, enquanto puxa as cobertas de cima de mim.—<br>Você precisa ACORDAR! Final de semana acabou! ANDA!<br>Cadê a sensibilidade do povo desta casa? Eu estava tendo um sonho muito legal, ok?<br>— ISABELA, EU NÃO VOU FALAR DE NOVO! — minha mãe continua a berrar.<br>— Tá, tá, calma! Que estresse! Já tô levantando,só estava descansando uns minutinhos.<br>— Você acha que a vida vai acabar em cama? Eu, hein, menina! Você precisa estudar.<br>Ok, ok. Vamos lá, estudar. Ser uma pessoa normal, normalzinha. Eu já disse que não<br>gosto da minha faculdade? Pois então, eu não gosto. Direito é muito legal, de verdade. Uma<br>faculdade incrível. Só que acho que é sério demais pro meu gosto e, por exemplo, me<br>identifico mais com Publicidade. Ou Jornalismo. Ou Comunicação. Algo que estimule meu<br>lado criativo e me dê liberdade. Seguir leis e regras nunca foi o meu forte.<br>Só que é claro que eu só descobri isso depois que já tinha feito burrada. Como sempre.<br>Outra eventualidade no Filme da Isabela.<br>Meu pai estava à mesa de café, lendo o seu jornal.<br>— Dia, papai.<br>— Dia, filha. Como foi o fim de semana? Tá acabada, cheia de olheira.<br>— Obrigada pelo elogio — digo com um sorriso. — Foi ótimo. Saí com um garoto no<br>sábado. O Tiago,sabe o Tiago? Aquele que é vizinho do Pedro. Filho da Cida.<br>—Ah, sei. Bom garoto. Ele te respeitou, filha? Ele te tratou como você merece? Igual a<br>uma princesa? Pois olhe,se ele fez algo errado me diz que eu vou lá e acabo com ele.<br>Sorrio de novo. Dou um beijo no rosto do meu pai e me despeço para mais um dia.<br>Eu adorava ir à faculdade por um motivo... e não, não era algum garoto — quando<br>somos novas gostamos de ir ao colégio para ver o nosso “paquerinha”, mas acho que eu já<br>havia passado dessa fase há algum tempo. Eu gostava era de encontrar a Amanda.<br>Eu entendia, entendia mesmo, que o fato de ela namorar não fazia dela a amiga-mais-<br>presente-do-mundo-que-está-comigo-em-todos-os-momentos. Eu também era assim<br>quando namorava, faz parte. Não gosto de quem deixa os amigos de lado para viver um<br>romance, porém sei que fica corrido quando se tem que dividir o tempo entre estudos,<br>amigos, namorado, namorado, namorado e outros afazeres do dia a dia.<br>A Amanda era uma garota incrível e merecia toda essa felicidade que estava<br>sentindo. Só eu sei quanto ela buscou por isso e, veja que ironia, ela encontrou a felicidade<br>perto de um cara que estudou com ela quando eles eram bem mais novos. A vida deu um<br>jeitinho de reuni-los novamente. O amor gosta de se “esconder” ao nosso lado, né?<br>Ah, como eu queria voltar a ser criança. Todo aquele mundinho cor-de-rosa onde tudo<br>que existe são desenhos, super-heróis, princesas, sonecas, guloseimas e alguns<br>paquerinhas. Como é fácil amar quando se é criança. Acho que a gente, quando é criança,<br>ama por coisas tão simples, sabe? Como a vez em que disse que amava um garoto da minha<br>sala só porque ele havia me “salvado” de uma abelha que ia me picar. E eu disse com o<br>coração. Eu realmente o amei por isso. Se a Isabela criança conhecesse a Isabela de hoje,<br>certamente perguntaria: “Quando foi que o amor se tornou algo tão difícil para você,<br>hein?”.<br>Pois é, querida Isabela. Eu também gostaria de saber.<br>Está se lembrando do nosso cinema depois de amanhã? Espero que sim. Esses dias<br>demoraram uma eternidade para passar. Mal posso conter minha ansiedade para te ver.<br>Beijos, linda.<br>Mensagem do Tiago. Foi fofa, vai? Respondi que também estava ansiosa para vê-lo. E<br>até que eu estava um pouco.<br>É inegável que todo esse lance com o Tiago estava me fazendo esquecer a Marina, o<br>Gustavo, o Evandro e o Igor (que já me mandou uma mensagem perguntando quando<br>iríamos repetir a “dose”). O Tiago sempre foi uma pessoa com quem eu mantinha relações<br>não só de ficante, mas também de amigo. Com ele eu me sentia à vontade para desabafar<br>tudo. Ele me escutava atentamente, me aconselhava, e sempre, sempre mesmo, me<br>iluminava com sua racionalidade (um defeito meu de fábrica é agir, em geral, com a<br>emoção). Eu não estava apaixonada, mas certamente o Tiago estava trazendo de volta à<br>minha vida um pouco de segurança. E eu gostava disso. Gostava de ter alguém em quem<br>confiar.<br><br>Pois é, querida Isabela. Eu também gostaria de saber.<br>Está se lembrando do nosso cinema depois de amanhã? Espero que sim. Esses dias<br>demoraram uma eternidade para passar. Mal posso conter minha ansiedade para te ver.<br>Beijos, linda.<br>Mensagem do Tiago. Foi fofa, vai? Respondi que também estava ansiosa para vê-lo. E<br>até que eu estava um pouco.<br>É inegável que todo esse lance com o Tiago estava me fazendo esquecer a Marina, o<br>Gustavo, o Evandro e o Igor (que já me mandou uma mensagem perguntando quando<br>iríamos repetir a “dose”). O Tiago sempre foi uma pessoa com quem eu mantinha relações<br>não só de ficante, mas também de amigo. Com ele eu me sentia à vontade para desabafar<br>tudo. Ele me escutava atentamente, me aconselhava, e sempre, sempre mesmo, me<br>iluminava com sua racionalidade (um defeito meu de fábrica é agir, em geral, com a<br>emoção). Eu não estava apaixonada, mas certamente o Tiago estava trazendo de volta à<br>minha vida um pouco de segurança. E eu gostava disso. Gostava de ter alguém em quem<br>confiar.<br>• • •<br>No cinema foi tudo bem. Fomos assistir ao filme novo da Jennifer Aniston, acho que era<br>ela, sei lá. Não prestei muita atenção, beijei o filme todinho. E, ok, isso é um pouco infantil.<br>E daí? Eu estava exausta e precisava de um alívio para a alma. Esse alívio se chamava Tiago<br>e seus beijos com gostinho de tutti frutti.<br>Depois do cinema, nos sentamos na praça em frente ao meu prédio e ficamos lá por um<br>tempo. Conversando sobre a vida.<br>— Não vou negar. Eu sabia que você um dia terminaria com o Gustavo.<br>— Sério?!<br>Me espanto. Tudo bem, eu sabia disso. Só que o Tiago ficara tempo demais afastado,<br>como poderia saber?<br>— Todos sabiam. O Gustavo é um babaca. Ele usa gelzinho no cabelo. Há-há-há!<br>— Hum... Não vamos estragar esta noite perfeita falando dele. Como tá sendo sua<br>readaptação no Brasil? Já está louco para voltar para os Estados Unidos?<br>—Que nada. Acho que fazer intercâmbio nos faz valorizar tudo aquilo a que não damos<br>importância quando estamos aqui. Muita gente tem o sonho de morar fora, já eu só quero<br>ter minha vidinha aqui, entende? Conseguir acabar a faculdade de Medicina, passar na<br>residência e achar alguém para compartilhar a vida…<br>— Fácil pra você, né? Quero dizer, você é superinteligente. Vai tirar de letra.<br>—Sim, nessa parte eu me garanto. Daí só vai faltar a parte em que eu preciso de alguém<br>para dividir minha felicidade — diz, com um sorriso quase mágico no rosto.<br>Encaro os olhos verdes dele. Como brilham.<br>— É... logo, logo, você acha.<br>Como sempre, dou um jeito de quebrar o clima. Por que eu tinha que nascer com o dom de ser uma eterna estraga prazeres? Por que era tão difícil ser como aquelas mulheres de<br>filmes que sempre sabem o que dizer? Por que eu não podia inclinar a cabeça<br>delicadamente, piscar os olhos, e dizer um “Own”? Por quê, Deus?<br>— Talvez eu já tenha achado — diz ele.<br>E me beija. De novo. E de novo. A noite inteira…<br><br>Ok. Eu estava cada dia mais caidinha pelo Tiago e isso não era algo que eu quisesse admitir<br>em voz alta. Mas a minha mãe percebeu. Ah, elas sempre percebem.<br>— Isabela, você? Lavando a louça?<br>—Que foi, mãe? Quero te ajudar. Você deve estar cansada, trabalhou o dia inteiro. Qual<br>o problema dessa casa, hein? Não posso nem lavar uma louça que já escuto julgamentos.<br>— Você está lavando a louça. Lavando a louça. Enquanto cantarola uma música<br>baixinho. Isabela?<br>— E daí? Para, mãe!<br>— Isabela?<br>—Tá bom, mãe. Eu acho que tô começando a gostar de sair com o Tiago. Não te contei<br>antes porque fiquei com medo de quebrar a cara, mais uma vez, só que agora acho que já<br>passamos dessa fase.<br>— Tem certeza? Eu não sei se aguento uma Isabela pós-decepção de novo. O mau<br>humor já estava contagiando até o seu gatinho. Pobrezinho. Estava tão estressado que<br>arranhou o sofá todinho.<br>—O Fred é doido, deixa ele. Relaxa, mãe. Acho que, desta vez, não estou errada quanto<br>ao Tiago. Ele está sendo bom para mim. Ponto.<br>— E...?<br>— E o quê?<br>— Não vai dizer que ele é o seu príncipe? Estou esperando.<br>—Há-há. Como você é engraçada! Já pensou em participar daquele programa da Globo,<br>Zorra total? Acho que seria um sucesso.<br>— Só estava conferindo. Você finalmente aprendeu a sua lição. Príncipes não existem.<br>Sorri e dei um abraço demorado nela. Minha mãe se preocupava com minha sanidade<br>mental, afinal, que tipo de filha é essa que não consegue dar certo com ninguém? Que não<br>consegue gostar de ninguém? Isso não é uma filha, é um androide.<br>Quando eu era mais nova ela se preocupava tanto comigo que me levou a<br>uma psicóloga. “Tem algo errado, filha. Você só vai conversar com ela, ver se está tudo<br>certo. Não vai demorar, prometo.” E eu me sentei à frente de uma desconhecida que<br>insistia em saber detalhes sobre mim. Nome, idade, como foi a infância, quais são seus<br>medos, sonhos, pessoa que admira. Desenhe um círculo. Agora uma árvore. Era aula de<br>desenho? Caso fosse, eu já estava reprovada. Não sabia nem desenhar boneco palito. O que<br>vem à sua cabeça quando pensa em amor verdadeiro? Eu . O que a palavra tristeza<br>significa? Algo temporário. Por Deus. Que tipo de perguntas eram essas? Sinceramente. Eu<br>seria uma psicóloga melhor. Ah,seria.<br>No fim das contas, ela disse à minha mãe que eu não tinha nenhum problema sério. Que<br>era uma garota que se desapegava fácil das coisas quando percebia que me faziam mal, e<br>que isso, por um lado, era bom. Muito bom. Talvez por algum acontecimento da minha<br>infância eu houvesse amadurecido além do habitual.<br>Minha mãe ficou mais tranquila. Ufa! Sua filha não tinha nenhuma anomalia. E ela<br>poderia voltar a viver normalmente.<br><br>Meu telefone toca. Que diabos de número é esse? Só pode ser o Pedro. Resolvo atender.<br>— Hello.<br>— Isa?<br>— Eu mesma, Pê! Que saudade que eu estava de você!<br>— Sério? As mensagens não lidas no seu Facebook dizem o contrário.<br>— Ah, você mandou algo? Eu tô meio sem tempo, sabe como é, faculdade apertada...<br>Não vi mesmo. Desculpa.<br>— A-hã. Tiago apertando.<br>— Também. Ei, como você sabe que eu ainda tô com ele? A Amanda, aposto.<br>Fofoqueira.<br>— Que nada! O Tiago mesmo me contou esses dias. Disse que tá “te curtindo” muito.<br>— Me curtindo? Mais o quê? O que ele disse de mim? Me conta?<br>— E desde quando você se importa com o que o Tiago pensa de você? Pensei que vocês<br>eram ficantes esporádicos. Sem compromissos. Sem sentimentos.<br>— Não, isso mudou. Ele mudou, sabia? Agora ele tá um fo-fo. Supermaduro,<br>supercavalheiro,superprin... Pê, que saudade de você!<br>—Hum. Mudou, então. Que bom. Fico feliz por vocês. Só te peço para tomar cuidado, o<br>Tiago não é lá flor que se cheire... Sério...<br>— Ai, Pedro, que mania essa sua, hein? Sempre quando eu tô feliz com alguém você<br>chega pra cortar minha onda, um saco!<br>—Eu sou um saco? Como seu amigo, achei que devia te alertar, só isso. Da próxima vez<br>eu deixo você se ferrar sem avisos prévios.<br>— Dessa vez eu não vou me ferrar. Para de falar como se já soubesse o futuro.<br>— Talvez eu saiba.<br>— Talvez você seja um idiota.<br>— Você tá insuportável hoje. Eu vou desligar, amanhã vou à praia com a Savanna e<br>preciso dormir agora, tô exausto. Boa sorte com seu príncipe encantado. Me convide para o<br>casamento. A gente se fala.<br>— Savanna? Quem? Peraí!<br>Ah, desligou. Que se dane. Idiota. Por que o Pedro tinha que ser um completo<br>babaca nas horas em que eu mais precisava dele? Poxa, o que custava ter me dito o que o<br>Tiago contou? Achei que amigo servia para isso, sabe, pra te contar as fofocas e coisas do<br>tipo. Não para te colocar para baixo quando você está voando alto. Fiquei irritada, p. da vida<br>mesmo.<br>Eu nunca interferia nos relacionamentos do Pedro, nem quando ele insistia em sair<br>beijando um monte de garotas por aí. Segunda-feira, Fernandinha da faculdade. Terça-feira<br>era dia da menina que trabalhava na loja da mãe dele. Quarta-feira era dia de videogame,<br>sem mulheres. Quinta-feira, ele buscava alguma garota perdida na agenda do celular.<br>Sexta-feira, ia à caça na balada. E, sábado, que antes era da Renatinha, agora, pelo visto,<br>pertencia à Savanna, que eu imagino ser uma loira, bronzeada, surfista, que assiste ao pôr<br>do sol ao lado dele. Ah, me poupe.<br>Passo a mão no telefone. Hora de ligar para a Amanda e ver se ainda está de pé nosso<br>encontro duplo hoje à noite.<br>— Mandy? Sou eu.<br>— Oi, amiga. Ia te ligar agora. Hoje tá de pé, né? Já avisei o Victor.<br>— Claro, tá sim.<br>— Tá tudo bem por aí? Tá com uma voz de choro.<br>— Tá tudo bem, aliás, não, não. Não tá não. Você acredita que o Pedro acabou de me<br>ligar e foi um idiota comigo no telefone? UM IDIOTA, AMANDA. Eu tô segurando pra não<br>chorar, de raiva, claro.<br>— Calma, Bela. Me explica direito isso. O Pedro não é assim.<br>—Ah, tinha a Savanna, sabe, a loira, alta, bronzeada, em quem ele deve estar enfiando a<br>língua no momento. E aí eles iam pra praia ver o pôr do sol. E eu e o Tiago somos o pior<br>casal do mundo, tipo, muito ruim mesmo. E o Tiago vai me decepcionar, vai. E a Savanna<br>não vai decepcionar ele. Não, ela não!<br>— Bela, respira. Conta até dez e me conta de novo. Eu não entendi na-da. Quem é<br>Savanna? Céus!<br>Respirei fundo. Contei toda a história da nossa—singela—ligação telefônica. Quando<br>terminei, a Amanda riu. Isso mesmo, RIU. Belos amigos os meus, belíssimos. Eu estava bem<br>acompanhada.<br>— Tá rindo do quê?<br>— Não é tão na cara? — Agora ela gargalhava.<br>— O quê?! — perguntei, irritada.<br>— A Savanna e o Tiago.<br>— O que têm eles?<br>— Eles são legais, né?<br>— A Savanna é legal??? Traidora! Vou desligar.<br>Eu devo ter dito pra Jesus desapegar, só pode. Só isso explicava a série de<br>acontecimentos na minha vida. Pelo menos eu ainda tinha o Tiago, meu pequeno riacho de<br>sanidade no meio dessa loucura que vivo.<br>Combinei com a Amanda que ela e o Victor viriam me buscar e que daqui de casa<br>seguiríamos para o restaurante. O Tiago tinha aula até tarde e chegaria um pouco atrasado<br>ao nosso jantar. Sem problemas. Eu entendia perfeitamente, futuro médico tem dessas, né?<br>Como completávamos um mês juntos, arrisquei escrever uma cartinha para ele. Nada<br>muito exagerado, apenas algo para ele lembrar que me fazia muito bem e que podia confiar<br>em mim. Eu tenho meu lado romântico, ok, tá certo que escondo isso da maioria das<br>pessoas, mas deixo vir à tona de vez em quando.<br>Demorei duas horas para conseguir arrumar meu cabelo do jeito que queria. Sabia que é<br>um saco ter o cabelo liso-boi-lambeu? Vocês, que têm cabelo cacheado ou crespo, acham<br>que a gente que tem cabelo liso é feliz? Pois eu digo: não. O que eu não fazia por duas horas<br>de cachos nas pontas, ou até um pouco de frizz para dar um movimento? Ou pra conseguir<br>colocar uma tiara sem que ela ficasse caindo na minha cara de cinco em cinco minutos?<br>Aposto que a Savanna tinha frizz. Vaca.<br>Chegamos ao restaurante por volta das sete. Estava uma noite incrível, de lua cheia,<br>assim como no dia em que saí com o Tiago daquela outra vez. Achei poético.<br>Enquanto o papo se desenrolava na mesa, cada vez mais a ausência do meu<br>acompanhante pesava o ambiente. Oito horas. Ele disse que às oito estaria aqui. Apertei<br>a carta que estava dentro da bolsa. Não faça com que me arrependa de ter confiado em você,<br>por favor, desejei baixinho.<br>Nove horas. O Victor estava claramente preocupado com a situação e não parava de<br>lançar olhares piedosos para mim.<br>—E aí, ele mandou alguma mensagem? Deve estar agarrado no trânsito. Juiz de Fora tá<br>um caos ultimamente...<br>— Ele não me respondeu até agora — desabafo.<br>Mandei duas mensagens. Nenhuma obteve resposta. Sequer foram lidas. Tentei ligar,<br>desligado. O meu estômago já sabia que tinha algo errado; ele não parava de se remexer,<br>como se quisesse pular para fora do corpo. Não suportava mais se decepcionar. Eu sabia que<br>era isso.<br>— Hum... A bateria pode ter acabado, né? — Amanda tenta ser positiva.<br>—Acho que não, Mandy. Vamos pedir a comida, sim? A noite não vai acabar por isso—<br>minto.<br>A noite já estava acabada. Eu estava acabada. Acho que não conseguiria comer nem um<br>grão de arroz quando o jantar chegasse. E sabe o que era pior? Eu conseguia escutar a voz do<br>Pedro, vindo lá da Austrália, me dizendo: “Viu? Eu disse. Eu disse, Isabela. Eu sempre sei de<br>tudo”. Maldito.<br>Estava com uma raiva maior ainda agora. Tudo estava tão perfeito, tão certinho, que eu<br>nunca imaginei que pudesse me decepcionar tão cedo. Tá, tudo bem. O Tiago pode ter<br>sofrido um acidente (céus, bate na boca), estar em coma em um hospital, e eu aqui<br>pensando essas coisas. Ele pode ter sofrido um AVC enquanto tomava banho para vir me<br>encontrar. Pode ter furado o pneu e ter ficado parado em algum lugar escuro da cidade.<br>Pode também ter sido sequestrado por bandidos que desejavam arrancar seus rins para<br>vender no mercado negro, ou por, sei lá, alienígenas monstruosos atrás de humanos indefesos...</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-06-03 17:03:09 UTC</pubDate>
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         <title>10°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
         <link>https://padlet.com/lalorraine79/felmi2qw2vy4/wish/265229026</link>
         <description><![CDATA[<div>Tem dias que dá vontade de sumir do mundo, evaporar, virar uma partícula de poeira e<br>me esconder quieta em algum cantinho escuro do meu quarto. Sozinha. Hoje eu estava<br>assim, exatamente assim.<br>Quando o coração aperta, eu tenho essa mania estranha de querer me fechar no meu<br>mundinho. Não gosto que as pessoas enxerguem esse meu lado, o lado sensível. Sei lá. Não<br>por medo de parecer fraca. É receio de que alguém perceba que sou superfrágil e que me<br>quebro com facilidade. É só encostar e lá estou. Toda rachada, precisando de reparos<br>urgentes. Chame isso do que quiser. Covardia? Talvez. Eu sou mesmo covarde quando se<br>trata de assumir o sofrimento em voz alta.<br>Por que as pessoas não cansam de se decepcionar? O que nos motiva a acreditar outra<br>vez? Por que não podemos simplesmente ser racionais e deixar a emoção um pouco de<br>lado? Eu tento, juro que tento. Meu cérebro se cansa de mandar mensagens ao meu coração<br>pedindo que tenha calma. Me diz: e ele escuta? É surdo. Surdinho. Ele não escuta nada. Já<br>sai atropelando, passando por cima, querendo nova dose de sentimento. Só mais uma.<br>Sempre mais uma. E tá, admito, eu sempre assino embaixo. Fazer o quê? Eu adoro<br>embarcar em novas aventuras, poxa, como eu gosto. Coisa de sagitariana, acho. A gente tá<br>sempre procurando por algo que dê um frio na barriga. Nem que precise andar em uma<br>montanha-russa, subir, subir, com a certeza de que daí a alguns segundos a queda será<br>fatal.<br>Racionalidade não tem mesmo nada a ver comigo. Pensar antes de se entregar?<br>Também não. Analisar os riscos antes de se jogar do abismo? Muito menos.<br>Eu sou apaixonada por pessoas. Por sentimentos. Por emoções. Sou apaixonada por tudo<br>aquilo que faça o meu coração vibrar. E nisso se inclui o sofrimento. Sofrer é poesia.<br>Inspira. Quem sofre pode se renovar. É como a transformação da lagarta em borboleta.<br>Tudo começa com um ovo de borboleta que é posto em uma folha de árvore. Desse pequeno<br>ovo sai uma lagarta que, pouco a pouco, vai tecendo seu casulo com os fios de seda que<br>produz. Ela precisa se esconder de tudo e de todos. Precisa de um tempo. A lagarta<br>permanece dentro desse casulo, frio e seco. Preparada para cair. Demora semanas, às vezes<br>até meses, mas esse casulo se rompe. E de lá sai uma linda borboleta, pronta para<br>impressionar quem quer que a veja com seu brilho e suas cores vivas.<br>É mais ou menos assim que acontece com a gente. Precisamos nos permitir sofrer. Não<br>adianta vestir um sorriso no rosto e dizer às pessoas que está “tudo bem”, porque não está.<br>Você sabe que não está. Fugir do sofrimento é adiar o inadiável. É fugir do próprio reflexo<br>no espelho. Quem foge do sofrimento não o supera. Retém. E o nosso coração é pequeno<br>para abrigar mágoas. O meu, por exemplo, tem três quartinhos. Três quartinhos que eu<br>espero alugar para o amor e mais alguns sentimentos gostosos. Hóspedes tranquilos que<br>me tragam paz.<br>Sabe o que é fantástico? Perceber que ainda existe gente no planeta que se importa. No dia<br>em que o Tiago me abandonou no restaurante, pedimos o jantar e, quando os pratos foram<br>colocados na mesa, não consegui conter as lágrimas. Corri para o banheiro, seguida de uma<br>Amanda que não sabia se me consolava ou se falava pela milésima vez que o Tiago era um<br>idiota, que eu o deixasse para lá. Lembro que fiquei um bom tempo no banheiro, sentada<br>em um daqueles sofás que um dia, tenho certeza, já acomodaram outra garota com o<br>coração partido. Enquanto me permitia sofrer por uns minutos, fui surpreendida pela moça<br>que era responsável por limpar o local. Ela disse:<br>— Menina, seja o que for que estiver sentindo, sinta. Se permita sentir. Lágrimas são<br>sentimentos que saem do corpo. Ruins, bons. Nós somos pequenos demais, sabe? E às vezes<br>não cabe tanta coisa aqui. Então despejamos um pouco em forma de lágrimas. Chore.<br>E me deu um abraço. Um abraço que durou mais de vinte segundos. Sabe o que isso<br>significa? Li em algum lugar que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de<br>três segundos. Nós nos abraçamos uns aos outros rapidamente e logo damos um jeito de<br>soltar os braços, sem graça por essa demonstração de afeto tão grandiosa. Entretanto,<br>alguns pesquisadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço dura vinte segundos,<br>ou mais, há um efeito terapêutico sobre o corpo e a mente. A razão é que esse abraço<br>sincero produz um hormônio chamado oxitocina, também conhecido como hormônio do<br>amor. Essa substância traz muitos benefícios para a nossa saúde física e mental; nos ajuda a<br>relaxar, nos faz sentir seguros e acalma nossos medos e ansiedades.<br>Esse maravilhoso calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma<br>pessoa em nossos braços, uma criança, ou nossos bichos de estimação, ou ainda quando<br>estamos dançando com o nosso parceiro ou fazendo papel de ombro amigo nas horas<br>difíceis. Como essa moça fez comigo. O abraço sincero dela mudou a minha noite e eu,<br>mais uma vez, tive esperanças de que existam pessoas que se importam por aí. Elas só estão<br>escondidas.<br>Algo muito curioso que eu aprendi sobre a decepção é que não adianta culpar o outro.<br>Enquanto a Amanda balbuciava quão canalha o Tiago era, eu só conseguia pensar: “E eu?<br>Não fui uma tola? Ingênua?”. Por Deus, eu escrevi uma cartinha para ele e nós nem<br>namorados éramos. A culpa dessa frustração era completamente minha, ah, era. Por<br>acreditar demais. De novo.<br>O pior disso tudo era estar distante do Pedro, sabe? Ainda me lembro do dia em que o<br>conheci. Aquela fatídica noite em que eu estava enfrentando uma das maiores decepções da<br>minha vida.<br><br>Quem diria que aquele garoto antipático ia se importar em saber o motivo da minha<br>tristeza e entrar na minha vida de forma permanente? O destino é mesmo<br>um engraçadinho.<br>Passo a mão no celular. Hora de deixar o orgulho de lado.<br>Atende. Atende. Por favor, me atende.<br>— Alô? Pedro?<br>— What? — responde uma voz feminina do outro lado da linha.<br>Em inglês. Legal.<br>— Ah, oi. Eu queria falar com o Pedro, ele está?<br>Eu não faço a mínima ideia sobre por que eu estou falando português com uma<br>australiana. Logo, dou um jeito de ressuscitar meu inglês adormecido e peço que ela chame<br>o Pedro. Claro que ela diz que ele não está. Não é uma maravilha? Já estou quase desistindo<br>quando escuto uma voz dizendo, ao fundo, que ela passe o telefone para ele. Meu coração<br>para. É o Pedro!<br>— Oi? Desculpa. Eu estava no banho, aqui tá um calor de matar. Isa?<br>— Como você sabe que sou eu?<br>Sério. Como ele sabe?<br>— Eu sei de tudo. Esqueceu?<br>Pela voz dele, nós não estamos mais brigados. Isso é um alívio.<br>— Ah...<br>As palavras começam a escapar. Eu tenho tanto para falar... Sinto como se minha mente<br>fosse ressetada de repente. Culpa da maldita gringa que atendeu o telefone. Eu esperava que<br>o Pedro atendesse de imediato e não que estivesse no banho, enquanto sua Savanna estava<br>deitada na cama dele, aguardando-o para outra rodada. Essa cena me desconcertou. Não sei<br>por quê.<br>— Isa? O que aconteceu? — pergunta o Pedro, preocupado.<br>Tomo fôlego e desato a falar.<br>— Aconteceu que tudo aconteceu. A Savanna aconteceu, apareceu, e fez você brigar<br>comigo. Te levou pra praia, vocês estenderam uma canguinha brega com uma estampa da<br>bandeira do Brasil e tiraram fotos pra guardar para a posteridade. Depois eu fiquei me<br>sentindo uma idiota porque quem era a Savanna perto do babaca do Tiago, né? A Savanna<br>comparecia aos jantares de vocês, e ela sorria e acenava, enquanto vocês passavam a<br>imagem de um casal perfeito. O Tiago sequer respondeu às minhas mensagens, e tá, eu<br>escrevi uma cartinha idiota para ele, foi idiota mesmo. Mas eu gosto de escrever, você sabe.<br>E eu gosto de me apaixonar, não que eu tenha me apaixonado, eu só estava gostandinho um<br>pouco, entende? Eu achei que ia me apaixonar. DE NOVO. Eu caí na minha maldição do Filme<br>da Isabela de novo e, pra piorar, como sempre, você me avisou muito antes de acontecer. E<br>eu te odiei, ah, odiei mesmo. Eu desejei baixinho que a Savanna tivesse chulé ou algo do<br>tipo. Que ela roncasse, sei lá, algum defeito que fizesse dela uma humana, ou que fosse tão<br>ridícula como os caras que eu arrumo. Porque só assim pra eu parar de me sentir a pior<br>pessoa do mundo, que só se relaciona com as outras piores pessoas do mundo. E eu fiquei com saudade de você,só que não podia te ligar antes, porque, né?, você foi um estúpido. Um<br>estúpido que só disse a verdade. É que ouvir a verdade dói, não acha? Agora eu tô aqui.<br>Deixei o orgulho de lado, resolvi te ligar e o que me aparece? A Savanna nua, na sua cama,<br>atendendo telefonemas. Enquanto você toma um banho refrescante. Ah, por favor.<br>E ele ri descontroladamente. Demasiadamente. Fica uns dois minutos gargalhando<br>alto, sem brincadeira. Enquanto eu encaro, estática, o telefone, à espera de uma resposta, o<br>Pedro ri. E ri. E ri ainda um pouco. E eu não entendo qual é a graça. Será que minha vida<br>está tão patética assim?<br>— Pedro? Sério. Se você continuar rindo eu vou desligar e não ligo de novo tão cedo.<br>— Ai, ai. Espera, espera. — E ri mais um pouquinho. — Então, é que eu não te aguento.<br>— Não me aguenta? Hein?<br>Minha voz está alterada, que se dane.<br>— É que você é muito bonitinha.<br>E aí quem não entende nada sou eu. Bonitinha? Bonitinha? Eu estou aqui abrindo meu<br>coração, desabafando tudo de ruim que vem acontecendo na minha vida e ele diz que isso é<br>bonitinho? Bonitinho seria se eu estivesse com um gostosão australiano. Isso, sim. O que<br>está acontecendo na minha vida é horrível. Uma catástrofe mesmo.<br>— Bonitinha? Você só pode estar de brincadeira comigo. Eu tô aqui sofrendo, será que<br>podemos focar nisso?<br>— Tá, tá. Primeiro: eu não estendi uma canguinha brega com a bandeira do Brasil na<br>praia com a Savanna. Nem tiramos fotos para a posteridade.<br>— Mas enfiou a língua na boca da Savanna!<br>— Isabela.<br>— Pedro, pode me falar. Você não tem culpa de ter uma vida amorosa melhor do que a<br>minha, sabe? Eu já estou acostumada. A Amanda tá lá superfeliz, e eu fico feliz por ela. E se<br>você estiver feliz, eu vou tentar ficar também. Apesar de achar essa Savanna uma metida,<br>acredita que ela nem me respondeu direito no telefone? Ela se fez de desentendida. Pff.<br>—Isa, esquece isso de Savanna. Ok? Deixa eu te dizer uma coisa... Eu sei que você deve<br>estar se sentindo sozinha aí,sem seu melhor amigo por perto pra te alegrar e tudo o mais.<br>Ele faz uma pausa dramática para enfatizar que me alegra. Tá.<br>— Eu só te peço para aguentar até eu voltar. Será que você consegue? Ficar um tempo<br>sem se meter em roubada nem catar caras canalhas abandonados na rua?<br>— Sinto dizer, acho que não consigo. Eu sou um ímã pra esse tipo de coisa.<br>E era verdade. Até quando eu não queria me meter em roubada, eu me metia. E isso era,<br>tipo, quase sempre. Começava o dia pensando: “Hoje vai ser tudo normal, tudo numa boa,<br>na paz de Jah”. Mas sempre acontecia algo, como sair de casa sem guarda-chuva em um dia<br>de chuva, e de vestido branco. Acho que defini legal.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-06-03 17:41:44 UTC</pubDate>
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         <title>11°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
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         <description><![CDATA[<div>O dia amanheceu confuso. Primeiro, porque sonhei com o Gustavo. Peraí, Gustavo?<br>Era só o que me faltava. No meu sonho ele estava dando um dos seus famosos ataques de<br>ciúmes. Típico. Por um momento, até achei que fosse real e fiquei me perguntando: “Por<br>que eu namoro esse cara patético mesmo?”. Mas daí abri os olhos, olhei para o teto<br>estrelado do meu quarto (ganhei do Pedro ano passado, são estrelas adesivas que brilham<br>quando apago a luz! Ah, eu já disse que amo estrelas? Bem, eu amo. Amo mesmo) e vi que<br>não passava de um sonho. Ufa! Até nos sonhos o Gustavo era um saco.<br>Sorri. Lembrei-me do dia em que ele fez o maior auê porque um cara me chamou de<br>“loira gostosa” no meio da rua. Pois é.<br>— Gu, onde tá aquele CD que a gente gosta, hein? Não tô achando aqui no porta-luvas<br>— pergunto, em uma tentativa inútil de puxar assunto, visto que o bico dele devia estar<br>chegando na China, de tão grande.<br>Ele não responde.<br>— Gustavo, e aquele seu amigo, o Nilo? Terminou o namoro mesmo? — tento de novo.<br>Por que eu era idiota assim? Um mistério, certamente.<br>— Por quê? Tá a fim de ficar com ele? — responde, entredentes.<br>— O quê? Hã? Ficar com ele? Tô só querendo conversar,seu mal-humorado — retruco.<br>Ah, não. Sinceramente. Eu devo ter mandado Jesus Cristo desapegar, porque minha<br>vida não é nada legal. Não mesmo.<br>— Você que é vadia.<br>Incrível, não? Ele me chamou da palavra com “v”. Em alto e bom som. V-a-d-i-a. Eu era<br>uma v-a-d-i-a. Sabia que não existe nada pior do que ouvir da pessoa que você gosta uma<br>coisa dessas? É depreciativo, dói na alma. É como ouvir a sua mãe dizer que nunca te quis,<br>ou algo do tipo. Eu já não era loucamente apaixonada pelo Gustavo, só que isso me doeu<br>tanto, que eu tive vontade de morrer. Ali mesmo, no cantinho escuro do carro. Fiquei sem<br>reação, afinal, como se responde a uma ofensa dessas? Vou chamá-lo de idiota? Estúpido?<br>Nada se compara a um “vadia”. E por que diabos ele estava me chamando assim? O que eu<br>tinha feito? Eu estava a fim de conversar, poxa. Então eu pergunto:<br>— Vadia? Por que vadia?<br>Eu não consigo pensar em nada melhor para dizer e acabo por perguntar por que sou<br>uma vadia. Ok. Que se dane.<br>— Não se faz de boba, Isabela... — diz, áspero, com um sorriso sarcástico no rosto.<br>Eu odeio quando garotos são sarcásticos e debocham da nossa cara. Tudo bem, eu<br>admito, eu sou sarcástica na maior parte do tempo, mas, caramba, é um sarcasmo saudável,<br>só ironia bem-humorada, não faz mal a ninguém. Não era esse sarcasmo que diz não-se-faz-<br>de-boba-sua-ridícula-eu-sei-o-que-você-fez-no-verão-passado. E aí você se pergunta: “O que<br>eu fiz, hein?”. Será que foi naquele dia em que recusei a ligação dele quando estava no<br>cinema com a amiga? Ou no dia em que disse que queria ficar sozinha e fui dormir na casa<br>do Pedro para ver filmes da Disney a noite toda? Ah! Já sei. Ele deve ter descoberto que fui<br>eu que quebrei o vaso de porcelana do banheiro da casa dele no dia em que não conseguia<br>me enfiar num vestido um número menor que insisti em comprar. Mas vadia? Não&nbsp;<br>No fim de tudo, a gente se questiona: “Como eu suportei isso por tanto tempo?”. E eu<br>digo: “Porque você é mais forte do que imagina”. Sabe, todos esses anos que você passou<br>insistindo na relação com uma pessoa que não deveria, os anos que passou se machucando,<br>se decepcionando, dando a cara a tapa... eles não foram de modo algum anos perdidos.<br>Foram anos da academia da vida. Veja só, eu, de tanto cair, me tornei profissional em me<br>levantar com um sorriso no rosto e dizer: “Relaxa, gente. Foi só um tropeço de nada. Tá<br>tudo bem, viu?”. E realmente. Foi só um tropeço entre os muitos que vou tomar durante a<br>minha estadia aqui na Terra. Deixa pra lá, né?<br>Lembrar-se do passado com um sorriso no rosto é a prova de que o passado não te<br>machuca. Não mais.<br>Hoje eu estava assim.<br><br>Trim-trim-trim.<br>Oi? Que som era esse?<br>Trim-trim-trim.<br>Acho que o mundo real estava me chamando pelo celular.<br>— Isa! Nossa,será que você pode atender esse telefone ao menos uma vez?<br>Reconheço a voz do outro lado da linha, é a Amanda.<br>— Mandy, desculpa. Estava com a cabeça no mundo da lua. O que você manda? —<br>respondo, enquanto observo o Frederico olhar para “o nada” com aqueles olhos verdes<br>esbugalhados.<br>Às vezes, eu juro que esse gato vê coisas que eu não vejo.<br>— Vamos fazer uma noite das meninas hoje? Li no Facebook que você alugou um<br>montão de vídeo, o Victor viajou e eu pensei que nós poderíamos comer e chorar juntas<br>vendo filmes. Que tal?<br>— Claro, mas sem a parte do choro, por favor. Não aguento mais chorar.<br>Eu havia alugado todos os meus filmes preferidos de todos os tempos. Tá, eu adoro ver<br>de novo filme que já vi. E daí? Isso não faz de mim uma pessoa estranha. Ou faz? É que eu<br>gosto de assistir sabendo como termina, entende? Me dá uma agonia enorme quando vejo<br>um filme pela primeira vez e não sei se o mocinho vai ficar com a mocinha, se eles vão ser<br>felizes para sempre, se todos se casam no final, se o mundo vai ser salvo, sabe? Não que eu<br>ache que sempre tenha de haver finais felizes. Mas dá um conforto no coração se a gente<br>sabe que vai dar tudo certo. Já que na vida tudo é tão incerto, pelo menos na tela o final<br>nunca muda. E os personagens podem ser felizes toda vez que assisto.<br>Quase tudo que eu sei sobre o amor aprendi com meus filmes e livros preferidos. E não<br>me leve a mal, é que eu nunca vivi um amor para saber como é. Então, é justo procurar<br>saber um pouco mais sobre ele no que vejo por aí. Quanto mais conheço sobre o amor,<br>percebo que menos sei. Parece que ele é uma pequena partícula de nada, que muda a cada<br>segundo de forma e de lugar. Quer dizer, o amor existe mesmo? Ou é uma das teorias de<br>conspiração espalhadas pelo mundo? Vai saber...<br>O problema é que eu sei que o amor existe, sei sim. Sei que o amor existe quando vejo<br>um noivo se emocionando ao olhar sua noiva entrando pela igreja. Sei que o amor existe<br>quando olho para a minha mãe e tenho vontade de arrancar o coração fora de tanto carinho<br>e ternura. Sei que o amor existe quando os olhinhos do meu pai brilham de orgulho ao falar<br>sobre mim. Sei que o amor existe quando dou comida ao Frederico e ele se esfrega em mim<br>como agradecimento. Eu sei. Ele, o amor, existe. Só insiste em fugir de nós.<br>Um filme que me marcou muito foi (500) dias com ela. Eu me identificava bastante<br>com a Summer e acho que desde o início compreendi o que ela sentia. A gente se preocupa<br>com rótulos, com o futuro, com as coisas certas, e isso cansa. Se vivêssemos mais<br>despreocupados talvez fôssemos — e nos permitíssemos ser — bem mais felizes. A Summer<br>era feliz do seu jeito. Sem se apegar a qualquer um só porque esse um lhe fazia bem, qual é?<br>Achar alguém que nos faça bem é fácil. Difícil é achar alguém que faça o nosso coração<br>bater forte. O que aconteceu com o Tom, personagem do filme. O amor pode ser unilateral,<br>sabia? Eu aprendi isso com (500) dias com ela.<br>E mesmo que você morra de amor, ainda é possível nascer de novo. Com o amor não<br>tem essa de ter fim após a morte. Morrer de amor é renascer para um novo amor.<br>Assim que acabamos de ver esse filme, Amanda estava revoltada.<br>— Não entendo. Como ela não consegue amar um cara como o Tom? Ele é tão…<br>perfeito — diz, enquanto observa a capa do DVD com os olhinhos semicerrados.<br>— Ah, não é bem assim. Ele não era o cara certo para ela — rebato.<br>— Ele é o cara certo para qualquer garota, Isabela. Fala sério!<br>—O certo para você às vezes não é o certo para mim. E o perfeito para uma pessoa pode<br>ser muitas vezes o imperfeito, entende?<br>— Não. Não entendo. Ainda acho que ela é burra.<br>—Eu acho que ela é fantástica. Não é fácil resistir ao “perfeito”, sabe? Ela sabia que ele<br>era tudo de melhor que ela poderia ter, um rapaz que, com certeza, faria de tudo para fazê-<br>la feliz. Mas ela queria algo mais. Algo que a emocionasse de verdade.<br>— Meu Deus, louca. Louquinha. Eu nunca recusaria um homem desses na minha vida.<br>Sorri. Eu sabia disso. Amanda Akira era o tipo de garota que minha mãe se orgulharia<br>de ter como filha. Gostava das coisas certas, ajeitadas conforme deviam ser. Arrumar um<br>bom “futuro marido”, um rapaz decente, trabalhador, que fizesse bem a ela… isso bastava.<br>Esse papo de que ele devia fazer seu coração bater mais forte e causar a estranha sensação<br>de frio no estômago era balela. Papo pra boi dormir.<br>Segundo minha mãe, “livros são ilusões de como o amor deveria ser. E não de como ele<br>realmente é”. Discordo, pois como seria criada a ilusão sobre o amor ideal por alguém que<br>nunca viveu nada daquilo? Só consegue descrever o amor puro e límpido alguém que já o<br>viveu de todas as formas. E eu acredito, acredito mesmo, nos poemas e nas histórias que vi<br>por aí. Sei que elas aconteceram e marcaram a vida daqueles que as escreveram.<br>A Amanda encontrara seu porto seguro. Ele não a fazia morrer de amor, não que ela<br>estivesse disposta a isso. Ele lhe dava segurança, e isso, para ela, era a idealização do que o<br>amor deveria ser. Achei que não deveria discordar, afinal, e se ela estivesse mesmo certa? E<br>se minha mãe estivesse certa? Que eu nunca vou achar alguém que faça o meu coração<br>acelerar como se estivesse a 200km/h em uma infinita highway?<br>Pensar nisso me fez lembrar o dia em que surgiu a expressão Filme da Isabela, lá no<br>sítio da Amanda. Nesse dia, quando o Pedro e a Amanda foram dormir, eu continuei<br>sentada na varanda esperando que o sol chegasse para me fazer companhia. O céu estava<br>maravilhoso, numa mistura de tons rosados e azuis formando um espetáculo inacreditável.<br>Quis ser capaz de voar e sentir, só por alguns minutos, a sensação que os apaixonados<br>descrevem como “pisar em nuvens”. Enquanto me encontrava absorta em pensamentos<br>sem sentido,senti alguém se acomodar a meu lado no banco de madeira duro e frio.<br>Era o Pedro. Pedro Miller era um garoto que escondia mais do que mostrava. Apesar de<br>ser meu melhor amigo, eu ainda achava que sabia bem pouco sobre ele. Todo esse lance da<br>separação da sua família, do irmão gêmeo que ele só conhecia por fotos, do ódio pelo pai e<br>por tudo que ele passou o fizeram crescer em um casulo. Como se tivesse de se proteger o<br>tempo todo de um eventual ataque. Mas tinha momentos em que ele se permitia sentir. E<br>eu intuía que esse era um desses momentos.<br><br>— Tá fazendo o que acordada ainda, branquela? — diz ele, com um sorriso forçado no<br>rosto.<br>Sei disso porque os olhos tristes não me enganam.<br>— Sem sono — retruco, ainda deslumbrada com o céu rosado.<br>— Hum. Tive um pesadelo e resolvi vir tomar um ar. Só não esperava encontrar um<br>pontinho loiro bêbado sentado aqui fora. Tá com frio?<br>— Eu tô.— E, assim que digo isso, ele começa a tirar seu casaco de couro para me dar,<br>provavelmente. — Não, não. Não preciso do casaco. Eu quero sentir frio.<br>— Hã? Tá louca? Põe esse casaco logo, Isa — responde ele, enquanto tenta empurrá-lo<br>para cima de mim.<br>— Não, é verdade. Eu gosto de sentir frio. Me faz perceber quão vulnerável eu sou. E<br>quem sabe então eu não sinta alguma coisa percorrer o meu corpo.<br>— Como assim?<br>O casaco agora jaz perto de nós, nos separando por alguns centímetros.<br>—Sei lá, sabe, eu não tô bêbada mais. Tô falando sério. Eu não sinto nada, Pedro. Nada<br>mesmo. Eu sempre tento sentir, faço de tudo pra que uma pontinha de sentimento<br>esquente o meu corpo. Ela nunca vem. E eu não sei o porquê ou o que eu fiz para merecer isso. Ou não merecer, no caso. — Sorrio, infeliz. — Entende?<br>— Nossa, profundo, branquela. Acho que vou experimentar um pouco disso também.<br>E nós dois passamos exatos vinte minutos em silêncio, olhando o nada, escandalizados<br>com o show que o sol dá ao nascer.<br>— Tá pensando no quê? — ele interrompe o silêncio.<br>— Nos seus olhos — digo,sem pensar.<br>Merda, merda, merda. Isso de falar a primeira coisa que vem à minha mente qualquer<br>hora vai me fazer entrar em uma encrenca, das piores.<br>Ele vira e me encara. Sem dizer uma palavra.<br>— Quero dizer, em como seus olhos são bonitos, entende? Eles são azuis, e azul é uma<br>cor, tipo, muito linda. Queria eu ter olhos azuis como os do meu pai e como os seus, só que<br>os meus são castanhos, e castanho é muito sem graça, né? — tento suavizar.<br>Eu e minha mania de sair falando igual a uma louca quando fico nervosa.<br>Ele sorri.<br>— Ahã. Azul é muito bonito, mesmo. Então você gosta dos meus olhos?<br>E, nesse momento, eu pude jurar que ele estava flertando comigo. Não, não. Nós éramos<br>melhores amigos e eu estava carente. Não deixe sua mente te pregar peças, Isabela.<br>—Então é assim que você conquista todas aquelas garotas, né? Juro que pude visualizar<br>a cena de você falando isso pra uma de suas ficantes abestalhadas.<br>— Não exatamente.<br>— Hã? — pergunto.<br>—A diferença é que eu não me importo mesmo se elas gostam ou não—responde ele,<br>dando de ombros, enquanto acende um cigarro.<br>— Como assim?<br>— Deixa para lá. Um dia você entende. Que visual maneiro — divaga, mudando de<br>assunto. — Nem dá vontade de dormir.<br>— Verdade... Pedro, você já sentiu como se estivesse “pisando em nuvens”?<br>— O quê? De onde surgiu isso? — E ri. — Você tem cada pergunta…<br>—É que eu li um livro em que a personagem principal fala que “amar é como pisar em<br>nuvens”, e eu queria saber como é essa sensação. Estava pensando nisso um pouco antes de você chegar.<br>Ele respira fundo,solta a fumaça do cigarro:<br>— Bom,se é essa a sua pergunta, não, eu nunca amei ninguém.<br>Me viro para ele, espantada.<br>— Nunca? Nunquinha? Mas você já ficou com tantas garotas, e poxa, achei que já<br>tivesse pelo menos se apaixonado por uma delas. — Eu realmente pensava isso.<br>Como se chamava aquela menina mesmo? Helen. Ele até chorara por ela uma vez.<br>Então ele se vira para mim e me encara, franzindo o cenho.<br>— Isso é sério, Isabela. Se apaixonar, todo esse lance de amor, sei lá. Acho que não é<br>para mim. Eu nunca aprendi como é isso e duvido que um dia consiga aprender.<br>— Ah, eu também. — Sorrio, meio que encorajando-o. — Relaxa. Um dia você se<br>apaixona, tenho certeza.<br>— Você fala como se todo mundo quisesse isso.<br>— Eu quero isso. Você não?<br>— Você idealiza muito esse lance de amor, paixão, histórias de filme, livros. Eu, por<br>outro lado, já aceitei que isso não existe e aceitei viver assim. Sozinho.<br>—Não entendo por que você se fecha tanto no seu mundinho—emendo,resolvendo ser<br>sincera.<br>Afinal, não era isso que estávamos tendo agora? Uma conversa sincera?<br>— No meu mundinho? O que você quer dizer com isso? — Ele se espanta.<br>Poxa, e lá foi outro cigarro do seu maço amassado de Marlboro vermelho.<br>— É, no seu mundinho. Eu sinto que, por mais que eu te conheça e seja sua melhor<br>amiga há anos, ainda não sei nada sobre você. Como, por exemplo, todo esse lance da sua<br>família, de você ter sido separado do seu irmão gêmeo quando vocês tinham um ano. A<br>briga dos seus pais eu nunca entendi. Sei lá, você não desabafa sobre isso, e poxa, eu<br>desabafo sobre tudo o tempo todo contigo. Eu sinto como se você não confiasse em mim o<br>suficiente para abrir o coração... E eu odeio sentir isso.<br>— Isa, para com isso. Eu confio em você, mais do que em qualquer outra pessoa do<br>mundo, exatamente por você ser assim, coração aberto. Esse seu jeito de sair contando a<br>vida pra todo mundo, sem ter medo de dizer o que sente, é o que mais admiro. Me desculpa<br>por te fazer pensar assim. Nunca foi minha intenção. Quando se trata de sentimentos, eu<br>sou completamente oco e vazio. E é por isso que nunca falo deles.<br>— Tá, mas se um dia você sentir alguma coisa aí dentro promete que me conta?<br>Ele sorri. E dessa vez de verdade.<br>— Prometo. Se o “algo mais” aparecer, eu te conto.<br>Sorrio de volta.<br>Será que o nosso “algo mais” ia demorar?<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-06-03 18:11:00 UTC</pubDate>
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         <title>12°capítulo</title>
         <author>lalorraine79</author>
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         <description><![CDATA[<div>Aconteceu quando eu tinha oito anos de idade e ainda era um pontinho pequeno e<br>frágil na imensidão deste mundo. Baixinha, de bundinha arrebitada e perninhas grossas,<br>como dizia meu avô. A cabeleira loira terminava em cachinhos que pareciam feitos a mão,<br>apesar de serem apenas resquícios da infância que a cada corte de cabelo davam adeus. Os<br>olhos, sempre brilhantes, sonhadores e de um castanho profundo. Essa era eu; ou eu era<br>essa.<br>Sei que tudo começou em um domingo de sol. Três de janeiro de 1999. Fazia uns 27<br>graus aqui em Juiz de Fora, ou seja, estava calor pra caramba. Me lembro que havia contado<br>nos dedos os dias para que chegasse 3 de janeiro. Dezesseis longos dias. Mal consegui<br>pregar os olhos durante a noite da véspera, já que o tique-taque do relógio me lembrava,<br>com urgência, que a manhã estava chegando. Que ela estava chegando.<br>Me levantei e fui checar minha bolsa de suprimentos. Bonecas, um pacote de biscoitos<br>Passatempo, um saco de suspiros feitos pela minha avó e um livro de história que ela nunca<br>havia escutado. Tudo certo.<br>Corri até o quarto dos meus pais e entrei sem nem bater na porta.<br>—Pai! Pai! Acorda. Hoje é dia de ir pro clube!—eu disse, enquanto puxava a coberta de<br>seu corpo e pulava em cima da sua barriga macia (pelo menos, eu achava macia).<br>— Isabela, já tá acordada, menina? Por que isso, hein? Tá cedo demais — resmungou<br>meu pai, afagando os meus cabelos e me despenteando toda.<br>Minha mãe o encarou com um olhar sério, como se não acreditasse que ele tivesse<br>esquecido.<br>— André... é hoje que ela volta — explicou.<br>—Ah! Nossa, como me esqueci... Claro, claro. Já está pronta? Vou colocar uma roupa e<br>te levar pro clube,sim?<br>Retribuí com um sorriso. Eu amava meu pai.E não era só porque os pais são nossos<br>heróis ou coisas do tipo. Eu amava a paciência dele comigo e a sua dedicação. Eu sabia que<br>era um saco me levar ao Clube Cachoeirinha todo domingo para que eu pudesse me<br>encontrar com ela. Mas eu achava que isso fazia parte do que é “ser pai”, não é? Ficar feliz<br>com a felicidade do filho. Bem, eu gostava de pensar assim.<br>Nós sempre viajávamos juntas para Cabo Frio nas férias. Alugar uma van, arrumar as<br>malas, preparar as roupas de banho, acordar cedo e cair na estrada. E lá se passavam dias e<br>dias de muito sol, areia e protetor solar. Eu amava os nossos verões juntas. Naquele ano, no<br>entanto, o meu pai disse que estávamos com o orçamento apertado e perguntou se eu<br>entendia o porquê de não acompanharmos os Ferrari na viagem pra Cabo Frio. Tudo bem,<br>eu entendia. Seriam só alguns dias mesmo. Fiz com que ela prometesse que traria algumas<br>conchinhas da praia para mim e, em troca, eu levaria alguns suspiros feitos pela minha avó<br>para ela. Trato feito.<br>A Sara era minha melhor amiga. Sabe aquela amiga de infância que está presente em<br>todas as suas lembranças? Era o que ela representava pra mim. Sara era, decerto, uma das<br>criaturas mais diferentes que eu já tive o prazer de conhecer. Os cabelos eram negros<br>demais, sempre presos em um rabo de cavalo com uma fita vermelha. A pele era alva e os<br>olhos eram ora verdes, ora azuis. Eu nunca consegui distinguir direito a cor. <br>No primeiro dia em que a vi lá no Clube Cachoeirinha, junto com um menino no que eu<br>pensei que fosse uma espécie de brincadeira idiota — vencia quem ficava mais tempo<br>debaixo d’água—, fui logo puxando assunto. Desde pequena eu adorava puxar assunto com<br>desconhecidos.<br>— Sabia que você parece a Branca de Neve?<br>— Branca de quê? — disse ela, me encarando com seus olhos enormes.<br>Foi nesse momento que reparei nas sardas.<br>— Branca de Neve dos anões,sabe? Aquela do desenho!<br>Em que mundo as crianças não conhecem as princesas de contos de fadas? Essa garota<br>era no mínimo… estranha.<br>— Não, não conheço. Ei, Gabriel, você conhece a Branca de Neve? — ela perguntou<br>àquele que parecia ser seu irmão, apesar de ter cabelos loiros como os meus e ser<br>completamente diferente dela.<br>— Claro que conheço, Sara, é aquela dos anões, da banana envenenada...<br>— Maçã — corrigi, indignada.<br>— Isso, isso, maçã,sei lá — disse ele, dando de ombros.<br>— Ah, deixa pra lá — desisti de explicar.<br>Eles pareciam mesmo entender mais de brincadeiras na piscina do que de contos de<br>fadas.<br>Quando me virei para ir embora, ouvi a voz da menina me chamando.<br>— Ei, peraí, loirinha. Onde você pensa que vai? — perguntou, apontando o dedo<br>indicador na minha cara.<br>Onde eu pensava que ia? Voltar para onde tinha sombra e ler um livro, talvez?<br>— Uai, eu ia...<br>— A lugar nenhum. Agora você é minha amiga. Fica aqui pra contar o tempo que eu<br>consigo ficar debaixo d’água? Acho que o Gabriel tá roubando! Se você contar certinho, eu<br>até deixo você virar minha melhor amiga.<br>E por algum motivo eu não consegui dizer não àquela menininha de olhos claros e<br>cabelos negros. Na verdade, eu nunca consegui dizer não a ela.<br>— Meu nome é Isabela, mas pode me chamar de Bela.<br>— Meu nome é Sara, mas pode me chamar de Sara.<br>E nós duas rimos. Gargalhamos. Demos barrigadas de tanto rir. <br>E esse foi o início de uma verdadeira amizade.<br>Fiz com que aprendesse a gostar de me ouvir lendo. E disso ela gostava muito, quero dizer, das minhas histórias. Às vezes Sara tinha até dúvidas e me<br>bombardeava com suas perguntas sem respostas.<br>— Ei, Bela, para onde é que vão os vilões quando eles morrem, hein?<br>— Ah, sei lá, Sara. Deve ser para o céu dos vilões — respondi, prevendo que isso não a<br>deixaria satisfeita.<br>Que tipo de pergunta era essa? Eu lá sabia para onde iam os vilões?<br>— Céu dos vilões? Os vilões vão para o céu? Mas eles não são maus? — insistiu ela.<br>—São. Só que eles sempre se arrependem no final, então acho que eles merecem ir para<br>um céu piorzinho,sabe?<br>— Hum... entendi. E as princesas? Pra onde elas vão quando morrem?<br>— Durr. Princesas não morrem, Sara. Que pergunta boba!<br>— Onde é que tá escrito isso? Passa esse livro pra cá! — respondeu, arrancando das<br>minhas mãos meu exemplar novinho de Rumpelstiltskin e quase fazendo um rasgo na capa.<br>— SARA! Você quase rasgou o meu livro!<br>— Bububu. Você quase rasgou o meu livro, oh, céus, o que vou fazer da vida agora? —<br>debochou ela, fazendo uma imitação irritante da minha voz. — Calma. Já te devolvo. — E<br>começou a folheá-lo devagar.<br>Revirei os olhos. Como a Sara podia ser teimosa às vezes...<br>— Viu? Não tem nada escrito aí que as princesas não morrem. Elas vivem felizes pra<br>sempre,só isso — disse ela, triunfante.<br>— Então! Se vivem felizes para sempre quer dizer que não morrem.<br>Ahá! Dessa vez eu tinha pegado a Sara.<br>— Claro que não. Elas podem morrer e ainda assim viverem felizes para sempre. Lá no<br>céu das princesas.<br>Dei um sorriso. Eu gostava de quando a Sara, sem nem perceber, começava a inventar<br>histórias, assim como eu. Pra quem achava que livros eram revistas sem figuras, ela já<br>estava até que muitíssimo bem.<br>— É. Você tá certa.<br>— Eu sei, eu sempre estou.<br>Nossos domingos eram assim, sentadas na sombra de um antigo pinheiro do Clube<br>Cachoeirinha. Eu lia alguma história, enquanto Sara permanecia deitada de bruços,<br>apoiando a cabeça nas mãos e me encarando com aqueles olhos azul-esverdeados. Eu falava,<br>falava, falava. E ela escutava atentamente para, no final, claro, me encher de perguntas sem<br>pé nem cabeça.<br>Mas não nesse domingo. Não em 3 de janeiro de 1999. Porque a Sara tinha se esquecido<br>de mim.<br>Nesse domingo eu tive que comer todo o pacote de Passatempo sozinha (só o recheio) e<br>embrulhar os suspiros para levar de volta pra casa. Nesse domingo eu não ganhei as<br>conchinhas que haviam sido prometidas nem escutei histórias de como ela havia<br>(provavelmente) se machucado na praia. Nesse domingo não teve brincadeiras de quem<br>segurava mais o ar debaixo d’água nem passeios de bicicleta pela ciclovia. Nesse domingo<br>era só eu, nosso pinheiro e um lugar vazio a meu lado.<br>— Não! Não! Ela se esqueceu de mim, pai. Esqueceu. Deixa pra lá. Vamos pra casa.<br><br>Até hoje me lembro da cara de minha mãe quando chegamos em casa. Pálida, com lágrimas<br>nos olhos, como se tivesse envelhecido uns dez anos. Disse que precisava conversar a sós<br>com meu pai e olhou de relance pro meu irmão, como se eles já tivessem combinado algo<br>previamente. O Bernardo me levou para o seu quarto e perguntou se eu não queria mexer<br>no computador dele. Peraí, por que meu irmão de repente estava sendo legal comigo e<br>decidiu parar de fingir que eu não existia? Será que ele ficou sabendo que chorei lá no clube<br>e se sentia na obrigação de me agradar? Devia ser isso, tinha que ser isso, mas não era. Eu<br>disse que estava tudo bem e que não queria mexer no computador dele. Porém, alguma<br>coisa no meu estômago, e no olhar que minha mãe lançou ao meu pai, me dizia que tinha<br>algo errado.<br>—Vai ficar tudo bem —murmurou meu irmão, forçando um sorriso que mal repuxava<br>a pele de seu rosto.<br>E foi aí que eu soube que nada ficaria bem.<br>Corri pro meu quarto, me deitei e fiquei encarando o teto pálido, duro e frio. O que<br>estava acontecendo? Por que é que minha mãe estava com aquela expressão no rosto como<br>se tivesse visto uma assombração? Se tem uma coisa que aprendi é que quando estamos<br>muito tristes, muito doentes, ou muito “vazios”, dormir é o melhor remédio. Porque<br>dormir nos leva ao mundo dos sonhos. E lá podemos ser felizes de novo.<br>E aí eu caí no sono.<br>— Oi, princesa. Finalmente acordou — disse,sereno.<br>— Eu estava sonhando com a Sara. Você já falou com o tio Jorge? Diz que eu tô com<br>raiva porque ela não foi no clube me ver hoje.<br>— Filha. Senta aqui no meu colo, a gente precisa conversar.<br>E aí ele despejou um iceberg na minha cabeça.<br>Era 3 de janeiro de 1999. O dia em que minha melhor amiga morreu.<br>Assim, assim mesmo. Desse jeito. Sem nem dizer tchau, até logo, ou eu te amo. Ela se<br>foi e eu nunca mais a vi.<br>Naquela manhã em que eu a esperei em vão no clube, já tinha acontecido... Mal sabia<br>que, quando estendia a nossa toalha de piquenique, ela não estava mais neste mundo. Mal<br>sabia que as últimas palavras que eu trocaria com ela seriam apenas em sonho. Poxa vida,<br>por que as pessoas boas morrem? Por quê?<br>Sara estava certa. Princesas também morrem. A minha Branca de Neve... Eu não quis<br>saber detalhes do acidente. Um caminhão. Uma fatalidade. O carro deles virou uma lata de<br>sardinha. Os pais de Sara estavam gravemente feridos no hospital. O Gabriel estava em<br>choque, sem pronunciar uma palavra. Sara morrera dormindo. Assim como a Branca de<br>Neve. E eu, morri em vida. Ali, naquele dia.<br>Três de janeiro de 1999.<br>Por que o trem de algumas pessoas chega antes do horário marcado para o embarque?<br>Por que não podemos segurar as mãos de quem amamos e impedir que se vão? Por que não<br>temos a chance de dizer adeus? Por que somos acometidos de tristezas que não se curam<br>nem com o tempo?<br>Eu não tive a chance de dizer adeus a Sara. Na verdade, eu nunca vou poder dizer mais<br>nada a ela. Nem contar mais uma história. Nem responder às suas perguntas sem sentido.<br>Nem dizer que ela é uma chata. Nada, nadinha. A Sara agora estava no céu das princesas, e<br>eu estava destinada a me agarrar às memórias e lembranças dela, em uma tentativa inútil<br>de impedir que ela se fosse pra sempre.<br>Por dois anos me recusei a conhecer novas pessoas. Eu não queria conhecer novas pessoas.<br>A minha salvação veio de um livro empoeirado que achei na estante da casa da minha<br>avó, em 2001. A capa não era nada atraente: marrom, dura, comida pelas traças e com o<br>título apagado pelo tempo. Comecei a ler porque já tinha lido todos os meus livros três<br>vezes cada um e estava me cansando das mesmas histórias.<br>O livro começava narrando um conto zen sobre um mestre e seu discípulo. Dizia mais ou<br>menos o seguinte:<br>Os dois estavam a caminho da aldeia vizinha quando chegaram a um rio caudaloso e<br>viram, na margem, uma bela moça tentando atravessá-lo. O mestre zen ofereceu-lhe<br>ajuda e, erguendo-a nos braços, levou-a até a outra margem. E depois cada qual seguiu<br>seu caminho. Mas o discípulo ficou bastante perturbado, pois o mestre sempre lhe<br>ensinara que um monge nunca deve se aproximar de uma mulher, nunca deve tocar<br>uma mulher. O discípulo pensou e repensou o assunto; por fim, ao voltarem para o<br>templo, não conseguiu mais se conter e disse ao mestre:<br>—Mestre, o senhor me ensina dia após dia a nunca tocar uma mulher e, apesar disso, o<br>senhor pegou aquela bela moça nos braços e atravessou o rio com ela.<br>—Tolo—respondeu o mestre.—Eu deixei a moça na outra margem do rio. Você ainda<br>a está carregando.<br>E aí entendi a lição. Eu estava carregando a Sara por todos os lugares que ia. Ela era<br>pesada e estava se despedaçando a cada passo que eu dava. Eu precisava deixar que ela se<br>fosse.<br>O desapego não é indiferença, covardia ou desinteresse. O desapego é se libertar de tudo<br>aquilo que faz mal e causa sofrimento. Desapegar é sinônimo de se libertar. Soltar as<br>algemas. Colocar asas. Se permitir voar novamente. O desapego é a aceitação, é o<br>desprendimento.<br>As pessoas são, por natureza, apegadas. Nós nos apegamos a objetos, memórias e<br>pessoas. Nos apegamos a coisas que sabemos que terão fim... Veja só, me apego até a filmes,<br>que sei que duram apenas duas horas. E o que faço quando eles acabam? Assisto de novo. E<br>de novo. E de novo. Assisto tanto que decoro todas as falas. Até repetir tantas e tantas vezes as mesmas coisas, que elas começam a não fazer sentido algum. E é isso que fazemos todos<br>os dias. Nos torturamos com memórias que já foram, repetimos cenas, apertamos o replay<br>e não pensamos na consequência que isso pode nos trazer.<br>Não adianta tentar manter algo em sua vida que já não faz parte dela. E, eu sei, é difícil<br>aceitar o fato de que não podemos controlar o destino nem todo mundo ao nosso redor.<br>Deveria ser proibido que pessoas queridas fossem para o céu tão cedo, ou que aquele nosso<br>namorado tão legal nos deixasse para ficar com a vizinha. Devia, sim. Mas não é. E sabe por<br>que não é?<br>Porque nós precisamos aprender, precisamos nos machucar. O coração precisa se partir<br>para aprender a se reconstruir. Se não existissem quedas, não existiriam triunfos. Você vai<br>cair, se ralar, sangrar, chorar e até mesmo pensar em desistir. Vai se prender a lembranças<br>e segurar o passado junto do coração. Depois vai perceber que todo o seu esforço é inútil e<br>que precisa seguir em frente. Vai procurar forças em livros de autoajuda e até mesmo nos<br>conselhos de sua manicure. Vai se olhar no espelho e se sentir a pior pessoa do mundo. Por<br>que tem de ser assim? Para você aprender a se reerguer.<br>Aquele que consegue colocar o desapego em prática atinge um estado de paz interior e<br>tem a consciência limpa de que deixou o passado onde ele deveria estar: no passado. E que o<br>presente é sempre um presente. E que o futuro vai vir recheado de novidades e sensações<br>novas.O desapego é saber a hora de se despedir de coisas que não têm mais espaço na sua vida.<br>Pode ser aquele sofá velho que habita sua sala de estar há anos, mas do qual você não se<br>desfaz porque lembra a sua avó. Pode ser aquelas roupas que você nunca usou, mas guardou<br>porque é egoísta demais para doá-las. Pode ser aquela panela sem alça que você ganhou de<br>presente no seu primeiro casamento, mas não teve coragem de jogar no lixo. Pode ser<br>aquele vidrinho de perfume que você guarda no fundo do guarda-roupa só porque lembra o<br>cheiro. Pode ser aqueles vidros de esmalte vazios que você coleciona. Pode ser memórias de<br>pessoas que já se foram, mas que ainda prendem você ao passado. O desapego pode ser<br>aprender a se despedir na marra, já que muitas vezes não temos escolha. O desapego é saber<br>a hora de ir e deixar partir, e isso é essencial na vida de qualquer ser humano.<br>E eu me libertei da Sara. Deixei que ela partisse para o céu das princesas e assim fosse<br>feliz para sempre. Eu ainda precisava continuar a minha história. Eu a carregaria em meu<br>coração como uma lembrança boa e não como um sofrimento.<br>Essa seria a primeira das muitas vezes em que o desapego seria necessário na minha<br>vida.<br>Pensei em ligar pro Pedro e implorar que ele se “esquecesse” de chamar o Tiago, só que<br>achei que ele ia me achar uma idiota. E, vá lá, não estou com muito crédito, mas eu não<br>quero que ninguém mais saiba quão idiota sou. Se teve outra lição que aprendi<br>recentemente foi a de me preservar ao máximo, ainda mais em momentos de fragilidade.<br>Por que eu nunca sei lidar com uma pessoa depois de terminar com ela? Ou, no caso,<br>depois de a pessoa se-afastar-sem-qualquer-motivo-e-não-colocar-um-ponto-final?<br>Cumprimento o Tiago com dois beijinhos ou três “pra casar”? Aceno de longe? Sorrio? EU<br>SORRIO? Tá rindo do quê, palhaça? Ah! Que se dane! Pelo visto, e me conhecendo bem, vou<br>improvisar, o que significa fazer tudo da forma mais errada e estabanada possível. Porém,<br>não estou me importando muito com isso. Não mais.<br>Checo meu visual no espelho duas vezes. Até que estou bonitinha, sabe. Se eu fosse o<br>homem que tivesse me dispensado (Tiago, alôôôôô?), me arrependeria na hora. Aquele<br>shake de morango que estou tomando para perder uns quilinhos finalmente está fazendo<br>efeito. Consigo me enfiar em um vestidinho preto que comprei há séculos em uma<br>liquidação e ainda não tinha usado porque não me servia (era um tamanho menor, mas e<br>daí? Estava na promoção, né?!). Ele é coladinho no corpo, com um decote enorme nas<br>costas. Prendo os cabelos num rabo de cavalo meio soltinho e coloco minhas sapatilhas<br>preferidas (não basta deixar de chorar por homens, eu não preciso chorar também pelos<br>meus pés machucados por saltos altos). Passo o clássico batom vermelho, que, em<br>contraste com a minha pele cor de parede desbotada e meu cabelo loiro-quase-branco, fica<br>até legalzinho.<br>E vou. Em direção a meu calvário sentimental.<br>Chego em frente à portaria do prédio do Pedro e, por uns segundos, não consigo me<br>movimentar. Fico estática, como a estátua que ornamenta o corredor do<br>condomínio. Ainda dá tempo de desistir, quero dizer, não que eu seja uma covarde ou coisa<br>do tipo. Eu sou suuupercorajosa. Corajosa mesmo. Assistia a filmes de terror à noite.<br>Andava por cemitérios sem me arrepiar. Caminhava com destemor em ruas desertas sem me importar com assaltos. Tá, quem eu queria enganar? Eu, medrosa pra caramba... E eu<br>quero fugir dessa festinha infestada de lembranças do passado. Poxa, eu não estou a fim. É<br>só dizer pro Pedro que estou com intoxicação alimentar de uma salsicha estragada que<br>comi no almoço. Eu nem como salsicha. Ah, já sei! Posso dizer que minha pedra no rim<br>resolveu se manifestar novamente. Isso. É o que vou dizer. Ele sabe que tenho problema<br>renal, não vai duvidar de uma coisa tão séria como essa...<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2018-06-04 02:32:08 UTC</pubDate>
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         <title>Resenha dos resumos</title>
         <author>lalorraine79</author>
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         <description><![CDATA[<div>"Não se apega, não" conta a história de Isabela , uma jovem de 23 anos que decide colocar um ponto final no seu relacionamento de dois anos com Gustavo. Todos os seus amigos ficaram espantados com essa repentina decisão e perguntavam o motivo do término do namoro, já que ambos "eram lindos juntos", "haviam nascido um para o outro", "eram tão felizes" e diversos outros comentários desse tipo.</div><div>Mas a verdade é que Isabela não se sentia feliz ao lado de Gustavo e, ao pôr um fim no relacionamento, ela apenas tirou de sua vida aquilo que não fazia mais bem para ela. Isabela aplica muito a regra do desapego na sua vida. Desapegar-se de tudo. Pessoas. Objetos. Sentimentos. Basicamente, tudo o que esteja fazendo com que você se sinta mal. </div>]]></description>
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         <pubDate>2018-06-04 19:20:51 UTC</pubDate>
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