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      <title>a ação humana by apontamentos filosóficos.</title>
      <link>https://padlet.com/afonsobarbosa01/acaohumana00</link>
      <description>análise e compreensão do agir</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2018-01-25 23:03:28 UTC</pubDate>
      <lastBuildDate>2018-02-20 13:29:04 UTC</lastBuildDate>
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         <title>                                      o conceito de ação humana</title>
         <author>afonsobarbosa01</author>
         <link>https://padlet.com/afonsobarbosa01/acaohumana00/wish/224899705</link>
         <description><![CDATA[<div>   No dia 9 de janeiro, a minha avó materna fez 71 anos e para comemorar a minha mãe fez-lhe um bolo e demos-lhe de presente um casaco que ela fingiu adorar.</div><div>O jantar não foi muito longo dado ao facto do dia seguinte ser de trabalho, não para ela que já está reformada, mas sim para os restantes. Neste jantar houve tempo para recordar as “coisas da vida”.  As memórias são muitas; algumas felizes, outras menos felizes, mas juntas compõem um albúm único correspondente à sua vida.</div><div>   E páginas tantas a minha avó conclui: “<strong>o meu destino estava traçado</strong>”. Tal afirmação pôs-me a pensar filosoficamente.<br>                                               <strong><em>Acontecimentos e ações:</em></strong></div><div>   Ao longo da vida, há coisas que nos acontecem, há coisas que fazemos, há coisas que fazemos inconscientemente, há coisas que fazemos conscientemente, mas involuntariamente e há coisas que fazemos consciente e voluntariamente.</div><div>   A vida da minha avó está repleta de acontecimentos, no entanto, nem todos podem ser considerados ações. A morte precoce do meu avô foi, sem dúvida, um dos acontecimentos mais marcantes (negativamente) na sua vida, não foi uma ação. Neste trágico episódio, ela não pôde escolher ou controlar o que aconteceu, assumindo um papel completamente passivo. Este foi um acontecimento: algo que ocorre num determinado tempo e lugar e que é suscetível de afetar o sujeito, mas que, em princípio não depende da sua vontade.</div><div>   A minha avó lamenta-se, ainda, das suas grandes alergias nas mudanças de estação, especialmente porque os espirros lhe molhavam as folhas das atas (que se orgulha escrever muito bem) e porque ainda não existiam lenços de papel, nem máquina de lavar a roupa. Estas coisas (espirrar e assoar) também não são ações, uma vez que são realizados de forma inconsciente e involuntária. Podem ser classificadas, então, como atos do Homem.</div><div>   Ela era uma mulher trabalhadora e, portanto, fazia muitas tarefas. Algumas ela regista com um misto de cansaço e nostalgia, tais como as inúmeras horas que passou a trabalhar (que a minha mãe reclama terem sido gratuitas). Outras, com um misto de frustração e ironia, tais como as inúmeras horas que passou na cozinha a preparar a comida (que a minha mãe reclama ser péssima). Estas foram, sem dúvida, ações.</div><div>                                                   <strong><em>Intenções e desejos</em></strong></div><div>   A ação humana implica uma decisão consciente e voluntária. Deve ser um termo reservado apenas e só para aquilo que fazemos de forma livre, racional e intencional e, por conseguinte, responsável.</div><div>   Por intenção entende-se o curso da ação que alguém pretende seguir ou ainda o objetivo ou propósito que guia a ação.<br>                                               <strong><em>Motivos, fins e projetos</em></strong></div><div>   A ação intencional é originada pelo motivo (aquilo que é capaz de mover a vontade de agir), tendo subjacente desejos (são realizadas por alguém que as quer realizar) e crenças (acredita que esse é o melhor meio para atingir a finalidade). A finalidade ou meta é tudo o que ativa, orienta e dirige a ação, sendo por vezes difícil separar a finalidade do motivo, que podem ser englobados pela noção de projeto (aquilo que alguém se propõe a fazer).<br>                                             <strong><em>A deliberação e a decisão</em></strong></div><div>   Muitas ações exigem deliberação antes da decisão, ou seja, obrigam-nos a ponderar, a refletir antes de agir, a avaliar os prós e os contras de uma determinada opção. Quanto mais importante para a nossa vida for a ação maior o grau de dificuldade da deliberação e da decisão.                                               </div><div>   A minha avó diz com modéstia ter sido muito boa aluna, não por ser muito inteligente (que era), mas porque estudava muito (ou para me convencer a estudar mais). Conta que não se esquece da véspera do exame do 5º ano (atual 9º ano) em que as amigas saíram para a festa da Conceição e ela ficou em casa para estudar para tirar boa nota. </div><div>Analisando esta situação:</div><div>Ação: ficar em casa.</div><div>Agente: avó.</div><div>Intenção (o quê?): estudar para o exame.</div><div>Motivo ou razão (porquê?): a preocupação com a nota no exame.</div><div>Desejo: tirar boa nota.</div><div>Crença: estudar seria a melhor forma de tirar boa nota. </div><div>Finalidade (para quê?): tirar boa nota no exame.</div><div>Deliberação: consistiu na reflexão antes de agir, na ponderação das vantagens e desvantagens de optar por ir à festa com as amigas ou de ficar em casa a estudar.</div><div>Decisão: correspondeu ao momento em que, depois de deliberar, estabeleceu um juízo de valor ou de preferência, escolhendo ficar em casa a estudar.</div><div>                                  <strong><em>A discussão acerca do livre arbítrio</em></strong></div><div>   Mas a maior dúvida que continua a assombrar a minha avó diz respeito à escolha que teve de fazer quando terminou o 7º ano (atual 12º ano): continuar a estudar ou começar a trabalhar.</div><div>   “Podia ter ido para a universidade tirar o curso de Biologia, mas escolhi ir trabalhar para a Câmara”, afirma a minha avó sem mostrar arrependimento.</div><div>Será que podia? Ou será uma ilusão?</div><div>   Esta questão pode ser discutida através de três teses diferentes: o determinismo radical, o libertismo e o compatibilismo.</div><div><strong><em>                                               O determinismo radical</em></strong></div><div>   O determinismo radical é a teoria que defende que não temos livre-arbítrio e todos os acontecimentos estão determinados. </div><div>   O determinismo concebe o Universo como um vasto sistema que obedece a leis causais invariáveis, ou seja, encara a natureza como um conjunto de coisas e factos em que tudo resulta de causas anteriores, a que se seguem efeitos inevitáveis. Todos os acontecimentos estão causalmente determinados pelos acontecimentos anteriores e pelas leis da natureza. Estar causalmente determinado é não poder querer nem poder decidir outra coisa além do que efetivamente queremos e decidimos. Por isso, parece-nos que somos livres, desde que ninguém nos impeça de fazer o que decidimos e queremos.</div><div>   Um determinista diria que a minha avó, apesar das alternativas apresentadas, não podia ter escolhido outra coisa. A sua escolha foi feita em função das cadeias causais que antecederam o momento da sua decisão e que não podia controlar. Ela pode sentir que agiu livremente (falsa sensação) porque escolheu fazer uma coisa (começar a trabalhar) em vez de outra (ir para a universidade), desconhecendo as causas que determinam as suas ações.</div><div>   Todo o nosso comportamento é previsível. Logo, o livre-arbítrio é apenas uma ilusão.<br>                                                          <strong><em>O libertismo</em></strong></div><div>   O libertismo é a corrente que defende que temos livre-arbítrio e as ações humanas não estão determinadas.</div><div>   Segundo o libertismo, só o universo físico é determinista existindo uma dualidade entre o corpo e a mente do sujeito. Embora o corpo possa ser determinado pelas cadeias causais do universo físico, a mente transcende as leis da natureza e tem o poder de se autodeterminar. Assim, considera que o agente tem o poder de interferir no curso normal das coisas pela sua capacidade racional e deliberativa.</div><div>   O libertista defende que, para que sejam verdadeiramente livres, as nossas escolhas e ações não podem estar determinadas por acontecimentos anteriores, recorrendo às noções de acaso e de aleatoriedade. </div><div>   Um libertista diria foi a minha avó que determinou a sua escolha de começar a trabalhar. Ela agiu livremente, porque escolheu fazer uma coisa (começar a trabalhar) em vez de outra (ir para a universidade), utilizando para tal a sua capacidade racional e deliberativa.</div><div>                                                      <strong><em>O compatibilismo</em></strong></div><div>   O compatibilismo é a tese que defende que o determinismo pode coexistir com o livre-arbítrio, existindo compatibilidade entre ambos. Defende que que uma ação pode ser, ao mesmo tempo, livre e determinada. </div><div>   Os compatibilistas distinguem ações livres e ações não livres consoante resultem da vontade ou da coerção, respetivamente, mas isto não significa que não sejam causadas.</div><div>   Segundo esta teoria, agimos livremente quando as nossas ações resultam do que desejamos fazer e não sejamos obrigados ou forçados a fazer algo. Se escolhermos fazer algo e se nada nos impede de o fazermos, então ao fazê-lo estamos a agir livremente: estamos a exercer o nosso livre-arbítrio. Se formos constrangidos a agir de uma determinada maneira, a nossa ação não é livre.</div><div>   Um compatibilista diria que ninguém obrigou a minha avó a começar a trabalhar ou a impediu de continuar a estudar, tendo realizado uma ação livre (isenta de coerção). Ela agiu livremente porque escolheu fazer uma coisa (começar a trabalhar) em vez de outra (ir para a universidade), tendo a sua escolha sido causada pelo seu passado, pela sua personalidade e até por fatores que não controlava.</div><div>  <strong><em>Objeções às teorias</em></strong></div><div>   Várias são as objeções formuladas contra cada uma das teorias referidas, evidenciando, assim, as suas fragilidades.</div><div>   Uma das maiores objeções ao determinismo baseia-se na ideia de que parece haver uma conexão entre a responsabilidade e a nossa liberdade. Aparentemente, se não formos livres, não podemos ser moralmente responsáveis pelo que fazemos. Uma pessoa só é moralmente responsável pelas suas ações se estas estão sob o controlo do seu livre-arbítrio.</div><div>   Uma das objeções mais frequentes ao libertismo baseia-se na ideia de que se é o acaso que conduz as ações humanas imprevisíveis, então estas também não são livres nem o agente é responsável. E se as nossas ações são aleatórias e fruto do acaso não conseguimos explicar aquilo que produz as nossas decisões.</div><div>   Uma das principais objeções ao compatibilismo baseia-se na ideia de que se aquilo que desejamos fazer se encontra determinado por acontecimentos anteriores, então, nestes casos, as nossas ações estão igualmente constrangidas. Não consegue explicar como pode uma ação ser livre apesar de estarmos determinados a escolher algo em função dos acontecimentos anteriores e da nossa personalidade e constituição genética.<br><br></div><div>   Independentemente de considerarmos o determinismo verdadeiro ou falso e o livre-arbítrio ilusório ou real, nenhuma das teorias é satisfatória. Mas o fatalismo da minha avó nenhum filósofo defende. </div><div>   Neste contexto acho que posso considerar correto o que disse à minha avó:<br>                                  “<strong>Nós é que traçamos o nosso destino</strong>”.</div>]]></description>
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         <pubDate>2018-01-25 23:07:41 UTC</pubDate>
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