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      <title>Partilha de Dons - Pedras Preciosas Brasileiras by Rildes Lobo Cardoso de Sena</title>
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      <description>Espaço de compartilhamento das Escrevivências dos Estudantes da Educação de Jovens e Adultos de uma Escola Municipal em Camaçari, Bahia - ano letivo de 2024.</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2025-04-15 23:11:52 UTC</pubDate>
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         <title>Topázio</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p><strong>Topázio:</strong></p><p><strong>&nbsp;</strong></p><p> A vida nunca foi fácil para mim, sempre tive muita vergonha de falar tudo que eu já vivi e aprendi nesses 46 anos de vida, tô um pouco nervosa, cês tem paciência comigo tá? Nasci no sertão da Bahia, numa cidade seca que só, chamada Nova Soure. Mamãe e papai eram lavradores e vivia na terra do zoto né? Nóis arava a terra, plantava e colhia, mais tinha que dar uma parte de tudo pro dono do lote. Cresci a minha vida todinha assim. Nunca fui criança que tinha tempo pra brincar, nem eu nem meus irmãos; não tinha escola por perto e a gente também não tinha documento, nada. Na roça as coisas são assim, tudo no fio da barba que as coisa se resolve. Até os meus doze anos foi desse jeito, eu era a segunda filha de uma escadinha de oito crianças, todos vivos graças a Deus [...] até que o dono do lote decidiu vender a terra com nóis lá dentro. Cês acredita que não falou nada para os meus pais? De uma hora pra outra ficamos sem ter pra onde ir porque o novo dono não queria nóis não, porque ele ia criar uns bode e umas vaca nas terra dele. Juntamos nossos paninhos, nossos bicho e caímos no mundo; dormimo em tabuleiro com um medo danado e papai sendo nosso protetor sem dormir dia e noite até achar um canto pra gente se abrigar do sol e do sereno. Lembro bem que depois de muito andar, chegamos num povoado que até que fim o povo ficou com dó de tanto menino e deu abrigo e um emprego pra mamãe e papai: ela foi trabalhar na casa de um povo rico e papai foi pra roça; a gente foi morar numa casinha bem pequena mais que tinha água a vontade, que sonho! Tinha um rio lindo que a gente dividia com os bicho e achava o máximo. Esses foram os tempo mais alegre da minha vida, eu nem sabia que ia aprender tanta coisa de boa e de ruim e que ia mudar minha vida. Nada, nada comecei a ajudar mamãe nas tarefa da casa da Dona Leninha, esse era o nome da patroa, gente boa uma mulher brancona e cheia ouro nos dente e nos dedo, era muito rica e a casa dela era enorme, um sonho. A bicha trazia uns livro de receita das bandas de Feira quando ia fazer as compra da casa e queria que a gente fizesse aquelas comida fina, cheia de chiada (risos) mas nóis, eu e mamãe, nenhuma sabia ler então ficava difícil né? Então ela começava a dizer as receita e nóis ia fazendo, aprendi de cabeça a fazer assado de todo tipo, bolo doce e salgado, aprendi a fazer um montão de comida que o pessoal já gostava e dava muito elogio. Dona Leninha adorava! O tempo foi passando e eu fui crescendo né? Mamãe depois de uns cinco ano nessa lida adoeceu e morreu. Foi muito difícil porque eu fiquei no cuidado da casa da patroa sozinha e meus irmão foram ganhando o mundo cada um pra um canto querendo uma vida melhor. Só ficou eu e minha irmã caçula com nosso pai já velhinho. A patroa resolveu que eu tinha que estudar, eu já moça feita não podia ficar mais sem saber ler e escrever, então pediu pro filho dela me ensinar umas coisa pra eu chegar na escola sabendo quando nada o bêabá. Essa foi a minha derrota: o infeliz tentou abusar de mim um monte de vez até que enfim, eu vindo do quintal com as roupa que eu recolhi, ele conseguiu o que ele queria e ele me estuprou né? (pausa para tomar fôlego) eu engravidei e ninguém acreditou em mim quando eu contei o que aconteceu. Fui chamada de ingrata e de um monte de coisa que nem vou repetir porque é passado sabe? Fui pro olho da rua e ninguém me deu a mão, nem a minha irmã. Lutei muito, passei fome, passei sede e acabei perdendo a criança nessas minha andança que nem vou contar aqui agora. Mais cês sabe que tudo que aprendi na casa da patroa que eu vivi boa parte da vida me ajudou a ser quem eu sou hoje. Comecei a catar umas fruta no tabuleiro pra vender na feira, mariscava e vendia as moqueca na palha na feira e fui conseguindo me erguer. Cozinhar é o meu dom, com muito pouco eu faço umas coisa que aqui pra nóis todo mundo gosta. Comecei vendendo essas coisinha na feira, depois fui melhorando, botei a feijoada, o sarapatel e quando eu vi já tava com uma banca direitinha na feira vendendo comida pro povo almoçá. Nessa luta aí conheci meu esposo e no mesmo ano nóis se juntamo e estamo junto até o dia de hoje. Temos dois filhos todos dois estudam e trabalham e criei todos dois cozinhando pra minha barraca e fazendo umas coisas pra vender tipo coxinha, kibe, churros, pastel, essas coisa. Quando eu tô triste vou trabalhar! Minhas panela são minhas amiga, ouve meu choro, minhas tristeza e também me ajuda a trazer o pão pra casa junto com meu esposo. Tenho casa própria, temos nosso carrinho e nossos menino tudo direito nessa vida. A pró falou sobre dom e eu fiquei encafifada pensano no que era meu dom; nunca tinha pensado sobre isso, achei que era um ganho de vida e fui veno que era tipo a razão de eu tá viva hoje [...] voltei pra escola pra ter o certificado e provar que eu já sei ler e poder fazer mais cursos de salgado de gente rica, quero fazer festa de casamento, formatura, essas coisa. Depois de viver tanta coisa eu vi que eu posso ser melhor um pouquinho né? Falar direitinho, saber entrar e sair dos canto, quero realizar meu sonho, e como a pró sempre diz a escola é tipo um degrau da escada pra gente subir na vida.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-15 23:23:29 UTC</pubDate>
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         <title>Quartzo Rosa</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p><strong>Quartzo Rosa:</strong></p><p><strong>&nbsp;</strong></p><p> Sempre fui diferente, desde pequeno parecia que eu não me encaixava em nada. Muita coisa no mundo não fazia sentido pra mim. Nasci em uma família cristã, desde a barriga da minha mãe frequentava a igreja; eu e todos os meus irmãos fomos criados na doutrina rigorosa: não víamos televisão, não usávamos moda, nem ouvíamos música do mundo. Uma família muito grande sabe? Nove filhos, cinco meninos, três meninas e eu diferente de todos os meus irmãos, o único que não queria jogar bola ou brincar de lutinha. Gostava de estar com as minhas irmãs e brincar de bonecas, de pintar, de brincar de escola e de dançar... sempre amei rodopiar e mexer o corpo. Meu pai no início não ligava muito, mas sempre que podia me mandava sair do meio das meninas para ir ficar com meus irmãos. Na escola sempre fui muito calado e quase sempre ficava sozinho; ninguém queria andar comigo: eu odiava correr e gritar pelo pátio, não queria jogar futebol ou fazer bullying com os outros. Então comecei a ser vítima: apanhava todos os dias na escola; não teve nenhum dia desde os meus 10 anos que eu não sofresse alguma coisa ruim ou humilhante na escola; ninguém me defendia! Nem professor, diretor ou minha família. Todo mundo dizia que eu tinha que resolver feito homem, ninguém me via como eu realmente era: diferente! Meu pai me batia quando eu chegava apanhado em casa e meus irmãos, junto com minha mãe viam tudo sem poder fazer nada, senão eles sofreriam violência também [...] a gente sofrer essas coisas todo dia é difícil pra um adulto, gente, imagina pra uma criança. Pensei muitas vezes em tirar a minha vida, sabe? Uma vez bebi água sanitária e fui parar no hospital por algumas semanas e rezava todos os dias para morrer porque meu pai me ameaçava com uma surra todos os dias porque eu tava dando trabalho pra ele com as minhas frescuras [...] quando voltei pra casa fiquei um tempo me recuperando faltando as aulas porque estava muito fraco; esses foram os melhores dias da minha vida recebendo o dengo da minha mãe e das minhas irmãs mais velhas. Nesse tempo fui me dando conta que aquela escola não era pra mim, aquela igreja não era pra mim e o mais triste: a minha família não era pra mim! Então com 15 anos fugi de casa! Larguei tudo e fugi pra casa da minha tia Nedina, irmã do meu pai, que morava aqui em Camaçari. Meu pai quando soube do meu paradeiro veio me buscar com uma taca de dar em cavalo para me bater; minha tia retada me botou pra dentro de casa e disse a meu pai: - Entre macho! Entre se for homem! Com a peixeira na mão ela me defendia e disse a meu pai pra me deixar em paz que de mim cuidaria ela! Nunca tinha me sentido daquele jeito, seguro e até amado por alguém com tanta força. Uma verdadeira leoa! Ele foi embora e me disse coisas muito tristes que nem tenho coragem de dizer agora (pede um copo com água) nunca mais vi minha mãe até o dia em que ela morreu. Tem nada não, minha vida tá aqui em Camaçari com a família que me escolheu e me aceitou como eu sou: Gay! Apesar de minha tia insistir muito, eu não quis voltar para a escola; fui mesmo trabalhar pra ter minhas coisas e realizar meu sonho de viajar pelo mundo. Um dia fui para um passeio para Porto Seguro e vi umas apresentações de dança no restaurante que a gente foi visitar. Fiquei apaixonado e decidi que era algo assim que eu queria fazer. Juntei uns amigos e fomos na associação do bairro pedir o espaço pra gente fazer um grupo de dança, com umas coreografias de axé e lambada. No inicio era só a gente pra se divertir depois do trabalho, mas foi juntando gente e acabamos formando um grupo grande pra ensaiar as coreografias da moda pra gente apresentar nos eventos do bairro e das escolas. A coisa foi ficando grande, com direito a figurino e até apresentação no desfile do aniversário da cidade. Hoje voltei pra escola, porque o mundo pra quem não tem um certificado é mais difícil, hoje também a escola tá diferente né? Posso ser quem eu sou, falar como eu falo sem fingir que sou um machão, e quem diria que um dia alguém iria querer me ouvir assim sabe? Sem me apontar como um palhaço ou uma chacota sabe? Me sinto respeitado aqui e tô descobrindo que não sou uma aberração ou nada de absurdo, sou uma pessoa como outra qualquer com uma história de vida parecida com a de tanta gente. Fiquei pensando sobre o dom que a professora apresentou sabe? E me encontrei na dança de rua, minha família é os meninos que dança comigo. Já viajei muito pra dançar e já fui até para cinco estados do Brasil: Pará, Maranhão, Pernambuco, São Paulo e Minas gerais, tudo com a dança, pra me apresentar ou pra competir, e ainda quero mais! Ainda não vivo do meu dom mas quero chegar lá; por enquanto estou dando umas aulas na associação de moradores aqui do bairro de zumba e fit dance três vezes na semana. Tô na escola pra largar o rodo e a vassoura que tem sido meus parceiros de trabalho no posto de saúde do bairro vizinho, quero fazer faculdade de dança e morar fora do país. Esse é meu sonho e fico muito feliz em poder contar pra vocês que tão me ouvindo com tanto carinho. A vida tá melhor agora, mas ainda tem muita luta pela frente ser gay e pobre né fácil não. </p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-15 23:27:00 UTC</pubDate>
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         <title>Barita</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p><strong>Barita</strong></p><p><strong>&nbsp;</strong></p><p>Vou começar a falar para vocês da minha vida quando cheguei na Bahia com 13 anos junto com minha mãe e minhas duas irmãs fugindo do meu pai, que ficou no estado de Sergipe. O resto que ficou pra trás disso não gosto de lembrar porque não vale a pena mesmo. Meu pai bebia demais e batia na gente, perdia todo dinheiro no carteado e vinha descontar na gente até que sobrava pra minha mãe também. Minha mãe lavava roupa de ganho e fazia uns crochés pra vender e fazer uns trocados que ela dizia que era para o reizado, mas na verdade era nosso pé de meia pra ir embora. Foi quase um ano nessa toada, minha mãe quietinha juntando cada nica pra gente ir embora daquele inferno. Eu e minhas irmãs só soubemos do plano de mainha quando chegou a noite da gente fugir pra começar vida nova [...] eu sempre gostei de lidar com sementes, cordões e fios coloridos, sempre gostei de me enfeitar e enfeitar as minhas irmãs com colares e pulseiras que sempre inventava com as sementes e retalhos de tecidos que tinha por perto. Na escola eu adorava passear pelas árvores e catar as sementinhas coloridas, pequenos bagacinhos que achava pelo caminho e já bolava uma coisa nova pra usar. Já fui chamada de maluca por causa desse meu gosto por criar meus colares, brincos pra me enfeitar e até algumas bonecas, porque a gente era bem pobre não sobrava pra comprar brinquedos, era tudo na base da imaginação [...] fomos morar num bairro que tinha muito barro perto do quintal da minha casa; aí foi que a minha imaginação criou foi asas: comecei a fazer bichinhos de barro, vasilhas e vasos pra mainha botar as frutas e as plantas dela, todos decoradinhos, bordados com sementes, linhas e tudo quanto é tipo de material que me dava na veneta [...] minha vida mudou quando mainha faleceu: tivemos que deixar a escola e ir pra uma casa que tinha um monte de criança sem pai e sem mãe sabe? Ficava um monte de mulher tomando conta da gente mas ninguém colocou a gente na escola, então eu e as meninas nos atrasamos muito nos estudos e terminamos deixando a escola de lado. Fomos trabalhar nas casas de família e aí cada uma foi encontrando seus maridos e casando. Eu casei por último e tive três filhos, sempre fazendo minhas artes como uma forma de acalmar a mente sabe? Até que minha filha mais velha me trouxe um papel de um curso de artesanato que estava tendo na cidade e eu me interessei. Me inscrevi e nunca mais parei, hoje sou eu que ensino as meninas as técnicas que eu já fazia desde menina, só que agora melhoradas né? Como diz a minha líder, mais refinadas (risos). Me aposentei das casas de família e vivo só pra fazer meu artesanato, até porque antes não dava pra viver só disso, o povo não quer pagar o preço justo não. As madame compra as coisas caras no shopping aí chega na feirinha de artesanato e não quer pagar o preço do nosso esforço, nosso povo precisa mudar isso aí. Faço colares, esculturas, braceletes, bijuterias de todo tipo e peças de decoração também. Quero ter minha própria marca, vender pros gringo e faturar um dinheirinho pro meu neto fazer a faculdade dele. Meu dom é esse entendeu? Sei que é porque faço desde menina sem ninguém me ensinar nada, e eu adoro passar pros outros porque ajuda a acalmar a mente e seguir a vida. O artesanato me tirou de uma depressão terrível que quase me matou, perdi mais de 20 quilos nesse tempo, porque meu marido foi embora com uma pessoa que se dizia minha amiga e andava na minha casa, comia da minha comida e bebia da minha bebida, era até madrinha de uma das minhas meninas. Fiquei muito mal, mas Deus, os médicos e a arte me trouxeram de volta, meus filhos precisavam de mim e eu posso dizer que hoje eu voltei a gostar de viver através do artesanato e das amizades que ele me trouxe. Toda semana tem feira itinerante e eu tô lá colada pra mostrar e vender minhas coisas. Teve até uma artista aqui da cidade que comprou um colar lindo meu e usou numa festa que tinha um monte de gente famosa, minha filha viu na internet. Tenho até perfil na internet pra vender minhas coisas, minhas meninas é que tomam conta, eu não sei labutar com isso direito ainda não, só sei o zap. Então se tenho um dom foi esse que me curou, me livrou da morte e me trouxe alegria de viver de novo, sou meio índia sabe? Isso vem da herança da família de mainha que é lá do norte. </p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-15 23:30:30 UTC</pubDate>
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         <title>Ágata</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Ágata</p><p><br></p><p>Eu vou falar de quando cheguei aqui em Camaçari, vim buscar um emeprego no Pólo Petroquímico no ano de 1985 e eu era jovem sabe, tipo muito jovem. Não tinha medo nem apego, desde pequena eu sonhava em dirigir carro, morar sozinha e ser dona do meu nariz. Nunca que eu ia viver igual a minha mãe e as minhas irmãs, apanhando de homem e dependendo de macho pra tudo. Sempre fui corajosa e até hoje eu digo aos meus filhos, antes só que mal acompanhada. Cheguei aqui cheia de esperança e o povo dizia que era fácil de arrumar trabalho em Camaçari, um sonho! Fiquei avechadinha, juntei meus panos e vim junto com uma prima pra esse lugar lindo que eu ia trabalhar pra juntar dinheiro e ajudar minha mãe. Mas não foi nada disso. Logo no caminho sofri uma tentativa de abuso sexual. Um homem viu que eu e minha prima estava sozinhas e quis abusar da gente junto com um amigo. Gritamos, fugimos pelos matos a dentro e conseguimos chegar a cidade que no tempo não tinha nada, só umas casinhas e barro, muito barro. Fomos procurar emprego no Pólo e não conseguimos nada, só pegava quem tinha estudo e curso disso e daquilo e ouvia as ousadias dos homens, naquele tempo mulher não tinha valor né? Eu e minha prima ficamos sem saber o que fazer e a gente foi morar numa avenida de casinhas perto de um bairro chamado Mangueiral. Os meses foi passando e a gente teve que correr contra o tempo pra arranjar dinheiro, os trocados que a gente trouxe tava acabando e aí já viu né? Como a gente ia se virar? Eu fui nas voluntárias sociais pedir uma ajuda e lá me botaram em um curso de pintura em tecido. Eu sabia ler mais não tinha os papeis de escola, era como seu eu não soubesse nada. Aprendi a pintar com molde, sem molde, a mão livre e a fazer decalque. Fui sobrevivendo dessa arte até que consegui umas roupas pra lavar de ganho e umas faxinas pra fazer com o pessoal que dava o curso pra gente. Sonhava em voltar pra escola mais tinha vergonha porque o povo ficava mangando de mim, eu morava numa rua bem perigosa e fazia medo ficar de noite pra lá e pra cá. Minha prima não quis me acompanhar no curso ou fazer outra coisa pra ganhar um dinheiro, terminou indo pra vida sabe? Tentei tanto tirar ela mais não consegui. Pelejei um tempão até que ela foi embora com um rapaz que era caminhoneiro e ganhou o mundo. Eu fiquei sozinha, ave maria, um buraco se abriu no meu coração.  Então fui ser doméstica na casa de uma moça que trabalhava na prefeitura, ganhava um bom ordenado e ainda dormia no serviço. Nesse tempo conheci o Gelson meu marido por quase 30 anos que faleceu na pandemia. Fomos morar juntos e eu fiquei pelejando lavando de ganho pros outros e fazendo meus paninhos pintados pra inteirar as despesas. Tive a sorte de ter um marido bom, que não bebia e botava as coisas dentro de casa. Criei meus filhos direitinho eles tudo tem profissão e a caçula fez até faculdade de fisioterapia, trabalha aqui no Geral. Depois que o Gelson morreu procurei ocupar mais minha mente com minhas pintura e resolvi que ia voltar a estudar, homem não queria mais não, chega. Aqui na escola sou feliz! Melhorei a letra, aprendi a fazer conta dificil e estou lendo que é uma beleza, todo mês um livro novo de romance que eu adoro. No projeto da escola ensinei minhas colega a pintar no tecido toalhas, panos de prato, lençol e fronha também. Fiquei besta com todo mundo querendo aprender comigo que achava que não sabia quase nada. A Pró falou que é meu dom e ela tem razão. Faço a mão livre meus desenho e ainda invento arte. Eu amo estar na escola e aprender coisas novas, amo me arrumar pra ver meus professor e amei mais ainda ser professora dos meus colega falando sobre a minha vida. Vou terminar meus estudos e não vou deixar nenhum colega meu parar, nem desistir. O mundo é cruel pra quem não estuda.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-15 23:54:55 UTC</pubDate>
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         <title>Hematita</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Hematita:</p><p><br></p><p>Sempre tive vergonha de falar da minha vida pros outros. Lá em casa quando eu era pequena, por tudo eu apanhava, acho que fiquei medrosa, chorona. Sou uma mulher forte mas meus nervos não são bons não, eu já passei por muita coisa pra criar meus filhos. Sofri muito com meu marido que bebia muito. Ele era um homem exemplar até que meu filho mais velho morreu, eita que ele perdeu o rumo e comecçou a beber, ele nuna me bateu viu? Mais era chato ter que ir com os menino buscar ele escornado nos meio fio, dava uma vergonha do povo e dos menino também. Eu nunca trabalhei fora, ele sempre me deu de tudo, eu trabalhava dentro de casa desde que me dei por gente então sei fazer comida, lavar roupa, limpar as coisas como ninguém. Sempre gostei de música e poesia, amo música estrangeira mesmo sem saber nadinha do que eles cantam. Tinha uma vontade dentro de mim de estudar mas quando eu era criança morava na roça e não tinha escola, quando casei e vim pra cidade não podia estudar porque o marido não deixava. Aprendi com meus filho a fazer meu nome mais nunca pude ir pra escola, até que em 2022 eu consegui. Enfrentei meu marido e as cachaça dele com a ajuda dos meus filho e fui realizar meu sonho das letras.  Eu vivia fazendo poesia na minha mente e guardando tudinho na cabeça, se eu não sabia escrever direito? Eu toda vez que falo disso choro! Eu aprendi a lê direitinho aqui nessa escola. Li as palavras das minhas receitas que eu antes pedia a minha filha pra lê pra mim. Leio texto grande e pequeno. Já leio até poesia daquelas bem dificil!  tudo que estava na minha mente, agora tá indo pro papel, se Deus quiser um dia lanço um livro! As prós me ensinaram a não ter medo! Ouvi as histórias dos meus colegas e tanta gente que já sofreu tanto na vida até mais do que eu e não desistiu. Eu também não vou desistir, vou até o fim, meu sonho é me formar! </p><p>Vou deixar um versinho meu:</p><p>"Passarinho na gaiola</p><p>Vê o mundo da prisão</p><p>Canta lindo e muito alto</p><p>De partir o coração</p><p>Sonha em ganhar o céu</p><p>Ninguém é seu dono não."</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-16 00:32:10 UTC</pubDate>
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         <title>Jade</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Jade:</p><p><br></p><p>Era uma vez uma menina que teve que crescer cedo. Essa menina sou eu, com o meu primeiro namorado me perdi e engravidei da minha primeira filha. Eu só tinha 14 anos, sempre fui grandona e tinha um corpão, todo mundo falava e os homens mais velhos sempre davam em cima de mim, até os amigos do meu pai faziam isso. Enfim, engravidei e virei assunto na família, sofri muito preconceito, ouvi muita piada na vizinhança inclusive na escola que eu estudava, tamto que eu desisti; não aguentava mais er apontada como exemplo ruim e ouvir sermão de todo mundo. Eu já estava sentindo na pele que ia ser dificil ser mãe tão cedo, mas fazer o que né? A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente até o dia que acontece. Tive minha filha e fui tocando a vida, fui morar na casa da minha sogra com o pai da menina e a família dele. No início era tudo lindo, sabe? Depois as coisas vão ficando dificeis, no meu caso foi ficando muito ruim a convivência porque minha sogra queria me fazer de empregada. Eu não saía, não via minha mãe quando eu queria, até que um dia ela se atreveu a levantar a mão pra me bater; o pai da minha filha estava trabalhando e quendo ele chegou que eu contei pra ele, tudo ficou por isso mesmo, ele parecia ter achado que a errada ainda era eu. Decidi voltar pra casa da minha mãe, mas ela não me queria lá não. Depois de me ver sofrendo muito com a minha bebê ela me deu uma nova oportunidade e inclusive me incentivou a voltar a estudar. Olha, não foi fácil voltar não porque toda escola por onde eu passei as pessoas me julgavam sabe? Tive filho cedo e parei de estudar porque não tive apoio de ninguém. Fui chamada das piores coisas que alguém pode ser, infrentei a violência da minha sogra e de todos na casa dela porque eu lá eu não podia nada; só ser a empregada deles: lavar, cozinhar e limpar. Cheguei a pensar em tirar a minha vida, a minha filha me salvou, se não fosse ela com certeza eu teria morrido. Por ela eu decidi me matricular no Brnadão, essa escola é diferente de todas as outras, aqui pude ser quem eu sou e contar minha história sem medo, mostrei meu talento, todos os eventos da escola eu que ajeito e todo mundo me respeita. Aprendi tanto aqui sobre tanta coisa que não foi só os assunto do livro. Fico ansiosa pra chegar o horário de ir pra escola, não falto por nada, nem deixo minhas amigas faltar também. A gente vê que os professores aqui estão preocupados quendo a gente não qprende, ou quando não está bem. Ninguém julga o outro ou aponta o dedo; as professoras procuram saber quendo a gente está doente, ouvem a gente, nossas ideias e não fazem pouco caso não. Se eu tivesse chegado aqui mais cedo, com certeza já tinha me formado. Meu plano é fazer faculdade de serviço social e ajudar mais gente, mas sem deixar meu dom né? </p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-19 00:52:57 UTC</pubDate>
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         <title>Citrino</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Citrino:</p><p><br></p><p>Eu sempre fui rebelde sabe? Não sei o que me dá, quando eu vejo já disse coisas que não devia ou fiz coisas que me deixam triste ou magoam pessoas que eu amo. Minha rebeldia sempre me trouxe problema na escola, fui expulsa de várias; mas ninguém olha o meu lado sabe? não sou desse jeito porque eu quero, eu reconheço que preciso de ajuda porque passo dos limites as vezes. Nessa minha vida eu perdi de ano algumas vezes, ou desiti com vergonha de voltar pra escola.</p><p>Agora que estou muito atrasada na idade a escola não me aceita mais durante o dia, então vim para o turno da noite e confesso que achei que iria odiar estudar no meio de um monte de velho. Mas eles tem sido muito legais comigo, os professores são muito massa, conversam sem gritar, falam com amor e param pra me ouvir e me ajudar com esse meu gênio dificil, fiquei muito surpresa e feliz com essa nova chance que a vida e a escola me deu. Nunca que eu nem sonhava que podia aprender tanta coisa com meus colegas e eles comigo. A gente ficou fechamento, um cuida do outro porque sabe um pouco do que cada um viveu pra ficar tanto tempo longe da escola. Agora ninguém solta a mão de ninguém. Se um falta, a gente procura saber porque. A gente aprendeu aqui na escola com as prós a respeitar os outros e que cada um tem uma coisa especial pra ensinar. Pense aí a gente fazendo os deveres e lembrando que aquele assunto tá vindo por causa da minha história... é muito massa!</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-19 01:08:21 UTC</pubDate>
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         <title>Rutilo</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Rutilo:</p><p><br></p><p>Nasci na cidade de Nova Soure, no sertão da Bahia. Vim pra Camaçari menina com meu pai, minha mãe e meus cinco irmão. Fomos morar no sítio de um povo endiheirado num lugar chamado Monte Gordo, que é beira de mar mas que naquele tempo só aproveitava essas coisa quem era rico,  gente pobre feito a minha família servia só pra trabalhar. Naquele tempo não tinha escola na região, então a gente só labutava e quendo dava ia brincar um pouquinho nos terreiro, subindo nos pés de fruta e correndo com os bicho. Um dia eu já maiorzinha, uma das filha do patrão se casou numa festança e foi morar em Salvador, queria uma menina pra ajudar no serviço da casa e então lá fui eu. Toda matuta, nunca tinha andado de elevador, ou nos meio de gente fina, mas a patroa foi me ensinando aos pouco. Eu cuidava da casa, levava os menino na escola e buscava; essa era minha vida, não tinha ninguém por lá então trabalhava por vida sabe? Sem estudar só sabendo assinar o nome porque a patroa me ensinou. Numa dessas volta que a vida dá, encontrei um moço bonito que era jardineiro nos prédio tudo da vizinhança. Nos gostamos, namoramos e casamos. A patroa chorou no meu casamento e no começo não queria me dispensar sabe? Mas com o tempo ela viu que eu não estava mais feliz com eles e eu queria ter minha casa, estudar e aprender a ler pra ninguém nunca mais rir de mim como o patrão costumava fazer. Depois que casei meu esposo veio trabalhar em Camaçari na prefeitura e eu vim morar aqui com ele. aqui tive meus filho e a vontade de voltar a estudar foi ficando pra depois sabe? Sempre vigiei pros menino estudar pra não ficar igual a mim, sem poder trabalhar de carteira assinada por que não tem estudo. Agora já velha com os filho tudo criado, consegui voltar pra escola e estou muito alegre com isso. Dá vontade de ficar  na escola sabe? Ninguém zomba de mim aqui porque eu num sei fazê as conta direitinho, mas tô bem melhor! Entendi que eu sou boa em matemática; como diz a pró na matemática da vida ninguém me passa a perna! Sei tudo de troco, sei economizar no mercado, tô aprendendo a usar isso na escola junto com meus colegas, ouvindo eles dizê cada um sua história com as letra. Faço um monte de trabalho manual com material reciclável: pet, papelão, vidro... transformo em vassouras, pufes, mandalas, cachepôs. Muitas coisas lindas que meus colegas e professores param pra ver e me ouvir. Agora estamos fazendo um mosaico lindo pra botar na frente da escola. </p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-19 01:31:36 UTC</pubDate>
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         <title>Opala de Fogo</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Opala de Fogo:</p><p><br></p><p>Sou mestre de obras, modéstia a parte sei tudo de construção. Levanto casa do zero, ajeito casa velha, faço prédio pra comércio, clínica e tudo mais. Sei desenhar os projeto, só não tenho é o estudo, o papel do certificado pra fazer os curso que aparece pra eu fazer, inclusive pro patrão me pagar melhor ne? Não gostos de falar da minha história da infância porque não tenho nada de bom pra contar, só pobreza, fome e sofrimento até minha mãe ficar viúva e saír deixando a gente nas casa dos padrinho proque ela não tinha mais condição nenhuma de ficar com a gente tudo junto, nem casa a gente tinha mais. Fomos jogado pra rua igual cachorro sem dono. Meu padrinho era um homem bom, me botou na escola e eu estudei até a quarta série, depois ele me tirou da escola porque achava que já era hora de eu ter profissão. Me ensinou tudo que eu sei até hoje, me levava pras obra que ele tocava e me mostrava tudo direitinho com muita paciência. Não demorou muito e eu caí no trecho, fui trabalhar viajando pelo Brasil numa empresa que fazia prédios e casas de todo tipo. O dono da empresa era o filho do meu padrinho, então eu era o homem de confiança dele, um verdadeiro faz tudo. No ano de 2018 eu sofri um acidente de trabalho e precisei voltar pra casa pra me recuperar. Fiquei um tempão de molho e nesse tempo decidi voltar pra escola. Voltei a trabalhar e logo depois veio a pandemia e fiquei dentro de casa confinado como todo mundo, matutando e a vontade de voltar a estudar só aumentando. Tive muitos namoros mas nunca me casei. Essa escola é tão especial que além de realizar meu sonho de estudar, me deu a minha linda esposa que estuda em outra sala, mas me incentiva todo dia a vir, mesmo cansado pra estudar. Gosto tanto de estar nessa escola porque os professores são muito amigos e pacientes. O professor de matemática usou meu trabalho pra falar da matéria dele, achei muito incrível isso. As professoras dão aula sobre a gente, param pra ouvir e ainda deixam a gente dar aula também. Nunca nem pensei que isso um dia ia acontecer comigo. Gente estudada querendo aprender o que eu sei. </p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-19 02:05:38 UTC</pubDate>
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         <title>Alexandrita</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Alexandrita:</p><p><br/></p><p>O Desenho é a minha vida. Se tô triste, desenho! Se tô feliz, desenho! Se tô pensativo, desenho também! È o jeito que eu encontrei de me manter feliz na vida e fugir também de tanta agonia que sempre foi a minha vida. Meu pai era um cara legal , quando ele não bebia. Porque era ele beber e sofrer tipo uma transformação. Virava um cara Quebrava tudo dentro de casa e ameaçava matar a gente. Mas nunca tinha tocando a mão em nenhum da gente, nem na minha mãe. Um dia ele bebeu demais, passou do limite e bateu na minha mãe, depois desse dia minha vida virou de pernas pro ar, minha mãe foi embora e deixou a gente pra trás. Foi duro, todo mundo falava muita besteira dela pra gente e me doia demais ouvir tudo aquilo. Meus cadernos de desenho eram meus melhores amigos nesse tempo, eu vivia sozinho com meus lápis e meus papeis.  Viviamos nos mudando por causa do trabalho do meu pai e a gente foi ficando meio solto na vida. Ele nunca tinha tempo de observar a gente então não iamos pra escola e meu pai nem sabia. O tempo foi passando e eu fui ficando pra trás nos estudos. Trabalho numa empresa que faz limpeza de clinicas e hospitais. Mas faço meus bicos com a minha arte, que a professora me ensinou que é meu dom. Pinto fachadas de escolas do bairro, faço painés de clinicas e até de casas de show aqui da cidade. Voltei pra escola pra concluir meus estudos porque quero fazer faculdade de Artes plásticas ou de Arquitetura. Aqui na escola estou ensinando meus colagas algumas técnicas de desenho, contei um pouco da minha vida e descobri meu propósito de vida. Não vou parar. Ninguém mais me segura.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-04-19 02:20:55 UTC</pubDate>
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         <title>Rubi</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Rubi:</p><p><br></p><p>Sempre fui meio nervosa, meio impaciente com a vida. Nunca entedi direito porque era assim. Apanhei muito da minha mãe, das minhas irmãs e tias também. Aliás sempre fui meio saco de pancada de todo mundo lá em casa. Eu sou a mais nova de oito filhos que minha mãe teve com dois maridos diferentes, moramos a vida toda na casa que era da minha avó, minha mãe cuidou da veinha até ela partir, então era tudo um bololô de gente dentro de casa. Todo mundo me dava cascudo, eu que não era mole também era muito traquina e bem respondona. O primeiro marido da minha mãe morreu na estrada, ele era caminhoneiro, é o pai dos meus três primeiros irmãos; eu não conheci ele, sou filha do segundo marido de minha mãe que também faleceu, mas foi do coração. Meu pai, ele bebia muito, jogava dominó apostado e era muito raparigueiro. O povo conta que ele estava endividado e depois de tomar uma prensa do agiota passou mal e não resisitu. Tirando tudo isso ele era um homem bom, amava ele demais. Minha mãe ficou com fama de matadeira de maridos por ser viúva duas vezes e nunca mais trouxe homem pra casa mas farreava e saía pra beber com as amigas e deixava os filhos todos em casa uns cuidando dos outros já que minha avó coitada, tava cansada de guerra e minhas tias não estavam nem aí pra gente. Fui crescendo meio enraivada com a vida, brigava por tudo, vivia encrencada fui expulsa de umas três escolas, também minha mãe não ia lá... enfim. Fui crescendo e sentindo necessidade de ter meu dinheiro, mas dinheiro limpo. Porque se fosse pra ser dinheiro sujo ia ser fácil, um monte de homem velho queria me dar dinheiro em troca de ousadia. Mandava tudo se lascar! Só porque eu era uma menina pobre e sem pai queriam se aproveitar. Um dia uma vizinha disse que a patroa dela estava procurando uma menina pra trabalhar na loja dela pra tipo fazer de tudo. Era uma loja de doces e bolos feitos por encomenda, foi ali o começo da minha salvação. O nome da dona da loja era Tina e ela foi meu anjo porque tinha paciência demais pra me ensinar as coisas desde como limpar o chão e os materiais direitinho e com a higiene que ela achava que era a certa, até o dia em que comecei a enrolar os doces e embalar. Fui aprendendo ater paciência no preparo dos doces e aprendendo as receitas, os truques todos. Depois de um tempo tava eu lá fazendo doces e até inventando arte . Dona Tina faleceu na pandemia e os filhos dela iam defazer do negócio dela, então me doaram algumas coisas, outras eu comprei e decidi continuar com a freguesia dela. Achei meu dom! Fazer doces, inventar receitas novas e recheios diferentes. Eu fiz um monte de curso de doces finos e de decoração de bolos. Mas a escola deixou um vazio na minha vida, dona Tina me ajudou a escrever e ler bem direitinho, mas eu não tinha diploma. Voltei pra escola por isso, quero o canudo pra estudar gastronomia porque meu sonho é ter uma delicatessem. Tenho economizado pra isso, não vou morrer sem realizar meu sonho. Fiquei muito surpresa com essa escola que as pessoas ouvem os alunos e deixam a gente dar aula pros nossos colegas. Achei lindo isso, mais legal ainda é os mais velhos aprendendo com os mais novos e os mais novos com os mas velhos, sem preconceito sem mangação. Acho que se eu tivesse estudado aqui mais jovem eu teria ido até o final dos meus estudos. Mas a vida me ensinou a ter paciência, era pra ser agora e eu tô muito feliz aqui com meus professores e professoras. </p>]]></description>
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         <pubDate>2025-05-04 01:40:43 UTC</pubDate>
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         <title>Copal</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Copal:</p><p><br></p><p>Não gosto muito de lembrar da minha história, então vou começar de quando eu comecei a ser feliz. Minha mãe ficou doente mental quando eu tinha seis anos, então a assistente social da prefeitura veio na nossa casa e saiu entregando a gente em un monte de lugar. Eu e minhas três irmãs nos separamos e foi cada uma pra um canto. Eu fui morar numa casa de uma moça que era enfermeira do posto de saúde do bairro do PHOC onde eu morava em  aqui em Camaçari. Essa moça, minha madrinha, fez de tudo por mim, me criou com todo amor e me apresentou ao Axé.  </p><p>No serviço da roça fui descobrindo meu talento que a pró chama de dom pra cozinhar. Eu que cuido das panelas e alimento meu povo todo. Seguindo o meu Orí fui aprendendo aescolher os temperos que sem harmonizam melhor, e até fui misturando ingredientes pra melhorar algumas receitas pra deixar as pessoas felizes. Minha Mãe pequena diz que minha comida tem gosto de colo e mãe, de alegria. Então eu me entrego a isso,  nessa missão pelo resto da minha vida. Voltei pra escola depois de tantos anos pra terminar os estudos e orgulhar meus filhos. Tive dois filhos homens, o primeiro se chama Ruan e o segundo Riquelme. São dois meninos maravilhosos e estudiosos, o pai deles foi embora de casa quando eles eram pequenos e pra dizer a verdade foi a melhor coisa que ele fez. Não fez um pingo de falta na vida da gente porque de homem preguiçoso a gente tem que querer distância, são um verdadeiro atraso de vida. Ruan meu filho mais velho está na faculdade de Química, termina esse ano e Riquelme entrou esse ano pra Engenharia Civil, quando falo deles meu coração se enche de alegria e eu esqueço tudo que passei pra chegar aqui. Agora com eles praticamente criados posso voltar pra escola e aprender mais e mais coisas com meus colegas. Aqui nessa escola eu tenho uma amiga que é crente, ela não zomba da minha fé nem tenta me levar pra igreja dela. Acho lindo esse jeito de aprender os assuntos que as professoras aqui ensinam. Eu nunca imaginei que poderia falar dos preceitos e da minha fé sem sentir medo de ser humilhada como já aconteceu outras vezes. Aprendi a olhar pra mim com mais amor aqui nessa escola, ensinei o segredo do abará recheado aos meus colegas, depois o professor de matemática usou minha receita pra dar aula, destá que eu nunca imaginei passar por isso. Tô pensando em escrever um livro de receitas e lançar por aí [...] essa escola me deu asas pra voar, não perco um dia de aula mais, só quando tem função.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-05-04 02:09:34 UTC</pubDate>
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         <title>Esmeralda</title>
         <author>rildessena</author>
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         <description><![CDATA[<p>Esmeralda</p><p><br></p><p>Cedo eu tive que sair de casa por causa da minha madrasta que era uma verdadeira praga. Meu pai ficou cego de amor por aquela infeliz depois que minha mãe morreu, eu era o filho único dele com minha mãe que morreu no parto do meu irmão que também acabou morrendo junto com ela. Teve um tempo que eu ficava matutando porque que eu também não tinha ido com eles, porque a vida aqui não estava fácil! Eu só tinha cinco anos e me vi sozinho no mundo, meu pai parece que criou um ranço de mim, dizia que eu me parecia muito com minha mãe, ele não aguentava olhar na minha cara, então minha madrasta me fazia de gato e sapato na frente dele e ele não fazia nada.</p><p>Eu vivi essa vida infeliz até completar 10 anos e o circo chegar na cidade; me juntei com uns meninos que andavam comigo e fomos ver o circo escondido, na verdade iamos todos os dias, era sempre uma farra, mesmo sabendo o que me esperava depois, eu nem ligava. A maldita ia me bater e até me deixar com fome e eu nem me importava mais, me tornei uma pessoa meio fria. Um dia achei uma faquinha debaixo da lona do circo e levei pra mim, amolei bem amolada e guardei comigo, eu estava decidido a nunca mais apanhar sem motivo, porque me bater era tipo o passatempo dela, me judiar era sua diversão. </p><p>Nesse dia eu tinha ido dar comida aos porcos e quando voltava só senti o cabo da vassoura nas minhas costas, ela disse que eu estava levantado poeira com minha passada, não contei dois tempos e puxei a faca pra ela. A nojenta gritou parecendo que viu um lobisomem e eu corri com toda força que tinha e fui parar no circo só com a roupa do corpo, quando cheguei lá contei o que tinha acontecido e o dono do circo me carregou com ele. Meu pai nunca veio atrás de mim, deve ter sido um alívio pra ele, no fundo eu sei. Eu vivi com minha família do circo até ficar de maior, depois disso fui morar sozinho e procurar trabalho fichado. Aprendi o ofício de pedreiro  hoje sou mestre obra e dou show nos acabamentos, trabalho pra uns barão que constrói casa em Alphavile. Tenho minha casa própria e minha moto. Sou casado e tenho três filhos, dois homens e uma moça. Minha esposa me arrastou de volta pra escola, no inicio vim por causa dela e hoje eu também gosto de estudar. Quando que eu ia escrever um negócio desse na minha vida? Fiz novos amigos, aprendi tanta coisa boa com meus professores, até matemática com meu trabalho teve, todo mundo parando pra me ouvir sem conversar. A gente aqui é uma família e um cuida do outro, até vigia quem quer faltar.</p>]]></description>
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         <pubDate>2025-05-04 02:33:30 UTC</pubDate>
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