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      <title>EJA: Histórias de superação e recomeços. by Maria ㅤ</title>
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      <language>en-us</language>
      <pubDate>2025-09-18 19:16:25 UTC</pubDate>
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         <title>Projeto de entrevistas: Trajetórias da EJA</title>
         <author>qqhqq67rkd</author>
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         <description><![CDATA[<p>O grupo do núcleo de aprofundamento em Educação de Jovens e Adultos (EJA), do curso de Pedagogia, formado pelas alunas Maria Victoria Silvestre Fernandes Miranda, Ingrid Renata Barbosa Silva e Ianny Carla de Carvalho Pereira, 7º período - Vespertino, conduziu entrevistas com dois ex-alunos da EJA, Josivaldo (Peninha) e Riranildes (Rira). As entrevistas detalham suas experiências e os desafios de retornar aos estudos na vida adulta.</p><p>_____________________*________________________</p><p><br></p><p>Josivaldo (Peninha)</p><p><br></p><p>Josivaldo, conhecido como Peninha, tem 57 anos e nasceu em Juazeiro da Bahia. Sua jornada educacional foi "um pouco complicada" devido a uma longa interrupção, que durou mais de 10 anos. Ele parou de estudar no primeiro ano do ensino fundamental. A motivação para voltar à escola em 2021 veio ao ver outras pessoas estudando, mas o principal incentivo foi seu sobrinho, que é autista. A dificuldade de conseguir emprego sem uma boa formação e a necessidade de ter o ensino fundamental completo também o motivaram. Os principais desafios de Peninha foram relembrar os conteúdos que havia esquecido e lidar com o período da pandemia, que tornou o estudo mais complicado. Apesar disso, ele considera a EJA uma experiência boa e fundamental para recuperar o tempo perdido e renovar suas habilidades. Os aspectos mais marcantes de sua trajetória foram o apoio da família, as novas amizades e o incentivo dos professores, que o encorajaram a fazer o vestibular. Peninha foi aprovado no curso de pedagogia. Ele escolheu a área por gostar de trabalhar com crianças, inventar coisas e fazer brinquedos. Atualmente, como acadêmico, ele enfrenta o desafio de acompanhar colegas mais jovens e adiantados, pois sente que sua mente está "um pouco atrasada". Ele também ressalta a dificuldade com a falta de tempo e a ausência de um hábito de leitura, que o faz caminhar "mais lento" que os outros. Peninha acredita que sua formação pode incentivar outros alunos da EJA a buscarem o ensino superior. Ele deixa a mensagem para os estudantes da EJA de que é preciso estudar, fazer faculdade e cursos, pois isso abre portas no mercado de trabalho.</p><p><br></p><p>____________________*_______________________</p><p><br></p><p>Riranildes (Rira)</p><p>Riranildes descreve sua trajetória educacional como "atípica". Ela teve que desistir dos estudos ainda jovem por ter que trabalhar e sustentar seu filho. Após anos de tentativas frustradas de retornar ao ensino regular, a falta de tempo e sua rotina de trabalho a motivaram a ingressar na EJA. O maior desafio que Rira enfrentou na EJA foi a "fragmentação dos conteúdos". Segundo ela, os conteúdos eram compactados, levando a uma "falta de compreensão extrema". No entanto, a convivência com pessoas de diversas idades foi uma experiência fundamental para seu amadurecimento, autoconhecimento e aceitação. Os professores e colegas foram o que mais a marcou. Ela destaca o "olhar amoroso" e a compaixão dos professores, que a incentivaram e a fizeram acreditar em si mesma, mesmo quando ela não acreditava em seu próprio potencial. Uma professora, em particular, a incentivou a fazer vestibular, acreditando que ela tinha capacidade para ir direto para a universidade. Foi essa admiração e o desejo de ter o mesmo "olhar de mestre" que a levaram a escolher o curso de pedagogia. Ela sentiu que o trabalho de pedagoga já existia dentro dela, influenciado por suas próprias vivências. Rira acredita que sua história, e a de outros estudantes, mostra que é possível ir além e que a busca pelo diploma do ensino médio é apenas o primeiro passo para uma nova jornada.</p><p><br></p><p>______________________*____________________</p><p><br></p><p>A partir dessas entrevistas, é possível refletir sobre como a EJA é um espaço de resgate não apenas do conhecimento formal, mas também da dignidade, do autoconhecimento e da capacidade de sonhar. As experiências de Peninha e Rira demonstram que, mesmo com os desafios do tempo, da idade e das lacunas educacionais, o apoio de professores e a crença em si mesmo são pilares essenciais para transformar a educação em um caminho de novas oportunidades.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-09-18 19:23:51 UTC</pubDate>
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         <title>As entrevistas, parte 1</title>
         <author>qqhqq67rkd</author>
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         <description><![CDATA[<p><strong>ENTREVISTA COM JOSIVALDO (PENINHA)</strong></p><p><strong>&nbsp;</strong></p><p>PENINHA: — Meu nome é Josivaldo Dos Santos, conhecido mais como Peninha, nasci em Juazeiro da Bahia, sou de 1967 e tenho 57 anos.</p><p>IANNY: — Boa tarde, Josivaldo, mais conhecido como Peninha, né? Como você descreve a sua trajetória educacional até chegar na EJA?</p><p>PENINHA: — Foi assim, um pouco complicado, porque teve uma grande desistência minha, porque eu passei muito tempo sem estudar. Aí depois eu resolvi estudar e foi aí que eu entrei na EJA.</p><p>IANNY: — Você lembra quando foi?</p><p>PENINHA: — Foi em 2021, eu fui para a EJA.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — E assim, a EJA é bom, é um lado que você vai desenvolver mais o tempo que você perdeu. Você vai aproveitar aquilo que você não aproveitou no tempo que você estava parado. Você vai renovar suas habilidades, você vai relembrar o que você tem estudado.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: — O que motivou você a ingressar na educação de jovens e adultos?</p><p>PENINHA: — O que me incentivou?</p><p>IANNY: — O que lhe motivou.</p><p>PENINHA: — Acho que foi vendo as pessoas voltarem a estudar. Aí eu falei, tenho que voltar a estudar. Isso me motiva também.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Acho que o que mais me motivou a estudar, voltar a estudar, foi o meu sobrinho. Porque o meu sobrinho é autista. Aí quando eu perguntei a minha irmã, ele já está aqui, a gente já terminou.</p><p>&nbsp;</p><p>Eu já estou ficando para trás. O que mais me motivou a voltar a estudar foi ele.</p><p>IANNY: — Quais foram os principais desafios enfrentados durante o período em que estudou na EJA?</p><p>PENINHA: — Acho que o principal desafio foi relembrar tudo aquilo que eu tinha perdido, deixei para trás.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — E outra coisa também foi no tempo da pandemia, que foi mais complicado. Porque eu falei assim, logo agora que eu voltei a estudar, acontece esse negócio, a pandemia. Foi meio complicado nessa época da pandemia, mas graças a Deus deu certo.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: — Você lembra o intervalo de tempo de quando você parou de estudar e voltou para a EJA?</p><p>PENINHA: — Eu parei de estudar mais ou menos, acho que mais de 10 anos. Eu acho que foi isso.</p><p>IANNY: — Você foi até que série?</p><p>PENINHA: — Eu parei no primeiro ano do primeiro grau. Eu cheguei até no colégio modelo. Eu desisti e meus colegas que continuaram, eles seguiram na frente.</p><p>IANNY: — Quais aprendizados ou experiências da EJA você considera fundamentais para a sua vida pessoal e profissional?</p><p>PENINHA: — Eu acho que para mim foi uma experiência boa.</p><p>PENINHA: — Foi fundamental, porque ali eu estava vendo pessoas até mais velhas do que eu voltar a estudar. Para mim foi gratificante ver essa motivação dessas pessoas. E também porque você tem que estudar, você não pode parar de estudar.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — O EJA está aí para isso, você não parar de estudar. Porque quando você para de estudar, você perde muita coisa. Você perde tempo.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Até para se arrumar um emprego hoje em dia, se você não tiver uma formação boa, você não arruma. A situação é complicada. É por isso que me motivou a voltar a estudar, foi isso.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Porque eu vi pessoas assim, você não vai poder trabalhar porque você não tem o ensino fundamental. Não foi comigo não, mas foi com a pessoa que eu vi isso. E isso também motiva a pessoa a estudar.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — A pessoa chegou para mim e disse, rapaz, eu vou passeio aqui para trabalhar, porque a mulher disse que eu não tenho o ensino fundamental completo.</p><p>IANNY: — O que mais marcou a sua caminhada na EJA? Professores, colegas, atividades, apoio da família?</p><p>PENINHA: — Rapaz, o que mais me marcou foi o apoio da família. Primeiro lugar, que eles acharam bom que eu voltei a estudar.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — E também que me ensinavam as amizades. Eu era doido para estudar no EJA. Foi bom para mim, porque eu conheci novas pessoas, conheci os professores.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Até hoje eu tenho amizade com os professores lá onde eu estudava. E os professores também motivaram a gente a estudar, brevemente fazer vestibular. E quando eu fiz o vestibular e passei, eu comuniquei com eles e eles ficaram todos alegres.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Então foi interessante, para mim foi uma grande vantagem.</p><p>IANNY: — O que fez você escolher o curso de pedagogia após concluir a EJA?</p><p>PENINHA: — Na verdade, escolhi o curso de pedagogia porque eu gosto de inventar coisas, de trabalhar com crianças, fazer as atividades, fazer brinquedos, essas coisas. E a pedagogia é muito nessa linha com crianças, entendeu? Na verdade, eu escolhi assim, foi mais o jornalismo.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Pedagogia vem em segundo lugar, pedagogia. Mas é aquele negócio, o importante é você fazer o que gosta.</p><p>IANNY: — De que maneira a sua experiência como estudante da EJA influencia hoje sua visão sobre a educação?</p><p>PENINHA: — Influencia? Rapaz, eu acho assim, que influencia em muitas coisas, Principalmente, como é que dá o nome? Até no modo de você conhecer as pessoas, no modo de você falar, influencia assim também até nas suas atitudes. Porque o EJA é bom por causa disso. É como se fosse uma escola normal, entendeu? E é normal, só que é uma coisa que você estuda à noite e a noite é mais cansativa.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: Mas isso é bom para o seu caráter, para o seu conhecimento geral, entendeu? IANNY: — Quais são os desafios que você enfrenta atualmente como acadêmico de pedagogia?</p><p>PENINHA: — Bem, é difícil. Desculpa, é difícil, é complicado. É porque você já vem de um atraso, de um estudo.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Quando você chega na faculdade, você vai encontrar o quê? Pessoas novas, pessoas que já estão adiantadas, pessoas que têm assim... Todos nós somos inteligentes, certo? Mas a vantagem dessas pessoas novas é que elas têm tempo para estudar. Eu sei que tem umas que trabalham, mas no meu caso é complicado, porque eu trabalho dentro da faculdade, estudo dentro da faculdade, mas é complicado. Porque a minha mente mesmo realmente está um pouco atrasada, entendeu? Porque eu não consigo acompanhar os mais novos, as pessoas que já estão mais adiantadas.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Isso prejudica bastante, entendeu? É complicado porque na faculdade... Eu senti isso porque na faculdade existem suas turmas, cada um tem suas turmas ali. Eles não fazem assim. Na minha ideia, na minha concepção, é assim.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Se eu sei, eu tenho que pegar aquele que sabe pouco para poder ajudar. Entendeu? O complicado daqui é isso. É você se virar, Vocês estão entendendo? E o tempo para você estudar é curto. Apesar que eles me deram tempo aqui para me estudar, eu dou glória a Deus que eles me deram tempo. Mas, mesmo assim, é um tempo que não é muito... É curto, entendeu? E para mim está sendo complicado porque... Até eu encaixar mesmo, Encaixar, Porque eu não tenho um hábito de leitura, entendeu? Se você não tem hábito de leitura, você fica para trás. Você vai sempre andando mais lento que quem tem.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — Porque o hábito de leitura é bom porque você vai ler, vai ler, vai entender. E você vai fluir mais que quem não tem o hábito de leitura. Eu me arrependo disso porque eu nunca tive hábito de leitura, desde o tempo que eu estudava. Mas a dificuldade é essa. A dificuldade é você acompanhar os mais novos, entendeu? Que estão mais adiantados.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: — Como você acredita que a sua formação em pedagogia pode contribuir para a valorização da EJA e de seus estudantes? Vai valorizar sim porque... Geralmente, esse pessoal que estuda no EJA, eles querem só terminar o primeiro ano. Certo? Aí quando você está no EJA e você faz uma prova de vestibular e passa, você vai incentivar mais gente, entendeu? Vai incentivar os alunos. Eu vi isso aí... Uma vez eu fui no núcleo ali com o professor Pizoh, mais as meninas.</p><p>&nbsp;</p><p>PENINHA: — E tem muita gente nova lá. O interessante é que de 30 pessoas, só 5 pessoas queriam fazer faculdade. Acho que o restante era mesmo só para terminar, Terminar o terceiro ano, entendeu? O ensino fundamental e pronto. Era o meu pensamento também. Vou terminar e pronto, Entendeu? Mas como aqui eu tenho uma incentivação dos meninos aqui. Peninha por que que você não faz o vestibular. O vestibular não, Universidade Para todos, UPT. Eu falo, rapaz, vou fazer. Fiz, entendeu? Foi um empurrão para mim, entendeu? IANNY: — Que mensagem você deixaria para outras pessoas que ainda estão na EJA e sonham em ingressar no ensino superior?</p><p>PENINHA: —Rapaz... Eu falo o seguinte, Quando você tem uma ficção que você vai conseguir, que você vai estar estudando para poder fazer uma faculdade, eu acho muito bom você ter esse pensamento. Você terminar o ensino médio, fazer uma prova, o ENEM, que hoje está tudo mais fácil, né? Ingressar na faculdade, porque a faculdade é um espaço aberto, onde você vai ter mais liberdade, onde você vai ter mais... Como é que se dá o nome? Vai abrir portas de emprego para você. Hoje em dia, a maioria das cimas é porque a pessoa tem ensino superior, Entendeu? A minha mensagem que eu deixo para o pessoal do EJA é estudar, Estudar, entendeu? Fazer uma faculdade, fazer uns cursos. É isso que eu deixo essa mensagem.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: — Eu agradeço a participação.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-09-18 19:25:32 UTC</pubDate>
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         <title>As entrevistas, parte 2</title>
         <author>qqhqq67rkd</author>
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         <description><![CDATA[<p><strong>ENTREVISTA COM RIRANILDES (RIRA)</strong></p><p><strong>&nbsp;</strong></p><p>IANNY: &nbsp;— Boa tarde, Iranildes.</p><p>RIRA: — Boa tarde.</p><p>IANNY: &nbsp;— Começando a entrevista, como você descreve a sua trajetória educacional até chegar na EJA?</p><p>RIRA: &nbsp;— Minha trajetória foi atípica.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Eu tive que desistir dos estudos, pelas circunstâncias da vida, né? Minha vida pessoal tomou um rumo diferente, saí de casa muito jovem, tive que trabalhar, tive um filho, tive que manter meu filho. Então, eu fiquei tentando fazer o ensino regular diversas vezes e não conseguia. Não conseguia cumprir o horário, não conseguia seguir a rotina de uma pessoa que não tem tantas obrigações, né? E aí eu tive que viver o meu próprio processo, tendendo que tinha a prioridade de me manter.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: &nbsp;— Quanto tempo você ficou sem estudar até ingressar na EJA?</p><p>RIRA: &nbsp;— Eu fiquei vários anos desistindo. Fazia matrícula e às vezes não chegava nem a frequentar. Frequentava, chegava assim até o meio do ano, acabava desistindo.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Nessa brincadeira, se eu for contar, acho que foram uns 10 anos. Me matriculava, desistia, me matriculava, desistia, ficava pelo caminho. Aí eu optei ir para a EJA porque eu achei que daria certo concluir naquele horário ali da noite, né? Mas também acabou que nem vingou tanto assim.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Eu tive que ir para o CPA. O que motivou você a ingressar na Educação de Jovens e Adultos? Exatamente, a falta de tempo. Tinha que trabalhar o dia inteiro, aquela rotina corrida.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Eu era vendedora na época, trabalhava na loja do shopping. Então a escala era muito variada. Mas nenhuma delas dava a possibilidade de estudar no ensino regular.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— &nbsp;E aí eu fui ficando atrasada, atrasada, com o ensino médio incompleto. E sentia essa necessidade de ter que concluir. E foi o que eu achei que deu para fazer na época.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: &nbsp;— Quais foram os principais desafios enfrentados durante o período em que estudou na EJA?</p><p>RIRA: &nbsp;— Eu acho que foi a fragmentação dos conteúdos. Como eu cheguei a pegar o primeiro ano do ensino regular ainda, eu via que a noite, pelo tempo ser muito reduzido, pelo cansaço dos alunos, pelos professores também que já estavam ali atarefados demais. Imagina, o professor trabalhava de manhã à tarde, aí à noite, e chegava lá e via aqueles alunos cansados, acabavam que não mergulhavam. Os conteúdos eram reduzidos, afunilados, e a gente saia de lá com uma falta de compreensão extrema. Eu percebi que tem pessoas que tinham muito mais dificuldades do que eu, inclusive, já que eu tinha chegado até o primeiro ano do ensino regular.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Então a dificuldade foi compreender, entender, eu cheguei lá e fiquei sem entender o porquê que aqueles conteúdos eram tão compactados. E aí eu sabia que ali também ia ter uma dificuldade mais tarde para fazer uma outra coisa. A partir daqueles conteúdos extremamente compactos, eu falei, não vai dar para fazer muita coisa a partir daqui.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— E foi o que eu pensei na época também. Quais aprendizados ou experiências da EJA você considera fundamentais para sua vida pessoal e profissional? Os aprendizados foi o fato de você estar na EJA e você conviver com pessoas de N idades, múltiplas idades, e tinha lá pessoas com uma idade correta do ensino regular, digamos assim, correta entre aspas, mas que por algum motivo tinham passado lá para noite para a EJA e tinham pessoas bem mais velhas que não tiveram tanta oportunidade e estavam ali encontrando aquele momento para elas conseguirem seguir o sonho que era concluir ao menos o ensino médio ou mudar de carreira. Então você vai convivendo com aquelas pessoas e você vai entendendo as histórias delas, vai se entendendo como sujeito, como que cada um está ali vivendo o seu próprio processo, com suas próprias dificuldades.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Foi um momento de muito amadurecimento da minha parte, de autoconhecimento, de aceitação, que eu passei a me aceitar, aceitar que eu era uma sujeita única com a minha história de vida e eu estava ali no momento meu e aquelas pessoas também, então todo mundo vivendo o seu próprio processo. E aí eu aprendi bastante, me desenvolvi bastante, essa questão do desenvolvimento humano para mim foi maravilhosa. E o olhar também de muitos professores, eu lembro que me marcava muito o olhar de compaixão, de entendimento daqueles professores, sabendo que a gente estava ali buscando uma vida melhor, uma qualidade de vida melhor.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Então eles tentavam auxiliar a gente de muitas formas. Lembro de uma professora que me deu, quando eu nem sabia o que era universidade, ela na época trouxe a inscrição da universidade para mim. Era tudo impresso, ela trouxe o papel de fazer a inscrição do vestibular da UPE, eu achei aquilo incrível e eu nem sabia como era que se fazia essa inscrição, como era o processo, etc.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Mas o mais incrível foi que ela acreditou em mim na época, eu nem vi essa possibilidade, nem sabia que existia, e ela olhou para mim e falou assim, você tem que sair daqui direto para a universidade, porque eu vejo capacidade em você. Então isso me marcou bastante, esse olhar amoroso, humano, cuidadoso.</p><p>IAANY: &nbsp;— Essa é a quinta pergunta, o que mais marcou a sua caminhada na EJA? Se foi professores, colegas, atividades, apoio da família, etc.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Foi professores e colegas. Nesse crescimento que eu tive, esse contato com essas pessoas, múltiplas experiências, múltiplas vivências, e aí eu fui amadurecendo nesse percurso, fui me autoconhecendo, e esses professores amorosos, que tinham essa palavra de incentivo, quando a gente nem acredita na gente. É isso, você entra, pelo menos comigo, na perspectiva de conseguir o diploma do ensino médio, porque eu queria galgar uma nova carreira.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Ah, eu sou vendedora, talvez a partir daqui eu possa fazer um curso técnico, algo assim. Mas aí, quando você chega lá, você encontra essas pessoas que estão na sua própria caminhada, e os professores que acabam sendo uma espécie de... que são mestres mesmo, né? Tem esse olhar de mestre, que gera admiração, e eles têm esse olhar de amor, de acredito em você, sabe? Acredito em você, porque eu acredito em você. E aí, gera esse sentimento da gente, de reconhecimento, de valor mesmo.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Foi o que aconteceu comigo, eu comecei a ver o meu alto valor quando eu via desses professores, que eu era capaz, que eles acreditavam em mim. E eu fui desenvolvendo outras habilidades, né? De interação, de comunicação, de observação, de um olhar mais humano mesmo, com o outro. Foi nesse momento.</p><p>&nbsp;</p><p>IANNY: &nbsp;— O que fez você escolher o curso de Pedagogia após concluir a EJA?</p><p>RIRA: Isso, por causa desse olhar, desse professor amoroso, criterioso, que tinha tanto pra dar pra gente, e eu chegava lá e me sentia fascinada, sabe? Por aquela pessoa, por aquela imagem do professor, das professoras. E eu me enxergava, né? Não sei explicar direito, mas eu estava na carteira da aluna e, ao mesmo tempo, eu me enxergava lá na frente. E aí eu fui fazer essa retrospectiva da minha influência, da minha vivência, das minhas experiências, e que aquele percurso de pedagoga já estava ali.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— &nbsp;De outras formas, né? Na forma como eu, das minhas relações familiares, que sempre foi muito uma questão... Enfim, coisas diferenciadas, assim, que aconteciam. Tipo, eu com minha mãe, eu ensinava muita coisa. Minha mãe, ela falava isso.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Ela falava, ah, eu aprendo todo dia com você. Até pelas oportunidades da vida mesmo, que eu tive muito mais que ela. Minha mãe não pôde estudar muito, enfim, teve uma vida muito difícil.</p><p>&nbsp;</p><p>RIRA: &nbsp;— Então, quando eu estava lá naquele espaço, aí eu via que esse trabalho de pedagoga já existia ali dentro de mim. E aí eu falava assim, olha, é possível, né? É possível, quem sabe? Uma professora mesmo, que eu falei há pouco que ela me deu esse papel lá, porque era para fazer a inscrição do vestibular e tal, dar o pé na época. Aí eu falei assim, então é concreto isso, sabe? Não é só um sonho, não é só... Eu posso fazer mais por mim, pegar tudo que eu aprendi aqui e ainda vou aprender.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-09-18 19:26:36 UTC</pubDate>
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