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      <title>Texto, texto, texto, texto... Você me entende? by Vania Pereira Da Silva</title>
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      <description>Espaço para guardar meus porquês</description>
      <language>en-us</language>
      <pubDate>2022-08-12 19:41:40 UTC</pubDate>
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         <title>Poema </title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Do peito ao papel<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Vânia Pereira</div><div>&nbsp;<br><br></div><div>Olá, você<br>Que assim, meio sem querer,&nbsp;<br>Roubou de mim a autoestima<br>É sobre você&nbsp;<br>Que ao escolher cada palavra, cada olhar, cada atitude<br>Fez eu me sentir por fora de tudo.<br><br></div><div>Sem nexo<br>Sem vínculos,<br>Sem laços,<br>Sem lar,<br>Sem nada.<br><br></div><div>Enquanto tantos são tolhidos pela tez escura...<br>Eu<br>Mesmo tendo sangue negro!<br>Sangue do meu vô, descendente de africano<br>Sangue de vovó, tetraneta de Maria<br>A “semente” que coloriu a pele de nossa gente.<br>Cabelo crespo como tio José<br>Nariz pontudo como Tio João<br>Ainda não pertencia<br><br></div><div>Não cabia pela pele clara<br>Sendo clara somente a pele<br>Minh ’alma é do gueto<br>Minh ‘alma é retinta<br>Há sangue africano&nbsp;<br>Correndo em mim.<br><br>Ter os mesmos ancestrais não foi suficiente para me fazer caber no ninho.<br><br>Por que me cobraram tanta perfeição?<br>Essas raízes desse não gostar<br>Desse não querer<br>Desse não sentir<br>Desse não me amar...<br><br></div><div>&nbsp;Era somente uma criança perdida no mundo,&nbsp;<br>Sem mãe, nem pai<br>Numa terra sem pai, nem mãe.<br>Onde a mãe era a vó, e o avô era o pai<br><br></div><div>O que doía mais fundo era não poder dizer<br>Desse amor que nascia ao pé do fogão<br>Pois o preço a ser pago por tão querer bem&nbsp;<br>Era ter minha inocência machucada, desmerecida, humilhada:<br><br></div><div>&nbsp;</div><div>Você não é daqui!<br>Quer roubar minha família?<br>Essa casa nem é sua!<br>Aqui você não tem nada.</div><div>Invasora! Pernas de saracura!<br>Nariz de inchu cabocão!<br>Pé de moleque sem doce!<br><br></div><div>E era nesses carinhos<br>Que a menina crescia.<br>E era a parte que me cabia nesse latifúndio de amor negado<br><br></div><div>&nbsp;Porém<br>No deserto de minha infância contada&nbsp;<br>Nem tudo é lamentação:<br>A primeira manga (Ah, meu Deus ainda lembro)<br>O mel ainda mora na língua.<br>O imbu do pé mais de cá, daquele de gosto mais doce&nbsp;<br>O milho cozido em panela de ferro<br>Era o mundo numa espiga<br>Lembro da primeira pinha&nbsp;<br>Do feijão bajinha cozido a miúdo no fogo baixinho de lenha rachada<br>E do arroz de pilão&nbsp;<br><br></div><div>O barulho de minha avó pilando era uma cantiga de ninar ritmada<br>O Cuscuz era moído na hora...<br>E todo meu universo cabia num quintal<br><br>Fora desse trivial<br>Tinha “esconde-esconde” e “macaquinho qué mé”&nbsp;<br>Pula macaco, baleado,&nbsp;<br>No pula elástico, a brincadeira se esticava até de noitinha<br>Pé de goiaba era trampolim<br>O galho mais alto era meu trapézio<br>Onde eu voava sem rede, sem medo<br>Era um circo inteiro&nbsp;<br>E o trapezista ainda aqui dentro de mim.<br>&nbsp;</div><div>Tinha ainda a herança do índio faceiro ao pé da fogueira histórias narradas<br>Nos causos de almas que davam tesouros<br>Minha tia contava. Ah, Tia Anália<br>Sentada na calçada tal qual preta velha<br>Contava e tecia com tal maestria<br>Não sei se inventava, mas ela jurava que era real&nbsp;<br>E era real em meus pesadelos.<br>...</div><div>E o Caroá? Aquele pedaço de chão, cenário de nossas mais belas aventuras<br>A gente fugia, meus primos e eu<br>Depois de almoçar, a gente saía tão escondidinho&nbsp;<br>Ia pra roça no sol escaldante, no “pingo do meidia”<br>Pra saborear a fruta madura caída do pé<br>Manga madurinha, Imbu bem inchado<br>Goiaba vermelha, da roça vizinha.<br>Fica vivendo no mundo encantado&nbsp;<br>Até de tardinha.<br><br></div><div>Cresci&nbsp;<br>Meu mundo inteiro caberia na cascata que correm dos meus olhos e mancha a página em que escrevo essas lembranças.<br>E a cada vez que recordo,&nbsp;<br>que rememoro minha estrada nesses versos,&nbsp;<br>eu altero meu destino e das dores me desfaço.<br><br></div><div>Escrever é reviver e aprende&nbsp;<br>O que o poeta resumiu em uma linha ou duas, nem sei<br>“Tudo vale a pena! ”<br>Tudo vale a pena!!<br>Já que minh ‘alma de sonhar não se perdeu<br>Sou só gratidão<br>Ao meu pai que me amou sem o dizer<br>Aos avós que me forjaram em um fogo bem alto<br>Com gosto de bolinho de tapioca em gordura borbulhante e de café coado<br>E aos que me fizeram um frangalho de gente<br>Aos que tentaram me aniquilar<br>Parabéns!! Rendeu demais!&nbsp;<br>Durou meio século...<br>A vocês, meus queridos, vai um recado&nbsp;<br>O inferno em que me jogaram,&nbsp;<br>a fogueira em que me queimaram.<br>Me tornaram fênix.<br>E das cinzas me fiz renascer.<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-12 20:03:51 UTC</pubDate>
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         <title>Crônica</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Tatoos?? Temos!!<br><br>Sou a última pessoa que poderia pensar em ter uma tatuagem. Hoje tenho sete, imagine. Porque afirmo isso você poderia perguntar. Posso te contar se tiver um pouco de tempo e paciência. Senta que lá vem história!</div><div>Moro em São Gabriel. Um lugarzinho de origem judaico-cristã. Aqui, todos se conhecem, ou pelo menos assim era quando me mudei para cá. Logo, todos sabem da vida de todos, opinam sobre a vida de todos e julgam a tudo e a todos. Confesso envergonhada que já fui assim um dia. Preconceito era meu nome do meio.&nbsp;</div><div><br></div><div>É costume dos moradores daqui, sobretudo os mais antigos e que se julgam donos da terra, sentar nas calçadas, ao fim de tarde para conversar sobre assuntos banais e pôr os papos em dia.</div><div>Sempre que passava algum desses pioneiros que se arriscaram a tatuar uma figurinha tímida nos seus brações bem torneados ou em seu cambitinhos de sertanejo, todos apontavam e logo diziam:</div><div>- Olha o filho de Dona Fulana. Já tá fazendo coisa errada. Olha a monstruosidade que tem no braço.</div><div>- É verdade! Coitada de comadre Beltrana. Deve estar desconsolada.</div><div>- Eu, heim! Deus me adefenda!</div><div>Eu cresci ouvindo isso e simplesmente entrei na onda. Tatuagem é coisa de gente que que ser ruim - pensava eu, pensávamos nós.&nbsp;</div><div>Em filmes e séries de TV elas, as tatuagens, não eram exibidas pelos mocinhos. Os fora-da-lei faziam questão de mostrá-las. Eram caveiras, armas com rosas e coisas que faziam meu coração gelar. Tatuagem em minha pele? Jamais!</div><div>Meu filho mais velho, certa feita, ao passar uns tempos em Brasília, na casa de um tio. Sem nada melhor para fazer, resolve me pregar uma peça. Liga e me informa, soltando a mensagem como uma bomba:</div><ul><li>Mãe, me perdoa, fiz uma tatoo.</li></ul><div>Desespero e dor tomaram conta de mim. Como assim? Que traição foi essa? Um filho que criei com tanto amor me apunhala pelas costas assim. Quero morrer, gente.</div><div><br></div><div>Mas… Chegar aos 40 é uma dádiva, gente. Quando vocês chegarem aqui vão saber do que estou falando. A vida ensina que tudo são experiências. Só se leva dessa vida o que se viveu e fim. “Permita-se”, disse um amigo que, sem se dar conta, me deu a frase que mudou tudo dentro de mim. Permita-se!</div><div>Permita-se, foi a frase que me veio à mente quando escolhi a gratidão e o infinito. Símbolos que enfeitam minha pele e definem quem sou neste momento. Gratidão ocupa hoje o espaço do preconceito. Infinito, por sua vez,&nbsp; é bocado de amor que cabe dentro de mim.&nbsp;</div><div>Liguei para Mateus Felipe e marquei a data. Quando? Agora mesmo, disse ele para minha alegria.</div><div>E assim às 4h daquela tarde de quarta feira, minhas duas preciosidades já estavam em meus pulsos.</div><div>Longe de mim incentivá-lo a fazer uma, caro leitor. Essa é a minha história, além do mais, se você ainda não chegou aos 40,&nbsp; tem muito tempo ainda para se descobrir e experimentar outras coisas. Não vá deixar sua mãe desesperada só para ter uma tatoo. Ademais, as opiniões mudam muito quando se é jovem. Melhor esperar seu coração vibrar mais forte e então decidir.</div><div>Ah, minha triquetra ficou linda. Minha terceira é proteção contra os maus olhos e línguas afiadas de minha querida São Gabriel. Sobre as outras… outro dia eu conto.</div><div><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-13 22:09:48 UTC</pubDate>
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         <title>Crônica</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>É gol?<br><br></div><div>Parecia um dia comum com muitos outros na rotina de uma professora de ensino fundamental. Aulas preparadas, mochila organizada, café pronto e pães sobre a mesa. Nada mais a fazer em casa a não ser conferir os pneus de sua velha bike vermelha que já se tornara parte de si mesma, pois sempre, chovia ou fazia sol, chegava ao Colégio Estadual João Durval Carneiro pedalando sua magrela.<br><br></div><div>Sete e meia em ponto, o diretor toca o sinal. Cinco aulas de matemática em turmas que variavam do meio comportados até aqueles “pimentas” de sempre, alunos que tiram o fôlego de qualquer profissional que se preocupe com a aprendizagem. A  turma mais trabalhosa certamente era o Sexto B, cujo passatempo preferido da maioria era atanazar um vizinho nosso, conhecido popularmente como Neinha.&nbsp; Punham apelidos, gritavam com o moço sem medo de qualquer represália. Claro, poderiam correr mais rápido e desviar das pedradas que o pobre homem atirava a fim de descarregar sua indignação diante de tanto desrespeito. O discurso de todos os colegas e dela, certamente, era o do respeito às diversidades, cobravam e fomentavam de todas as formas possíveis o senso de responsabilidade e outras coisas do gênero. Mas qual? Alguns da classe nem davam ouvidos aos nossos conselhos, preferiam dar vazão a seus instintos mais selvagens: buscar prazer na ira de outros.<br><br></div><div>Finalmente toca o sinal novamente, hora da saída e a turma sai em disparada. Por coincidência ou não lá estava o nosso vizinho, próximo à quadra de esportes, dirigindo-se ao centro da cidade para um passeio despretensioso, quando os meus queridos do Sexto B o encontram e começam a algazarra, a gritaria e a chuva de apelidos que deixaram nosso já referido Neinha em fúria. Sem pensar duas vezes, apanha várias pedras e começa a atirá-las nos alunos gerando assim mais motivos para a pilhéria de mau gosto. Nesse momento lá vem a professora de matemática, charmosa e despreocupada pedalando sua Monark. Sem perceber o perigo que corria, vira calmamente a esquina de Nego quando sente que algo vai de encontro a sua cabeça.&nbsp; Pensando tratar-se de uma bola advinda da quadra localizada logo em frente dirige o olhar naquela direção a fim de reclamar cuidado com os atletas que ali estavam, mas ao tocar sua cabeça exatamente no local em que foi atingida pela bola voadora, percebe que parte de seus cabelos cacheados estão em sua mão acompanhados de muito muito sangue o que a deixou em desespero. Imediatamente desce da bicicleta e a deixa no meio da rua enquanto a mancha vermelha que descia de seus cabelos coloria a rua.<br><br></div><div>Assustados, os curiosos se perguntam: “O que aconteceu?” e, em choque, não tomam qualquer atitude em socorro da docente. Nesse momento, porém, o diretor do colégio aparece e a socorre finalmente, levando a pobre professora ao hospital da cidade, em sua motocicleta, deixando para trás um longo rastro vermelho.<br><br></div><div>“Não raspe minha cabeça” -&nbsp; pedia a professora, preocupada com as sequelas de tão fatídico episódio. Nem se preocupava com o que conseguira como lembrança da aventura: mais pontos do que a soma das notas dos meninos do sexto ano B.<br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-13 22:17:05 UTC</pubDate>
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         <title>Crônica</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Água gelada com cilha.<br><br></div><div>Que calor! Cinco aulas foi de lascar o cano! Duas de matemática com nada mais, nada menos que o professor Oswaldo Ferreira, um dos ícones da educação gabrielense. As duas de Português foi tranquilo. Mas na última, de Ciências, o professor Elisiário estava daquele jeito. A bagunça da turma do fundão deixara suas lindas bochechas em brasa e lá se foi conteúdo e fórmulas e cálculos e dá-lhe química e dá-lhe física. Ainda bem que entendi tudinho. Não que eu fosse CDF ou coisa do tipo, é que amava o jeito em que ele expunha a matéria.&nbsp;<br><br></div><div>Doze horas. Agora sim. Toca a campa, e lá vamos nós em bandos para casa. Feijão com torresmo, amassadinho na mão, a gordura descendo pelos dedos, arroz e ovo frito, desses de galinha caipira, sabe, frito com toicinho. É de lamber os beiços! dizia seu Purcino! Findo o almoço, hora do descanso, porque ninguém é de ferro. Tudo bem até que chega Irani e Maristela de Tia Odete com o irmão mais novo escanchado. Até hoje não entendo como ela o aguentava. E a gente nem pedia pra carregá-lo um pouquinho...&nbsp; Alguns minutos são suficientes para que a maloca se junte: as gêmeas de Tia Clarice, Neuma de tia Rita, meu irmão e mais uns três primos aventureiros que não têm medo de apanhar. Planos para a tarde: tomar banho “nos tune”.<br><br></div><div>Era como a gente chamava um trecho específico do riacho Baixão. Local que foi alvo de uma tentativa frustrada de ponte ligando o meu bairro ao Mansambão 2, da qual sobraram apenas as manilhas de concreto por onde escorreriam as águas, daí a denominação túneis (“os tune” em nosso falar infantil). No verde ficava difícil a travessia. Era quando vinham as tão esperadas chuvas e a passagem se tornava uma aventura para poucos. “Os tune”, local de lazer, de encontro da nossa turma que para lá se dirigia a fim de refrescar-se em suas águas salobras e geladas. A gente não se importava com os cabelos assanhados e duros, ou com os olhos vermelhos e irritados  e nem mesmo com a pele acinzentada pela salinidade. O legal era pular de flecha, aprender a nadar, pescar piaba e tilápias, disputar corrida e “arear” os pés com as pedrinhas brancas do fundo do riacho que, de tão cristalinas as águas, dava gosto de se ver.&nbsp;<br><br></div><div>Não poderia me esquecer de mencionar “as tabua”. <em>Thypha domingensis</em>, conhecida pelo nome comum de taboa. A vegetação oficial do Baixão. Por cima, um verde de dar gosto, embaixo lama podre. E era lá, no meio das "tabua", na lama preta e fedorenta que nosso cachorro Capothinga adorava ficar, correr, nadar, espojar deitar e rolar. Mas tudo bem. Gosto não se discute.&nbsp;<br><br></div><div>Deu cinco horas. O sol começa a esfriar, hora de voltar pra casa.&nbsp; Ainda bem que um de nós havia levado banha de galinha para hidratar cabelos e pele e disfarçar o aspecto acinzentado. Assim, depois desse improvisado tratamento de beleza, voltamos para casa pensando na desculpa perfeita pra não apanhar. Banhar no Riacho, no amado Baixão era terminantemente proibido. Decreto oficial de nossa vó. Poderia dar sezão. Ou seria malária?&nbsp; Alguma doença terrível cujo nome a gente nem ouvia quando ela dava o sermão.<br><br></div><div>Chegando em casa Vó Flora nos esperava, a meu irmão e a mim, com a velha cilha de arrear o jegue. Foram tantas lapadas que nem consegui contar. A pele vermelha do sol recebia as lapiadas dadas com gosto. Até que o braço doesse, até que a fúria passasse. Fúria pela teimosia, pela repetição da mesma atitude: a fuga da tarde, de todo dia de tarde, de todo dia de calor infernal em que a voz “dos tune” nos chamava, nos hipnotizava, nos enfeitiçava e nos atraía para aquele oásis de paz e diversão.<br><br></div><div>Passada a agonia, veio a pergunta:<br><br></div><div>- Vó, como a senhora descobriu que a gente estava no baixão?<br><br></div><div>- Boa tentativa, minha filha, mas o cachorro chegou aqui primeiro.<br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-13 22:23:47 UTC</pubDate>
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         <title>Poema</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>IDENTIDADE, IDENTIDADES<br><br></div><div>Vânia Pereira&nbsp;<br><br></div><div>Sempre me perguntei quem sou<br>A filha, a neta, a mulher ou a mãe?<br>Perguntei se meu valor<br>Está no que faço, no que falo ou no que eu dou.<br>Busquei em vão meu valor no valor que me deram quando precisaram de mim<br>Me usaram e descartaram.<br><br></div><div>Quando fui valorada pelo que ofereci ao mundo<br>fui esquecida por não mais ser mais útil a ele<br><br></div><div>Busquei meu valor em quem pensei que era&nbsp;<br>A menina sem pai nem mãe<br>A franzina, a magrela, a teimosa que ninguém quis<br>Que não pertencia, a que não cabia<br>A diferente, a alquebrada, a em frangalhos...<br>- Tu não vai ser nada nunca!!<br>Quase acreditei!<br><br></div><div>&nbsp;Sempre me perguntei quem sou<br>A esposa submissa ou mãe ausente?<br>Profissional dedicada compensando ali o que acolá faltava.<br><br></div><div>Nessa busca por quem eu sou<br>Me graduei, fiz mestrado para só então notar&nbsp;<br>Que o valor do que eu sei<br>Pode se resumir no que sei compartilhar.<br><br></div><div>&nbsp;Ainda me perguntei quem sou na maturidade<br>Quando vieram as rugas&nbsp;<br>E com elas o valor que busquei em lugares onde nunca poderia encontrar.<br><br></div><div>Finalmente descobri quem sou<br>Venho de quilombos perdidos na caatinga do sertão<br>Sou aquela que resiste ao chicote da vida e do tempo.<br>Ao tronco e às dores da alma.<br><br></div><div>Sou selvagem como são meus ancestrais que fundaram a vida no meio do nada<br>Índia guerreira, caçada no mato&nbsp;<br>Que o cativeiro não domesticou.<br><br></div><div>Trago em mim traços de quem sou<br>Minha identidade está no sangue que corre em mim<br>E que me impede que eu fique no chão.<br><br>Sou do mato, sou da roça, sou judia...<br>Dentro de mim há mil&nbsp;<br>Meus ancestrais se refletem na força que me faz ser quem sou<br>Eu sou negra, sou cabocla e sou mestiça.<br>Sou Brasil!<br>Não esse país governado por hipócritas,<br>mas o cerne de um povo que renasce&nbsp;<br>por maior que seja a fogueira que nos queimou.<br><br></div><div>&nbsp;Não me pergunto mais quem eu sou<br>Eu sou tudo e eu sou nada.<br>Quando eu me for, não sei se serei lembrada<br>Não importa!<br>Descobri finalmente a resposta<br>Sou uma vida inteira que cabe num instante<br>Sou um imenso universo.<br><br></div><div>Meu valor está em quem eu sou, isso é certo<br>Esse eu que se estendeu em poesia<br>Mas que certamente caberia em um só verso.<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-13 22:36:24 UTC</pubDate>
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         <title>Crônica</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Sobre meio ambiente<br><br></div><div>&nbsp; &nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<br><br>Por Vânia Pereira<br><br></div><div>Lembro de minha infância numa terra onde a chuva era visita mais que esperada. Daquelas que a gente empresta a própria cama e reserva as melhores receitas e ainda põe os melhores talheres na mesa. Aquela visita querida que demora a aparecer, mas quando vem é sempre festa. Há tempos em que ela chega cedo anunciando fartura, barriga cheia. E quando a “divina misericórdia” começa a cair em setembro? “É tempo de Tambueiro! Vai ter imbu!! - diziam os mais velhos. Confesso que até hoje não consigo entender o significado desse termo. Ouvir uma pá de vezes esses dizeres de minha avó: “Se Nossa Senhora da Conceição abençoar, vai ter aguada boa em outubro, novembro, dezembro. Janeiro, ah meizin abençoado! Se entra janeiro chovendo, é água o mês inteiro, mas se entra com sol... Hum, aí já viu, né. Não tem mantimento que resista. ” E assim, entre presenças e ausências ia-se vivendo nesse sertão de Meu Deus.<br><br></div><div>Testemunhei a fartura na roça de meu avô. O velho não economizava ao semear: nas barrocas, plantava capim para o deleite de nosso jumento e para que as raízes “segurassem” a terra. Aprendia sobre erosão e como evitá-la nas lições da professora Maninha e, na prática, com meu avô, um sábio que sabia a lição de cor e salteado. Plantava não apenas o milho e o feijão bajinha como a maioria dos agricultores do Caxambu. A extensa variedade hortifrúti contemplava desde maxixe, quiabo, abóbora, aipim, pipoco, melão, até banana de todas as cores e cana para todo gosto. O melhor de tudo era quando ele se sentava num toco descascando cana para os netos que disputavam a próxima rodada de gomos. As que não dávamos conta de chupar – assim pensava eu - virariam rapadura, enquanto as cascas e o bagaço alimentavam os animais. No sertão, nada se perde tudo se aproveita.<br><br></div><div>A minha riqueza preferida era e sempre será a melancia. Melancia, néctar dos deuses! Melancia de sequeiro, melancia sem agrotóxicos. Melancia orgânica. Não era assim que a elas nos referíamos, mas eram genuinamente orgânicas. Não me cansava de saboreá-las. Começava pelo miolo, ia raspando com a colher até que restasse apenas a casca e ainda assim era docinha. Meu avô Purcino nos abastecia generosamente. As bruacas do jeguinho a cada dia vinham cheias e assim, durante o verde ou enquanto durasse o estoque, tínhamos a dispensa da cozinha abarrotada daquelas fontes de mel. Eu não me fazia de rogada. Começava desde às seis e varava o dia me deliciando e, claro, visitando o banheiro a cada vinte minutos para que houvesse espaço para mais daquela delícia vermelhinha.<br><br></div><div>Tínhamos também a boa e velha batata doce. Na cozinha de minha avó em volta do fogão de lenha, quem conseguiria se lembrar de pão ou bolacha tendo essas doçuras borbulhando no caldeirão de ferro sobre uma cama de brasas? Quando na roça, as brasas iluminavam minhas noites de menina medrosa. As lagartixas passeando por entre as palhas do rancho mais pareciam enormes dinossauros e os vagalumes eram almas penadas que roubavam minha tranquilidade. O quintal da casa de meus avós era também um pequeno pomar. O ciúme que meu avô dispensava às suas goiabeiras, cujos galhos carregados se arrastavam pelo chão, ao pé de tamarindo que produzia tanto que ninguém dava conta ou às bananeiras que Tio Luís plantava com tanto cuidado, me contagiava. Esse amor pelas plantas é uma das heranças de meu avô de que nunca me despojarei. Ah, havia também a contrapartida de Vó Flora. Milho. Eu me sentia o máximo ajudando a plantar o quintal: ela ia na frente abrindo as covas e eu logo atrás, despejando dois ou três caroços e com os pés tapando o buraco para que as sementes pudessem dormir e alguns dias depois acordar como mudinhas, cujo crescimento ansiosamente eu acompanhava. A capina, depois vinha a colheita. Milho assado por Tia Clarice é o melhor. Que as outras tias de outras meninas me desculpem. É fato e contra eles não há argumentos.<br><br></div><div>Com um cenário desse - excluindo-se o pavor da narradora - quem não queria dormir na roça? Semanas antes já me via em sonhos, virando “maria cambota” no pé de goiaba, saltitando por entre os pés de laranja e limão ou coletando na rua de pinha que ficava logo em frente ao rancho. Os umbuzeiros, ou melhor, os três pés de imbu, eram alvo de minha especial afeição. O primeiro era o de meu pai. “ O pé de imbu de Bimarásio”. Era o mais alto, o mais imponente e aquele de que meu tio Ramílton tinha o maior ciúme. Ninguém podia usar uma varinha sequer para colher aqueles deliciosos imbus. Tínhamos que subir nele ou ficar esperando que caíssem para catá-los enchendo camisetas, bonés e cumbucas. Aquela árvore frondosa até hoje resiste à seca prolongada que se abate sobre nosso querido sertão. Ela nos presenteava com pequenos e suculentos frutos inigualáveis no sabor e na qualidade. O do meio tinha frutos arroxeados, mas não me agradavam tanto assim. Não me refiro ao sabor, mas aos enormes ocos no caule que me deixavam arrepiada. Em meus sete ou oito anos de experiência com medrosidades, tinha certeza de que dali sairia a qualquer momento uma onça pronta a me devorar. O terceiro umbuzeiro, por sua vez, raramente recebia minha ilustre visita, apenas quando acompanhada de um adulto autorizado. Ficava próximo à cerca de quiabento cujas flores exóticas não diminuíam meu desconforto. Dessa vez esperava que uma enorme cascavel com dez ou vinte roscas no chocalho saísse de traz de uma moita de macambira pronta para me exterminar. Me olhando hoje e com os olhos de adulta não consigo entender a extensão de meus medos. Meu avô e tios mantinha os três umbuzeiros sempre limpos e capinados. O que só demonstra o quanto aquele presente da natureza significava. Teoricamente, nas aulas de Técnicas Agrícolas já aprendia sobre sustentabilidade e a prática ficava a cargo dos pequenos lavradores que amavam essa terra como a uma mãe generosa que mesmo forte, precisa de cuidados, de amor, de carinho.<br><br></div><div>Sonhava com a chegada das férias de fim de ano. Geralmente tinham início ainda em novembro, logo depois das provas finais. Isso para quem passasse direto. E eu sempre passava direto. Era isso ou a bainha de facão de vó em meu lombo. Não que eu não gostasse de estudar. Essa motivação extra me ajudava a vencer minha preguiça adolescente. Sempre quis ser professora. Vó Flora dizia que eu tinha a cabeça boa, mas que precisava me dedicar. Fui aluna da CNEC, mais conhecida como o Colégio do Professor Osvaldo Ferreira a quem devo grande parte de minha sensação de dever cumprido. Ainda me lembro de memória o hino da CNEC, na voz da saudosa professora Ercínia. Lindo! “Tu que tens mais riso e menos pranto/ Tu que tens mais paz e menos luta...” Penso que essa professora memorável era uma espécie de Mary Poppins. Havia magia envolvida. Nem os alunos mais rebeldes, nem os mais teimosos, ou os mais difíceis resistiam ás suas conversas ao pé do ouvido. Depois de aprontarem das suas, bastavam alguns momentos de conversa séria de conselhos e de elogios, bastavam as palavras doces e fortes da educadora para que todas as barreiras da rebeldia fossem vencidas e a paz retornasse onde antes lhe faltava. Um dos modelos que busco seguir, ao lado da professora Jaci, da professora Magnólia, de Olga Ferreira e da professora Elza Mendes já citada em outro momento. Na CNEC aprendi muito sobre a vida, terminei o Ginasial, concluí o Magistério, e foi também nessa saudosa instituição de ensino que dei meus primeiros passos na profissão que abracei. A merenda era mais especial quando Dona Luísa gentilmente nos servia paçoca de gergelim, fazíamos uma espécie de cone de papel para poder saboreá-la. Hum! Ainda me lembro do gostinho de quero mais! E ela sempre nos dava mais. Havia o dia do taco grande de rapadura, ou das bananas produzidas por aqui mesmo, tão saborosas! O que tem isso a ver com sustentabilidade? Tudo!<br><br></div><div>Anos mais tarde me dei conta - na verdade foi meu irmão que me disse - de que pertenço a uma vasta linhagem de professores. Mesmo que muitos não concordem, valorizo essa carreira e depois dessa novidade, o amor só aumentou. Lembro-me como se fosse hoje: pagávamos mensalidade, um preço acessível, mas vivíamos da agricultura e nem sempre havia colheita. Então, minha avó criava seus porquinhos, com muito sacrifício. Não me esqueço quando de manhã bem cedo e ao final da tarde, a via enfiar seus pés naquela lama gelada, que engolia até seus joelhos, para alimentá-los. Já no primeiro dia de aula, recebia das mãos do diretor o comprovante de pagamento correspondente aos doze meses, pagos de uma única vez o que consumia todo o seu suado dinheirinho, e ela jamais se queixava. Dizia sempre que era a maior riqueza que se pode deixar para quem se ama. Foi esse cuidado, essa visão ampla de uma mulher guerreira, o meu galho da árvore, o meu link na velha linhagem dos pioneiros Zé Viúvo, Eurípedes Machado, Dona Gracinda, professores natos que, cada um à sua maneira difundiram o ensino neste município. Foi a somatória de todos esses esforços que garantiram meu diploma precoce: “me formei” aos dezesseis anos. Em minha infância prolongada, acabei substituindo as bonecas pelos cadernos e giz.<br><br></div><div>Não entendo este paradoxo: no Sul-Sudeste, tempo bom é quando tem sol e céu claro. Aqui para nós é diferente, bem diferente, ao avesso, eu diria; tempo bom é quando o vento do Norte traz notícias do verde. Quando o céu fica escuro, quando começa a trovejar e cai sobre a terra essa bênção divina mansa e virtuosa, empoçando primeiro, correndo água mais tarde e enchendo lagoa depois. Tempo bom de verdade é quando a chuva é “de afogar sapo”, “ de descer o baixão” não só matando a sede da terra como também trazendo a esperança de boa colheita. Quando era ano bom, adorávamos nos reunir, a primaiada toda e eu logicamente, para tomar banho de chuva, íamos até as biqueiras das casas, ver quem chegava primeiro. Lagoar, verbo intransitivo: passear pela enxurrada, enlamear-se. Nossos lábios roxos denunciavam que era hora de parar, mas quem disse que a gente se convencia? Muitas vezes, depois de cessada a precipitação, aguardávamos a próxima que certamente viria. Nunca estávamos satisfeitos. Tantos meses de espera mereciam bis e tris.<br><br></div><div>Falando em chuva, não poderia deixar de mencionar o Baixão. Metros cúbicos a perder de vista desse líquido abençoado descendo com toda a sua força, carregando consigo, galhos, folhas, enchendo suas margens e os olhos dos gabriezeiros e gabrielenses. Aquele mar de águas turvas descendo das Cem tarefas rumo ao Rio Verde, se não me falha a pesquisa, é uma imagem rara agora. Era lindo de se ver o nosso riacho. Quando íamos à casa de farinha de Mané Gago, para rapar mandioca, tirar tapioca, fazer beijus, aproveitávamos o tempo livre para nos deliciarmos nas águas geladas desse riacho de meus encantos. Trago a lembrança de que só os maiores eram capazes de mergulhar naquelas águas partindo da ponte. A distância era grande e eu, a medrosinha da turma, jamais me arriscava. Só os mais fortes e destemidos! O que vejo agora me deprime. Não sei se apenas pela falta de chuvas ou também pelos maus tratos que a modernidade lhe causou, sou leiga nessa área, mas vejo meu Baixão agonizar. Devo confessar minha total ignorância nas questões da geografia, o que me impede de explicar as razões dessa realidade que nos invade; deixo então a cargo de meus ilustres colegas geógrafos a quem dedico o devido respeito.<br><br></div><div>Agora, agravado pelos longos intervalos entre as chuvas, temos um riacho assoreado. Onde estão os mandins, as piabas e as traíras que preenchiam nossa infância? Compremos na feira? Assim como a farinha, o feijão, o aipim, o quiabo, a tapioca? Tudo nos chega com preços exorbitantes. O nosso riacho morre a cada dia. A vegetação ciliar inexiste em seu leito urbano. No campo não é diferente. Temos roças praticamente abandonadas, nos alimentamos mal. O que antes nos era farto agora nos custa muito e nem sabemos que bonde nos atropelou? O bonde do progresso? Talvez. Filhos já não se identificam com a lida dos pais. Onde erramos? Ainda nos juntamos aos nossos para chupar cana e imbu? Assamos milho para filhos e netos? Plantamos lembranças doces para embalar o futuro de nossas descendências? Onde está o amor pela terra, adormeceu? A seca levou? Onde estariam os valores cultivados pelos nossos avós, que tão habilmente conviviam com a seca? Não se passou adiante ou foram ofuscados pela era digital, pelas máquinas modernas, pela alta tecnologia ou ainda pela ganância em produzir riquezas efêmeras que enchem bolsos e esvaziam barrigas? Não soubemos repassar o que aprendemos ou deixamos que a televisão construísse outros valores que usurparam o que antes nos identificavam? Longe de mim ser aquela que não aprecia as facilidades da vida moderna. Penso, porém que não são escolhas mutuamente excludentes. É possível aliar o que temos de melhor com o que nos chega de bom, sem ter de abrir mão do que somos para sermos o que nos é imposto. Antropofagia sertaneja? Sei lá! Se todos nos tornarmos urbanos quem vai cultivar a terra?<br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-13 22:40:47 UTC</pubDate>
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         <title>Conto popular</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <pubDate>2022-08-13 22:48:14 UTC</pubDate>
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         <title>Conto popular narrado por Tio Filintro</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <pubDate>2022-08-13 22:48:55 UTC</pubDate>
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         <title>Narrado por Felipe Pereira</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <pubDate>2022-08-13 22:49:45 UTC</pubDate>
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         <title>Narrado por Ionália Andrade</title>
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         <pubDate>2022-08-13 22:50:43 UTC</pubDate>
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         <title>Crônica </title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Nada novo <br><br>A pracinha. Quem não a conhece bem? No centro dela, o monumento a não se sabe o quê dá um ar de moderno à cidade que pouco muda com o cair das folhas e das flores do ipê rosa ou no surgir das borboletas.<br><br></div><div><br>Nascida há três eleições se não me falha a memória. Certamente um dos poucos lazeres da Cidade dos Arcanjos. Pracinha querida com seu gramado bem cuidado que resiste aos patins das seis às nove, aos ciclistas das oito às dez e aos reggaes de nove às tantas regados a cerveja fartamente oferecida pelo comércio local. Não há preconceito na pracinha? Pensava que não. Que todos poderiam preencher seus vazios naqueles banquinhos ou pelo menos tentar.&nbsp;<br><br></div><div><br>Se tivesse olhos essa praça… Quantas histórias… certamente daria para enfeitar a biblioteca que, por coincidência ou mera semelhança fica logo em frente. Casos de amor, brincadeiras inocentes; outras nem tanto. Suas árvores presenciam cenas curiosas que vão desde a caminhada dos coroas às cinco da madruga aos narguilés de depois das 22. E viva a diversidade!&nbsp;<br><br></div><div>Quem não ama essa pracinha que atire a primeira dor. Sim. Um&nbsp; sentimento que destoa, mas que é real.<br><br></div><div>Foi nessa pracinha que estava eu num belo fim de tarde, quando um grupos de rapazes resolve matar o tédio provocando um carinha de periferia. Parecia não pertencer àquele cenário, o pobre rapaz. Roupas baratas, cabelo desgrenhado, não tão retinto para não ser chamado de "moreno".&nbsp; Pois bem, estavam todos ali, divertindo-se com a simplicidade do menino de mais ou menos 16 anos, que sem querer confusão ou talvez adivinhando o prejuízo da aventura, tenta de toda forma sair da confusão em que, inocentemente, caiu de paraquedas.<br><br>Insatisfeitos com a reação do rapaz, dois deles, vestindo roupas da "loja de Gilda", de cabelin na régua partem para a violência. Primeiro provocam, e, sem sucesso, partem para a baixaria, e então, já visivelmente irritados, investem toda a sua fúria com tapas e chutes e socos deixando o rapaz caído e&nbsp; desacordado sob os olhares indiferentes de toda a pracinha. Ou melhor, sob os aplausos de toda a pracinha, menos o meu é claro que me culpo até hoje por nada ter feito para impedir a cena.</div><div><br>A sirene anuncia a chegada da lei. Graças a Deus, pensei,&nbsp; essa confusão vai ter um fim. Arrotando valentia e procurando culpados, dois homenzarrões de quase dois metros transpiram autoridade. É nesse momento que minha indignação vai a mil. Os dois brigões de quem já falei, caro leitor, simplesmente acusam o caído como o causador único e exclusivo do conflito e ainda aconselham os policiais a recolherem o encrenqueiro para que a paz dessa tão honrada e pacata pracinha seja garantida.<br><br></div><div>Sem questionar, os policiais arrastam o rapaz em direção à viatura e carinhosamente o recolhem aos porões da delegacia sob os olhares triunfantes da turba satisfeita. Taí o que faltava para preencher seus vazios.&nbsp;<br><br></div><div><br><br></div><div><br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-14 12:38:32 UTC</pubDate>
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         <title>O primeiro, a gente não esquece</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Eu tinha cinco anos. Acabara de me mudar para a vila de São Gabriel, município de Irecê, numa rua de terra batida, esburacada, sem iluminação e estranha, muito diferente da realidade que conhecia nos meus primeiros anos de infância. A casa era grande. Por fora, as paredes eram cobertas de pedras de calcário, conhecidas por aqui como pedra branca. Por dentro, era pintada de verde com uma faixa de tinta à óleo marrom servindo como rodapé. Não havia luz elétrica. Um candeeiro a querosene, tentava em vão romper as sombras da noite que me deixavam simplesmente apavorada.&nbsp;<br><br>O motivo da mudança era claro: meus pais se separaram. Eu não sabia o que isso significava, mas sentia que não era bom. Eu os amava, mas o casamento não fazia muito bem para os dois. Viviam brigando e o clima lá em casa estava ficando difícil. Acabava sobrando para nós, os filhos.</div><div><br></div><div>&nbsp; &nbsp; Ainda me lembro do efeito que tal paisagem exerceu sobre mim. Não conseguia acreditar que estava ali, num lugar tão diferente, em companhia de pessoas estranhas, familiares que não conhecia e nunca havia ouvido falar. Tímida e retraída, confesso que tive muito medo de não ser aceita por aquela gente estranha de pele morena e sorriso espontâneo que me olhavam com um misto de pena e estranhamento.&nbsp;</div><div><br>Descobri mais tarde que aqui havia pessoas incríveis! Meu avô era o homem mais maravilhoso do mundo. Assim que o conheci, sabia que ali estava meu porto seguro. Sempre forte, protetor, linha dura. Um olhar era o suficiente para que a mensagem fosse compreendida. Minha avó se encarregava de tudo. Onde eu ia dormir, o que ia comer, como me portar e sobreviver diante dessa nova realidade que se desenhava em minha vida. Descobri nessa super-mulher o espelho de que precisava para crescer forte, resistente como um mandacaru diante das adversidades da vida, que sem baixar a cabeça diante das dificuldades. Conseguia ser uma rocha e ao mesmo tempo uma manteiga derretida que chorava à toa e sabia ensinar os mistérios da vida com seu jeito metafórico de falar.</div><div><br>O quintal era imenso. Dava quase uma tarefa. Tinha uma fileira de pés de banana todas produzindo abundantemente. Era um espetáculo ver o desabrochar do coração da bananeira. Flores branco-amareladas saíam daquela estrutura vermelha encarnada. Dali surgiriam as bananas fininhas que iam tomando forma à medida que o tempo passava. Saboreá-las era incrível. Sempre preferia comê-las quando estavam bem madurinhas, casca amarela com pintinhas pretas, amadurecidas no pé. Brincava o dia inteiro de vendinha. Papéis de balas que juntávamos da venda de Miúdo, um mercadinho perto de casa,&nbsp; eram as notas de menor valor enquanto as de fofão e de pirulito eram as graúdas. Havia pés de capim onde nos escondíamos na brincadeira de esconde-esconde. Ficávamos todos cheios de cicatrizes da folha cortante, e havia ainda os pés de mamona cujas sementes me rendiam alguns trocados para comprar maria-mole, suspiro e geleia na venda de Almerindo que ainda existe até hoje, 42 anos depois.<br><br>Assim que me estabeleci, minha avó começou a me ensinar as primeiras letras. Enquanto lavava roupa numa bacia de alumínio sentada sobre uma grande pedra de amolar faca me ensinava a ler a “Cartilha da Infância Brasileira” como costuma chamar. Tive muita facilidade em aprender, pois essa professora tinha uma técnica muito especial. Separava trinta sementes de milho e me orientava a repetir a leitura do texto enquanto ela ia separando o milho. Trinta sementes, trinta vezes que eu tinha de ler. Assim comecei a descobrir naquelas linhas, de letrinhas miúdas, incríveis histórias que mexiam com a minha imaginação infantil e me levavam para um mundo que até então eu desconhecia.<br><br></div><div>Num ambiente estranho, sem nenhuma orientação de como proceder, costumava ficar quietinha, não falava com ninguém, não perguntava, não questionava. Minhas dúvidas ficavam comigo até que, por mim mesma, conseguia esclarecê-las. Na primeira avaliação que fiz, a professora perguntava quais as frutas que tinham origem de determinadas árvores. Acertei todas, mas quando foi a vez da mangueira, respondi convicta; “água, professora. A mangueira dá água.” Fui motivo de riso de todos os colegas por um mês inteiro. Nunca imaginei que a mangueira sobre a qual a pró falava era um pé de manga. Eu nunca tinha visto um pé de manga na vida. Meu pai as comprava na feira e fim. Além disso, as pessoas daqui se referiam a essa árvore como pé de manga e jamais como mangueira.&nbsp;<br><br>Depois da chacota, acabei me fechando ainda mais. Não tinha coragem nem de pedir para ir “na licença”. Se tinha vontade, me segurava ao máximo que podia, até a hora da saída, só para não ter de pedir pra sair. Um tormento gigante para mim. O que eu não imaginava era que o pior ainda estava por vir.<br><br>Numa manhã de segunda-feira, dispensei meu café da manhã: cuscuz com couro de toucinho. Motivo: eu era e ainda sou fascinada por melancia. É minha fruta favorita. No dia anterior, meu avô havia trazido muitas da roça. Ele mesmo as plantava, cuidava delas com carinho e as colhia.&nbsp; Eram tão vermelhinhas, tão deliciosas, e tantas que não conseguia ficar muito tempo sem me deliciar com a fruta. Antes de ir para a escola chupei muita melancia. Fiquei com a barriga redondinha, redondinha e logo depois fui estudar.&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</div><div>&nbsp; &nbsp; Por volta das oito e meia, comecei a sentir uma vontade louca de ir ao banheiro, digo matinho. Era uma vontade daquelas que não dava pra segurar. Tentar até que tentei, mas não dava. Comecei a me retorcer no tamborete. Como já era um pouco velhinho o pobre assento rangia feito porta de castelo mal assombrado. Esse movimento todo chamou a atenção da professora e da classe toda. Ela me pediu que parasse com aquilo ou iria para o cantinho da disciplina ( ficar de pé durante meia hora de frente para a classe).&nbsp;<br><br>Como parar se a vontade só aumentava? Continuei a me mexer no bendito tamborete. A professora, irritada e sem conhecer o meu drama&nbsp; me mandou para o castigo. Resultado; o riacho desceu incontrolável na direção de meus colegas que se levantavam e riam e gargalhavam e me envergonhavam destruindo todas as esperanças de me manter invisível diante de todos. Fazer o quê? O estrago já estava feito. Chorava e posso dizer que as lagrimas se misturavam com o líquido amarelinho que fluía pela sala afora.<br><br>A professora só então percebeu o motivo daquele meu comportamento e me explicou que eu não devia ter vergonha, que ela estava lá para me ajudar, que era só pedir que ela permitiria que eu saísse. O choro só aumentava diante da compreensão da pro Margarida. Tarde demais, o resultado do maior mico que paguei na minha vida de estudante foi um ano inteirinho de pirraça, apelidinhos e vergonha. Muita vergonha.&nbsp;</div><div><br><br></div><div><br><br></div><div><br><br></div><div><br><br></div><div><br><br><br></div><div><br><br></div><div><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2022-08-14 12:52:50 UTC</pubDate>
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         <title></title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>São Gabriel, 28 de fevereiro de 2023.<br><br>Querida Vânia de dezembro,<br><br>Sei que somos uma só, entretanto sei também que você é minha versão melhorada, moldada pelas experiências inesquecíveis e positivas de 2023. Sei ainda que para a gente se encontre de fato preciso hoje fazer o meu melhor como pessoa e como profissional.<br><br>&nbsp;Assim, essa carta é sobre isso: sobre os compromissos que estou assumindo com você nesse aqui agora.&nbsp;<br><br>Primeiro e mais importante, estou trabalhando nossa autoestima. Muitos livros sobre autoconhecimento preenchem minha estante e minha mente. Sigo alguns bons coaches e excelentes psicólogos no Instagram. Estou escrevendo um diário e dedicando inteiramente a mim mesma as&nbsp; primeiras horas da manhã, tudo para virar essa chave do autoamor e de todos os outros “autos” importantes para sermos mais felizes e incríveis e melhores e completas. Sobre inteligência emocional, outra prioridade desse agora, estou lendo uma obra simplesmente maravilhosa que vai potencializar meu autocontrole, ou seja, vou lidar melhor com minhas raivas, meus medos e minhas nóias. Vai dar certo, eu sei.<br><br>Como profissional, tenho investido também. O curso de escrita criativa tem colocado minha habilidade num outro nível. Comprei também um curso de redação Enem e com ele descobri que realmente estou pronta para começar nosso tão sonhado empreendimento. Dessa forma, vamos ganhar dinheiro e acumular patrimônio fazendo o que mais gostamos: ajudar pessoas interessadas em escrever melhor suas redações. Além disso, planejo e preparo tudo antecipadamente para a rotina nas escolas e dessa maneira tenho me tornado uma professora mais organizada e disciplinada. Como ganho secundário, mais conforto e segurança em minhas práticas de sala de aula.<br><br>Enfim, estou trabalhando para que nosso encontro aconteça logo. Confesso estar ansiosa pelo nosso abraço. Vou estar pronta. Pode apostar!<br><br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Beijos!!<br>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Vânia de Fevereiro. &nbsp;<br><br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2023-03-27 16:25:54 UTC</pubDate>
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         <title>Carta a minha mãe </title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[]]></description>
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         <pubDate>2023-03-27 16:55:17 UTC</pubDate>
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         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>São Gabriel, 27 de abril de 2023.<br><br></div><div>Querido e amado e adorado, Purcino Áslan<br><br></div><div>&nbsp;<br><br></div><div>Sabia que fui a primeira pessoa da família que viu você? Isso mesmo. Quando chegou a esse mundo para colorir nossas vidas, eu estava lá a esperar por você na recepção do hospital. Estava ansiosa para ver pela primeira vez esse rostinho lindo que renova a vida da vovó. Te amo muito, meu neto.&nbsp;<br><br></div><div>Pensei que no coração de uma pessoa não coubesse tanto amor, mas cabe sim. E como cabe. Estive com você em muitos momentos. No seu primeiro banho- como chorou com o mau jeito da enfermeira - quando aprendeu a sorrir e a desempilhar os blocos coloridos, quando em vez de brincar em sua mesinha Montessori, você a virava de ponta cabeça e mordia a perna vermelha.&nbsp;<br><br>Antes dos seis meses, você amava cochilar no colinho da vó. Vovó Rivotril, me chamaram assim pela facilidade em ninar e adormecer meus dois netinhos: Davi e Você, meu Purcinininho. Estive lá contigo em seu primeiro aniversário, você esteve incrível. Sorridente, bem-disposto e feliz. Reveja as fotos para ver o quanto se divertiu junto com as crianças que compareceram a sua festinha! Comeu bolo com as mãos e depois resolveu usar a colherinha. Devorou salgados e tudo o mais. Saía engatinhando a mil por hora para colher com esses dedinhos certeiros as bolinhas de confere que seus convidados derramaram pela casa. Ainda bem que não teve nenhum problema depois. Herdou o estômago saudável do pai, ainda bem.<br><br></div><div>Sou tão feliz e grata pela sua existência!! Por favor, não me esqueça!<br><br></div><div>Talvez passe menos tempo com você a partir de agora. Espero que seja por pouquíssimo tempo. Me perdoa?<br><br></div><div>Quando você aprender a andar, vamos nos divertir mais ainda juntos. Vou te ensinar a andar de bicicleta e vamos passear na pracinha para você praticar e ficar tão bom nisso quanto seu papai. Quero estar sempre por perto para te encher de carinho, te ver crescer e te dar o melhor de mim, sempre.&nbsp;<br><br></div><div>Não esqueça a vovó que ela jamais vai deixar de amar você, meu amorzinho de vó.<br><br></div><div>&nbsp;Abraços<br><br></div><div>&nbsp;Vovó<br><br></div>]]></description>
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         <pubDate>2023-04-27 18:45:11 UTC</pubDate>
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         <title>O primeiro amigo secreto</title>
         <author>vaniapereira2</author>
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         <description><![CDATA[<div>Década de 70. Escolinha da professora Neide. Pública? Naquela pequena vila não chegavam muitos benefícios da Carta Magna. Apenas uma meia dúzia de instituições privadas, escolas abertas clandestinamente por mulheres fortes e corajosas que construíam seu futuro ensinando as primeiras letras num espaço improvisado, mas aconchegante.<br><br>&nbsp;Éramos cerca de 20. Os privilegiados da época, uma vez que a maioria das famílias vivia exclusivamente do cultivo do solo que nem sempre recebia a Divina Misericórdia – expressão carinhosa para designar a chuva que irrigava a vida daquela gente trabalhadora.<br><br></div><div>A avó de Elísia - uma senhorinha bem à frente de seu tempo - tinha lá suas alternativas para a falta de chuva no sertão gabrielense. Criava uma dúzia de “porquinhos” destinados única e exclusivamente para a educação dos netos que recebera da vida logo após ter finalmente criado os seus. Elísia e Marcos, herança do mais velho, que saiu de casa muito cedo, com os trapos em uma sacola e ganhou o mundo até ser surpreendido pelo destino e ter que embarcar e entregar suas crias à pessoa em quem mais confiava: sua mãe, é claro.<br><br></div><div>Voltemos ao tema desse texto, o tal amigo secreto. Elísia era leiga nesses assuntos e, mesmo sem saber ao certo do que se tratava, incluiu seu nome no rol que a professora organizava para os eventos de encerramento do primeiro semestre, antes das férias de julho.&nbsp;<br><br>Chegou em casa empolgada, mas foi fortemente repreendida pelos tios, que, ignorando sua inocência de menina, alegavam o fato de ela estar ali de favor, de não estar em sua casa ou no âmbito de sua família de direito, de ser um fardo para todos e que ainda por cima se dava ao luxo de se envolver numa brincadeira que traria além dos aborrecimentos presentes, um ônus a mais para sua pobre avó. Entretanto, não tinha mais jeito. Seu nome já estava na lista.<br><br></div><div>Para não passar vergonha diante de Neide, sobrinha de seu valoroso esposo, Dona Joaquina comprou um sabonete e o embalou caprichosamente num papel de embrulho de pão. Esse seria o presente de seu colega Orfeu. Vale comentar que naquele contexto de água salobra, usar sabonete era um luxo. Feliz da vida, apesar da reprimenda, a menina se dirige à escola sentindo-se por uns breves momentos devidamente incluída em alguma coisa. Ainda embalada pela sensação, era sua vez de dizer “Meu amigo secreto que não é mais secreto”. Orfeu rasga o papel, mostra o presente à turma que dá início às vaias motivadas únicamente pela simplicidade do presente oferecido.&nbsp;<br><br></div><div>O que Elísia não sabia ainda? Que isso era apenas o começo de uma série de decepções, até chegar sua vez de ser presenteada. Abre ansiosa a embalagem também improvisada e se depara com uma pequena ave de gesso pintada a mão. Seus colegas o identificam: um “cocá” – galinha d’angola, para ser mais específico. Se o termo ainda não havia sido cunhado, a prática de bullying já era real. Cocá passou a ser o seu apelido carinhoso gritado pelos colegas de classe dentro e fora da escola e as humilhações diárias se estenderam aos cinco meses que ainda restavam para que aquele fatídico ano letivo finalmente terminar.&nbsp;</div>]]></description>
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         <pubDate>2023-04-30 12:42:50 UTC</pubDate>
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